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Full text of "Da Asia de João de Barros e de Diogo de Couto"

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DA ÁSIA 

D E 

DIOGO DE COUTO 

DOS FEITOS , QUE OS PoRTUGUEZES FIZERAM 

NA CONQUISTA , E DESCUBRIMENTO 

DAS TERRAS, E MARES DO ORIENTE. 

DÉCADA DECIMA. 

PARTE PRIMEIRA. 




LISBOA 

Na Regia Officina Typografica. 
anno m.dcclxxxvíii. 

Çom licença da Real Meza da Commljsão Geral fobre o 
Exame, c Cenfura dos Livros, e Privilegio Real. 




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n 

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ÍNDICE 

DOS CAPÍTULOS , QUE SE CONTEM 
NESTA PARTE PRIMEIRA 

DA DÉCADA X. 



LIVRO I. 

CAP. I. De como por morte do Vifo- 
Rey D. Luiz de Ataíde fuccedeo 
na Governança da índia Fernão 
Telles : e das coufas em que provêo primei- 
ro que entrajfe no inverno. Pag. I. 

CAP. II. De como o Idalxd foi morto por 
hum pagem , e lhe fuccedeo no Rcyno feu 
fobrinho Abralemo : e da liga que o Me- 
lique , e Cutubixa fizeram contra elle : e 
dos Embaixadores que mandaram ao Go- 
vernador Fernão Telles. 8. 

CAP. III. Dos navios que o Governador 
mandou d Cofia do Mafulipatao efperar 
humas ndos de inimigos que "lá eftavam : 
e da Armada que ordenava pêra o Ma- 
lavar : e de como chegou huma fufta de 
Ormuz com huns papeis , que EIRey D. 
Filippe mandava , de como ficava jurado 
por Rey de Portugal : e do que o Gover- 
nador mais fez. 14. 
* CAP. 



iv Índice 

CAP. IV. De como EIRey D. Filippe foi 
jurado por Rey na Cidade de Goa. 22. 

CAP. V. Em que fe contém hum Alvará 
dos Governadores ^ por que mandão , que 
ainda que as Patentes , Alvarás 5 e Pro- 
visões dos Cargos , e Ofícios que derem , 
não vão aJJlgnad,os por mais que por três 
delles , valbão tão inteiramente , como fe 
o foram por todos finco : e Jhuma Carta 
de EIRey nojfo Senhor , em/ que dá poder 
ao Conde de Atouguia D. Luiz de Ataí- 
de j Vifo-Rcy da índia 5 e o faz ftu Pro- 
curador , e de feu filho o Serenijfimo Prín- 
cipe D. Diogo 5 pêra em nome ele ambos 
poder receber 5 e acceitar omenagem y e 
vajjallagem dos Capitães , Vereadores , 
Fidalgos , Soldados , e mais Efiados que 
houver na índia. 27, 

CAP. VI. Em que fe contém a Sentença 
que os Governadores deram naquella de- 
claração , a quem pertence a herança 
dos Rey nos de Portugal. 32. 

CAP. VIL Do grande património que EI- 
Rey Filippe herdou em todo efie Oriente , 
com todos os Reynes de Portugal : e do 
efiado em que nefie tempo eftavam as cou- 
fias da índia. 42. 

CAP. VIII. De como o Governador Fernão 
Telles defpedio Mattheus Pires com Pro- 
curação bafiante pêra todas as Fortale- 
zas 



dos Capítulos, y 

%as do Norte , pêra jurar por todas El- 
Rey D. Filippe: e do avifo que mandou 
a EIRey por terra , que levou Jeronymo 
de Lima : e de como Matinas de Albu- 
querque foi apôs huns Faraós , que to- 
mou em Carapatao. 54. 

CAP. IX. De como EIRey D. Filippe ele- 
geo D. Francifco Mafcarenhas por Vifo- 
Rey da índia : e do contrato que fez das 
?iáos da Carreira : e do que aconteceo a 
Francifco Mafcarenhas na viagem até 
chegar a Goa. 61. 

CAP. X, Do que 'aconteceo na jornada a 
Gonfalo Vaz de Camões , e António Pe- 
reira Pinto : e da grande briga que tive- 
ram com huma não do Rey de Pegú , e 
com huma Armada fu a : e de como mor- 
reo aquelle Rey , e lhe fuccedeo feu filho y 
e foltou os Portugueses que ejiavam ca- 
tivos , e de outras coufas. 74. 

CAP. XI. Do que nejle tempo aconteceo nos 
eflr eitos de Meca , e da Per fia : e de co- 
mo três Galés de Rumes foram d noffa 
Povoação de Mafcate ? e a affoldram y 
roubaram^ e deflruíram : e d& que fize- 
ram os Portugueses que nella ejiavam» 

84. 

CAP. XII. Do que mais fizeram os Turcos 
até fe recolherem , e do que aconteceo aos 
moradores de Mafcate : e das novas que 
* ii fo~ 



Vi Índice 

foram a Ormuz : e de corno D. Gonfalo 
de Menezes mandou huma Armada em 
bufe a dos Turcos. 93. 

CAP. XIIL De como ejla Armada foi d 
cojla dos Nautaques : e da dejlruição que 
fez por toda ella : e de como em Ormuz 
juraram por Rey a EIRey D. Filippe : 
e da viagem que fizeram por terra as 
pejfoas que mandaram , ajjim o Governa- 
dor Fernão Telles , como o Conde D. Fran- 
cifco Mafcarenhas Vifo-Rey. 99. 

CAP. XIV. Do que aconteceo ao Governa- 
dor Fernão Telles até fe embarcar pêra 
o Rey no : e de como fe fechou a cafa eyn 
que ejlam os retratos dos Vifo-Reys com 
o feu : e do que f obre ijfofe nota. 106. 

CAP. XV. De todos os Vifo-Rey s , e Go- 
vernadores , que governaram a índia , e 
que eftam nefte cafo , com o tempo que ca- 
da hum governou. 110. 

o 

CAP. XVI. De todas as Armadas que os 
Reys de Portugal mandaram d índia, 
até que EIRey D. Filippe fuccedeo nef- 
tes. 116. 



c 



LIVRO II. 

AP. I. De como ando do Rey no chegou 
a Malaca , e D. João da Gama ju- 
rou a EIRey D. Filippe por Rey : e co- 
mo 



dos Capítulos, yii 

mo D. Francifco Mafcarenhas mandou 
for Capitão Mor de MaJavar a Ma- 
thias de Albuquerque : e da Armada dos 
Aventureiros que o Vifo-Rey ordenou , de 
que fez Capitão Mor D. Simão da Sil- 
veira ; e por falecer antes de fe embar- 
car 5 foi eleito emfeu lugar Diogo Lopes 
Coutinho. 149. 

CAP. II. Do que aconteceo d Armada de 
Mathias de Albuquerque no Malavar. 

157. 
CAP, III. Do que mais aconteceo ejle ve^ 

rão a Mathias de Albuquerque : e de co- 
mo deflruio as Rainhas da Serra , e de 
Olaia. 162. 

CAP. IV. Do que aconteceo d Armada dos 
Aventureiros em Surrate com huma não 
de Caliche Mahamed: e de ermo os Mo- 
gores f altearam alguns foldaãos noffos : 
e de como Diogo Lopes Coutinho lhe quei- 
mou a Aldeia dos Abexins y e de outras 
coufas. 169. 

CAP. V. De como o Conde D. Francifco 
Mafcarenhas mandou feu fobrinho D. 
Jeronymo com huma Armada ao Ef r ei- 
to : e do avifo que mandou d Cojla de 
Melinde , e Moçambique por haver novas 
de Galés : e do que aconteceo d Armada 
dos Aventureiros em Surrate : e de como 
os Mogores foram fobre Damão. 1 80. 

CAP, 



vni Índice 

CAP. VI. De como os Mogores entraram 
pelas terras de Damão : do damno que 
fizeram : e do que fez o Conde Vifo-Rey 
D. Francifco Mafcarenhas em lhe dando 
as novas do cerco. 187. 

CAP. VIL De como D. Gileanes Mafcare- 
nhas chegou a Damão : e do que os Mo- 
gores fizeram pelas Tanadarias : e da 
vifia que deram d Cidade : e da efcara- 
muça que os nojfos tiveram com elles. 

193. 

CAP. VIII. Do que mais aconteceo em Da- 
mão : e das grandes dijf crenças que hou- 
ve entre o Capitão da Cidade , e dos A- 
ventureiros : e de como os Mogores tra- 
tavam de pazes : e de como o Fifo-Rey 
mandou Gutierre de Monroy a invernar 
a Dio , e do que lhe fuccedeo. 2CO. 

CAP, IX, Das coufas que o Vifo-Rey pro- 
veo , e dos Capitães que dejpachou pêra 
fora : e do que aconteceo o refio do verão 
a Mathias de Albuquerque até fe reco- 
lher. 209. 

CAP. X. Do que aconteceo a Fernão Boto 
Machado na viagem até Moçambique , e 
a D. Jeronymo Mafcarenhas no Efirei- 
to de Meca até chegar a Ormuz : e de 
como foi contra os Nequilins , e do que 
com elles aconteceo. 11 4. 

CAP* XI. De como os Capitães de EIRey 

de 



dos Capítulos. ix 

de Lara tomaram a Fortaleza de Xa- 
mel , e outras que o Rey de Ormuz tinha 
no Magoftão. 219. 

CAP. XII. De como os noJJ os foram cami- 
nhando pêra Xamel : e do que lhes acou- 
te ceo até chegarem lá : e do ji tio daquel- 
la terra , e Fortaleza. 22^. 

CAP. XIII. De como fe paffou a artilheria 
d outra banda com muito rifco : e de co- 
mo começaram a bater o Xarabando : e 
de como o ganharam por ajfalto. 233. 

CAP. XIV. De como D. Francifco foi avi— 
fado que o filho de EIRey de Lara vinha 
foc correr os feus : e de como os nojfos fe 
fortificaram : e do ardil que os Amadizes 
ufáram com os Lar is , porque fe entre- 
garam a partido: e da grande crueza que 
os Amadizes com elles ufáram. 241. 

CAP. XV. Das coifas que fuccedêram em 
Damão , acabante o cerco : e de como os 
nojfos foram contra o Rey de Sarzeta > 
e lhe queimaram a fua Cidade 5 e deftr ui- 
vam fuás terras. 248. 

LIVRO III. 

CAP. I. De como o Turco mandou pro- 
ver a Fortaleza que tinha nos Ef- 
tados da Perfia : e de como Oxá fe con- 
federou com Semechombel Gorgiano con- 
tra 



x Índice 

tra os Turcos : e da batalha que com el- 
les teve , em que os desbaratou. 260. 

CAP. II, De como Roque de Mello chegou 
a Malaca : e de como huma grande Ar- 
mada do Achem foi fobre aquella Forta- 
leza : e da bateria que deo ás nãos que 
efíavam no Porto. 271.. 

CAP. III. De como os Turcos 5 que hiam na 
Armada do Achem , ordenaram humas 
b alfas de fogo pêra queimarem as nãos : 
e de como Nuno Monteiro , que andava 
no ejlreito em huma Gale aça > foi foccor- 
rer a Malaca : e da afpera batalha que 
teve com a Armada do Achem : e de co- 
mo por defajire tomou fogo , efe abra- 
zou , e queimou. 277. 

CAP. IV. De como Fernão de Miranda foi 
a Surrate efperar as nãos de Meca , e 
tomou huma Cidade de Balala : e do gran- 
de motim que houve em toda a Armada 
contra o Capitão Mor. 287. 

CAP. V. De huma náo do Hecbar , que foi 

. re preza da em Goga , a que acudi o Fer- 
não de Miranda : e de como o Vifo-Rey 
a mandou largar : e do cajiigo que deo 
Fernão de Miranda aos moradores do 
Caflelete. 300. 

CAP. VI. Das coufas que nejie anno acon- 
teceram em Maluco : de como o Governa- 
dor das Manilhas efcreveo a Diogo de 

A%am^ 



dos Capítulos. xi 

Azambuja , Capitão de Tiâore : e de co- 
mo ejiava jurado em Portugal EIRey D. 
Filippe , e de outras coufas. 307. 

CAP. VIL De como Diogo de Azambuja 
mandou pedir foc corro ao Governador de 
Manilha , por lhe faltar o de Malaca : e 
de como lho mandou por D. João Ron- 
quilho : e das coufas que fuccedêram 
até chegar D. Álvaro de Cajlro > que fa- 
le ceo. 313. 

CAP. VIII. Das Armadas que o Vifo-Rey 
D. Francifco Mafcarenhas ordenou : e 
das nãos que efte anno de 582. partiram 
do Reyno : e do que lhe fuccedeo na via- 
gem. 321. 

CAP. IX. Das coufas que o Vifo-Rey mais 
proveo : e de como Mathias de Albuquer- 
que foi ao Malavar , e Guterre de Mon- 
roi a Qananor : e de como D. Miguel da 
Gama fe foi pêra o Reyno na fua não 
Relíquias. 328. 

CAP. X. Do que aconteceo a Fernão de 
Miranda na Cofia do Norte : e de como 
D. Jeronymo Mafcarenhas chegou a 
Goa, e o Conde feu Tio o tornou a man- 
dar embarcar pêra irem caftigar o Col- 

k- m 335'- 

CAP. XI. De como o Capitão de Baçaim 

com D. Jeronymo , e Fernão de Miran- 
da foram contra o Cvlle ; e do que lhe a- 

con- 



xii Índice 

conteceo até chegarem á fua Cidade, e 
a queimaram, e dejiruirão. 342. 

CAP. XII. De como os nojfos fe foram re- 
colhendo : e dos recontros que tiveram com 
os inimigos : e dos cafos que nelle fucce- 
dêram. 348. 

CAP. XIII. Da defajlrada perdição de D. 
joao da Gama , vindo de Malaca : e de 
como fe falvou no batel : e do que paffou 
até chegar a Cochim. 355. 

CAP. XIV. De outra nâo que fe perdeo 
vindo da China junto de for : e dos re- 
cados que paj saram entre o Capitão de 
Malaca í e aquelle Rey fobre a fazenda > 
que elle roubou delia. 362. 

CAP. XV. Do que aconteceo a D. Gileanes 
Mafcarenhas no Malavar todo o refto do 
verão : e do que aconteceo a André Fur- 
tado de Mendoça no rio de Cunhale com 
humas Galeotas de Mouros. 371. 

CAP. XVI. Da antiguidade da Cidade de 
Barcelor na Cofta Canará : e de como os 
moradores delia trataram de tomtir a 
nojfa Fortaleza , e por traição , o que 
não houve ejfeito por chegar a ella D. 
Gileanes Mafcarenhas : e de como elle 
âeftruio as Aldeias de Ajfelona , e Cucu- 
li nas terras de Salfete. 379, 

CAP. XVII. Dos tratos que mais tiveram 
os Chatins de Barcelor pêra lhes entre- 
ga- 



dos Capítulos. xiii 

garem a Fortaleza , os quaes foram def- 

cubcrtos : e de como o Vifo-Rey mandou 

André Furtado a foccorrelia : e das cou- 

fas em que mais proveo o Vifo-Rey. 3 8^. 

LIVRO IV. 

CAP. L Das coufas que efe anno de 
583. em que andamos fuc cederam em 
Per/ia : e de como Oxd foi contra feu fi- 
lho Abax Mirza ? que eftava no Cohora- 
cone por induzimento de Mirza Salmas 
Georgiano. 392. 

CAP. II. De como fabendo o Turco da ida 
do Xd ao Cohoraçone , mandou profeguir 
na empreza da Perfia : e das coufas que 
nella fuccedêram. 402. 

CAP. III. De como os moradores das Al- 
deias de Cuculí , e Salfete mataram o 
Padre Rodolfo Aquaviva , e outros qua- 
tro Companheiros ., e a razão porque. 410. 

CAP. IV. Do que mais aconteceo em Bar- 
celor : e da guerra que André Furtado 
fez aos Chatins : e dos navios que o Con- 
de em Agofto defpedio pêra o Malavar : 
e de como D. Jeronymo Mafcarenhas par- 
tio pêra Malaca com huma Armada. 

CAP. V. Da Armada que ejie anno de 58$. 
par tio do Reyno , na qu&l EIRey proveo 



xiv Índice 

o Arcebifpaâo da índia : e do novo con- 
trato que fe fez das nãos com Manoel 
Caldeira : e de como D. Gileanes Mafca- 
renhas foi por Capitão Mor ao Mala- 
bar : e do que aconteceo a André Furta- 
do até elle chegar. 422. 

CAP. VI. De como Soltao Almodafar Rey 
de Cambaya , que o Mogor trazia pre- 
zo , fugio , e tornou a conquiflar aquelle 
Reyno : e de como o Conde D. Francifco 
mandou Fernão de Miranda com huma 
Armada á enfeada de Cambaya , e do que 
lhe fuccedeo. 428. 

CAP. VIL Das alterações que houve no 
Reyno de Idalxd : e de como alguns Ca- 
pitães tratárayn de metter Cofucham de 
pojfe daquelle Reyno : e do que fobre {fio 
fez, o Conde D. Francifco Mafcarenhas : 
e de como partio pêra o Norte : e do que 
fuccedeo a Fernão de Miranda. 433. 

CAP. VIII. Do que fez o Mogor , tanto 
que foube das coufas de Cambaya : e 
de como huma não fua , que vinha da ín- 
dia ? foi ter a Goga : e de como Baltha- 
zar de Siqueira partio de Dio com al- 
guns navios pêra a reprezar , e do que 
pajfou. 441. 

GAP. IX. De como Mizarchão chegou a 
Cambaya : e dos recontros que teve com 
a gente de EIRey até chegar o Heçbar : 



dos Capítulos. xv 

e de como EIRey Amodafar lhe largou ô 
Re%no , e fe reco lhe o : e do que fez o Con~ 
de D. Francifco no Norte : e de como os 
Malavares mataram D. João de C afiro : 
e da morte de D. Gonfalo de Menezes. 

448. 

CAP. X. Das ceufas que aconteceram em 
Goa ? ejlando o Vifo-Rey no Norte : e de 
como Cufochão foi levado por engano ao 
Balagate , onde lhe tiraram os olhos : e 
do que fuccedeo ao Vifo-Key até chegar 
a Goa. 454. 

CAP. XI. De como, Pedro Lopes de Soufa 
trouxe a Goa Cid Ali , e Bebi Acild : e 
do que paffáram em Goa : e do que acon- 
teceo a D. Gileanes Mafcarenhas no Ma- 
lavar : e das pazes que fez com o Como- 
rim. 460. 

CAP. XII. Do que fuccedeo a D. Jerony- 
mo Mafcarenhas em toda a viagem até 
fe tornar pêra a Índia : e do que lhe a- 
conteceo em Ceilão : e dos affaltos que 
João Corrêa de Brito mandou dar em 
terras do Rajú. 466. 

CAP. XIII. De como EIRey de Cochim de- 
Jijlio do direito que tinha na Alfandega , 
e o trafpajfou a EIRey de Portugal : e 
dos alvoroços que houve naquella Cidade 
febre efie negocio, 472. 

LI- 



xvi Índice 

livro v. 

CAP. L Das coufas que fuccedêram em 
Cambaya : e de como o Mogor tornou 
a fenhorear aquelle Reyno. 48 t. 

CAP. II. De como o Turco mandou Ferat 
Baxd a prover os Fortes que tinha jws 
EJiados da Per/la : e da batalha que Si- 
mão Bel deo a Refuan Baxd , em que o 
desbaratou. 486. 

CAP. III. De coyno Francifco Gale foi por 
ordem de EIRey defcubrir a Cofia da no- 
ra Hejpanha de 40. gr dos pêra Jima : e 
da derrota que levou defde o porto de 
Acapulco até Japão , e dahi até tornar 
ao mefimo porto. 493. 

CAP. IV. De como Fernão Boto Machade 
chegou a Maluco , e de fua morte : e co- 
mo Diogo de Azambuja tornara a ficar 
naquella Fortaleza de Maluco : e da mor- 
te de EIRey Babu de Temate : e das dif- 
f crenças que houve fobre a herança da- 
quelle Reyno. ^oy. 

CAP. V. De como o Conde D. Francifco 
Mafcarenhas mandou matar os culpados 
na morte dos Padres da Companhia , que 
mataram em Cucult : e da manha que Gq~ 
mes Eannes de Figueiredo Capitão de 
Rachol teve pêra os haver as mãos. 509» 

CA- 



dos Capítulos. xvii 

CAP. VI. Da Embaixada que o Vifo-Rey 
mandou ao Oxd pelo Padre Fr. Simão de 
Moraes da Ordem de Santo Agoflinho : e 
da occafião que houve pêra ijjo : e do que 
lhe acontecee na jornada. 514. 

CAP. VIL De como D. Gileanes Mafcare- 
nhas foi ao Malavar : e de como entrou 
o rio de Sanguicer pêra cajiigar aquelle 
Naique : e do ãefajíre por que foi morto. 
520. 

CAP. VIII. Do que mais aconteceo a ejles 
navios , e lhe fuccedeo , e de como chega- 
ram á Barra de Goa as náos Caranja , 
e Boa-Viagem , que tinham partido do 
Reyno , em companhia de D. Duarte de 
Menezes , que vinha por Vifo-Rey da ín- 
dia. 5^0. 

CAP. IX. Das Armadas que o Conde D. 
Francifco mandou pêra fora : huma de 
Coutocouloes pêra o Norte , de que foi 
por Capitão Mor Pedro Homem Perei- 
ra ; e outra pêra o Malavar , em que foi 
D. Jeronymo Mafcarenhas , e do que lhe 
fuccedeo : e das novas que chegaram do 
Vifo-Rey D. Duarte de Menezes fer em 
Co chim. 5-34. 

CAP. X. De como fe perdeo o Galeão que 
hia pêra Ceilão ? e a gente , e dinheiro fe 
falvQu y e outras cwfas. 5 39. 

DE- 



Pag.r 

^**** ****************$) 



************Jj) 



(ÍJ * * * * * 



DÉCADA DECIMA 

Da Hiítoria da índia. 

LIVRO l 



CAPITULO I. 

De como por morte do Vijo-Rey D. Luiz* 

de Ataíde fuccedeo na Governança da 

Índia Fernão 'Telles : e das coufas 

em que provêo primeiro que en^ 

traffe no inverno. 



Alecido g Vifo-Rey D, Luiz 

de Ataíde y como no fim da 

nona Década fica dito > foi 

aberto feu Teítemento > em 

que fe mandava enterrar na 

Igreja dos Reys Magos > na cova em que 

eftavam os oílos de Teu Irmão D. João de 

Ataíde, Efta morte doVifo-Rey parece que 

Couto. Tom. VI. P.I. A ' ef- 




i A S I A de Diogo de Co\íro 

eftava já por elle profetizada havia menos 
de hum anno ; porque falecendo António 
Botelho feu Primo com Irmão , mandando- 
fe enterrar naquella cova , fazendo-lho a 
faber, refpondeo que a tinha guardado pêra 
Íí ; porque muitas vezes por hum certo 
juizo Divino vem a acontecer o que hum 
homem facilmente diz , fem cuidar que o 
pode vir a fer. Foi o corpo do Vifo-Rey 
veftido no habito de S. Francifco , e por 
lima o da Cavallaria de noífo Senhor Jefu 
Chriíto , e acompanhado do Cabido , Or- 
dens , Irmandade da Mifericordia , e de 
todos os Fidalgos , Cavalleiros , e Officiaes 
da Fazenda, ejuítiça, efoi levado á Igreja 
dos Reys Magos, em cuja Capella foi de- 
pofitado. E logo o Bifpo de Malaca D. 
João Ribeiro Gayo , que fervia de Preíi- 
dente da Relação por ordem do Vifo-Rey y 
em cuja mão eítavam as fuccefsoes da Go- 
vernança da índia 5 poílo em fima dos de- 
gráos do Altar ? e o Secretario Manoel Bo- 
telho Cabral , tirou da manga hum maço 
das fuccefsoes , que o anno atrás paífado 
tinham mandado os Governadores , e De- 
fenfores do Reyno, com huma Iníirucção, 
em que mandavam > que fe não ufaífe das 
que tinha mandado o Cardeal Rey por 
refpeitos que pêra iffo tiveram ; e aberta 
o maço y achárão-lhe nelle íinco Provisões 

com 



Década X. Cap* I. 3 

com títulos de i. a 2. a 3.* 4.* ey. a ; e to- 
mando a primeira , a entregou ao Secre- 
tario , que a amoítrou no ar ao povo, por- 
que viflem que eftava cerrada cem o fello 
das Armas Reaes , que foi examinada pelo 
Capitão da Cidade , e pelo Ouvidor Geral, 
e a acharam inteira , limpa , e fem vicio , 
nem fufpeita de fer aberta, nem falíificada ; 
e vifto bem tudo , a tomaram ao Secreta- 
rio , que em alta voz leo o fobfcrito de 
fora, que affim dizia, << Pelos Governado-* 
» res, e Defenfores doReyno, e Senhorios 
» de Portugal , efta primeira íuccefsão da 
» Governança da índia feita á 26. deMar- 
» ço de 1580. fe abrirá, fendo cafo , que 
» Deos não permitta , que faleça D. Luiz 
» de Ataíde , Conde de Átouguia , Vifo- 
» Rey da índia » e aíGgnados ao pé todos 
os finco Governadores. Abrindo-fe a fuc- 
cefsão , a foi o Secretario lendo em alta 
voz , cujo theor era o ordinário neítes Ef- 
tados , e nella fe achou Fernão Telles. E 
dizem que Ruy Pires de Távora, que efta- 
va nos degráos por detrás do Secretario , 
pondo os olhos na Provisão , por mui- 
to que o Secretario trabalhou pela encu- 
brir com a borda debaixo que virou fobre 
ella , vio nomeado Fernão Telles , de quem 
era muito amigo , e fahindo-fe de alli , en- 
trou em huma cella , onde elle eftava re- 
A ii co- 



4 A S I A de Diogo de Couto 

colhido , com D. Pedro de Menezes , que 
muitos haviam que fuecederia naquelle lu- 
gar ; e o Conde D. Luiz affim o dava 
a entender , porque nunca em quanto fe 
achou mal o quiz defpachar pêra ir entrar 
na Capitania de Dio. Chegado Ruy Pires 
a Fernão Telles , o levou nos braços > dan- 
do-lhe os parabéns , que elle recebeo fem 
alteração alguma. Apôs elle logo chegou 
o tropel dos Fidalgos , de quem com gran- 
de alvoroço foi levado nos ares , porque 
por fuás partes , e qualidades era muito 
amado 5 e bemquifto de todos. O Bifpo, 
e o Secretario , depois de lida a Provisão , 
foram a elle 5 e lha notificaram -> e elle a 
acceitou y e fe foi pêra a Capelía maior, 
onde eílava o corpo do Conde D. Luiz; 
c o Capitão D. Triítão de Menezes , aífen- 
tado em huma cadeira , e o Governador 
poílo de joelhos diante delle, lhe deo em 
luas mãos em nome de EIRey a omena- 
gem do Eítado da índia pela forma acos- 
tumada nelle. 

Acabado ifto > o Licenciado André Fer- 
nandes y que fervia de Chanceller do Eíta- 
do , lhe deo juramento fobre hum Miífal 
de cumprir com as obrigações daquelle 
cargo pela ordem acoítumada , que o Secre- 
tario lhe hia lendo ; e acabado efte auto , 
que foi aos 10. dias do mez de Março 

de 



Década X. Cap. I." Ç 

de i^i. enterrado o corpo do Conde , 
recolheo-fe o Governador pêra dentro , 
com bem diíFerente fentimento dos paren- 
tes 5 •amigos, e criados de hum 3 e outro, 
porque huns choravam a perda do Vifo- 
Rey , outros feílejavam a nova fuccefsão 
do Governador; e aífim quaíi que eftavam 
repartidos, todos os que prefentes eftavam, 
neftes dous aítos de triíleza , e alegria, 
coufa que geralmente acontece em todas 
as do mundo , em que ha tanta differença , 
que as mefmas que dam prazer a hum , o 
fazem perder a outros ; porque as mais 
altas , e maiores felicidades da terra não 
fuccedem fenao por outras maiores perdas, 
e adveríidades alheias. 

Recolhido o Governador , pedírao-lhe 
os Vereadores de mercê que fe detiveífe 
alguns dias , em quanto lhe preparavam 
feu recebimento ; e porque o verão fe hia 
acabando , e tinha muitas coufas em que 
òrover, lhe concedeo fó três , em que def- 
pachou muitos negócios , e deo o cargo 
de Chanceller ao Licenciado Francifco de 
Frias , efcufando o Bifpo de Malaca do 
trabalho da Relação , pedindo-lhe fe em- 
barcaífe pêra a fua Prelazia , que havia 
dias eftava fem elle , como elle logo fez. 
O Governador foi efcrevendo pêra Mala- 
ca , e Maluco ; mandando dar prefla ao 

Ga- 



6 À S I A de Diogo de Couto 

Galeão , que havia de levar os provimentos 
pêra eíta Fortaleza , de que era Capitão 
Fernão Ortis de Távora. Paliados os três 
dias, partio o Governador dos Reys* Ma- 
gos em huma fermoía Galé, acompanhado 
de muitos navios , outros embandeirados , 
e enramados , e cheios de muitos inítru- 
mentos de prazer , e alegria ; e aíTun foi 
entrando pelo rio affima com grandes fal- 
vas de artilheria , aííim do mar, como da 
terra , e defembarcou no cães da Fortale- 
za, que eítava com muitos arcos , e ramos > 
e com tanto çoncurfo de gente que o 
hiam ver , que não cabiam na porta da 
Cidade , e o efperáram os Vereadores , e 
em nome da Cidade fe lhe fez huma boa 
ordenada falia , em que lhe davam os pa- 
rabéns de fua fuccefsao ; e apôs ella lhe 
deo o Vereador mais velho o juramento 
de guardar feus foros, privilégios, e liber- 
dades; e tomando-o debaixo do Pallio, foi 
levado á Sé acompanhado do Cabido , que 
O efperou da porta da Cidade pêra den- 
tro ; e depois de dar graças a Deos noflb 
Senhor , fe recolheo pêra feus apofentosj 
e a primeira coufa que fez foi defpachar 
D. Pedro de Menezes pêra a Capitania de 
Dio, de que era provido, e lhe deo huma 
Galé pêra levar fua mulher , porque era 
cafado com D. Luiza CQUtinha , filha de 



Década X. Cap. I. j 

Manoel Coutinho, hum Fidalgo honrado, 
<juc morreo indo pêra Portugal a requerer, 
e lhe deo muito liberal defpacho , por fer 
hum Fidalgo velho na índia , e muitos 
ferviços , e merecimentos , e muito refpei- 
tado de todos osVifo-Reys por fua autho- 
ridade , faber , e confelho. 

Efte Fidalgo partio já em Abril; e che- 
gando a Chaul, por achar ameaços de in- 
verno , e não querer arriícar a Galé no gol- 
fo de Dio , a tornou a mandar pêra Goa , 
e fe mudou a dous , ou três navios ligei- 
ros , em que paffou áquella Fortaleza. O 
Governador deo também grande aviamento 
a outras coufas , e mandou embarcar pêra 
Maluco muitas roupas, dinheiro, muni- 
ções , é outros provimentos que o Conde 
D. Luiz tinha já pêra Japão , de que era 
Capitão D. João de Almeida , irmão do 
Contador Mor , que a comprou á Cidade 
de Malaca , por lhe ter EIRey feito mercê 
delia pêra fua fortificação , que quiz que 
precedeíTe a todas por fer pêra bem com- 
mum , e defensão daquella Cidade ; e aííim 
efereveo logo o Governador em fueceden- 
do a todas as Fortalezas Norte , e Sul , 
fazendo-lhes a faber de fua fuccefsão , e 
defpedio Lourenço Dias de Moraes por 
Veador da Fazenda pêra as Fortalezas do 
Norte ; e com iíto fe recolheram as Arma- 
das 



8 A S I A de Diogo de Couto 

das , que andavam fora , e o Governador fez 
mercês aos Capitães , e foldados delia , 
com o que fe cerrou o inverno. 

CAPITULO II. 

De como o Idalxd foi morto por hum Pa-* 
gem j e lhe fuecedeo no Reyno feu fobri- 
nho Abralemo : e da liga que o Meli- 
que , e Cutubixa fizeram contra elle : 
e dos Embaixadores que mandaram ao 
Governador Fernão Telles. 

POrfeguirmos a ordem que levamos def- 
de o principio das noíías Décadas , que 
contámos as coufas alheias no inverno 5 em 
que não ha que fazer com as noíías , guar- 
dámos eítas pêra eíle lugar , porque fuece- 
dêram pouco antes que faleceo o Conde 
D. Luiz de Ataíde , porque foi affim ne- 
ceífario pêra as contarmos todas juntas ; 
pelo que fe ha de faber , que fendo Rey 
em Vifa por Alja Idalxá , que foi o que 
poz aquelle foberbo cerco á Cidade de 
Goa , fendo a primeira vez Vifo-Rey da 
índia o mefmo D. Luiz de Ataíde , como 
temos já tratado na noíTa oitava Década y 
em que fe pode ver. 

Eíle Rey como era torpe , cujo , e in- 
fame y e pêra fuás torpezas tomava quaíi 

por 



Década X, Cap. II. 9 

por força os filhos a feus Capitães , fucce- 
deo efteanno paliado de 1580. tomar hum 
de dezoito annos pêra vinte, mancebo de 
brio, e de animo valeroíb , que vendo que 
EIRey o queria affrontar , e çujar, valen- 
do-fe de huma a^daga que levava , remet- 
tendo com elle , o matou , e fe acolheo 
tão preftes , que quando ouviram os gri- 
tos , já elle eftava poílo em falvo. Viveo 
eíle maldito Rey íincoenta e tantos annos , 
e deites reinou vinte e três , e dous me- 
zes ; e acudindo os Capitães , e Regedores 
do Reyno , por não haver Principe Her- 
deiro , alevantáram por Rey hum dos dous 
íbbrinhos do morto , o chamado Abrale- 
iiio , filho fegundo do Xdiamas , hum dos 
dous irmãos , que elle matou , como na 
fetima Década fica dito no Cap. I. 

Era elle Rey Abralemo moço de dez 
annos , e quaíi forçofamente tomou a tu- 
toria , e governo de todo o Reyno hum 
Capitão chamado Camalcham , cafta Abe- 
xim , homem muito poderofo , e de grande 
prudência , e confelho ; e pelas partes que 
tinha, fez fubir aquellemoço na Cadeira do 
Reyno , fendo o outro irmão mais velho , 
e a quem de direito ( íè entre Mouros o 
houvera ) lhe pertencia. 

Eíle Camalcham a primeira coufa que 
fez em alevantando o moço por Rey, foi 

pren- 



io ÁSIA de Diogo de Couto 

-prender o irmáo , e mandallo metter na 
fortaleza de ... . com grandes guardas , 
donde depois fahio , fendo Vifo-Rey Ma- 
tinas de Albuquerque 5 fobre que fe levan- 
taram grandes guerras naquelle Reyno , 
como na undécima Década diremos , fe 
Deos nos der vida 5 e aos Reys favor pêra 
os efcrevermos. O Governo defte homem 
foi muito invejado de todos os Capitães, 
principalmente de Quisbalcham , filho de 
outro Quisbalcham , que já fora Regedor 
daquelle Reyno em tempo de Alja Idalxá 
mais de quinze annos ; e tendo eftes prati- 
cas fobre eíle negocio com alguns Capitães , 
ajuntaram fuás gentes ; e primeiro que fof- 
fem fentidcs , entraram pela Cidade de Vi- 
la , por onde efíava a Corte , e dando de 
fupito nos Paços , mataram Camalcham ; e 
o Quisbalcham lançou mão do Rey , e do 
Governo , em que efteve lo quatro mezes. 
ISIefte tempo os Abexins , que fam todos de 
guarda de EIRey , e de tanta confiança co- 
mo Genizaros do Turco , ou como os Ma- 
melucos, com os antigos Soídõcs do Egy- 
pto , fofFrendo aquillo mal , fizeram três 
Cabeças a três grandes Capitães chamados 
o Calafcham , Armiocham , Diluruacham, 
e foram contra a Cidade deVifapur; e não 
oufando o Quisbalcham a efperallos , fugio 
pêra a Corte de Melique , e os Abexins 

lan- 



Década -X. Cap. IÍ. ir 

lançaram mão do Rey , e ficaram aquellcs 
três Capitães governando tudo. 

Mas como o mando repartido por mui- 
tos caufa fempre inveja , e ódio, não fof- 
frendo Diluruacham , hum dos três Rege- 
dores , companhia no Governo , lá teve 
modo com que prendeo os dous em huma 
Fortaleza , e elle ficou fó com todo o po- 
der, no que o ajudaram quatro filhos que 
tinha já homens , grandes cavalleiros , e 
muito poderofos ; e pêra fe mais fegurar 
em fua tyrannia , repartio os filhos pelas 
mais partes do Reyno , e principaes for- 
ças , pêra que de nenhuma parte fe pudeífe 
temer , ficando o Reyno fó , debaixo de 
fua chave , fem eleição daquelle Rey \ por- 
que elle mandava , e dilpunha em tudo 
como queria. Os dous Capitães Abexins \ 
que elle tinha prezos , efcandalizadòs da- 
quelle negocio , lá tiveram maneira com 
que mandaram algumas peífoas de confian- 
ça a tratar com o Conde D. Luiz de Ataí- 
de alguns negócios , quando o acharam já 
muito mal ; e todavia ainda os ouvio , e 
elles lhe pediram da parte dos Abexins que 
lhes déífe Cufuchão filho de Mialé pêra o 
metterem no Reyno , e que não queriam 
mais que deixallo elle paflar da outra ban- 
da , porque logo lhe acudirião todos os 
Capitães, porque andavam- efcandalizadòs j 

e 



M ÁSIA de Diogo de Couto 

c juntamente com iílo folicitáram também 
o Jamaluco , e o Cutubixa , pêra que entraf- 
fem nefta liga. Os enviados que mandou 
a eftes Reys tal manha tiveram com elles , 
que os indignaram contra o tyranno , e 
promettêram de favorecerem o Mialé , e 
de o ajudarem a metter noReyno; e pêra 
íignificarem ifto ao Conde D. Luiz ? lhe 
mandaram feus Embaixadores pêra faberem 
delle o modo que queria ter naquelle ne- 
gocio. O Vifo-Rey ouvio os primeiros en- 
viados ; e como eftava enfermo , não fó 
lhe não deo orelha áquelle negocio , mas 
mandou fegurar o Cufuchão na Torre de 
Menagem 5 porque fe não fofle de Goa , 
por convir aíTim ao Eftado da índia ; e 
poucos dias depois do Governador Fernão 
Telles fucceder no governo , chegaram os 
Embaixadores daquelles Reys , e do Meli- 
que , chamado Logeadigar Mahamede , e o 
do Cobixa Coge Gilão Mali , e antes de 
entrarem em Goa , teve o Governador avi- 
fo y e mandou preparar feu recebimento , 
que fe lhe fez com grande mageítade ; e 
fabendo que vinham fobre coufas de Cu- 
fuchão , o mandou tirar da Torre da Me- 
nagem , e pòz em fua cafa por honra da- 
quelles dous Reys , e ouvio os Embaixa- 
dores que da parte de feus Reys lhe pedi- 
ram que lhe déíle Cufuchão , filho de Ma- 



Década 1 C a v. II. 13 

luchão pêra o metterem de pofle do Rey- 
no de Vifapor , Via de Chaul ; prometten- 
do partidos muito honrados pêra o Efta- 
do. 

O Governador Fernão Telles poz aquel- 
!e negocio em Confelho dos Capitães ve- 
lhos , e por todos fe afíentou que não con- 
vinha dar-le Cufuchao , porque era hum 
penhor que o Eílado tinha da paz, e foce- 
go doBalagate, e com que fempre tinham 
enfreado o Idalxá; e que quando houveíTe 
de fer metter-fe em feu Reyno , que era 
mais credito do Eílado fer por ordem dos 
Vifo-Reys , que governalTem a índia , que 
não por outra alguma pefquiza , aíTim fa- 
riam os partidos muito á honra, e provei- 
to. Com eíla refolução refpondeo o Go- 
vernador aos Embaixadores , dando-lhes 
defculpas muito licitas de lhes não entregar 
o Cufucham , e mandou ter com aquelles 
Reys grandes fatisfaçoes , e cumprimentos 7 
com o que os Embaixadores fe tornaram 
mui fatisfeitos : aííim ficarão as couías do 
JBalagate até nós tornarmos a ellas. 



CA- 



14 ÁSIA de Diogo de Coutc? 

CAPITULO III. 

Dos navios que o Governador mandou á 
Cojla do Mãfulipatão efperar humas 
nãos de inimigos que lá ejlavam : e da 
Armada que ordenava pêra o Malavar : 
e de como chegou humafujla de Ormuz 
com huns papeis , que EIRey D. Filip- 
pe mandava , de como ficava jurado por 
Rey de Portugal : e do que o Governa** 
dor mais fez. 

POr cartas que o Governador teve na 
inverno do Capitão de S. Thomé , foi 
avifado de como em Mafulipatão eftavam 
duas náos de Achem carregando ferro i 
pelouros , e outros petrechos de guerra, 
que devia ajuntar pêra ir contra Malaca ; 
e outra de EIRey de Pegú, a qual era tãpr 
poderofa , como qualquer de Portugal , e 
tão rica que fó de direitos foi avaliada em 
cento e íincoenta mil cruzados. O Gover- 
nador pareceo-lhe obrigação mandar acudif 
áquillo , e armar fobre aquellas náos , aílim 
porque o Achem não paílaííe lá , como 
por haver ás mãos a de Pegú i por fe fa- 
tisfazer da affronta que lá fe fez ao Capi- 
tão , que foi fazer aquellas viagens , que 
aquelle prendeo com todos os Portugue- 
zes : fobre o que o Vifo-Rey D. Luiz de 

Atai- 



Década X. Cap. III. 15- 

Ataíde , aquelle verão antes que falecefTe, 
lhe tinha mandado por Embaixador a Fer- 
não de Lima, que ainda lá eftava, fem fer 
refpondido , como na nona Década fica di- 
to ; e também porque tomando aquella 
náo , que era tão rica, podia remediar, e 
enriquecer o Eftado : pelo que com muita 
brevidade mandou preparar quatro navios , 
em que entravam duas Galeotas de Came- 
lotas , e elegeo pêra efta jornada Gonçalo 
Vaz de Camões ; e tanta prefía fe deo á 
Armada , que ao primeiro de Agofto fe 
apartou do cães : e por andar a barra ainda 
muito foberba , affentou-fe que fahifle por 
Goa aVtlha, pêra onde foi efperar conjun- 
ção pêra fe fazerem a vela. Os Capitães dos 
outros navios eram António Pereira Pinto , 
Álvaro Colaço , e Francifco Serrão : deo 
o Governador por regimento ao Capitão 
Mor , que fe foíle lançar fobre o porto de 
Mafulipatão a efperar aquellas náos, e que 
tomando a de Pegú , voltaífe com ella pêra 
Goa ; e que António Pereira Pinto com os 
outros três navios atraveííafle o Reyno de 
Pegú , e fizeífe por aquella cofta toda a 
guerra que pudeíle pela prizão dos Portu- 
guezes ; e a António Pereira Pinto deo hu- 
ma Provisão , pêra em aufencia de Gonçalo 
Vaz de Camões ficar fendo Capitão Mor, 
com os mefmos poderes , e regimento. 

Eíta 



i6 ÁSIA de Diogo de Couto 

Eíta Armada efteve em Goa Velha dez* 
oito dias , fem o tempo lhe dar lugar pe^ 
ra poder fahir pêra fora , commettendo-a 
elles cada dia duas vezes. No cabo delles 
huma manha, que deo jazigo, fahio o Ca- 
pitão Mor a barra , e com elle o navio 
de Francifco Serrão , e na maré da tarde 
fahíram os outros dous , e foram feguindo 
feu caminho. Gonçalo Vaz de Camões , 
por achar o vento travefsao, e muito rijo, 
íe recolheo antes de noite aos llheos de 
Angediva ; e António Pereira Pinto , e Ál- 
varo Colaço foram correndo com pouca 
vela : e por fe não atreverem a tomar An- 
gediva , por pairarem já de noite , foram 
correndo de longo , fazendo António Pe- 
reira final ao panar com huma bombarda- 
da , pêra que foubefle que hia paliando, 
O Capitão Mor ao outro dia fe fahio dasr 
Ilhas , e foi feguindo fua derrota , onde 
os deixaremos pêra feu tempo, porque he 
neceflario continuarmos com outras coufas. 
Partida eíla Armada , ficou-fe o Governa- 
dor negociando , porque bem entendeo o 
que lhe havia de vir a fucceder \ e toda- 
via não fe defcuidou a defpachar, e nego- 
ciar alguns navios pêra mandar diante ao 
Malavar , em quanto não foífe o Capitão 
Mor , que havia de fer , pofto que defejoa 
poupar o dinheiro que achou no thefouro 

por 



Década X. Cap. III.' ly 

por morte do Viíb-Rey pêra o entregai 4 ao 
que vieífe, pêra o achar pêra as defpezas 
do Eítado , por não pedir logo empreita- 
do , com elle poderia fazer as Armadas 
que quizeífe, e nomear os Capitães Mores % 
no que fe não perdia tempo , porque a 
muito tardar poderiam chegar as náos até 
vinte de Setembro; mas deíla opinião o ti- 
raram alguns amigos , affirmando-lhe que 
mais eílimaria o Viíb-Rey que vieffe achar 
as Armadas feitas , que dinheiro no thefou- 
ro , porque feria trabalho de que o tiraria ; 
e que também poderiam chegar as náos tão 
tarde, que primeiro fe encheíTe o mar de 
corfarios , ao que era neceílario acudir, e 
prover na guarda da cáfila , que havia de 
ir á Coita de Malavar 2 bufcar os provi- 
mentos pêra a Cidade , e a defender que 
fenão encheílem delles osMalavares, por- 
que eíta era amor guerra que fe lhes podia 
fazer ; e parecendo iíto bem ao Governa- 
dor , mandou dar preífa ao concerto das 
náos , e elegeo por Capitão Mor de Mala- 
var a Mathias de Albuquerque , e lhe no- 
meou doze galés , e dezefeis fuítas , come- 
çando elle a correr com muita preíTa com 
o aviamento delias* 

Andando o Governador neíta occupa* 
ção , ao primeiro de Setembro chegou nu- 
*na fufta de Ormuz, que o Capitão daquel* 
Cnto.Tm.yi.P.L B la 



I& ÁSIA de Diogo de Couto 

la Fortaleza D. Gcnçalo de Menezes man- 
dava com huns papeis , que EIRey D. Fi- 
lippe lhe enviou por terra pêra os elle en- 
caminhar ao Vifo-Rey. Caufou efte navio 
grande alvoroço no povo ; porque como as 
coufas do Reyno ficavam por determinar y 
eftavam todos efperando pelas náos pêra 
faberem a refoluçao delias, 

O Capitão do navio , que fe chamava 
Lourenço Marques , defembarcou já de noi- 
te, e foi ter com o Governador, elhedeo 
as cartas de D. Gonçalo com todos os pa- 
peis que do Reyno vieram , e o Governa- 
dor os abrio , e achou nelles huma Sen- 
tença , que os Juizes , e Governadores de 
Portugal deram por EIRey D. Filippe , em 
que fe determinavam pertencer-lhe o Rey- 
no de Portugal por neto de EIRey D. Ma- 
noel. 

Com ella vinha auto folernne , por que 
fe moítrava ficar jurado por Rey em todo 
o Reyno ; e aílim vinha mais huma carta 
fua pêra o Vifo-Rey D. Luiz de Ataíde, e 
outras pêra os Eftados Eccleílaítico , e Se- 
cular : humas dirigidas ao Arcebifpo , que 
fe entregaram ao Cabido por elle fer fale- 
cido ; e outra pêra os Vereadores da Cida- 
de de Goa, em que com palavras de Prín- 
cipe Chriílão juítificava fua caufa , e dava 
conta de fua fuccefsaoj e lhes pedia , e ro* 

6** 



Década 1 C a p* IIL 19 

gava , que aílim o houveíTem por bem, 
por quanto elle , como Rey natural , e Pai 
de todos , eílava determinado ao reger, e 
governar, e a lhes guardar todos os foros , 
privilégios, e liberdades, que lhes tinham 
concedido , de que também vinha o traf- 
Jado , que eram muitos , e grandes 5 que 
por ferem as Chronicas do Reyno o leu 
próprio lugar, os não pomos aqui. 

Vinham também duas Cartas da Cida- 
de de Lisboa , huma pêra a de Goa , e 
outra pêra o Vifo-Rey , em que lhe dava 
conta em como EiRey D, Fiíippe fora 
julgado por Rey de Portugal , e que- por 
tal ficava jurado em todo o Reyno , en- 
commendando-lhe muito que logo o fizei- 
fem affim , como delles confiava , pois en- 
tendiam todos quanto ganhavam em ter 
por Rey hum tão Catholico , e tão Pode- 
rofo Principe. 

Eíla Carta vinha aífignada por Manoel 
Telles Barreto Ferreira de Sá dos Óculos, 
e Damião de Aguiar, que então eram Ve- 
readores , e por todos os mais Qfficiaes 
da Camera. 

Vinha alíim mais entre os papeis huma 
procuração de EIRey pêra o Vifo-Rey D. 
Luiz de Ataíde, ou pêra quem em feu lu- 
gar eftiveíTe , com poderes baftantes pêra 
cm feu nome tomar pofle da índia , e com 

B ii vir- 



%o ÁSIA de Diogo de Couto 

virtude de fobeftabelecer outros Procura- 
dores pêra as mais Cidades, e Fortalezas 
delia. 

Viítos todos eftes papeis , e cartas pe- 
lo Governador , dizem que mandara cha- 
mar os Licenciados Gonçalo Lourenço de 
Carvalho , e Francifco de Frias , e lhes 
moítrára tudo , e pedira confelho fobre o 
que faria , e com elles aflentou de jurar 
logo EIRey D. Filippe , e fazer-lhe a orne- 
nagem da índia ; porque como elle a tinha 
dado aos Governadores , e Defenfores do 
Reyno , em que conforme aos eftilos delle 
prometteo de não entregar a índia , fenão a 
elles , e a feu certo recado , que claramen- 
te lhe diziam , que jurando EIRey D. Fi- 
lippe por Rey de Portugal , dando-lhe a 
omenagem daquelle Eílado, o haviam por 
defobrigado a lhe obedecer ; e logo refo- 
luto o Governador niíto , ao outro dia fez 
chamamento de todos os Prelados, Verea- 
dores , Fidalgos , Capitães , e Officiaes da 
Juftiça , e Fazenda. Prefentes todos , man- 
dou Jer os papeis pelo Secretario j e aca- 
bando de fe lerem , fe alevantou , e diíTe a 
todos , que foliem dar graças a Deos noíTo 
Senhor por tamanha mercê , e que fe fizef* 
fem todos preftes pêra o dia feguinte jura- 
rem a EIRey D. Filippe : e aíTim cavalgou 
logo , e fefoi -áSé. Deita novidade ficaram 

to- 



Década X. Ca*. IIL 2í 

todos muito fobrefaltados , e triíles , lem- 
brando-lhes novamente aquella defaftrada 
perdição de todo Portugal , e de hum Rejr 
pedido aDeos com tantas lagrimas , roma- 
rias , procifsões , e efmolas , acabar tão 
miferavelmente com hum tamanho exerci- 
to , em que quaíi todos os homens da Ín- 
dia perderam pais , irmãos , parentes , e 
amigos , e que naquelíe Rey moço fe aca- 
bara a íuccefsão dos Reys naturaes ; e co- 
mo os mais daquell es Fidalgos em fua mo- 
cidade fe creárao com elle , que cada dia 
lhes fazia mercês , e honras , lembrando- 
Ihes que os Reys de Portugal fempre trata- 
rão feus vaííallos como filhos ; e que agora y 
poílo queElRey D. Filippe era navido por 
muito Catholico, e humano Principe, toda- 
via primeiro que lhes vieífe a faber os no- 
mes , pairariam muitos tempos : e que for- 
çado havia de haver novo modo de proce- 
dimento , porque fempre mudanças de Rey- 
nos trazem grandes novidades. Todas ef- 
tas coufas lhes davam muitos cuidados, não 
deixando com tudo de profeguirem na- 
quella fua antiga lealdade , em que os Por- 
tuguezes fempre foram extremados de to- 
das as nações do mundo. O Governador, 
depois de dar graças a Deos , recolheo-fe 
pêra fe fazer preíles pêra o outro dia ce* 
lebrar aquelle auto* 

CA. 



22 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO IV. 

De como EIRey D. Filippe foi jurado por 
Rey na Cidade de Goa. 

REcolhidos todos dalli , não deixaram 
alguns , fegundo nos differam , de man- 
dar dizer ao Governador , que as náos do 
'Reyno não poderiam tardar muito , e que 
não hia contra fua obrigação efperar por 
•cilas y pêra que com as novas certas da 
vida y e faude de EIRey , celebrar aquelle 
auto com maior íblemnidade : que aquillo 
eram papeis , que vinham por terra defa- 
marrados , que bom feria eíperarem pelos 
que haviam de vir nas náos , pois aquelle 
negocio não padecia perigo na tardança ; 
e que todo fe faria depois mais a ferviço 
de EIRey ; e com mais gofto , e apparato. 
O Governador como era prudente, e pre- 
catado , não quiz dilatar nada daquella 
execução ' y porque poíto que aos Fidalgos 
pareceífe aquillo bem , não faltariam outros 
alguns que lhe eftranhaílem qualquer de- 
tença que naquelle cafo fizeííe , de que lhe 
fariam grandes culpas ; porque como eiia- 
va fabido crear-fe em fua mocidade com o 
Prior do Crato , e feu pai , e parentes fe- 
rem da obrigação do Infante D.Luiz feu 
Pai j qualquer dilação naquelle negocio 

lhe 



Década X. C a p. IV. 23 

]he poderia fazer muito nojo , ao menos 
com os que lhes não pareceíTem bem fuás 
coufas , como os que coítumam a defde- 
nhar de tudo. E como elle queria moílrar 
a limpeza , e fidelidade de leu appellido, 
<]uiz que fe viífe que nem obrigações par- 
ticulares de creaçao , e amizade , nem 
outros alguns refpeitos eram baílantes pê- 
ra o mudarem daquella fua antiga lealdade , 
nem pôr-lhe por iífo culpas , que nelle ha- 
viam de fer mais eftranhadas que em todo 
outro Fidalgo , que naquelle lugar eítive- 
ra ; e aílim viveo fempre neíte Eílado tão 
puro , e precatado neftas matérias , que nun- 
ca nelle quiz acceitar cartas do Prior do 
Crato , quando tratava de fua pertençao , e 
fe queria juftificar com todos os Fidalgos : 
em fim , que affim pelas razões que aílima 
difíemos , como por ganhar por mão ao 
Vifo-Rey que vielfe , tratou de ter feito ■ 
tudo : e alíim ao outro dia pela manhã , 
que foram três de Setembro, fe ajuntaram 
na Sé de Goa todos os três Eftados , o 
Cabido em -nome do Eccleíiaftico , por e£ 
tar a Sé vagante por morte do Arcebifpo 
D. Henrique de Távora , e os Prelados de 
todas as Religiões ; o Capitão da Cidade , 
os Fidalgos , e Capitães . Vereadores , Jui- 
zes , Meílres , Cidadãos , Cavalleiros , Ou- 
vidor Geral , Chanceller a Defembargado- 

rés. 



24 ÁSIA de Diogo de Couto 

res , e muita parte do povo. O Governa- 
dor pofto na Capella , mandou dizer a to- 
dos que hontem , que foram dous dias do 
mez , lhe fizeram a faber como o muita 
alto , e Catholico Rey D, Filippe fora de- 
clarado por Rey de Portugal , por Sen- 
tença dos Governadores , e Defenfores do 
Reyno , que logo alli foi lida pelo Secre- 
tario com huma Provisão de EIRey , em 
que mandava , que , conforme ao direito dos 
Governadores , efte Eftado o juraíTe por 
Rey 5 o que todos por todas fuás livres 
vontades tinham acceitado com muito con- 
tentamento , e promettido de allim o jurarem 
por Rey , e Senhor , pelo que eram alli 
untos pêra iífo : e logo mandou a D. 
Triftâo de Menezes •, Capitão da Cidade y 
que tomaífe nas mãos a bandeira das Armas 
Reaes de Portugal , o que elle fez , e fe 
poz á mão direita do Governador , que 
logo fe alfentou de joelhos diante de hum 
Altar, que pêra iífo eftava preparado com 
hum MiíTal aberto , e hum Crucifixo em 
Uma , em que elle poz as mãos , e o Se- 
cretario lhe foi lendo a fórma do juramen- 
to , que elle foi dizendo em alta voz , na 
fórma feguinte : 

» Eu Fernão Telles de Menezes , Capi- 
)) tão General , e Governador deite Eftado 
» da índia y recebo por meu verdadeiro 

» Rey, 



De cada X. Ca?. IV. 25* 

» Rey , e Senhor natural ao muito Pode- 
» roío Rey Catholico D. Filippe noífo Se- 
ia nhor ; e juro neftes fantos Evangelhos , 
y> em que tenho poílas as mãos , de conhe- 
» cer por meu verdadeiro Rey , e Senhor 
» natural, e de obedecer, e cumprir intei- 
» ramente feus mandados , e de guardar , e 
» defender as Fortalezas que me forem 
» entregues , e de cumprir inteiramente a 
» õmenagem que delias tenho dado , e o 
» juramento que tenho feito , como fe o 
» dera , e fizera ao dito Senhor Rey D. Fi- 
» lippe. E por fim de feus dias juro neíles 
y> fantos Evangelhos de ter , e conhecer 
» por meu verdadeiro Rey , e Senhor na- 
» tural a feu filho primogénito D. Diogo , 
» e a todos os feus fucceífores. » 

Acabado efte juramento , mandou o 
Governador ler a Procuração de EIRey, 
cm que o fazia feu Procurador baftante pê- 
ra em feu nome tomar o juramento das 
Cidades , e Villas do Eítado , e das mais 
peífoas dos três Eftados Eccleliaílico , No- 
breza , e do Povo, por cuja virtude o Pa- 
dre Deão Braz Dias , Cabeça do Cabido , 
em nome do Eítado Eccleíiaftico fe poz 
de joelhos diante do Governador , e com 
as mãos em hum MiíTal fçz o mefmo ju- 
ramento j e depois em nome de toda a 
Nobreza o fez D. Triílão de Menezes f 

Ca- 



i6 ÁSIA de Diogo de Couto 

Capitão da Cidade , e os Fidalgos velhos f 
. que alli fe acharam 5 e derradeiros os Ve- 
readores da Cidade em nome de tcdo o 
Povo. 

Acabados os juramentos , alevantou o 
Capitão a bandeira Real no ar , e difíe 
muito alto : Real , Real ^ pelo muito Ca~ 
tholico Rey D. Filippe de Portugal nojfo 
Senhor , apôs o que fe tocaram logo muitos 
inftrumentos , e repicaram todos os íinos 
com moftras de geral alegria. De alli fe 
fahio o Governador acompanhado daquel- 
Je concurfo todo , elle a cavallo , e diante 
o Capitão com a bandeira Real , e foi 
correndo as ruas publicas , acclamando 
EIRey D. Filippe por Rey de Portugal > 
com muitas trombetas , e charamelas , que 
tocavam todas as vezes que o Capitão a- 
cabava de acclamar por Rey. 

Acabado eíle aíto , recolhêram-fe á Sé , 
onde tornaram a pôr a bandeira a huma 
ilharga do Altar mor , e o Governador fe 
foi pêra feus apofentos. Dalli a alguns 
dias fe jogaram canas , e correram touros 
o mais louçã, e cuftofamente que a brevi- 
dade do tempo deo lugar. De tudo iílo 
fez o Secretario feus autos , aífignados pe^ 
lo Governador, e pelos três Eílados. 

CA- 



Decad a X. Cap. V. 27 

CAPITULO V. 

Em que fe contém hum Alvará dos Gover- 
nadores , por que mandão , que ainda que 
as Patentes , Alvarás , e Provisões dos 
Cargos , e Officios que derem , não vão 
affignados por mais que por três delles y 
valhão tão inteiramente y como fe o foram 
por todos finco : e huma Carta de EIRey 
nojjo Senhor ? em que dá poder ao Conde 
de Atouguia D. Luiz de Ataíde , Vifo- 
Rey da índia , e o faz feu Procurador , 
e de feu filho o Serenifjimo Príncipe D. 
Diogo 5 pêra em nome de ambos poder re- 
ceber , e acceitar omenagem, e vajfalla- 
gem dos Capitães , Vereadores , Fidal- 
gos , Soldados, e mais E/lados que hou- 
ver na índia. 

NÓs os Governadores , e Defenfores 
deites Reynos , e fenhorios de Portu- 
gal , &<:• Fazemos faber a vós Viíò-Rey , 
e Governador nas partes da índia , e ao 
Veador da Fazenda em elles , e ao Ouvidor 
Geral , Defembargadores , e quaefquer ou- 
tras juíliças das ditas partes , a que eíle for 
aprefentado , que por quanto algumas Pa- 
tentes , e outras Provisões , que paffamos 
de Cargos , Officios , e outras coufas pêra 
#s ditas partes y vam aíTignadas por três de 

nós 



^8 ÁSIA de Diogo de Covto 

nós fomente , e podia niflb haver alguma 
dúvida , havemos por bem , e mandamos , 
que pofto que não vam affignadas por mais 
que de três , fe cumprao , e guardem intei- 
ramente , como fe foram affignadas por to- 
dos finco , por quanto no Regimento que 
EIRey D.Henrique noílb Senhor queDeos 
tem nos deixou , declarou que as Provi- 
sões da qualidade das taes poífam paílar 
com três íinaes fomente ; e para fe faber 
como aílim o havemos por bem , mandá- 
mos pa(Tar efte , que fe cumprirá inteira- 
mente , como nelle fe contém, o qual fera 
regiftado nos livros da Fazenda das ditas 
partes , e da Relação delias , e valerá como 
Carta , feita , aífignada , e paífada pela Chan- 
ceííaria , e pofto que por ella não feja paf- 
fada , fem embargo das Ordenações que o 
contrario difpõem. Gafpar de Seixas o fez 
em Almeirim a %f* de Aí arco de 15*80. O 
Arcebifpo de Lisboa. D.João Mafcarenhas. 
Francifco de Sá. D.João Tello. Diogo Lo- 
pes de Soufa. 

Traslado da Carta de Sua Mageflade. 

DOm Filippe , por graça de Deos Rey 
de Portugal , e dos Aígarves , d 5 aquém r 
c d 5 além mar , em Africa Senhor de Gui- 
né , e da Conquiíta, Navegação, Commer- 

cio 



■ Década X. Ca p". V. 29 

cio de Eíhiopia, Arábia, Perfia, e da ín- 
dia , &c. Faço faber aos que eíla minha 
Carta de baílante poder virem , que pela 
muita , e mui juíla confiança que tenho de 
D. Luiz de Ataíde , Conde de Atouguia, 
do meu Confeiho de Eílado , e Vifo-Rey 
nas partes da índia ; e confiado outro fim - 
que os Capitães Mores , Governadores , 
Vereadores , e Officiaes das Camarás, Fi- 
dalgos , Cavaíleiros ? Soldados ? e mais Po- 
vos das Cidades , e Fortalezas das ditas 
partes , fabendo ( como devem ter fabido ) 
que por falecimento do Senhor Rey D. 
Henrique meu Tio, queDeostem, meper- 
tenceo jufta , e legitimamente a fuccefsão, 
e fenhorio dos ditos Reynos , e fenhorios 
deíla Coroa de Portugal (como também 
lhes conftará pelo Alvará, e Decreto, que 
os Governadores do dito Reyno íbbre iílo 
paliarem) cumprindo com aquillo a que 
tão juítamente eftam obrigados : lembrando- 
fe da fua , e da antiga lealdade de feus an* 
íepaíTados, me receberão, declararão paci- 
ficamente por feu verdadeiro Rey , e Se- 
nhor natural de todos os ditos Reynos , e 
fenhorios , como Deos foi fervido que o 
feja , e ao Sereniííimo Principe D.Diogo, 
meu mui caro , e mui amado filho primo- 
génito , por Rey, e meu fucceílbr delies 
por fim de meus dias , e a todos os mais 

meus 



3o ÁSIA de Diogo de Couto 

meus defcendentes , e fuccefíbres : dou po- 
der ao dito Conde Vifo-Rey , e o faço meu 
baftante Procurador, com poder de fobef-* 
tabelecer de feus fobftabelecidos , em meu 
nome os polia receber por meus bons , e 
leaes VaíTallos , e do dito Sereniífimo Prín- 
cipe meu filho por fim de meus dias , e de 
todos os mais meus defcendentes , efuccek 
fores , como dito he , e receber delles ome- 
nagem , e juramento de fidelidade , e leal- 
dade , e fazer todos os mais autos que em 
tal cafo fe requerem , e coftumam fazer, 
com todas fuás intendências , e dependên- 
cias , pofto que fejam três, e de tal quali- 
dade que requeirao mais expreíTa declara- 
ção , efpecialmente pêra poder prometter 
ás ditas Cidades, e Fortalezas, Capitães, 
e Officiaes da Governança , Fidalgos , Ca- 
va] leiros , lbldados , e mais gente delias 
fobre minha fé , ou palavra Real , que lhes 
guardarei , e mandarei guardar todos , e 
quaefquer privilégios que tiverem dos Se- 
nhores Reys meus predeceflbres de glorio- 
fa memoria , ufos , e coítumes , affim , e tão 
inteiramente , como por elles lhes foram con- 
cedidos , e guardados , que fe lhes cumpri- 
rão refpeítivamente , como por elles lhe 
foram concedidos, e guardados, que felhes 
cumprirão refpe&ivamente, no que a cada 
Jium tocar, todas as graças, mercês, e li- 

ber- 



Década X. Cap. V. 31 

berdades , e franquezas, que nas Cortes de 
Almeirim , por minha parte propoz , e 
offereceo o Duque de Oííuna meu Primo 
para todos os naturaes dos ditos Reynos , 
e íenhorios , de que com efta fe lhe envia- 
rá o traslado íbbícrito , e affignado por 
Nuno Alvares Pereira , meu Secretario dos 
ditos Eíhdos da índia , e fellado com o 
fello de minhas Armas Reaes da dita Coroa 
de Portugal ; e prometto de haver por 
bem , firme , e valiofo deite dia pêra todo 
o fempre, em meu nome, e do dito Sere- 
niffimo Príncipe meu filho , e de todos os 
mais íuccefTores delia pelo dito Conde Vi- 
fo-Rey , e cada hum de feus fobítabelecidos , 
feito , e concedido pela maneira que dito 
he. Em verdade deite poder, epera firme- 
za de tudo , lhe mandei paíTar eíta Carta 
por mim aíUgnada 5 e fellada com o dito 
íello. Dada na Cidade de Badajoz a fete 
de Novembro de mil quinhentos e oitenta 
annos. EIRey. Eu Nuno Alvares Pereira, 
Secretario de S. Mageítade Catholica , a 
fiz efcrever por feu mandado. Pereira. 



CA- 



32 ÁSIA de Diogo deCòWô 

CAPITULO VI. 

Em que fe contém a Sentença que os Go<* 

remadores deram naquella declaração , 

a queyn pertence a herança dos 

Reynos de Portugal. 

OS Governadores , e Defenfores deites 
Reynos, e Senhorios de Portugal. Fa- 
zemos faber aos que eíte Alvará virem , que 
EIRey D/Henrique noffo Senhor , queDeos 
tem , poucos dias depois que fuccedeo na 
Coroa dos ditos Reynos , vendo-fe muito 
enfermo , e fem herdeiros defcendentes , 
por não eftar certo a quem pertencia a íuc- 
cefsão delles por feu falecimento , nos ele- 
geo por Governadores , pêra que falecendo 
elle antes de haver Príncipe legitimamente 
jurado , governaílemos os ditos Reynos, 
em quanto aííim os não houvefle. E porque 
não houvefle depois defeus dias quem pu- 
zefle dúvida em nos dar a obediência , nos 
declarou em fua vida por Governadores na 
Cidade de Lisboa pêra ufarmos do dito car- 

fo depois de feu falecimento , como dito 
e. E porque o dito Senhor viveo alguns 
mezes depois , e fempre procedeo no co- 
nhecimento da caufa da fuccefsão pêra a- 
veriguar a quem pertencia , e hum dos per- 
tendentes era D. António , fiUio não legi- 

ti- 



Década X. Cap. VI. 33 

timo do Infante D. Luiz , que Deos tem , 

dizendo que o dito Senhor fora cafado 
com fua mai , e que era legitimo , e como 
tal havia de preceder a todos os pertenden- 
tes ; e depois de fer ouvido fobre o cafo 
ordinariamente, e fua prova, recebido foi 
pelo dito Senhor Rey D. Henrique com 
muitos Juizes Eccleíiaíticos , e Seculares 
por fentença declarado por não legitimo , 
e foram algumas das fuás teftemunhas pre- 
zas por falias , e induzidoras de outras 
teftemunhas pêra o mefmo eíFeito ; e pelo 
que nefte cafo fez , e por outras defobe- 
diencias que commetteo contra o dito Se- 
nhor Rey , foi por fentença defnaturado 
do Rcyno , e condemnaoo que nunca mais 
nelle entraíTe fob pena cDs cafo maior , e 
foi-lhe fua fazenda que tinha da Coroa 
confifcada ; e que todos os naturaes do 
Reyno que o favoreceífem , ou acompa- 
nhaíTem , ou lhe deífem favor, ou ajuda, 
direita , ou indireitamente , em qualquer 
parte que eítiveífe , incorreflem nas mefmas 
penas ; e depois de determinado o dito 
incidente , precedendo o dito Senhor na 
caufa principal da fuccefsao , entendendo 
a juftiça que Eilley Catholico D. Filippe 
feu fobrinho tinha acerca da fuccefsao da 
Coroa deites Reynos , pelo muito amor que 
fempre teve á Senhora D. Catharina fua 
Couto. Tom. VI P. L C fb- 



34 ÁSIA de Diogo de Couto 

fobrinha (hum dos pertendentes ) mandou 
dizer á dita Senhora o que entendia acer- 
ca da dita fuccefsão , declarando-lhe como 
.antes de dar Sentença queria tratar de 
concertos entre ella , e S. Mageítade , e 
alíim haver algumas mercês , e privilégios ; 
e fendo as Cortes juntas , que pêra iílò 
mandou convocar , mandou dizer em Jun- 
tas publicas aos Três Eftados do Reyno 
pelo Bifpo de Leiria D. António Pinheiro , 
que eftava muito perto de dar a Sentença 
pelo dito Senhor Rey Catholico feu fo- 
brinho , e que antes diíío feria bem que 
fe accommodaíTem com meios juftos , e ho- 
neílos. E tendo confentido niíío , ebeijan- 
do-lhe por iífo a mão os Eílados Ecelefiaf- 
tico , e da Nobreza , e tendo-lhe remetti- 
do a elle os aífentos dos ditos meios , e 
condições , vendo o dito D. António que 
o dito Senhor Rey eftava tão chegado ao 
fim de feus dias, que porfua enfermidade 
fe efperava por horas feu falecimento (e a 
fim de fe levantar com o Reyno , como 
depois fez) por íi , e por feus fequazes 
induzio alguns dos Procuradores dos Po- 
vos , pêra que moveífem , como moveram , 
dúvidas , e requerimentos impertinentes 
pêra dilatar a refoluçao , como de feito 
dilatarão alguns dias, nos quaes noífo Se- 
nhor foi fervido de levar o dito Senhor 

Rey 



Década X. Cap. VI. 35* 

Rey pêra íi , ficando nós no dito governo 
pela maneira que eftava aííentado , e obe- 
decidos dos bons , e leaes Portuguezes , 
feguindo o eftilo , e exemplo dos léus an- 
tepaflados , com toda a paz, e tranquilli- 
dadc ; porém o dito D. António eílando 
condemnado , e dcíhaturado , como dito 
he , fem noífa licença , e authoridade fe 
veio inetter na Villa de Santarém , acom- 
panhado de muita gente fediciofa j e re- 
belde , induzindo os Procuradores das Cor- 
tes a rebeliioes, e defobediencias, encami- 
nhadas todas ao alevantarem por Rey : pe- 
lo que nos foi neceíTario pêra quietação 
da pátria defpedir Cortes fem refoluçao 
alguma do que tanto importava , por quan- 
to também por Direito ficavam quebradas, 
c diíTolutas com o falecimento do dito 
Senhor Rey , que as mandou ajuntar. E 
poílo que nos confiava da tenção do dito 
Senhor Rey D. Filippe , nos foi muitas 
vezes mandado requerer , conforme a ella > 
e á notoriedade de fua juftiça , que o juraf- 
feitios por Rey natural deites Reynos , e 
Senhorios , offerecendo-nos por fua Reaí 
clemência, e benignidade privilégios, hon- 
ras , e mercês em grande utilidade a Re- 
publica Portugueza , como entendia que o 
dito Senhor Rey feu Tio defejava : fem 
embargo dç tudo , nós receando haver tu- 

C ii nvul- 



36 ÁSIA de Diogo de Couto 

muitos, e grandes defordens por parte do 
dito D. António , e dos rebeldes , e des- 
leaes que o feguiam , o não fizemos ; e íen- 
do-nos com grande inílancia por muitas 
vezes proteílado por parte de S. Mageíta- 
de , que o fízefíemos , como éramos obri- 
gados , fenao que entraria com exercito a 
tomar poíle dos ditos Reynos , como de 
Direito Divino , e Humano entendia que 
o podia fazer , querendo nós proceder 
jniíro com a quietação que convinha aos di- 
tos Reynos , e a toda a Chriftandade, man- 
dámos outra vez ajuntar Cortes, as quaes 
o dito D. António novamente começou de 
perturbar, induzindo, e felicitando alguns 
dos Procuradores delias a feguir fua par* 
cialidade , e ao levantarem por Rey, fen- 
do nós , por caufa das enfermidades da 
Villa de Almeirim , e por outros refpeitos > 
mudados á Villa de Setuval pêra nella fa- 
zermos as ditas Cortes , e darmos ordem 
á quietação pública , com declarar o dito 
Senhor Rey Catholico por legitimo fuecef- 
for da Coroa dos ditos Reynos , com ho- 
neftos , e proveitofos meios de concerto pê- 
ra o bem commum , feguindo niífo a ten- 
ção do dito Senhor Rey D. Henrique. 
Tendo o dito D. António entendido efta 
noíla determinação, e que tinha por muito 
certo que todos os Eítados çoníentiriam 

ncl* 



Década X. Cap. VL 37 

nella , como já em vida do dito Senhor 
Rey tinham confentido os ditos dous Es- 
tados Eccleíiaftico , e da Nobreza, e mui- 
ta parte do Eílado no povo , na Villa de 
Santarém aos dezanove dias do mez de 
Junho paliado com alguma gente fedido- 
fa, e rebelde, convocando, e alvoroçando 
grande parte da gente popular com gran- 
des tumultos , quebrando as portas da Ca- 
mará da dita Villa, tirou a bandeira Real 
que nella eílava , e pelas ruas fe fez ap- 
pellidar por Rey contra vontade do Alcai- 
de Mor , que não pode fazer a reíiílencia 
que convinha pelo tomar defapercebido y 
e contra vontade dos Officiaes da Gamara > 
que entendendo aquella injuíta rebelliao, e 
alevantamenro , fe aufentárao , por fe não 
acharem prefentes a ella , e dahi fe foi a 
Lisboa \ e achando-a defpejada da gente 
Nobre por caufa da peite , fez alevantar 
alguma gente do povo , e proacclamar-fc 
Rey , mettendo-fe na Cala Real com gran- 
des tumultos , e extorsões , contra vontade , 
e com grande perturbação de todos os Of- 
ficiaes da Camará , de que os mais fe au- 
fen taram , e vieram fugindo a nós á dita 
Villa de Setuval , e todos os mais bons , c 
leaes , que não oufáram de lho contradi- 
zer , nem de refiftir á fúria dos fediciofos , 
c rebeldes que o feguiam contra o jura- 

men- 



38 ÁSIA de Diogo de Couto 

mento que tinham feito de obediência , e 
lealdade ao Governo , e Regimento delle. 
E fcndo-lhes notório não pertencer ao di- 
to D. António a fuccefsão dos ditos Rey- 
nos, e náo fer legitimo, e íer condemna- 
do , e defnaturado por desleal , e rebelde 
a feu Rey, e Senhor, como dito he; e fe- 
guindo todos os feus fequazes fua contu- 
mácia , deslealdade , e rebellião em tanto 
deilerviço de Deos , e perturbação , e def- 
quietaçao do Reyno , e de toda a Repu- 
blica Chriftã , vieram fobre nós na dita 
Villa de Setuval , onde eftavamos , aífim 
pêra nos matarem , como a outras muitas 
peflbas illuftres do Confelho de Eítado , e 
outras que pertendiam a paz , e quietação 
pública , do qual infulto , e traição eíca- 
pámos com muito perigo. E ora poílos em 
noíía liberdade, declaramos ao dito D. An- 
tónio por inimigo da pátria, e desleal, e 
rebelde contra ieuRey, e Senhor natural > 
e a todos os que o feguem , ou tomao , 
ou tomarem fua voz ; e os havemos por 
condemnados em todas as penas eítabele^ 
cidas por Direito, e pelas Leis ordenadas, 
e coftumes deftes Reynos , e Senhorios de 
Portugal , em que incorrem os taes rebel- 
des , e desleaes, e mandamos que fe exe- 
cutem nelles com todo o rigor de juíliça , 
€ fe cumpra íiílim mefmo , e execute em 

fuás 



Decàba X. Caf. VL 39 

fuás peííbas , e fazendas a fentença que 
o dito Senhor Rey D.Henrique pronunciou 
contra elle dito D. António , e feus fequa- 
zes; e damos authoridade aos vaíTallos de 
quaefquer peffoas que agora feguem, e ao 
diante feguirem , que poffam por íi fó to- 
mar a voz de EIRey , e ficar realengos , e 
izentos de feus fenhorios , e jurifdicçoes ; 
e conformando-nos outro fim com a tenção 
que o dito Senhor Rey D. Henrique acer- 
ca da fuccefsao , e com o recado que man- 
dou á Junta das Cortes pelo Bifpo de Lei- 
ria : e por aífim o entendermos por Letra- 
dos com quem communicámos eíla matéria 
de fuccefsao , declaramos ao dito Senhor 
Rey Catholico D. Filippe por noífo Rey > 
e Senhor natural , havendo outro fim ref- 
peito ás muitas graças > e mercês , privilé- 
gios, liberdades, e franquezas que S. Ma- 
geftade ha concedido a eftes Reynos : e 
aílim o notificamos a todos os Duques , 
Marquezes , Condes , Prelados , Regedor 
da Juftiça da Cafa da Supplicação , e Go- 
vernador da Cafa do Civel , e Defcmbar- 
gadores das ditas Cafas , Alcaides Mores , 
Corregedores , Juizes , Vereadores , Procu- 
radores , Miíteres , Alcaides dos Caftellos , 
e Fortalezas , Fidalgos , Cavalleiros , Ef- 
cudeiros , Officiaes , e Homens de bem , 
de qualquer qualidade , e condição que 



40 ÁSIA de Diogo de Couto 

fejam , de todas as Cidades , Villas , e lu- 
gares de todos os ditos Reynos , e Senho- 
rios , e mandamos a todos em geral, e a 
cada hum em eípecial , fob cargo de jura- 
mento de fidelidade, que receberam, e íob 
pena de cafo maior, que hajam ao dito Se- 
nhor D. Filippe por Rey , e Senhor natu- 
ral noílb , de todos os ditos Reynos , e 
Senhorios da Coroa de Portugal , como 
de Direito o lie, e lhe pertence, e por tal 
o obedeçam, e lhe entreguem todas as For- 
talezas , e Caílellos de todas as Cidades , 
Villas , e Lugares , obedecendo a elle , e 
a feus mandados no alto , e no baixo , co- 
mo de feu verdadeiro Rey , e Senhor na- 
tural que he , e o jurem por tal , fazen- 
do-lhe o juramento, e omenagem devido, 
íegundo o coftume dos ditos Reynos : e ha- 
vemos , e declaramos por traidores , e de£ 
leaes todos os que o contrario fizerem 
defde o dia que á fua noticia vier eíla 
noíía declaração , e que incorram cm to- 
das as penas eftabelecidas por Direito, em 
que os taes incorrem ; e pêra eíle effeito 
alevantamos , e havemos por levantados 
quaefquer juramentos , e omenagens que 
pelo dito Senhor Rey D. Henrique , ou 
por nós, ou por noííb mandado fejam to- 
mados , e recebidos de quaefquer peíToas , 
e os transferimos, e trafpaífamos cm favor 

de 



Década X. Cap. VI. 41 

de S. Mageftade Catholica , como fe por 
elle, e por feu mandado lhe foram toma- 
dos, E pêra certeza de tudo , mandamos 
pa(Tar efte Alvará , por nós aílignado , c 
valerá como Carta , e não paliará pela 
Chanceliaria , fem embargo das Ordenações 
do fegundo Livro Titulo vinte , que o 
contrario difpõem. E no cafo que pêra 
tudo o fob redito haver cumprido effeito, 
as havemos aqui por expreflas , e declara- 
das : e mandamos que tudo fe cumpra, e 
guarde , como fe nefte contém , fem em- 
bargo de quaefquer Leis , e Ordenanças y 
ou coftumes que em contrario haja , por- 
que todas as havemos por derogadas j viita 
a qualidade do cafo , e do tempo , e fem 
embargo da Ordenação do fegundo Livro 
Titulo quarenta e nove , que diz que fenao 
entenda derogada Ordenação alguma , fe 
delia , e da fubítancia delia fe não fizer 
exprefla menção. Eu Chriftovao Velho, 
Efcrivão da Camará deíla Villa de Caibro- 
Marim 5 fobfcrevi o Alvará affima, efcrito 
por mandado dos Senhores Governadores y 
e em fua prefença , hoje dezefete de Ju- 
lho de mil quinhentos e oitenta annos. D. 
João Mafcarenhas. Francifco de Sá. Diogo 
Lopes de Soufa. Chriftovao Velho. 



CA- 



42 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO VIL 

Do grande património que EIRey Filippe 
herdou em todo ejie Oriente , com todos 
os Reynos de Portugal : e do eftado 
em que nejle tempo ejlavam as coufas 
da Índia. 

JA que temos jurado EIRey D. Filippe 
por Rey , fera bem que moftremos o 
grande património que em todo eíte Orien- 
te herdou com os Reynos de Portugal , e 
o eitado em que as coufas da índia eíta- 
vam polias , que nas noífas Décadas atrás 
temos dado largamente conta de todas; 
mas pois entramos com Rey novo , dare- 
mos nova relação delias , e faremos huma 
breve defcripçao de todo eíte Oriente: 
pelo que feha faber, que eíta muito gran- 
de , e muito rica Província , a que com- 
mummente chamamos índia, deixando a di- 
visão que delia todos os Geógrafos fa- 
zem, pois por ora pertendemos fó moítrar 
o que dizemos , a dividiremos em íinco 
partes , conformando-nos affim com o mef- 
mo titulo que delia os mefmos Reys de 
Portugal em feu novo defcubrimento to- 
maram ', como com as notabiliíTimas divifas 
com que a natureza feparou humas das ou- 
tras ; e aífim a primeira fera a Ethiopia, 

íe- 



Década X. Cap, VIL 45 

fegunda Arábia , terceira Períia , quarta 
índia, e a quinta afaremos daquella gran- 
de multidão de Ilhas, filhas daquelle Indi- 
co Oceano, que todas juntas podem conf* 
tituir huma tamanha, ou maior .parte , que 
qualquer das outras , em que os Reys de Por- 
tugal ganharão , e conquiítárão muitos ricos 
Rcynos , e Senhorios , como logo fe verão. 
Comecemos logo pois com a primeira 
parte , que he a Ethiopia , que por encur- 
tarmos , faremos do cabo das correntes até 
á boca do íino Arábico , que em íi contém, 
tanto numero de cafres barbariffimos , e 
idólatras, como na nona Década fe pode- 
rá ver , poílo que o mais do marítimo , e 
todas as Ilhas adjacentes ás fuás cofias 
fejam povoadas de Mouros , e Mozardis, 
que por feguirem a Zaide , neto de Doce , 
filho d'Ale, cafado com Oxa, filha de Ma- 
famede , e terem algumas opiniões contra 
o Alcorão , havendo os Arábios por heré- 
ticos , os perfeguírao de feição , que lan- 
çados da terra, foram povoar eftas partes, 
mifturando-fe porcafamentos com os cafres 
naturaes d 5 antre quem nafcêram huns mif- 
tiços , a quem chamão Badius , que habi- 
tam o certao de toda aquella coíla defde 
Melinde até o Cabo de Guardafú , gentes 
cruéis , e ferozes , que fe mantêm de rou- 
bos , e ladroices. 

At 



44 ÁSIA de Diogo de Couto 

Affim que tornando a eíla parte que 
liiamos dizendo , nella poíTuem os Reys 
de Portugal as Fortalezas de Çofala no 
Reyno de Quetive , e no de Monomotapa 
os dous Fortes de S.Marçal no Senna , e 
o de Sant-Iago em Teti , mais de cento e 
íincoenta léguas pelo grande rio de Cua- 
ma allima : affim de huina , como da outra 
parte ha muitos Reys vaífallos , que Fran- 
cifco Barreto fujeicou á Coroa de Portugal , 
como na nona Década dizemos na deferir 
pçao de toda eíla cafraria com o coramer- 
cio de todas as minas do Monomotapa, 
Malucas , Bunca , Butua , e todas as mais : 
correndo a coíla adiante , poíTuem a For- 
taleza de Moçambique com todos os Reys 
da coita de Melinde , Guiloo , Mombaça , 
onde já tem Fortaleza , aMopate , Atodo, 
JSio , Calife , Oía Brava com todas as Ilhas 
adjacentes: aquella cofta , que todos pagão 
páreas , e obedecem como valíallos , tudo 
iíto fe comprehende debaixo do titulo da 
Ethiopia , que fe divide da fegunda parte , 
que he Arábia , pelo famofo fino Arábico , 
ou mar Roxo, como vulgarmente lhe cha- 
mam. 

Efta fegunda parte da Arábia (a que 
os Mouros dizem Aymam) femeou a na- 
tureza daquelía multidão de Mouros Ará- 
bios já differentes em feita dos Mofaides 

atrás , 



Década X. Cap, VIL 45* 

atrás , por feguirem a Bubal , a Oumar , e 
a Othoman, que elles hão por verdadeiros 
Califes. Em eíla parte eftá aquella abomi- 
nável cafa deMafamede com tanto oppro- 
brio ? e affronta da Religião Chriíta , e to- 
da hoje he fubmettida ao Império Otoma- 
no , e nella ganharam os Reys de Portugal 
muita parte + e ainda hoje poíluem os pon- 
tos do Coriate , Calaiate com a nova For- 
taleza de Mafcate , e mais Xeques vizi- 
nhos de Soar , Coifaçao , e Çofala com o 
celebrado Reyno , e Ilha de Baharem, 
muito famofa pelas pérolas excellentes , e 
finas que nella ha , e com mais de vinte 
léguas de coita, em que eííam as Cidades de 
Lafa , e Catifa governadas por Xeques de- 
baixo da jurifdicção do Capitão de Ormuz. 
Efta íegunda parte fe divide da Periia 5 
que he a terceira , por outra baliza não 
menos notável , que he o íino Períico , a 
que commummente chamamos eftreito de 
Baçorá : também nella terceira parte a na- 
tureza prantou outro género de Mouros 
differentes em creança , é ritos dos Ará- 
bios , por feguirem a Ali , neto de Mafa- 
mede , que elle por fua morte deixou no- 
meado no Califado , fobre que huns , e 
outros tem de contínuo grandiffimas guer- 
ras , por haver a Abudas, a Oumar, e a 
Othomar por fcifmaticos. 

Nef- 



46 ÁSIA de Diogo de Couto 

Nefta terceira parte , a que commum- 
mente chamamos da Periía , lendo na ver- 
dade da Provinda .... como temos já em 
outras partes dito , pofíueni os Reys de 
Portugal o muito formofo rio Indo. E por- 
que efta parte he tamanha , a dividiremos 
cm duas com a divisão dos Geógrafos, 
que he dentro , e fora do Ganges ; e co- 
meçando pela parte de dentro do Ganges, 
he tudo o que jaz do mefmo rio , indo 
até á boca do celebrado Ganges } que fe 
eftende por huma , e outra coita mais de 
quinhentas e lincoenta léguas , que he to- 
da povoada de dous géneros de gentes , 
bem diíferentes em ritos , leis , e coftu- 
mes : huns Mouros , a que chamão Soneis , 
que de trezentos annos a efta parte fe fe- 
nhoreárao de todo efte Induftão ; os outros 
naturaes, gentios, idólatras, também mui- 
to diíferentes em Religião. Nefta parte 
dentro do Ganges tem os Reys de Portu- 
gal a mor parte defeu património, ganha- 
do , e fuftentado com o fangue de muitos 
Martyres ; e começaremos da fermofa Ci- 
dade deDio, de quem podemos dizer , que 
em Fortaleza , e mageftade pode compe- 
tir com todas as da Europa ; que quando 
os Portuguezes entrarão em a índia , era 
cabeça do potente Reyno de Cambaia \ e 
quafi oppoíta a ella çftá a muito forte , e 

fer- 



Década X. Cap. VIL 47 

fermofa Cidade de Damão , como portai 
que fecham toda aquella enfeada , com as 
Tanadarias , e Fortalezas de fua jurifdic- 
ção , que palia de vinte e quatro léguas, 
povoadas de fertiliffimas , e abundantiffimas 
aldeãs, cujos foros rendem ao Eítado mui* 
to. Vai adiante deite rio Agaçaim até o de 
Bombaim, que ferao oito léguas, a famo- 
fa Cidade de Bacaim com as Tanadarias , 
e Fortalezas de fua jurifdicçao , que são 
AíTari , Manorá , Agaçaim até Bandorá, 
Taná , Curanjá, com a efpantofa Ilha de 
Salfete, que pelos foberbos , e raros Pago- 
des que nella ha , fe moílra que foi já ca- 
beça de todos eftes Reynos : até aqui che- 
garam os limites do antigo Reyno de Cam- 
baia. He efta Cidade de Bacaim das me- 
lhores , e mais bem povoadas de todas as 
da índia , por haver nella muitos , e prin-» 
cipaes Fidalgos com rendas , e aldeãs 
muito groíTas de que fe fuítentam: vai lo- 
go abaixo a rica , e fermofa Cidade de 
Chaul , celebrada hoje pelo grande, e ef- 

Í^antofo cerco , como o que o Iííamaluco 
he poz , com fetenta mil combatentes , 
fendo rafa , fem muros , cavas , nem ba- 
luartes , fenão defendida do Capitão Mór 
D. Francifco Mafcarenhas, que depois foi 
Vifo-Rey dos Eftados da índia , coma 
nefta Década fe verá ao diante , que foi 

hum 



48 ÁSIA de Diogo de Couto 

hum iníigne Capitão , e com os peitos dos 
valerofos Portuguezcs , que fempre o fo- 
ram de fuás Cidades : mais adiante pof- 
fuem os Reys de Portugal aquella muito 
frefca , e muito rica Ilha de Goa , cabeça 
de todo eíle Eftado , cuja antiguidade íe 
não acha em alguma outra eícritura ; mas 
acha-fe que foi fempre tão continuada , e 
eftimada dos eílrangeiros , que andava en- 
tre elles por adagio : Vamo-nos recrear ás 
frefcas fombras de Goa , e a goftar a doçu- 
ra do feu bethele ; e aíllm lhe chamaram 
por excellencia Geomonti , que he o feu 
verdadeiro nome , que em fua lingua quer 
dizer terra profpera ; e pela continuação 
do nome vieram os naturaes por abbreviar 
a lhe chamar Goe > tirando-lhe o monti ; e 
vindo-ihe nós a mudar a letra e , lhe cha- 
mamos Goa , nome por que he conhecida 
em todo o Oriente : os naturaes lhe cha- 
mam Frifvari , que quer dizer trinta Al- 
deãs , por outras tantas que tem , que todas 
são já povoadas de Chriftaos , repartidos 
por dez , ou doze Freguezias , que ha por 
fora da Ilha, não failando na Cidade, em 
que ha mais de feífenta mil Chriftaos, Ef- 
ta Ilha com as terras firmes de Salfete , e 
Bardez , que são da Coroa de Portugal, 
rendem muito ; e difeorrendo pêra baixo 
até ao Cabo Camarim na coita do Cama* 

raro , 



Década X. Cap. VIL 49 

ranij eílao as Fortalezas de Onor, Barce- 
lor , Mangalor, e adiante no Malavar Ca- 
nanor, Cranganor, Ceilão ; e como cabe- 
ça de todas a fermofa Cidade de Cochim, 
feira , e amparo das náos de Portugal , e 
de todas as partes do Oriente ; que ainda 
que não he grande em renda , todavia he 
fumptnofa em mageílade de Templos , e 
edifícios. 

E voltando-fe o cabo , vai toda a cof- 
ta das pefcarias ? em que os Padres da 
Companhia tem trazido ao canal da Igre- 
ja Catholica mais de feílenta mil almas, 
tiradas > e arrancadas daquellas trevas , e 
abominações , em que o demónio tantas 
centenas de annos trouxe cegas , e efcon- 
didas; e paliando adiante, eftatn as Cida- 
des de Negapatao, e S. Thomé com algu- 
mas outras povoações ricas , e portos ; que 
ainda que não são patrimoniaes dos Reys 
de Portugal 5 são povoados de feus vaííal- 
los com Capitães léus , regidos , e gover- 
nados pelas Leis de feus Reynos : por to- 
da efta coita tem os Padres Menores tra- 
- balhado muito bem na propagação da Lei 
Evangélica , com grande exemplo, e cari- 
dade. 

Efta parte de dentro do Ganges vai 
fenecer naquelle tão famofo , e celebraco 
no, em que começa a outra parte doGan- 
Qouto. Tom, VL F. L D ges 



yo A S I A dé Diogo de Couto 

ges pêra fora , c vai fenecer no grande 
Reyno de Cambaia , onde a natureza com 
outra notabiliííima divifa , que he o rio 
Micon , que na lingua dos naturaes quer 
dizer Capitão das aguas , feparcu a índia 
daquella famofa , e muito grande região , 
a que Ptholemeu chama Cinarú Régio. 
Efta parte da índia fora do Ganges he po- 
voada de outros Gentios , peiores , e mais 
nefandos em torpeza de ritos, ecoftumes, 
e nella poííuem os Reys de Portugal a 
muito celebrada , e nomeada Cidade de 
Malaca , throno , e cabeça de todo o 
Reyno Maluco , efcala principal de tedas 
as partes Orientaes de dentro , e fora do 
Ganges , e famofa pelos dous grandes , c 
cruéis inimigos que de ambas as partes 
tem , Rajale Rey de Zor, e o Achem, fe- 
nhor de toda a Ilha Çamatra , com es 
quaes continuamente tem grandes , e im- 
portunas guerras , e dos quaes tem alcan- 
çado grandes, e famofas vitorias por mar, 
e por terra , como pelo decurfo de todas 
as noíías Décadas fe verá. 

Aqui acabamos a quarta parte da noíTa 
divisão , que he a índia , e começaremos 
a quinta , que he a que fazemos de todas 
as Ilhas , filhas de todo o Oceano Orien- 
tal , que por fi podem conftituir hum ar- 
razoado Império ; e começaremos das tan- 
tas 



Década X. Cap. VIL yt 

tas mil Ilhas de Maldivas , cujo Rey hc 
Chriftão , vaíTallo obediente, e que reíide 
na Cidade de Cochim com fua mulher, 
e cafa ; a celebrada Ilha de Ceilão , onde 
eílá a Fortaleza de Columbo com os Rey- 
nos de Janapatao (que he vaíTallo) e da 
•Cota , e Candea , de que os Reys de Por- 
tugal são verdadeiros Senhores pelas per- 
filhações , e doações que delle lhe fizeram 
EIRey D.João da Cota , e D. Filippe de 
Candea, com a Ilha , e Fortaleza de Ma- 
nar , com toda a peícaria do aljôfar, que 
rende hum bom quinhão : e paliando de 
aqui a Nafcente , vai o fenhorio de todo 
aquelle Archipelago de Maluco , de cujas 
Ilhas , que são muitas , das principaes que 
pertencem ao Reyno de Ternate , he EI- 
Rey de Portugal direito , e verdadeiro 
Rey , conforme ao novo titulo que delle 
tem tomado : tem as Ilhas , e Fortalezas 
de Ambcino em a grande região da Chi- 
na : tem também a Ilha deMacáo, em que 
cftá fundada a melhor , e a mais profpera 
columna que os Portuguezes tem em todo 
o Oriente, e que já eílá feita Bifpado, 

E na coita de Japão tem as Ilhas de 
Solor, e outras, em que os Padres da Or- 
dem dos Pregadores tem colhido tal fruto 
da femente Evangélica , que por todas fe- 
jneárão , que pela mifericordia de Deos 

D ii ha 



$2 ÁSIA DE DíOGO DE CoUTO 

ha paíTante de feííenta mil Chriftãos , en- 
tre os quaes foram alguns Reys , e Senho- 
res Principaes : efte he o património que 
EIRey D. Filippe herdou , e dos Reynos 
de Portugal , dado , e confirmado aos Reys 
feus PredeceíFores em perpétua doação pe- 
los Pontifices Martinho V. Eugénio IV., 
Nicoláo V. , e Xiílo IV. Com muito gran- 
des , e liberaes privilégios , que fe verão 
nas meímas Bulias Apoítolicas , que devem 
eílar nos Tombos do Reyno , e não hou- 
veram pêra bem de faltar na índia , onde 
he feu próprio lugar , onde não ha nada, 
como fe eíte não fora hum Eitado pêra fe 
eílimarem muito fuás antiguidades , que 
wão fe acharam mais que nas noilas Déca- 
das cavadas com puro trabalho meu , e 
fem nenhum dos Viíb-Reys , e Capitães, 
em quem nunca achámos favor pêra nada , 
ao menos pêra o negocio da Torre do Tom- 
bo , que EIRey D. Filippe mandou logo 
fundar na índia , onde fe não tem lançado 
o que elle manda por fuás inftrucçóes , e 
os refpeitos elles os faberão ; mas todavia 
he falta, e muito grande pêra a Efcritura, 
e ainda pêra o bom governo do mefmo 
Eftado. E tornando ao noííb fio , quando 
EIRey D. Filippe foi jurado por Rey nef- 
tes Eílados , era Governador da índia Fer- 
não Telles, e aSéVacante, por haver pou- 
co 



Década X. Cap. VIT. 5^ 

co antes falecido oArcebifpo D. Henrique , 
como dizemos ; Capitão da Cidade de Goa 
D.Triítão de Menezes; de Çofaia , e Mo- 
çambique D. Pedro de Caítro ; de Ormuz 
D.Gonçalo de Menezes; de Dio D.Pedro 
de Menezes ; de Damão Martim AíFonfo 
de Mello ; de Baçaim D. Manoel de Al- 
mada ; de Chaul D.Fernando de Caítro; 
de Cananor Jorge Toícano ; de Cochim 
D. Jorge Baroche ; de Columbo em Ceilão 
Manoel de Soufa Coutinho ; de Malaca 
D.João da Gama ; de Tidore em Maluco 
D. Diogo de Azambuja ; e todos eítavam 
com os olhos poítos no Reyno efperando 
o fim de fuás coufas , porque da quietação 
delle dependia o remédio de todo eíte E£ 
tado. 



CA- 



^4 ÁSIA dê Diogo de Couto 

CAPITULO VIII. 

De como o Governador Fernão Telles def- 
pedio Mattheus Pires com Procuração 
baftante pêra todas as Fortalezas do 
Norte ; pêra jurar por todas EIRey D. 
Filippe : e do avifo que mandou a EIRey 
por terra , que levou Jeronymo de Lima : 
e de como Mathias de Albuquerque foi 
apôs huns Par aos , que tomou em Cara- 
patão. 

F Eitos todos os autos, e entrega da ín- 
dia, entendeo o Governador em man- 
dar ás Fortalezas do Norte , e Sul fazer as 
meímas diligencias , e avifar por terra EI- 
Rey D. Filippe de como ficava obedecido 
por Rey , fem inconveniente algum ; por- 
que como não havia de faltar no Reyno 
quem lhe diíTeíTe a natureza dos homens 
da índia 5 e pela ília izenção lhe haviam 
de fazer o cafo duvidofo , quiz fer certifi- 
cado do pouco alvoroço que caufou aquel- 
la novidade , porque não metteffe naquelle 
negocio outro maior cabedal , o que tudo 
quiz ter feito primeiro que chegaíTem as 
náos do Reyno , em que eftava certo vir- 
lhe fucceííbr , por lhe ler ganhado por 
mão , e a elle ío ficar devendo EIRey ta- 
manho fervico j e com muita brevidade 

def- 



Década X. Cap. VIIL 57 

defpedio Martheus Pires , que fora Secre- 
tario de Eílado da índia , com os traslados 
de todos os papeis , e cartas que vieram 
por terra, e o fobeílabeleceo por Procura- 
dor pêra ir a Baçaim , Chaul , Damão , e 
Dio fazer jurar ÊlRey D. Filippe por Rey 
de Portugal ; e efereveo a todos aqueiies 
Capitães , que logo fe fizeíTe aquelle aíto , 
e lhe mandaíTem inítrumentos pêra mandar 
ao Reyno; e por não gaitarmos outro Ca- 
pitulo niíto , todos tomaram a fuccefsão 
de EIRey D. Filippe no Reyno de Portu- 
gal muito bem , e deram fuás menagens , e 
fizeram juramentos com a mor folemnidade 
que pode fer. No mefmo tempo defpedio 
o Governador outro navio pêra as Forta- 
lezas do Sul com procuração a peífoas de 
authoridade em todas ellas pêra fe fazer o 
mefmo , como fizeram fem contradkcao aL- 
guma. E porque eítava huma náo pêra par- 
tir pêra Malaca ? lhe fez dar preífa, e man- 
dou todos os traslados na fentença , pa- 
peis, e procuração a D.João da Gama, Ca- 
pitão daquella Fortaleza , pêra fazer a mef- 
ma ceremonia , e os papeis entregou a 
Pafcoal Machado , que hia pêra fervir os 
cargos de Feitor, e Alcaide Mor da mefma 
Fortaleza. 

Defpedidas eftas embarcações todas , 
tratou de mandar recado por terra a EI- 
Rey 



5*6 A S I A de Diogo de Couto 

Rey D. Filippe, como lhe elle encommen- 
dava muito na carta que efcrevia ao Viíb- 
Rey D. Luiz de Ataíde , e lhe mandou 
mie affim por terra , como por mar o avi- 
laíle logo de tudo o que paííaíTe , e elegeo 
pêra efta jornada Jeronymo de Lima, Tol- 
dado prático nas couías da índia , e lhe 
deo cartas pêra EIRey , e hum inftrumen- 
to de como ficava obedecido pacificamen- 
te , e o mandou embarcar em huma fufta 
pêra Ormuz pêra de lá ir pela via de Bá- 
cora , encommendando aquelle negocio 
muito por cartas a D. Goníalo de Menezes, 
a quem mandou outra via de levar hum 
Judeo natural daqueila Cidade ; e além def- 
ta mandou hum Veneziano , e ordenou def- 

})edir hum Veneziano por via de Sues , e 
he deo cartas em cifras , e o mandou em 
hum Catur y de que era Capitão Diogo 
Nunes Pedrofo , bem antigo naquelles et 
treitos 3 e lhe deo por regimento que foíFe 
tomar Caxem , e entregaffe o Veneziano 
áquelle Rey , a quem efcreveo, e encom- 
niendou muito , que déffe ordem com que 
dalli paííaíTe a Sues pêra dalli ir a Ale- 
xandria. Eíie homem havia de ir em tra- 
ges de Mouro com algumas mercadorias , 
e da viagem de ambos adiante daremos 
razão. 

Partidos eítes navios, que foram aos 16 

dias 



Década X. Cap. VIII. 57 

dias do mez de Setembro , deram recado 
ao Governador , que pela barra de Goa 
páíTárain quatro paráos de Malavarcs pêra 
a banda do Norte ás prezas ; e porque fe- 
nío acudiíTe Jogo, podiam fazer muito da- 
mno nos navios dos Mercadores Portugue- 
zes , que das Fortalezas do Norte naquelie 
tempo vem pêra Goa a buícar as náos do 
Reyno , de que já eram chegados alguns, 
mandou chamar Mathias de Albuquerque, 
e foi-fe pôr no cães , e mandou tomar os 
navios dos Mercadores , que eram vindos 
do Norte , por eftarem mais preítes, com 
muitos marinheiros , e mantimentos , e 
mandou a Mathias de Albuquerque que 
logo fe embarcaííe nelles , e folie apôs 
aquelles navios até os enfacar. Os Fidal- 
gos 3 e Cavalleiros como fouberam que o 
Governador eftava no cães , acudiram a el- 
le, e os primeiros que chegaram tomaram 
os navios que acharam , entulhando-fe logo 
de muito boa foldadefca , que lhe acudio 
com fuás armas já ao rebate. Mathias de 
Albuquerque deo-fe tanta prefTa , que no 
efpaço de féis horas fe embarcou ; porque 
aííim elle , como os mais Capitães , que o 
haviam de feguir, das embarcações manda- 
ram tomar o pão , e outro mantimento que 
pelas praças fe achou , com as camizas 
com que andavam, e fuás armas fe affaftá- 

ram 



58 ÁSIA de Diogo de Couto 

ram do cães , onde o Governador efteve 
fempre até os defpedir : hiam neíta jorna- 
da dez navios , de que eram Capitães D. 
Gileanes Mafcarenhas , André Furtado de 
Mendoça , António de Azevedo , Cofme 
de Laretar , João Rodrigues Coutinho , 
Gonfalo Tavares j D. Manoel de Menezes , 
D. Jeronymo de Azevedo , e outros que 
não lembrao ; e fazendo-fe á vela , foram 
tomando falia por todos os portos por on- 
de paíTavani ; e dos negros de huma Alma- 
dia que acharam , a quem o Capitão Mor 
mandou dar dez cruzados , porque lhe fal- 
iafíem verdade , foube eftarem os paráos 
cm Carapatao ; e apreíTando-fe , chegaram 
áquelle rio já de noite ; e entrando dentro , 
íbuberam que era verdade o que lhe difle- 
ram. Os paráos eítavam na povoação , que 
he mais de quatro léguas pelo rio aííima ; 
c tomando o remo na mão , e poítos em 
armas , foram caminhando pêra fima com 
a enchente da maré, porque determinou o 
Capitão Mor ir tomar os paráos aonde ef- 
tiveíTem , fem ter nenhuns cumprimentos 
com o Tanadar da terra , e toda a noite 
foram remando , e no quarto d 5 alva chega- 
ram perto delles. André Furtado , António 
de Azevedo, D.Manoel de Menezes, que 
hiam diante , por levarem melhores navios , 
chegaram aos paráos , e fem fazerem de- 

ten- 



Década X. Cap. VIIL $9 

tença , lhe puzcram logo as proas > e lhe 
lanharam dentro huma iurriada de panelas 
de pólvora : os Mouros em fentindo fogo , 
logo fe lançaram ao mar , e fe fal viram 
em terra > ficando os navios defpejados ; e 
ferrando André Furtado de huma galeota > 
e António de Azevedo de outra , que eram 
as que acharam , deram-lhe cabo , e as af- 
faftáram pêra fora , e D, Manoel de Mene- 
zes rendeo , e levou comíigo os outros 
dotis 5 que eram calemutes. Todos eítavarn 
com todo o feu recheio ; e ifto não pode 
fer tão deprefla , que primeiro não acudif- 
fem muitos da terra ás efpingardadas aos 
noífos. 

O Capitão Mor ao eítrondo da arcabu- 
zaria apreíTou-fe tudo o que pode , e che- 
gou aos navios a tempo que já traziam os 
paráos a vela , e vinha amanhecendo ; ç 
porque não havia já que fazer \ fe tornou 
pêra a boca do rio , onde gaílou todo a- 
quelle dia , e ao outro fe fez á vela pêra 
Goa 5 levando os navios á toa os Capitães 
que os tomaram. E fendo tanto avante 
como os llheos queimados , houveram vif- 
ta de huma náo , que no velame lhe pare- 
ceo do Reyno ; e indo a ella , fouberam 
fer a náo Caranja , de que era Capitão 
João de Mello da Armada de D. Francifco 
Mafcarenhas ? que vinha por Vifo-Rey dá 

In- 



6o A S I A de Diogo de Couto 

índia , de quem não davam novas , porque 
não tomaram Moçambique 5 onde podia fer 
que elie fe detiveíTe , e que náo poderia 
tardar muito ; e fabendo as novas todas do 
Reyno , largando a náo , e dando ás velas , 
chegaram de noite á barra de Goa , e ha- 
vendo oito dias que delia tinham partido. 
Mathias de Albuquerque fez furgir a Ar- 
mada fora , e tomou huma Almadia , e met- 
teo-fe nella, fem dar conta a ninguém ; e 
chegando a Pangim , tomou hum Balão do 
Tanadar , em que foi ter a Goa , onde o 
Governador eítava ; e entrando com elle , 
lhe deo conta do que era paliado em fua 
viagem , e das novas do Reyno, que elle 
tinha já fabido por Jeronymo da Silva, 
Meítre da carreira da índia , que tinha 
mandado á coita em hum navio ligeiro a 
efperar as náos i que aquelle anno haviam 
de vir do Reyno ; e depois de praticarem 
em algumas coufas , lhe pedio o Governa- 
dor fe tornaíle pêra a Armada , e que ao 
outro dia entraííe, porque lhe queria fazer 
recebimento , o que elle fez. E ao outro 
dia foi entrando com os navios dos corfa- 
rios, ainda que alguns Capitães fe adianta- 
ram fem efperarem por elle, O Governador 
q recebeo muito bem , e fez mercê em nome 
de EIRey dos navios inimigos com todo o 
feu recheio aos Capitães que os tomaram, 

E 



Década X. Cap. VIII. 61 

E no mefmo dia mandou defpejar as cafas 
de Santos , que foram de António PeíToa, 
e mandou panar o feu fato pêra ellas , por 
ter a Fortaleza defpejada pêra quando o 
Vifo-Rey chegaíTe. Ao outro dia furgio a 
náo Caranja na barra , e apôs ella a náo 
Salvador , de que era Capitão Pedro Lo- 
pes de Soufa , que vinha defpachado com 
a Capitania de Malaca , que também não 
dava novas do Vifo-Rey* 

CAPITULO IX. 

De como EIRey D. Filippe elegeo D. Fran- 
cifco Mafcarenhas por Vifo-Rey da In~ 
dia : e do contrato que fez das náos da 
Carreira : e do que aconteceo a Francif- 
co Mafcarenhas na viagem até chegar a 
Goa. 

DEsbaratada a batalha de Alcântara , e 
defapparecido o Prior do Crato do 
Reyno , paflbu-fe EIRey D. Filippe a El- 
vas 5 aonde acudiram os Grandes do Rey- 
no , e os Procuradores das Cidades a lhe 
darem a omenagem, e ao jurarem porRey 
de Portugal ? conforme a fentença dada pe- 
los Juizes Deputados ? que EIRey recebeo 
mui humanamente 5 e lhe fez honras , e 
mercês, e de novo lhes concedeo os privi- 



6i À S I A de Diogo de Couto 

legios, e liberdades que lhes tinha manda- 
do. Elcgo começou a tratar dascoufas que 
pertenciam ao bom governo : entre eítas y 
ou das primeiras , foram as do Eftado da 
índia , como património tamanho , e tão 
mimofo dos Reys de Portugal íeus Prede- 
cefíbres (como aquelle cujos alicerces fo- 
ram fundados com o fangue de muitos Ca- 
valleiros,a que podemos chamar Martyres 
de Chrifto , pois peleijando por fua Santa 
Fe, acabaram) efcrevendo, e mandando a 
fentença que per elle fe deo na herança do 
Reyno por terra, como atrás dizemos Ca- 
pitulo III. E porque fe hia fazendo tempo 
de entender na Armada , que havia de 
mandar pêra a índia , e tendo rcfpeito á 
idade, ferviços , e muitos merecimentos do 
Conde Vifo-Rey D. Luiz de Ataíde (que 
cuidava fer vivo) pareceo-lhe bem mandai- 
lo ir defeançar de feus trabalhos , e tratou 
de lhe mandar fucceíTor ; e porque entre 
os Fidalgos , que de novo eram chegados 
a lhe beijarem a mão , hum delles foi D. 
Francifco Mafcarenhas , que fora muitos 
annos grande PeíToa na índia , e muitas 
vezes Capitão Mor das Armadas , Fortale- 
zas de Çofala , e Moçambique , e fuílen- 
tara aquelle grande famofo cerco que o 
Inamoxá poz fobre Chaul , em que alcan- 
çou nome de grande Capitão , e com os 

foi- 



Década X. Cap, IX. 6$ 

foldados da índia de muito liberal , em 
quem concorriam as partes que eram ne- 
cefiarias pêra naquella entrada moderar os 
homens , fe nella houveííe alguma alteração 
pelo muito refpeito que lhe todos tinham ; 
e da fua chegada a Elvas a três dias foi 
chamado , e commettido pêra efta jornada 
com palavras tão obrigatórias , que fe não 
pode efcular ; e accrefcentando EIRey lo- 
go com honras ? e mercês , dando-lhe titu- 
lo de Conde de Villa d ? Ota , de que ufa- 
ria depois que tomalíe poííe do Eftado da 
Índia , imitando niíto a EIRey D.Manoel 
feu Avô , que quando elegeo a D. Francis- 
co de Almada pêra ir á índia , foi com 
regimento , que fe não intitularia Governa- 
dor , fenao depois de ter feito nella três 
Fortalezas ; e aíTim fez mais a D. Francifco 
Capitão Mor dos ginetes , e da guarda da 
lua peííba , como o foram feus Avós , e 
lhe deo Commendas groífas pêra feus fi- 
lhos j e netos , e trinta mil cruzados em 
dinheiro pêra ajuda de culto de fua embar- 
cação , e quarenta mil mais de mercê, de 
que fe pagaria na índia , e doze Hábitos 
das Ordens de noíío Senhor Jefu Ch riflo, 
Sant-Iago , e Avis , pêra poder dar a 
quem quizeíle , e lhe paíTou hum Alvará 
pêra na índia poder dar os cargos de Fei- 
toria pêra baixo, e de Juizes das Alfande- 
gas 



^4 ÁSIA de Diogo de Couto 

gas a huma fó peflba cada cargo , e por 
huma fó vez, e por tempo de três annos, 
e outras couías , de que fatisfeito fe def- 
pedio de EIRey, e fe foi pêra Lisboa pê- 
ra dar aviamento a Armada que havia de 
levar , provendo EIRey em todas as cou- 
fas da índia com muita ordem y prevenin- 
do-fe pêra tudo o que pudeííe fucceder. 
E porque entendia muito bem que os âni- 
mos dos homens com nenhuma coufa mais 
fe moderao , e abrandão que com honras, 
e mercês 5 deo fobre iílb largos regimentos 
a D. Francifco ; e fegundo algumas peflbas 
dignas de fé nos diíleram , muitos Alvarás 
afíignados em branco pêra todos os privi- 
légios , liberdades , honras , e mercês que 
da fua parte prometteífe ás Cidades , Capi- 
tães , e Fidalgos , que puzeílem dúvida ao 
jurarem porRcy, que lheficaflem logo fei- 
tas , e aflignadas ; porque como era Prínci- 
pe Chriftianiííimo , quiz antes (fe houveífe 
algum deites) trazellos d obediência por 
efta via , que por caíligos , e rigores : e af- 
íim fe diíle publicamente na Jndia , que 
trazia o Vifo-Rey hum Alvará em fegredo 

})era o Conde D. Luiz de Ataíde , em que 
he fazia EIRey mercê do Titulo de Mar- 
quez de Santarém, entregando-lhe a índia; 
o que fe he aflim, tudo ficou em fegredo, 
e nelle fe tornou a levar pêra o Keyno. 

Man- 



D EC A D A X. C A P. IX 6£ 

Mandou também EIRey pelo Vifo-Rey 
huma Lifta , em que vinham quafí trinta 
Fidalgos deípachados com Fortalezas y via- 
gens , e outras coutas i e lhes efcreveo a 
todos Cartas muito honradas ; e porque 
até então corriam as náos por conta de 
EIRey 5 pareceo-lhe melhor contratallas 
com Luiz Cefar , como fez , que fervia o 
cargo de Provedor dos Armazéns > com as 
condições feguintes. 

Que elle fe obrigaria a mandar cada 
anno finco náos , pêra cuja fabrica lhe da- 
ria EIRey oitenta mil cruzados mortos} 
cada anno, ficando o contrato da pimenta 
da mefma maneira que EIRey D. Sebaftiao 
o tinha feito com Diogo de Caílro , João 
Baptiíla Revelhafco , Jacome de Bardez, e 
outros que durava até o anno de 15 86. e 
era por tempo de finco annos, e das con* 
dicoes feguintes. 

Que de toda a pimenta que cada anno 
mandafle , que haviam de fer trinta mil 
quintaes , dariam a EIRey a metade. D<r 
Francifco Mafcarenhas fez dar preífa á Al- 
mada , e ás coufas de fua embarcação ; e 
fendo o tempo chegado y tornou a beijar a 
mão a EIRey , e a defpedir-fe , que lhe 
fez ainda mais mercês , e deo licença pêra 
fe embarcarem com elle alpuns homens- 
que eitavam exceptuados por então por; 
Couto. Tom. VI. P.L E ref- 



66 ÁSIA de Diôfio de Couto 

refpeitos que EIRey pêra iffo teve ; e ain- 
da os defpachou, e lhes fez mercês, e def- 
pedio D. Francifco com muita fatisfação : 
e ouvimos dizer a algumas peíToas cá na 
índia , que lhe dera EIRey hum regimen- 
to , em que mandava , que fe em Goa o 
não quizeíTem receber , que fe foífe pêra 
Moçambique , aonde fe deixaria eílar até 
feu recado. Defpedido D. Francifco , foi-fe 
pêra Lisboa , e por caufa dos negócios , 
que foram muitos, não fe pode fazer ave- 
la, fenão aos onze dias de Abril de 1581. 
em que andamos : efcolheo elle pêra li a 
náo S.Lourenço, de que era Capitão Dio- 
go Paçanha ; e as mais náos eram Bom Je- 
lus , por outro nome Caranja , Capitão 
João de Menelao ; da Salvador Pedro Lo- 
pes de Soufa , defpachado com a Capita- 
nia de Malaca , e levava fua mulher Dona 
Barbara , filha do Doutor Gafpar de Mel- 
lo , a náo Reys Magos , Capitão Manoel 
de Miranda , filho de Diogo de Miranda , 
Camareiro Mor do Cardeal D. Henrique , 
que hia provido com a Fortaleza de Dio, 
e com a de Rachol em vida com trezen- 
tos mil reis de ordenado. A outra náo era 
S.Pedro , que havia de ir pêra Malaca, | 
de que era Capitão Leonel de Lima : em- 
barcárão-fe neíta Armada muitos Fidalgos , | 
e Capitães , e dos que nos lembra são os ! 

fe- 1 



Década X. Cap. IX. 6f 

feguintes : D. Diogo Lobo defpachado 
com a Fortaleza de Malaca ; João Corrêa 
de Brito com a de Columbo em Ceilão; 
D. António de Soula com a de Damão; 
D. Manoel Pereira com a de Baçaim ; Ro- 
que de Mello com a de Malaca ; João 
Corrêa de Brito com a de Columbo. 

Eíta Armada foi feguindo fua viagem 
por differentes derrotas , porque logo fe 
apartaram as náos ; as duas que diuemos 
foram tomar Goa ; a náo Reys Magos , 
Capitão Manoel de Miranda , fòi tomar 
Cochim em Outubro ;• D. Francifco Mafca- 
renhas trabalhou por tomar Moçambique, 
aonde chegou aos dezoito de Agofto , e 
furgio fora das Ilhas a tempo que fahia 
pêra fora a náo S. Pedro , que hia pêra 
Malaca r que havia dias tinha chegado á- 
quella Fortaleza , e fe tinha provido de 
agua , e mantimentos , e já hia feita á ve- 
la. O feu Capitão tanto que vio a náo do 
Vifo-Rey , metteo-fe no tairel i e foi a el- 
la, e fe vio com elle, e lhe pedio licença 
pêra fazer fua viagem por fer tarde , que 
lhe elie deo , e fe foi leu caminho. O Vi- 
fo-Rey tanto que furgio , mandou logo a 
terra Diogo Paçanha a viíitaf D. Pedro de 
Caftro , Capitão daquella Fortaleza , a 
quem efereveo huma Carta , em que lhe 
fezia faber de fua chegada, e era D. Pedra 

E ú Tio 



68 ÁSIA dê Diogo de Couto 

Tio da mulher do Vifo-Rey 9 Irmão de 
fua Mai , que era cafada com o Morgado 
de Oliveira , que tanto que teve a Carta 
do Vifo-Rey , e foube de Diogo Paçanha 
as novas do Reyno , logo fe foi pêra a náo 
acompanhado do Alcaide Mor , e peflbas 
principaes ? e o Vifo-Rey o recebeo com 
muitos gazalhados , e honras ; e recolhidos 
na varanda , lhe deo D. Francifco huma 
Carta delRey 5 em que lhe dava conta da 
fua fuccefsão , e lhe pedia o juralíe por 
Rey, pois o era de Direito; e logo tratou 
com D. Pedro de fe fazer o dito juramen- 
to, porque elle não havia de defembarcar , 
porque era já tarde , e aííim fe fez , e deo 
D. Pedro alli a omenagem nas mãos do 
Vifo-Rey das Fortalezas de Çofala , e 
Moçambique por EIRey D. Filippe. Aca- 
bado iílo 5 foi-fe pêra terra , e na Igreja 
ajuntou o Alcaide Mor , e o Provedor da 
Mifericopiia , e peífoas principaes , e o 
P. António da Mota , Vigário da terra, e 
alli fizeram os autos dos juramentos ; o 
Vigário em nome do Eccleíiaftico ; o Ca- 
pitão , da Nobreza ; e depois o Alcaide 
Mor, e Provedor da Mifericordia em no- 
me de todo o povo ; e acabado o auto, 
tomou D. Pedro a bandeira Real nas mãos y 
e acompanhado de todos , foi com ella pe- 
las ruas publicas , dizendo : Real, Rea/ y 

Real> 



Década X. Caí.' IX- 69 

Real , pelo muito Catholtco D. Filippe Rey 
de Portugal ; e os mefmos juramentos fize- 
ram pelo Príncipe D. Dicgo feu filho. DijP- 
to tirou o Viíc-Rey feus inítrumentos , e 
papeis aífignados por todos pêra mandar 
ao Reyno , e logo fe principiou a intitular 
Conde de Villa d'Orta , porque começou 
a tomar alli poíTe da índia , conforme ao 
Alvará que levava ; e por fer tarde , e não 
ter tempo pêra fazer aguada , tomou algu- 
mas pipas delia do navio do trato que já 
achou de verga d 3 alto , e fez-fe á vela. 
Daqui foi feguindo a fua derrota até haver 
vifta dos Uheos queimados aos 26. dias de 
Setembro , aonde foi a elle huma almadiá 
com hum homem Portuguez , de quem fou- 
be eftarem já furtas na barra as náos Ca- 
ranja, e Salvador havia dous dias, de que 
ficou tomado de não pararem alguns dias 
pêra efperarem por elle : alli foube da mor- 
te do Conde D.Luiz de Ataíde, e da fuc- 
cefsão de Fernão Telles , e de como El- 
Rey D. Filippe eítava já jurado por Rey 
na Cidade de Goa pelos papeis que do 
Reyno vieram , o que fentio em extremo , 
porque quizera elle fer o que fizera aqu el- 
le ferviço ; mas não deixou de dar muitas 
graças a Deos noífo Senhor , porque fem- 
pre pareçeo no Reyno que haveria nefte 
negocio muito que Fazer j- mas como Deos 

nof- 



70 A S I A dê Diogo de Couto 

noíTo Senhor tinha ordenado que a Coroa 
de Portugal fe ajuntaíTe á de Caílella por 
juizos fecretos , que nós não alcançamos , 
não houve em todo o Eílado da índia 
(como já diíTemos) alteração, movimento, 
nem inquietação alguma , o que foi per- 
mifsãp Divina, porque neftas partes anda- 
vam muitos homens da obrigação do In- 
fante D. Luiz , e de feu filho D. António , 
que em partes tão apartadas , e remotas 
puderam caufar alguma perturbação ; pois 
no Reyno , tão perto do caítigo , não 
faltaram alvorotadores que o inquietaram 
por muitas maneiras : e tornando ao Con- 
de , na mefma Almadia mandou embar- 
car Diogo Façanha , e hum criado feu com 
Cartas peia o Governador , em que lhe 
fazia a íaber de fua chegada , e provisões 
pêra o Feitor, eThefoureiro não correrem 
com nenhum pagamento , ■ e efçreveo ao 
Veador da Fazenda, e Secretario, que lo- 
go fe foíTem pêra elle. Defpedida efta Al- 
madia, chegou de noite abordo outra em- 
barcação, em que hia hum Diogo Corrêa, 
çafado na índia , e foldado velho , e co- 
nhecido do Vifo-Rey , e de todos os Fi- 
dalgos que com elle vinham ; e entrando 
na náo , deo ao Vifo-Rey todas as novas 
mais particularmente, porque era homem ? 
que dava boa razão de tudo. 

Dio* 



Década X. Ca?. IX. 71 

Diogo Paçanha chegou ao outro dia a 
Goa , e deo as Cartas ao Governador , e 
fez as mais diligencias que levava a cargo. 
A náo ao outro dia , em que ella furgio 
na barra , que foram dezefete do mez > o 
Vifo-Rey fe defembarcou , e fe foi metter 
na Fortaleza de Pangim , achando já o 
mar cheio de embarcações 5 que o hiam 
bufcar. O Governador tanto que foube ef- 
tar elle em Pangim , no mefmo dia o foi 
vííitar acompanhado de muitos Fidalgos, 
parentes , e amigos ; e ao defembarcar o- 
efperou o Conde D. Franciíco na praia bem 
á borda d 5 agua , onde fe abraçaram , e fe 
recolheram pêra íima com os OíEciaes , o 
Vifo-Rey lhe aprefentou fua Carta de guia, 
em que mandava EIRey que lhe entregaífe a 
índia , e que por aquella o havia por deí- 
obrigado da menagem que delia tinha da- 
do. Efta entrega lhe fez o Governador lo- 
go alli na forma ordinária. Acabado o au- 
to , recolheo-fe Fernão Telles : no mefmo 
dia chegaram os Vereadores ao Vifo-Rey , 
c lhe pediram fe detiveííe alguns dias , em 
quanto lhe preparavam feu* recebimento , 
porque nelle queriam moftrar o alvoroço , 
e contentamento que aquella Cidade teve 
com a fuccefsao de EIRey D. Filippe na- 
quelles Eílados , o que lhe elle concedeo ; 
c nos dias que elle fe deteve > foi viíitado 

de 



J2 ÁSIA de Diogo de Couto 

de todos os Prelados , Fidalgos , Cavallei- 
ros , e foldados conhecidos ; e tendo já 
fabido que o Governador tinha eleito pêra 
o Malavar Mathias de Albuquerque , na 
primeira vifita que lhe fez , lhe pedio , pois 
tinha acceitado aquella Armada ao Gover- 
nador , correife com ella , porque aífim 
ficaria EIRey melhor fervido ; o que lhe 
diíTe com palavras de tanta fatisfaçao , que 
fenao pode elle efcufar; epaflados os oito 
dias 5 que o Conde D. Francifco efteve em 
Pangirn , efperando que lhe preparaífem 
fua entrada , a fez com grandes feitas , e 
alegrias ; e a entrada da Cidade jurou de 
lhe cumprir feus privilégios , e liberdades , 
como he coítume , e começou o Vifo-Rey 
a entrar logo nos trabalhos do Governo , 
que são grandes ; e na primeira coufa em 
que entendeo foi em delpedir pêra Ormuz 
João Corrêa de Brito por Veador da Fa^ 
zenda , fobftabelecendo como Procurador 
de EIRey 5 pêra naquelía Fortaleza o fazer 
jurar , dando-lhe os traslados da fentença , 
papeis , e Cartas de EIRey pêra o CapU 
tão D. Gonfalo de Menezes ; e com elle 
mandou Balthazar de Gamboa pêra ir ao 
Reyno por terra com Cartas a EIRey, em 
que lhe dava conta de fua chegada , e de 
como ficava pacificamente jurado , e obe^ 
decido por Rey , e deo por regimento a> 

João 



Década X. Cap. IX. 73 

João Correia (fegundo diziam) que fe 
achafle ainda em Ormuz Jeronymo de Li- 
ma , que o Governador Fernão Telles 
mandava com o mefmo recado , o não dei- 
xaíTe paliar; e porque trazia muito encar- 
regado de EIRey avifallo da lua chegada 
por todas as vias , deípedio outro navio 
ligeiro , de que era Capitão Luiz de A- 
guiar , pêra ir lançar hum Arménio em 
Caxem pêra de alli partir pêra o Reyno. 
Por via de Suez efcreveo áquelle Rey , que 
lhe déffe ordem pêra a fua paflagem ; e 
Fernão Telles 3 em quanto fenão embar- 
cou , tirou fuás Certidões , papeis , e inftru- 
mentos de como entregara a índia , e do 
eftado em que todas as Fortalezas delia 
eítavam , das Armadas todas , e mais cou- 
fas que havia» 



CA- 



74 A S I A de Diogo de Couto 

CAPITULO X. 

Do que aconteceo na jornada a Gonfalo 
Vaz de Camões , e António Pereira Pin- 
to : e da grande briga que tiveram com 
huma não do Rey de Pegtí, e com huma 
Armada fua : e de como morreo aquelle 
Rey 5 e lhe fuccedeo feu filho , e Joltou os 
Portugueses que ejlavam cativos y e de 
outras coufas. 

POrquc efta Armada foi ordenada pelo 
Governador Fernão Telles de Mene- 
zes , nos pareceo continuarmos aqui com 
ella , e darmos razão de tudo o que na 
jornada lhe aconteceo , poílo que duraíTe 
todo efte anno; aífim porque he coulafua. 



como pela não contarmos por pedaços , 
porque fera occupar outros lugares , que 
havemos de miíler pêra muitas coufas. Dei- 



xámos António Pereira Pinto com o outro 
navio, de que era Capitão Álvaro Colaço, 
paíTando pelas Ilhas de Angediva , e cor- 
rendo feu tempo , porque o inverno ainda 
não ceifava ; e foi elle tal , que não pude- 
ram tomar nenhum porto do Malavar , e 
pailaram avante *, e a primeira terra que 
tomaram foi Coulão , onde não quizeram 
entrar por fe não deterem , fomente em 
quanto António Pereira Pinto efcreveo hu- 
ma 



D e c a d a X. Cap. X. 75? 

pia carta pêra alli deixar a Gonfalo Vaz 
de Camões, em que lhe deo conta da fua 
jornada > e de como paliava avante , e o 
hia efperar a S. Thomé. 

Partidos de alli , chegaram a Tuto Ço- 
morim , onde fizeram aguada , e fe prove- 
ram de algumas coufas , no que fe detive- 
ram dous dias. Vendo António Pereira que 
não vinha Gonfalo Vaz , paliou os baixos 
á outra banda , e chegou na entrada de 
Setembro á povoação de S. Thomé ^ onde 
fe deteve oito dias , efperando por Gonfa- 
lo^Vaz; e vendo que tardava, e que fazia 
tempo de ir efperar as náos , abrio a Pro- 
visão , e aprefentou ao Capitão , que lhe 
poz o Cumpra-fe > e lhe deo juramento 
conforme a ella pêra poder profeguir na- 
quella jornada. Eftando já pêra fe fazer á 
veia , chegou Gonfalo Vaz com o.utro na- 
vio ; e tomando alli informação das coufas 
a que hia , foi informado por peífoas que 
ifto fabiam , que fua ida a Mafulipatão 
era efeufada , porque havia já novas certas 
que a náo do Achem defarmára , porque 
logo fora o feu Capitão avifado de como 
em Goa fe faziam aquellas Galeotas preíles 
pêra a irem efperar , porque os Mouros 
de Goa defpedíram por terra recado diilb, 
que a outra náo do Rey de Pegii era mui- 
to poderofa, e feita ao modo das da Eu- 
ro- 



y6 A S I A de Diogo de Couto 

ropa , e que eftava muito guarnecida de 
artilheria , e munições , e com mais de tre- 
zentos Mouros, affim Achens , comoMaia- 
vares , que fe alli acharam em huma Ga- 
leota, que aquelleRey fazia embarcar por 
força : e que além diílb mettêra hum Em- 
baixador , que mandava ao Achem com 
lincoenta homens brancos , por onde a Ar- 
mada não tinha que fazer com ella. Sa- 
bendo Gonfalo Vaz a certeza daquelle ne- 
gocio , alTentou com os práticos da terra 
de paliarem a Pegú a fazer a guerra que o 
Governador mandava fizeífe ; mas vendo 
que o feu regimento não fe eftendia mais 
q-ue até alli , donde lhe mandava que vol- 
taíTe pêra Goa, e que António Pereira Pin- 
to fone com os mais navios fazer aquella 
jornada, aííentou com elle , que pois não 
coníeguíram o eífeito , pêra que aquelle 
regimento fe fizera pelos inconvenientes já 
ditos , que paíTaííem ambos companheiros 
a Pegú iguaes em poder , e mando ; mas 
que a bandeira de Chriíto levantaria Gon- 
falo Vaz de Camões em o leu navio , fuc- 
cedendo haver alguma briga. Concertados 
nifiò, aos 14. dias de Setembro fe fizeram 
á vela j e antes que partiífem , chegou 
Fernão de Lima na Galeota Alexandrina, 
que vinha do negocio de Pegú , não bem 
defpachado ^ e porque tratou a Gonfalo 

Vaz 



r Decaída X. Ca p/X* ff 

Vaz de Camões de lhe tomar a Galeota 
pêra mudar a ella Francifco Serrão , por 
fer o feu navio mais pequeno , lhe deo 
alguns furos fecretos , com que fe encheo 
de agua , pelo que foi forçado deixarem 
alli a Francifco Serrão , porque fe aífogava 
o feu navio. Partidos os três navios , nego- 
ceou-fe Francifco Serrão pêra fe tornar a 
Goa ; e por não ir com as mãos vaílas , 
deo hurna volta pela cofta , por ver fe 
achava algumas prezas ; e andando naquel- 
le officio , deram com elle huns paráos de 
Malavares , que invernárão por aquelles 
rios ^ e o tomaram , e cativaram ; e palian- 
do pelo porto de S. Thomé , achárarn a 
Galeota Alexandrina preíles , e negoccada 
pêra fe partir pêra Goa ; e dando neila , a 
tomaram, e levaram comíigo , e de paífa- 
gem foram dando em algumas povoações , 
em que fizeram roubos , e damnos. As Ga- 
leotas , que foram atraveífando a Pegú 5 pu- 
zeram dezefete dias naquella traveíla , e a 
primeira terra que tomaram , foi a.barra de 
Negraes , a tempo que haveria pouco mais 
de duas horas que a náo de Mafulipatão fur- 
gio na boca daquelle rio ; e vendo-a eiles 
tão fermofa de três maílros , pareceo-lhes 
que era a náo do Reyno , que errara a der- 
rota , e fora tomar alli , como já outras 
fizeram. E affirmando-fe niílb pela feição 

dei- 



78 A S I A de Diogo de Couto 

delia , a foram demandar com grande al- 
voroço ; e chegando á falia , lhe dilíe de 
dentro huma voz em Portuguez : Andar 
-peva velhacos , que ejia ndo he de EIRey 
de Pegtí , e não tem dever com Armadazi- 
nhas. E apôs ifíò lhe deram huma falva 
de bombardadas , e de efpingardadas , de 
que lhe mataram ílnco homens , e alguns 
marinheiros. Vendo os noílbs aquillo , e 
conhecendo que aquella era a náo , que 
não oularam ir bufcar a Mafulipatao , hou- 
veram que Deos noíTo Senhor os levara 
alli pêra a tomarem ; e pondo-fe em ar- 
mas ? a rodearam , e bateram muito rija- 
mente com os dous camelos que levavam 
as Galeotas de Gonfalo Vaz , e António 
Pereira , o que fizeram todo o dia até á 
noite , em que a deixaram com muitos 
rombos abertos por onde fe hia enchendo 
de agua. Eítando na bateria , viram do na- 
vio de Álvaro Colaço vir o batel deman- 
dar .terra ; e largando tudo , o foi deman- 
dar , e o tomou entre huma reftinga , c 
com elle á toa íe tornou ao feu lugar > 
e ainda á noite fe foram os noííbs furgir af- 
faltados da náo j e de alguns Mouros , que 
no batel vinham ^ fouberam que na Cida- 
de de Cofmi pelo rio affima eílava o Prín- 
cipe herdeiro daquelle Reyno com mil c 
trezentas velas pêra ir conquiftar o Reyno 

de 



Década X. Ca?. X. 7^ 

de Arracão. E vendo elles que aquella Ar- 
mada forçado havia de fahir por aquelle 
rio fora , determinaram de averiguar pri- 
meiro o negocio da náo 5 fobre o que af- 
fentáram que fe perdeíTem todos , ou a to- 
maffem por credito do nome Portuguez : e 
aílím tanto que amanheceo , tornaram a 
commetter a náo ; e chegando a ella , a 
viram muito mettida de poppa, e a gente 
delia inquieta de huma pêra a outra parte , 
como que acudiam a algum trabalho : e 
aífim era, porque ficou da bateria tão aber- 
ta de poppa , que fe hia ao fundo ; e en- 
tendendo o trabalho em que eftavam, tor- 
naram a apertar com ella tão rijamente, 
que fe commettêram os que eftavam nella 
alcançar a terra a nado pêra falvarem as 
vidas. E vendo aquillo, puzèram as proas 
na náo com grande determinação , e fobre 
a entrada tiveram com os que eftavam ain- 
da dentro huma mui afpera batalha , em 
que os noflbs fizeram muito pela entrar; 
e por firii do negocio foram os inimigos 
mettidos á efpada , ficando a náo , c todo 
o recheio em poder dos noífos. Os folda- 
dos como concluíram aquelle negocio , qui- 
zeram aproveitar-fe da fazenda , que lhe 
tanto cuftou , e aílim cada hum tomou o 
que quiz ; e começaram a baldear dentro 
dos navios tantas coufas , que eftiveram as 

Ga- 



8o ÁSIA de Diogo de Cótrro 

Galeotas arrifcadas a fe foçobrarem com ô 
pezo , fem os Capitães poderem acudir a 
iflb ; e vendo elies que a náo fe hia ao 
fundo com a agua , e que os navios efta- 
vam arrifcados ao mefmo com o pezo que 
tinham , aconfelhando-fe os Capitães en- 
tre li , puzeram fogo á náo por três par- 
tes , e faltaram em as Galeotas , e come- 
çaram a alijar ao mar tudo que puderam, 
Eftando ainda a mor parte dos foldados 
na náo, fem lhes dar do fogo , que ateava 
já por todas as partes , foi-lhes depois 
forçado recolherem- fe a nado , porque as 
Galeotas logo fe affaftáram pêra fóra. Ao 
mefmo tempo chegou huma Galeota de 
hum João Leitão , cafado em Goa , que 
eftava dentro do rio , e alli fez hum muito 
arrezoado refgate com os foldados y e a 
troco de pouco encheo o navio de boas 
fazendas, e as Galeotas foram defpejadas, 
e boiantes. Paífado ifto , foram-fe os noífos 
pêra a barra de Sirião , que he onde os 
Achens vam demandar aquellaCofta, e por 
ella andaram dezoito dias com ventos pela 
proa , e muito grandes correntes, por fer 
a monção acabada ; e por não poderem 
paliar dos llheos dos Mudos 5 onde leva- 
vam por regimento que invernaífem , af- 
fentáram que voltaífem pêra o porto gran- 
de em Bengala 5 como fizeram. Succedeo 

nos 



Década X. Cap. X. 8r 

nos dias que por cá gaitaram fahir o filho 
de EIRey dePegú com toda a ília Arma- 
da pêra ir contra o Reyno de Arracão , c 
apôs elle mandar-lhe EIRey outro recado, 
que tornaffe a voltar em bufca da Armada 
Portugueza , e que lhalevaíTe, porque mais 
eftimaria huma fufta fua, que todo o Rey- 
no de Arracão. Com eíle recado tinha vol- 
tado o Príncipe ; e tanto avante como os 
llheos Alevantados , que eílam abaixo da 
barra de Negraes , onde pelejaram com a 
náo , houveram os noííos vilta da Armada , 
a tempo que vinha fahindo pelo rio fora ; 
e conhecendo , e vendo tanta multidão de 
navios , aíTentáram que fe foííem pêra o 
mar, o mais que pudeífem ; affim porque 
os inimigos não eram homens que fe af- 
faítaífem muito da terra , como por verem 
fe os podiam efpalhar , e apanhar alguns 
deíhiandados. Os inimigos tanto que viram 
os noíTos , e que lhe viravam as poppas a 
modo de lhes fugirem, cobrando mais ani- 
mo , foram após elles mais de quatro lé- 
guas ao mar ; e vendo que os levavam já 
de vencida, e comaquella golodice, e de- 
fejo de lhes chegarem, fe adiantaram dez- 
efeis embarcações as mais ligeiras; e che- 
gando-fe aos noífos , dividíram-fe em três 
partes pêra tomar os noííos no meio , que 
já hiam poítos em armas pêra pelejarem 
Couto. Tom. VL P. L F com 



$2 A S I A de Diogo de Couto 

com elles. E vendo que féis dos navios 
eítavsm mais defviados , voltaram a elles 
com grande determinação , e deram-lhes 
aquella primeira falva de bombardadas , 
de que lhe mettêram logo três no fundo ; 
c pondo as proas nas outras três , em mui- 
to breve efpaço as axoráram ; e arremet- 
tendo ao outro efquadrao de outras finco , 
que acharam mais perto , deram-lhe outra 
íalva tão bem empregada que as deítroçá- 
ram ; e já quando chegaram ás outras fin- 
co lhe deò aos noífos pouco ; e arremet- 
tendo com ellas , travaram com todas huma 
mui arrifcada batalha , em que todos pe- 
lejaram de maneira que as renderam , e 
desbarataram de todo com morte da mor 
parte dos inimigos. 

Acabado defte negocio , que foi muito 
apreífado , vendo que a mor parte da Ar- 
mada os vinha entrando , contentando-fe 
com a vitoria que Deos lhes tinha dado, 
deram á vela com a viração , e foram-fe 
recolhendo , levando comligo muitos ini- 
migos cativos , e dezoito peças de artilhe- 
riâ , que tomaram em os feus navios , e 
affim vitoriofos fe recolheram a invernar 
em Bengala; e fabendo EIRey de Arracão 
de lua chegada , e do muito honrado fuc- 
ceífo que tiveram com a Armada doPegú, 
mandou viíítar aquelies* Capitães 3 e dar- 

Ihes 



Década X. Cap. X. 83 

lhes os parabéns da vitoria , e os agrade- 
cimentos de por fua cauía ficar livre da- 
quelle cerco ; e com iííb lhes mandou pe- 
dir que fe quizeflem ver com elle , eacom- 
panharem-no , porque determinava ir con- 
tra Pegii , fazendo-lhes grandes promeíTas , 
do que elles le efcusáram , e alli inverná- 
ram , e no veranico voltarão fobre Pegú, 
e acharam já aquelle Rey morto , e no 
Reyno feu filho chamado Falanha Ximi 
de Ginoco ; e da barra lhe mandaram os 
Bramas , e Pegús , que levaram cativos , e 
lhe efcrevêram huma carta 3 e outra pêra os 
Portuguezes que alli eftavam ; e na de El- 
Rey lhe diziam , que fe a fua náo não le- 
vara Mouros , e Turcos , que a não toma- 
ram , porque o tinham por amigo do E£ 
tado ; e que a prova diílo era , que aos 
Mouros todos r como a inimigos , cortaram 
as cabeças ; mas que aos Bramas , e Pegús , 
porque eram feus vafTallos , os trataram 
íempre muito bem , como elles diriam , 
dos quaes lhe faziam ferviço 5 e aos Por- 
tuguezes efcrevêram , que lhes diífeífem o 
mefmo. Vendo EIRey a carta , e fabendo 
dos feus as honras que os noíTos lhe fize- 
ram , foi-lhe tão acceito , que deo liber- 
dade a todos os Portuguezes , que tinha 
reteúdos , que fe foram pêra a índia , e 
a Armada -fe foi pêra S. Thomé > e dahi 

F ii a 



84 ÁSIA de Diogo de Couto 

a Cochim , depois de dous mezes de 
viagem. 

CAPITULO XI. 

Do que nefte tempo aconteceo nos ejlreitos 
de Meca , e da Perjia : e de como três 
Galés de Rumes foram d no[fa Povoação 
de Majcate , e a ajfoláram , roubaram , 
e dejirutram : e do que fizeram os Por- 
tuguezes que nella ejlavam. 

PElas terradas que todos os annos vam 
da Arábia de Coriate ate ao Cabo de 
Rofolgate , e aos Portos do mar roxo com 
inceníb , tâmara , e outras mercadorias, 
tiveram em Mafcate novas que no porto 
de Mora fe faziam preíles quatro Galés 
pêra virem faquear aquella Cidade. Efta 
nova fe mandou logo a Ormuz ao Capi- 
tão , que pondo em parecer dos antigos 
daquella Fortaleza , fe mandaria invernar 
gente áquella Cidade , foi contrariado de 
todos , affirmando-lhe que não havia Galés 
em Meca, nem era poílivel poderem fahir 
fora , porque fe haviam por feguros pelas 
intelligencias que traziam os Turcos, íian- 
do-fe nifto de outros Mouros , como fe 
tiveram elles por lei , ou coítume fallar 
verdade, com o que D. Gonfalo deílltio do 



Década X. Cap. XI. 8? 

que determinava , mandando recado á- 
quelles moradores , que todavia eftiveíTem 
precatados , e com grandes vigias ; e que 
tanto que entraíTe Setembro , foííe huma 
fufta ao Cabo de Rofalgate a efpiar as Ga- 
lés , pêra que fe vieílem , lhes pudeíTem 
vir dar rebate , e fe porem em falvo. Os 
moradores de Maícate tinham as novas por 
muito certas , porque falláram com peífoas 
que lhes vieram concertar as Galés , e que 
ouviram praticar na fua vinda , e que 
Mouros daquella mefma Cidade os foram 
convidar pêra aquella jornada, prometten- 
do-lhes delia muito grandes promeífas , e 
riquezas , e que ainda lá eftavam pêra os 
guiarem : pelo que tanto que entrou Se- 
tembro , logo o Feitor de EIRey armou 
huma fufta , de que era Capitão Álvaro 
Mourato , bom foldado, que D. Gonfalo 
pêra iííb tinha mandado com regimento , 
que fe foíTe pôr no Cabo de Rofalgate ; e 
que havendo vifta das Galés , voltafle pêra 
Mafcate a dar-lhe avifo , e que palfaííe 
apreífadamente pêra Ormuz, e fevaífe com- 
íigo dous Taranquis muito ligeiros pêra 
mandar, diante. Efte homem fe foi pôr co- 
zido com o Cabo de Rofalgate , e fe deL- 
xon eítar com grandes vigias , allim por 
mar , como por íima dos montes. As Galés 
era verdade que fe faziam preítes pêra 

irem 



86 ÁSIA de Diogo de Couto 

irem a Maícate; porque (como diíTemos) 
alguns Arábios da meíma terra deram a- 
quelle alvitre a Mirá-fenáo , Baxá daquel- 
las partes , affirmando-lhe eftar a terra 
muito rica , pelo que tinha mandado ne- 
gocear quatro Galés , remendando pêra 
iflb algumas velhas que havia , e elegeo 
pêra elta jornada Alibac Turco de nação , 
homem de íua obrigação , CoiTairo folto , 
arrebatado , e pouco Capitão. Eíle Mira- 
fenáo era natural de Outrato , caita chriftã , 
e governava toda aquella parte das Ará- 
bias Feliz , e Pétrea , a que os Arábios 
chamam Ayman , e tinha ília refidencia na 
Cidade de Haná , que eftá no meio da A- 
rabia Feliz , feflenta léguas ao Norte de 
Moca , e outras tantas de Xael por linha 
direita , que eítá edificada em íima de hum 
tezo , e he toda murada de muros de ado- 
bes , quadrada , com feus baluartes mui 
bem feitos ; e affirmáram-nos alguns índios 
doutos i naturaes delia (porque vivem alli 
muitos) que foi fundada por Canaan filho 
de Noé , que povoou aquella parte, e que 
também fora camará, e reíidencia da Rai- 
nha Sabá , e que tem em fuás efcrituras, 
que delia fahio , quando foi a Jerufalem 
ver a grandeza de EIRey Salamão , e que 
ainda dura fua memoria em huma porta, 
que tem pêra a banda do Norte P que fe 

cha- 



Década X, Cap. XI. %? 

chama Albabo Sabá , que em lingua Ará- 
bia quer dizer Porta de Sabá , porque di- 
zem que por eila fahio , quando partio 
pêra ver Salamao ; outros affirmam que 
não ke a razão do nome eíta , fenao que 
fe chama aííim , porque fica pêra o Norte , 
e que Albabo Sabá quer dizer a porta que 
vai pêra o Norte: a terra he a mais pro£- 
pêra que fe fabe no mundo , abundantif- 
íima de pão , gado , legumes , e frutas , 
em tanto, que com razão fe chama Arábia 
Feliz : também fe chama dos Efcritores 
antigos Siria Momifera , que quer dizer 
cheirofa , porque neila fe produz o incen- 
fo, myrrha, e efturaque. E tornando ánof- 
fa ordem , o Baxá mandou negociar as 
quatro Galés ? e em fim de Agoíto íe fez 
Miralebac á vela com ponentes tão rijos , 
que na Coita da Arábia fe lhe abrio huma 
Galé , que foi varar em terra , e elle com 
as três foi feguindo fua derrota, indo de- 
mandar o Cabo de Rofalgate. Como era 
fagaz , entendeo mui bem que alii de 
longo delle havia de haver vigias , porque 
lá fe haviam de recear delle ; e affaítando- 
fe da terra , embocou o eílreito á meia 
barra , fem Álvaro Mourato haver vifta 
delle , e foi demandar Mafcate. 

Pelas pontas das ferras , que são muito 
altas 3 pelas quaes fe hiam governando , 

por- 



88 ÁSIA de Diogo de Couto 

porque determinava de dar fobre Mafcate y 
primeiro que delle tiveíTem novas ; e fen- 
do tanto avante com elle > deixou-fe eítar 
de dia; e tanto que anoiteceo , o foi de- 
mandar , e não quiz ir logo ferrar o p&rto , 
mas foi abaixo delle tomar a enfeada de 
Sedabo , aonde defembarcou aos vinte e 
dous de Setembro j e como íe poz em ter- 
ra com a mór parte da gente , mandou a» 
Galés que foliem entrar em Mafcate , ao 
quarto d^alva , e que fizeífem grande ef- 
trondo 3 e atiraíTem muitas bombardadas, 
porque os noífos íe defcuidaíTem do Cer- 
tao, e por onde elle determinava commet- 
ter a povoação ; o que fuccedeo , como 
elle traçou. Defpedidas as Galés , começou 
o Alibac a caminhar por terra ; e porque 
melhor fe entenda tudo , faremos huma 
demonftraçao deftas bahias ambas. Eílendei 
a mão direita com a palma pêra baixo , e 
alargai o dedo pollegar , e demonftrador , 
e dos outros , e a enfeada de Sedabo , que 
penetra tanto , como moítra o vão do de- 
do ; com outro vão de entre pollcgar , e 
demonítrador he a bahia de Mafcate y onde 
faz aquella pelle delgada de huma praia a 
modo de arco , pela qual fe eftende a po- 
voação j que a mor parte fica encuberta pê- 
ra o Certao, e fica toda entre duas ferras. 
Efta enfeada do Sedabo , que fingimos na* 

quel* 



Década X. Ca?. XI. 89 

quelle vão do dedo demonílrador , e do 
do meio, faz huma ferra Íngreme , que nao 
tem mais que huim! fubida direita affima , 
c a defcida vai logo cahir na bahia de 
Mafcate. No cume deita fubida faz huma 
quebrada , que deixa alli o caminho tão 
eítreito , que nao pode por elle paíTar fe- 
não a fio hum e hum ; e o Mirale foi fu- 
bindo eíta ladeira até paliar aquella direi- 
tura , que com hum berço , e dez homens 
fe podia defender ao mundo todo , porque 
das ilhargas fobem as ferras Íngremes ao 
Ceo ; e defcendo pêra baixo achou huns 
peaes , que eftavam dormindo , com os 
quaes nao quiz bolir, e foi tomar por de- 
trás da Cidade , a qual era por aquella 
parte cercada de huma parede enfoca com 
três portas , as quaes mandou tomar , re- 
partindo ííncoenta Turcos a cada huma, e 
alli fe deixou eftar com muito íilencio até 
ouvir o final das Galés. Os cafados de 
Mafcate como andavam com fobrefaltos , 
eftavam preítes que lhes trouxeíle a fuíla 
recado pêra em tendo rebate fe porem em 
falvo ; e porque lhes hia tardando , alguns 
que tinham embarcações preítes , quizeram- 
fe fegurar 3 e tinham determinado de fe 
embarcarem no quarto d 5 alva. Deites era 
hum Diogo Machado > o qual em come- 
çando o quarto d ? alva ? fe levantou pêra fe 

irj 



90 ÁSIA de Diogo de Couto 

ir-; e porque tinha huma quantidade de 
dinheiro em barris, que lhe fazia pejo pelo 
volume , e também porque os náo queria 
arrifear, determinou de os ir enterrar fora 
da Cidade ; e tomando caminho pêra íòrà 
com três moços de efpingardas , chegando 
a huma das portas , antes que lahiíle por 
ella , mandou aos eferavos que fe deixaf- 
fem ficar da banda de dentro , porque não 
quiz fiar delíes o lugar, em que os queria 
pôr; e tomando o dinheiro, e hum facho 
pera cavar, foi fahindo pêra fora, e elles 
á porta rodeada deram nelle , e de hum 
golpe o abriram por huma ilharga, de que 
logo cahio morto , dando alguns gritos. 
Os moços que eítavam da banda de dentro 
em os ouvindo , e fentindo gente , foram 
fugindo pera a povoação , dando rebate de 
inimigos, ficando o pobre homem fem di- 
nheiro , e fem vida. Succedeo na mefma 
conjunção ir fahindo pela barra fora hum 
Taranquim , em que fahia hum Paulo Cor- 
rêa com faa família , pois que parece que 
o coração lhe denunciava alguma coufa; e 
chegando á boca da bahia , deo com as 
Galés, que jã vinham entrando; e tornan- 
do a voltar , deo rebate na povoação, qua- 
ii ao mefmo tempo que os eferavos do ou- 
tro eítavam gritando inimigos , inimigos. 
Os moradores com aquelle alvoroço íahí- 

ram 



Década X. Cap. XL 91 

ram defatinados de fuás cafas , e foram-fe 
ajuntar nas de João Cabaço , homem alli 
principal, e tomaram coníelho fobre o que 
fariam, fendo já mais de fetenta Portflgue-- 
zes alli com fuás efpingardas , e muitos en- 
cravos, que podiam mui bem pelejar com 
os Turcos , íe fouberam a quantidade dei- 
les , e aífim o foram muitos de parecer; 
mas a grita , e pranto das mulheres, e me- 
ninos era tamanha , que fazia confusão , 
pelo que alguns fe fahíram dalli com fuás 
armas , e foram efperar os Turcos ás por- 
tas pêra lhas defenderem. As Galés tanto 
que entraram na bahia , difparáram a fua 
artilheria , a qual fendo ouvida do Mira- 
bolec, foi commettendo a entrada das por- 
tas , e acharam dez , ou doze dos noflbs 
que os hiam bufcar, e com elles travaram 
huma muito fermofa briga , em que os 
Portuguezes fizeram maravilhas em damno 
dos Turcos ; mas como eram tão poucos y 
e os inimigos tantos , foram-fe recolhendo 
pêra a Cidade , ficando morto hum João 
Fernandes , Capitão , e fenhorio de huma 
de três náos que eftavam no porto. Os mo- 
radores , que eftavam em cafa do Cabaço , 
que eram mais de quinhentas almas , entre 
mulheres , e meninos , fentindo as Galés , 
foram tomando o caminho de longo da 
praia pêra a povoação do Matara , que fe- 
ria 



9^ ÁSIA de Diogo de Couto 

ria filma légua pequena pêra a banda de 
Ormuz. Os Turcos , que foram entrando 
a povoação apôs osnofíbs já manhã clara, 
acharam o Padre Vigário , que fe deteve 
em enterrar o lino , os Santos Óleos > e 
outras coufas da Igreja , o qual foi toma- 
do ás mãos , e cativo ; e como a povoação 
eftava defpejada , e não acharam refiften- 
cia 5 começaram a faquear as cafas , e achá- 
ram enterradas muitas fazendas , que os 
calados efcondêram, porque as não pude- 
ram levar ; o que tudo lhes moílráram os 
mefmos Mouros de Mafcate , que com el- 
les vinham , que eram familiares de todas 
aquellas cafas , e fabiam tudo. Todo aquel- 
le dia gaitaram os Turcos neíte faço , e tu- 
do recolheram logo em as três náos , que 
no porto eftavam , as quaes eram de João 
Cabaço , João Fernandes dos Caens , e de 
hum Pedro Fernandes de Chaul, e de noi- 
te fe recolheram ás Galés. 



CA- 



Década X. Cap. XII. 93 

CAPITULO XII. 

Do que mais fizeram os Turcos até fe re- 
colherem : e do que aconteceo aos mora- 
dores de Mafcate : e das novas que fo- 
ram a Ormuz : e de como D. Gonfalo 
de Menezes mandou kuma Armada em 
bufca dos Turcos. 

AO outro dia pela manhã tornaram os 
Turcos a rabiícar a povoação ; e tan- 
to cavaram , que até os Santos Óleos , e 
mais coufas lhes não eícapáram : e pelo 
aborrecimento que tem á noíía Religião , 
ajuntaram lenha, e queimaram o Templo, 
que ardeo todo : alli ficaram todos á íua 
vontade , como fenhores da terra , féis 
dias , nos quaes não deram vida a cães, 
gatos , nem porcos , de que alli havia hu- 
ma grande quantidade ; eftes perfeguíram , 
e bufcáram , ainda que já hoje os comem 
melhor que os Chriftãos , e pode fer que 

Íera iíTo os mataíTem elles. Succedeo aqui 
uma coufa efpantofa , e foi , que deram' 
huma efpingardada em huma porca pre- 
nhe, que a abriram pelas ilhargas, e aífim 
fe foi metter no mato, onde eíteve efcon- 
dida todos aquelles dias que alli eftiveram ; 
e tanto que anoitecia , fe hia metter na 
agua falgada; e ainda depois dos morado- 
res 



94 A S I A de Diogo de Couto 

res tornarem pêra a povoação, a viram ir 
todos os dias metter no mar : veio efta 
porca âfarar, e depois pario dez bácoros, 
dos quaes fe tornou a inçar a terra. As 
novas das Galés foram , ao outro dia que 
ellas chegaram , ter a Calajate, onde efta- 
va por Feitor hum João do Rego da obri- 
gação de D. Gonfal© de Menezes , o qual 
deípedio com muita prefteza hum Taran- 
quim muito ligeiro com novas a Ormuz, 
e outro a fufta de Álvaro Mourato , que 
eftava no cabo de Rofalgate , que não fa- 
bia nada ; ç o mefmo fez João Cabaço do 
lugar do Mataro , aonde chegou com toda 
a gente , e hum poz três dias , e outro 
quatro até Ormuz; e dando a D. Gonfalo 
noticia, logo no mefmo dia defpedioMar- 
tim Lopes Carrafco em hum catur com 
regimento que fe foífe ajuntar com Álvaro 
Mourato , e ambos vigiaífem as Galés , em 
quanto elle negociava huma Armada pêra 
mandar fobre elles. Partio efte navio lo- 
go, poz eíle negocio em eífcito , e tomou 
duas nãos de Mercadores , e as mandou 
armar, e negociar muito bem, e o mefmo 
fez a huma Galé , que alli eftava , e armou 
mais íinco navios de remo , e elegeo pêra 
Capitão Mor defta Armada D. Luiz de Al- 
meida , filho do Alcaide Mor de Abrantes; 
e pêra efta jornada fe oíferecêram todos os 

que 



Década X. Cap, XII. 95- 

que havia na terra ; e em quanto ella fe 
não fez á vela , tornaremos a Álvaro Mou- 
rato , que citava na boca de Rofalgate. 

Efte homem por muitas diligencias que 
fez não foube das Galés, fenão peloTran- 
quim, que lhe João do Rego mandou: em 
lhe dando o recado , logo fe fez na volta 
de Mafcate , e defpedio huns Taranquins , 
que levou com recado ao Capitão de Or- 
muz , e lhe efcreveo que ficava efpiando 
as Galés , e que não as havia de largar até 
as enfacar. E tanto que anoiteceo , chegou 
á barra de Mafcate , e tomando o remo 
em punho muito caladamente , entrou den- 
tro ; e chegando a huma Galé , lhe deo 
huma furriada com o falcão , e berços 5 e 
com toda a efpingardaria , e tornou a vol- 
tar pêra fora. Os Turcos , que todas as 
noites hiam dormir ás Galés 5 em fentindo 
as bombardadas ficaram fobrefaltados , cui- 
dando que era outra coufa ; e levando-fe 
com muita preífa , foram remando apôs o 
navio , e lhe deram caca até os Ilheos da 
Vidtoria , huma légua de Mafcate, donde 
fe tornaram a recolher; e fegundo os Tur- 
cos viviam defcuidados , fe Álvaro Moura- 
to tivera outros três navios com outros 
companheiros , fem dúvida que os toma- 
ram , e os mataram a todos primeiro que 
pudeílem tomar as armas. Vendo Alvará 

Mou- 



$6 A S I A de Diogo de Cout o 

Mourato dos Ilheos da Vidloria voltar as 
Galés , tornou apôs ellas ; e deixando-fe 
eítar á vifta deMafcate, aonde foi ter com 
elle Aíartim Lopes Carrafco , que lhe deo 
novas da Armada , que fe ficava fazendo 

})reíles, alli ficaram ambos vigiando as Ga- 
és 5 e os deixaremos por hum pouco, por- 
que he neceílario continuar com os mora- 
dores , que fe recolheram ao lugar de Ma- 
ta ro , onde paliaram aquella noite ; e não 
fe havendo por feguros alli , aífentáram de 
fe paliar á Fortaleza de Bruxes , quatro lé- 
guas pelo certao , que era de hum Árabe , 
chamado Catane , cabeça de huma cabilda 
dos Arábios , e nella eftava então hum 
Agoazil mui bom homem ; que antes del- 
les chegarem , pelas novas que já tinha, 
os fahio a receber com quarenta dccavallo 
pêra lhes dar guarda , e levou todos com- 
ílgo , e os agazalhou muito bem , e com 
muito amor , mandando-lhes dar todo o 
neceíTario por feu dinheiro , fem fe fazer 
efcandalo a peílba alguma , nem lhes faltar 
valia de hum toitão , levando elles muito 
ouro , prata , peças , e dinheiro por ahi 
foi to , com fer muito perfuadido dos Ára- 
bes, que fe foubeífem aproveitar do tempo , 
porque aquillo era humanáo quebrada que 
dava á fua coita ; mas elle fempre diífe 
que não havia de fazer traição a homens 

que 



Década X. Ca?. XIL 97 

que fe acolhiam a elle , e affim os teve com 
muitas honras todo o tempo que alli eítive- 
ram ; e não fei por certo fe elta virtude , e 
primor que neíle bárbaro fe achou , achara 
elle , e os feus em muitos dos noíTos Capi- 
tães da índia, tão obrigados por Lei Divi- 
na, e Humana a guardarem verdade , ejufti- 
ça a todos , o que tudo pela ventura guar- 
dam alguns .bem mal \ e por bem que nos 
interéííe deixando iílo, tornemos a Ormuz. 
O Capitão D. Gonlalo de Menezes deo 
tanta preífa á Armada , que em oito dias 
a fez á vela : D. Luiz de Almeida , Capi- 
tão Mor delia, em huma náo ; e na outra 
António de Paiva ; Simão de Mello , filho 
do Abbade de Pombeiro na Galé } e das 
íinco fuftas eram Capitães Balthazar Viei- 
ra , Fernão da Silveira , João de Soufa , 
Paulo Ferreira , e João Mendes Carrafco. 
Neílas vafilhas fe embarcaram quatrocen- 
tos foldados , armados todos de peitos , 
efpingardas , e outras armas , gente toda 
muito limpa , e culto fa , e com provimen- 
to pêra dons mezes : deo o Capitão por 
regimento a D. Luiz de Almeida que fe- 
guiíle as Galés até dentro de Meca, fefof- 
fe neceflario ; e não as encontrando , fe fi- 
zeífe na volta dos Nautaques , e deílruiífe 
todos aquelles portos , e povoações pelos 
muitos damnos , e roubos que por aquelle 
Couto. Tom.FLF.I. G ef- 



9S ÁSIA de Diogo de Couto 

cílreito faziam todos es annos. Dada a 
Armada á vela , foi feguindo fua derrota , 
em que os deixaremos. 

Os Turcos tendo já efeoado tudo , de- 
pois de haver féis dias que alli eílavam^ 
íe fizeram á vela , levando as três náos á 
toa carregadas de fazendas , e foram fe- 
guindo fua jornada de longo da coita. Ál- 
varo Mourato , e Martim Lopes as foram 
feguindo fem os perderem de vifta até ao 
Cabo de Rofalgate , donde voltaram pêra 
Mafcate , e acharam já os moradores na 
povoação ; porque tanto que foram avifa- 
dos da ida dos Turcos , defpediram-fe do 
Aguazil de Bruxel , que os acompanhou 
até os por em lugar feguro , porque os 
feus os não roubaífem : e elies por fe lhe 
moftrarem agradecidos daquella boa obra, 
tiraram outro fim huma peça de duzentos 
cruzados que lhe mandánSri. Chegados os 
dons navios a Mafcate \ determinaram defe 
ir pêra Ormuz com as novas do que palia- 
va 5 e nelles fe embarcaram alguns cafados 
com fuás mulheres , e filhos , por não fi- 
carem alli com fobrefaltos ; e entrando na 
enfeada poucas léguas antes de Ormuz pê- 
ra temarem algum refrefeo, e eftando nel- 
la furtos , deo hum tempo travefsão da 
banda do Norte tão rijo, que fe foçcbrou 
o navio de Martim Lopes , em que fe af- 

fo- 



Década X. Cap. XII. 99 

fogou hum cafado com toda a fua família , 
e finco , ou féis peííòas outras , efcapando 
Martim Lopes por eílar em terra. A Ar- 
mada de Ormuz chegou a Mafcatc , ha- 
vendo oito dias que as Galeras eram par- 
tidas ; e tomando o Capitão Mor confe- 
Iho fobre o que faria , aflentou-fe que era 
tempo perdido todo o que fe gaítaíTe em 
irem apôs as Galés , porque haviam de ir 
mui alongadas dalli ; mas que foífe á coita 
dos Nautaques , como levava por regimen- 
to , no que pela ventura que tiveram al- 
guns deite parecer nas prezas que daquella 
jornada efperavam , que não em obedecer 
ao regimento do Capitão de Ormuz. 

CAPITULO XIIL 

De como efia Armada foi á cojla dos Nau- 
taques : e da deftruição que fez por to- 
da ella : e de como em Ormuz juraram 
por Rey a EIRey D.Filippe: e da via- 
gem que fizeram por terra as pej/oas 
que mandaram , ajjim o Governador Fer- 
não Telles , como o Conde D. Francifca 
Mafcarenhas Vifo-Rey. 

DEterminado D. Luiz a nao feguir as 
Galés , coufa que D. Gonfalo de Me- 
nezes muito fentio , e o recebeo por ilfo 
G u mú ? 



too ÁSIA de Diogo de Couto 

mal , quando tornou , por lhe affirmarem 
muitos homens que fe as feguíra ( fegundo 
o vagar que levavam por levarem as noíTas 
náos á toa) fem dúvida as achara ; e que 
quando as não tomara , ao menos lhe lar- 
garam a preza \ mas como efte Fidalgo era 
bom homem , e hum pouco acanhado , fiou 
aquellas coufas , que eram de tanta honra, 
de quem lhe dava delia pouco. Em fim , 
como começávamos a dizer , reíbluto em 
ir aos Nautaques , deipedio as náos , que 
eram de mercadores , entregando todos os 
provimentos que nellas hiam a Manoel do 
Cafal , Feitor da Armada , e paflbu a gen- 
te aos navios do remo , e á Galé de Si- 
mão de Mello , e armou mais três taran- 
quins , de que fez Capitão Conflantino 
Caftanho, Francifco Machado, e outro; e 
fazendo-fe á vela , foi demandar aquella 
coíla , que afferrou junto da Cidade de Pe- 
nani , que era muito fermofa , e aííentada 
na coíla do mar bravo , em que aííentou 
de dar de madrugada, primeiro que tivef- 
fe avifo da Armada, porque era iílo já de 
noite. Indo-a demandar , adiantou-fe o Ta- 
ranquim de Francifco Machado ; e antes 
de chegar , houve vifta de humas terra- 
das 5 inveftindo logo huma , foi axorada , 
e toda a gente cativa : indo em íeguimento 
da outra , foi dar em huma reílinga de pe- 
dra y 



Década X. Cap. XIII. iot 

dra , em que tomou fundo de huma bra- 
ça ; e porque a Armada vinha atrás, vol- 
tou a lhe dar avifo , porque não fofle va- 
rar por lima delia , com o que fe defviou 
logo, efem dúvida quedava nella de meio 
a meio ; e pofto que o Capitão Mor fe quei- 
xou de Francilco Machado por correr as 
Terradas , porque eftavam certos que os 
que efcapáram na outra , irem logo dar 
avifo da Armada, todavia por outra parte 
elle foi caufa de fe ella falvar , pelo per- 
mittir Deos aífim. Defviados os noífos das 
reftingas , efperáram pela manhã , e foram 
commerter a Cidade, que acharam defpeja- 
da, porque tinha já rebate pelos da terra- 
da , e eftavam feus moradores poftos em 
falvo , ficando a Cidade com todo o feu 
recheio em poder dos noífos , que a faqueá- 
ram á vontade ; e depois que não houve 
que roubar , lhe deram fogo , em que toda 
feconfumio} e o mefmo fizeram a quarenta 
ç fete terradas , que acharam no eftaleiro , 
e em o mar , não lhe deixando coufa em 
pé ; e embarcando-fe , foram pela Cofia a- 
baixo até Goadel , que também já eftava a- 
vifada. Era efta Cidade grande, eriça, por 
fer hum porto muito accommodado , e con- 
tinuado de mercadores ricos deCambaya, e 
de outras partes, que eftavam já recolhidos 
aos matos : os noífos defembarcáram na Ci- 

da~ 






102 ÁSIA de Diogo de/Couto 

dade, e fizeram o que na outra , por não 
acharem reíiftencia , recolhendo muitas pre- 
zas , e mantimentos , e foram paíTando avan* 
te até á Cidade deTeim, quehe dos Abin- 
dos , gentes barbaras , e ferozes , que vi- 
vem fobre o rio de Calamate em compa- 
nhia dos Nautaques ; andam pelo mar ás 
prezas , que são os derradeiros dos Ge- 
droíios de Carmania (como já em outra 
parte diíTemos) eftava também efta Cida- 
de defpejada com o temor dos noflbs , e 
foi também mettida a ferro , e a fogo. 
Eftando aqui , foi ter com elles João Cor- 
rêa de Brito , que o Conde D. Francifco 
tinha defpedido pêra Ormuz aos negócios 
que diílemos no Capitulo VIII. do Livro 
II. e delle fouberam da chegada do Vifo- 
Rey , e de como EIRey D. Filippe ficava 
jurado em Goa, e de todas as mais novas 
que havia , e lhe deram a elle conta dos 
negócios das Galés. 

Partido elle dalli , foi ter a Ormuz, 
onde foi mui bem recebido, e deo ao Ca- 
pitão, a EIRey, e ao Guazil as Cartas de 
EIRey cheias de honras , e mercês ; e deo 
huma Provisão ao Guazil, cm que lhe fazia 
novamente mercê dos cargos do Guazila- 
do , e Juizado da Alfandega pêra hum fi- 
lho feu , o que elle teve por muito mimo , 
c grande mercê } e abrindo-fe os papeis 

que 



Década X, Cap. XIII. 103 

que levava, pelos quaes fe vio fer EIRey 
D. Filippe jurado , e obedecido por Rey f 
affim no Reyno todo, como na Cidade de 
Goa , que era cabeça deite Eftado , juntos 
os Eítados na Igreja , fizeram todas as fo- 
lemnidades acoítumadas , de que fe tira- 
ram papeis , e inílrumentos pêra mandar 
ao Reyno , o que tudo fe fez com a fide- 
lidade tão ordinária nos Portuguezes. Aca- 
bados os autos , e as feílas que fe fizeram , 
defpedíram Balthazar de Gamboa com 
Cartas pêra EIRey , e os traslados de to- 
dos os papeis , e aílim dos que alli fe fi- 
zeram , como os que trouxe João Corrêa 
de Brito de Goa ; e também mandaram 
hum Arménio por outra via com os mef- 
mos papeis pelos não arriicarem por hu- 
ma fó peífoa. Já quando chegou João Cor- 
rêa de Brito era partido Jeronymo de Li- 
ma com os papeis , que Fernão Tellee 
mandou a ElPvey , que foi entregue a hum 
Judeo , que fe obrigou ao pôr em Tripoli , 
ou Baruti , pêra dalíi fe embarcar pêra a 
Europa , e deixou dado fianças a trazer 
Carta fua de como o deixava em hum da- 
quelles portos ; e já que eílamos com efte 
negocio entre mãos , nos pareceo bem aca- 
barmos com fuás jornadas , por não pejar- 
mos outro lugar. 

Partido Jeronymo de Lima de Ormuz , 

foi 



104 ÁSIA de Diogo de Couto 

foi em companhia das cáfilas pela via de 
Suez , e Babylonia, e foi ter a Tripoli de 
Sinu , donde defpedio o Judeo com Cartas 
de como chegara alíi , e ficava pêra fe em- 
barcar nas náos que haviam de partir , co- 
mo de feiro logo fe embarcou , e no cami- 
nho foi tomado pelas Galés de Malta , e 
levado a 'hum dos feus portos; c as caufas 
por que não na foubemos , mas contava cá 
o mefmo Jeronymo de Lima 5 que o hou- 
vera o Capitão da Galé que o tomou por 
fufpeitofo ' y e que o mandara ao Grão Mef- 
tre , a quem dera elle conta do negocio a 
que hia , e lhe moftrára as Cartas : pelo 
que o mandou embarcar em huma náo de 
Secilia , que alli eítava , e entrcgallo ao 
Vifo-Rey , que fabendo ao que hia , por 
ganhar aquellas alviçaras com EIRey , que 
fabendo ao que hia, o deteve alguns dias, 
e defpedio hum Correio pela pofta com 
Cartas a EIRey Filippe , e depois largou 
a Jeronymo de Lima , que quando chegou 
a Madrid já EIRey tinha as novas por via 
de Secilia , de que cá fe queixava o Jero- 
nymo de Lima ; e em eíla matéria não ti- 
vemos outra informação mais que a que el- 
le deo ; mas nem por iífo deixou EIRey 
de lhe fazer mercê, dando-lhe o habito de 
Chrifto com boa tença , e lhe confirmou o 
cargo de Juiz da Alfandega de Goa , que 



Década X. Ca?. XIIL io? 

lhe o Vifo-Rey D. Luiz tinha dado , e lhe 
deo mais outros três annos , e outros car- 
gos pêra cafamentos de fuás irmans ; e de- 
pois que João Corrêa de Brito defpedio 
pêra oReyno, chegou á Cidade deAlepo, 
onde dizem que o mataram , por lhe toma- 
rem huma pouca de pedraria que levava. 
O outro Arménio , que o Conde D. Fran- 
cifco mandou primeiro pêra ir por via de 
Suez , deixou Luiz de Aguiar em Macua, 
hum dos portos de Abaífia , e dalli em 
companhia das cáfilas fe paliou a Suez , e 
dahi a hum daquelles portos do mar da 
outra Coita , onde fe embarcou em huma 
náo de Secilia , e por terra tomou o cami- 
nho de Madrid , e não foubemos em que 
tempo , fomente dizem alguns da obriga- 
ção do Conde D. Francifco , que primeiro 
tivera EIRey recado por fua via que pela 
de Fernão ^Telles ; e porque vai pouco em 
averiguar iíto , o deixamos. 



CA* 



io6 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO XIV. 

Do que aconteceo ao Governador Fernão 
Telles até fe embarcar pêra o Reyno : e 
de como Je fechou a cafa em que eftam os 
retratos dos Vrfo-Reys com o Jeu : e do 
que fobre ijfo Je nota. 

PRimeiro que entremos no governo do 
Conde D, Francifco Mafcarenhas , nos 
pareceo bem concluir com o do Governa- 
dor Fernão Telles até o pormos no Rey- 
no , com quem também acabaremos efte 
primeiro Livro ; e primeiro notaremos al- 
gumas coufas maravilhofas que nefta mu- 
dança do Reyno fuccedêram. Pelo que fe 
ha de faber , que primeiro que o Governa- 
dor Fernão Telles fe fahiíTe de feus apo- 
fentos , mandou pôr o feu retrato na cafa , 
onde eílavam os outros Governadores , e 
Vifo-Reys , a que com muita razão fe podia 
chamar a cafa da fama. He eíta huma fer- 
mofa cafa , em que eftam os retratos de 
todos os que governaram a índia , que D. 
Luiz de Ataíde a fegunda vez que a go- 
vernou mandou fazer de novo; e o Gover- 
nador Fernão Telles mandou pôr nelle to- 
dos os tetratos dos que governaram a ín- 
dia, que antigamente eílavam nas cafas de 
Sabaioj e alguns que faltavam, que eram 
I do 



Década X. Cap. XIV. 107 

do Governador Franciíco Barreto até elle 
Fernão Telles , mandou retratar , e renovar 
os mais , que foi huma obra muito necefla- 
ria , e curiofa. Nefta caía fazem os Vifo- 
Reys , e Governadores os Confelhos , e 
defpachos , porque he muito fermofa , e Jie 
muita razão que tenham elles fempre dian- 
te dos olhos aquellas Perfonagens , pêra 
que trabalhem de imitar as heróicas proe- 
zas daquelies Varões , onde ha muitos pêra 
iífo , feguindo nifto a ordem dos Athenien- 
íes , que no Senado coftumavam ter os re- 
tratos dos feus famofos , pêra que foflem 
viftos , e imitados de todos : e ainda faziam 
mais , que mandavam no mefmo Senado 
recitar os feitos dos Grandes ? pêra que os 
preferi tes pudeífem tomar exemplo ; porque 
as Efcrituras reprefentam mais ao vivo a- 
quellas imagens que ante os olhos fe tem , 
no que na índia houve fempre grande def- 
cuido. E poíto que as imagens que alli 
tem , reprefentam ao natural aquelles illuf- 
três varões , todavia são mudas , e não fal- 
iam ; nem na índia houve curiofos , que 
por elles fallaíTem naEfcritura, o que pela 
ventura nafeeria da falta dos favores que 
pêra iífo são neceífarios, ou de fe conten- 
tarem alguns de eftatuas , e corpos fantaíli- 
cos , não lhes lembrando quanto mais ti- 
nham por obrigação pertenderem imagens, 

que 



io8 ÁSIA de Diogo de Couto 

que dem mais moftras das virtudes do ani- 
mo 5 que das feições do corpo , e louçai- 
nhas dos trages , em que fe muitos cfme- 
ram 9 não imitando niíto ao grande Age- 
liláo, que pertendendo muitos Artífices ti- 
rallo ao natural , não confentio , como ho- 
mem que eftimava mais as iieroicas proe- 
zas 5 e extremadas virtudes do animo , em 
que elle defejava extremar-fe , que não as 
das feições do corpo , porque coíhimava a 
dizer, que eftas obras eram dos Artifices, 
e as outras fuás , e que huma era dos ri- 
cos , e as outras dos bons. E Sócrates iífo 
mefmo aconfelhava a feu Rey , que pro- 
curafle de deitar de íi taes imagens , que 
deíiem mais moílras de virtudes , que de 
louçainhas , e feições corporaes. E tor- 
nando á noífa ordem , primeiro que Fer- 
não Telles fe fahiíle dos apofentos dos 
Governadores , poz o painel do feu retra- 
to na cafa dos Illuílres , com o qual aca- 
bou de fechar todas as quatro paredes da 
cafa. E eftando com o primeiro , que he 
D. Francifco de Almeida , fem ficar lugar 
pêra nenhuma coufa mais , como pedra 
que fecha a abobeda , o que pareceo per- 
jnifsão Divina fechar-fe , e arrematar-fe a- 
quella cafa com o derradeiro Governador 
feito pelos Reys de Portugal. Como dalli 
por diante queria Deos noíío Senhor que 



Década X. Cap. XIV. 109 

fe começaflem os mais feitos pelos Reys 
de Portugal , e Caílella, como de feito aíTun 
foi ; porque D. Francifco Mafcarenhas pri- 
meiro Vifo-Rcy feito por EIRey de Portu- 
gal D. Filippe , e os mais fe paífáram a 
outra cafa , pofto que Mathias de Albu- 
querque defmanchou efta ordem , como em 
feu lugar diremos , no que não ha pouco 
que notar , começar-fe a primeira cafa dos 
Vifo-Reys feitos pelos Reys de Portugal 
em D. Francifco , e o melmo a fegunda 
cafa , em que começaram a pôr os feitos 
pelos Reys de Portugal , e Caílella , em 
outro D. Francifco; como também não he 
coufa de menor coníideração , que eíleRey- 
no de Portugal fe feparaííe do de Caílella 
por via de fêmea , dando-fe em dote ao 
Conde D. Henrique, que cafou com Dona 
Terefa , filha de EIRey D. AíFonfo o VI. 
de Caílella , em cujos defcendentes andou 
por via mafculina direitamente de redor de 
quinhentos annos , até fe acabar em outro 
D. Henrique , que foi o Cardeal Rey , por 
cuja morte fe tornou eíle Rey no a ajuntar 
ao outro por via de fêmea, que foi aEm- 
peratriz Dona Ifabel , filha de EIRey D. 
Manoel, que cafou com oEmperador Car- 
los V. de gloriofa memoria , de entre os 
quaes nafceo EIRey D. Filippe , que re- 
prefentando a peiloa de fua mãi 3 tornou 



no ÁSIA de Diogo de Couto 

a herdar efteReyno , como também fe tem 
notado dos Doutos por efpanto, que o pri- 
meiro Emperador de Conftantinopla fe cha- 
mou Conítantino , e fua mãi Elena , e o 
herdeiro , em quem aquelle Império aca- 
bou , affim mcfmo Conítantino , e fua mai 
Elena : e o primeiro Emperador de Roma 
Augufto (não contando Júlio Cefar , que 
foi Diílador perpétuo) e o herdeiro , em 
que também acabou aquelle Império Au- 
guftulo ; as quaes coufas, que parecem fo- 
brenaturaes , não podemos dizer que acon- 
teceram acafo , que iífo feria opinião de 
Gentios , mas são juizos de Deos noífo 
Senhor, que ordena todas eftas coufas por 
muitos juítos , e fecretos juizos feus. 

CAPITULO XV. 

De todos os Vifo-Reys , e Governadores P 

que governaram a índia y e que efiam 

nefla cafa , com o tempo que cada 

hum governou. 

Vlfo-Rey. D, Francifco de Almeida ? 
filho do Conde de Abrantes , que foi 
o primeiro que do Reyno partio com o ti- 
tulo de Governador , e na índia tomou o 
titulo deVifo-Rey: veio no anno de ijo^. 
governou quatro annos \ e indo pêra o Rey- 

no. 



Década X. Cap. XV. nr 

no , foi morto pelos Cafres na Aguada do 
Saldanha, 

Governador. Affònfo de Albuquerque 
luccedeo a D. Francifco de Almeida em 
Outubro de 1509. governou féis annos ; e 
vindo de tomar Ormuz , morreo aos Ilheos 
Queimados, doze léguas de Goa; tomou as 
Cidades de Ormuz, Goa, e Malaca. 

Governador. Lopo Soares de Alberga- 
ria fuccedeo a AfFonfo de Albuquerque, 
veio do Reyno o anno de IJIJT. governou 
três annos , e foi-fe pêra o Reyno. 

Governador. Diogo Lopes de Siqueira, 
Almotacel Mor do Reyno , fuccedeo a Lo- 
po Soares : veio do Reyno o anno de i^iS. 
governou três annos , e foi-fe pêra o Rey- 
no. 

Governador. D. Duarte de Menezes, 
fenhor da Cafa de Tarouca , fuccedeo a 
Diogo Lopes de Siqueira : veio o anno de 
15*21. governou três annos, e foi-fe pêra o 
Reyno. 

Vifo-Rey. D. Vafco da Gama , primei- 
ro Conde da Vidigueira , e Almeirante do 
mar da índia, o que a defeubrio : partio 
do Reyno o anno de 1524. com o titulo 
de Vifo-Rey , que foi o primeiro que El- 
Rey D.João o III. proveo: governou qua- 
tro mezes , e faleceo em Cochim em Fe- 
vereiro de 15 25*. 

Go- 



Hz ÁSIA de Diogo de Couto 

Governador, D. Henrique de Menezes 
o Roxo, íuccedeo na primeira via por mor- 
te do Viío-Rey D. Vafco da Gama : go- 
vernou hum anno, e hum mez , e faleceo 
em Cananor em fim de Fevereiro de 1526. 

Governador. Lopo Vaz de Sampayo , 
íuccedeo por morte do Governador D. 
Henrique de Menezes na terceira fuccefsão 
em aufencia de Pedro Maícarenhas , que 
fahio na fegunda, eílando por Capitão de 
Malaca , cujo eííe lugar com juftiça era; 
c fendo verdadeiro Governador , ficou fo- 
ra do numero dos deita caía : governou 
três annos , e dez mezes , e foi-fe pêra o 
Reyno. 

Governador. Nuno da Cunha , Veador 
da Fazenda do Reyno , fuccedeo a Lopo 
Vaz de Sampayo : veio do Reyno o anno 
de 1528. invernou em Ormuz, e chegou a 
Goa em Novembro de .... governou nove 
annos , e dez mezes : fez a Fortaleza de 
Calecut , eade Baçaim , ea de Dio j e 
indo pêra o Reyno , faleceo no mar. 

Viío-Rey. D. Garcia de Noronha fuc- 
cedeo a Nuno da Cunha : veio do Reyno 
o anno de 1538. governou a índia hum 
anno , e fete mezes , faleceo em Goa , e 
eftá enterrado na Sé. 

Governador. D. Eftevao da Gama , fi- 
lho do Conde Almirante D. Vafco : fucce- 

àQQ 



Década X- Cap. XV. 113 

deo por morte do Vifo-Rey D, Garcia y 
vindo de fervir a Capitania de Malaca: 
governou dous annos > e hum mez , e foi-fe 
pêra o Reyno. 

Governador. Alartim AíFonfo de Soufa 
fuccedeo a D. Eftevão da Gama : partio 
do Reyno o anno de i^i. invernou em 
Moçambique com todas as náos, chegou a, 
Goa em Maio de 1542. governou três an- 
nos , e quatro mezes. 

Governador , e Vifo-Rey. D. João de 
Caftro fuccedeo a Martim AíFonfo de Sou- 
fa : veio do Reyno o anno de 1545'. faíe- 
ceo em Junho de 1548. governou com o 
titulo de Governador dous annos , e com o 
de Vifo-Rey , que EIRey lhe mandou , 
quatorze dias. 

Governador. Garcia de Sá fuccedeo a 
D. João de Caftro em Junho de 1548. go- 
vernou hum anno, ehum mez, faleceo em 
Goa , .e jaz enterrado na Igreja de N. Se- 
nhora do Rofario , onde também eftá fua 
mulher , e foi o primeiro Governador ca- 
fado na índia. 

Governador. Jorge Cabral fuccedeo por 
morte de Garcia de Sá : governou hum 
anno , e quatro mezes , e foi-fe pêra o 
Reyno em Janeiro de i^o. foi também 
cafado na índia. 

Vifo-Rey. D. -AfFonfo.de Noronha, fi- 
Couto.Tom.VLF.L . H lho 



ii4 ÁSIA de Diogo de Couto 

lho do Marquez de Villa Real , veio do 
Reyno o anno de 1570. governou quatro 
annos y e foi-íe pêra o Reyno. Daqui por 
diante todos os que EiRey mandou go- 
vernar á índia foi com o titulo de Viíò- 
Reys. 

Vifo-Rey. D. Pedro Mafcarenhas íuo 
çedeo a D, AíFonfo de Noronha : veio do 
Reyno o anno de 15 5*4. governou nove 
mezes , e faleceo em Goa. 

Governador. Francifco Barreto fuccc- 
deo na primeira via por morte do Vifo- 
Rey D. Pedro : governou três annos , e 
dous mezes erneio, efoi-fe pêra o Reyno: 
depois no anno de 1570. tornou por Go- 
vernador , e Conquiílador da empreza do 
Monomotapa, e morreo no Forte deTeti. 

Vifb-Rey. D. Conftantino , filho do Du- 
que de Bragança , Camareiro Mor de Ei- 
Rey, fuccedeo a Francifco Barreto : veio 
do Reyno o anno de 1558. e foi feito pe- 
la Rainha , e Cardeal Tutores de E!Rey 
D. Sebaftiáo , por haver pouco que EIRey 
D. João era falecido : governou três annos, 
e foi-fe pêra o Reyno. 

Vifo-Rey. D. Francifco Coutinho , Con-» 
de do Redondo , veio no anno de 1561. 
governou dous annos emeio, e faleceo em 
Goa em Março de 1564. 

Governador. João de. Mendoça fucce- 
deo 



Década X. Cap. XV. n? 

deo por morte do Conde de Redondo : 
governou féis mezes , e foi-fe pêra o Rey- 
no. 

Vifo-Rey. D. António de Noronha par- 
tio do Reyno o anno de 1564. governou 
quatro annos; e indo pêra' o Reyno, fale- 
ceo no mar. 

Vifo-Rey. D. Luiz de Ataíde, Senhor 
daCafa da Atougía , veio do Reyno o an- 
no de 15*68. foi o primeiro Vifo-Rey fei- 
to por EIRey D. SebaíUao : governou três 
annos , e foi-fe p^era o Reyno. 

Vifo-Rey. D. António de Noronha veio 
o anno de 157 1. governou dous annos , e 
mandou EIRey que entregaíle a Governan- 
ça a António Moniz Barreto , como fez , e 
foi-fe pêra o Reyno. 

Governador. António Moniz Barreto 
fuccedeo a D. António de Noronha : go- 
vernou três annos , e dez mezes , e foi-fe 
pêra o Reyno. 

Governador. D. Diogo de Menezes , fí- 
Jho do Craveiro, fuccedeo a António Mo- 
niz : governou dez mezes , e foi-fe pêra o 
Reyno. 

Vifo-Rey. D. Luiz de Ataíde , Conde 
de Atouguia , veio fegunda vez governar a 
índia : fuccedeo a D. Diogo de Menezes , 
partio em Novembro de 1577. foi ter a 
Goa em fim de Agofto de 15:78. governou 
H ii dous 



u6 ÁSIA de Diogo de Couto 

dous annos , c fete mezes y e faleceo em 
Goa. 

Governador. Fernão Telles fuccedeo 
por morte de D. Luiz .de Ataíde , e com 
elle fe fecha efta Cafa 7 e íe arremata efte 
Capitulo : governou féis mezes , e foi-fe 
pêra o Reyno. 

CAPITULO XVI. 

De todas as Armadas que os Reys de Por- 
tugal mandaram á índia , até que El- 
Rey D. Filippe fuccedeo nejles 
Reynos. 

JA que nos penhorámos no Capitulo paf- 
fado em fazermos hum fummario de to- 
dos os Vifo-Reys , e Governadores , que 
governaram efte Eliado , feitos pelos Reys 
de Portugal , não fera fora de propofito fa- 
zermos aqui efte de todas as Armadas , que 
mandaram á índia , até que EIRey D. Fi- 
lippe fuccedeo neftes Reynos; e fervirá ifto 
pêra os que quizerem faber em. que anno 
veio tal Armada , e governou tal Vifo- 
Rey , acharem tudo á mão 5 fem revolve- 
rem todas as Chronicas , que fora ifto ef- 
cufado trabalho : o efcrever he noíTo , quem 
o não quizer ler, pode paílar por elle. 
Anno de 1497. Partio Vafco da Gama 

a 



DecadaX. Ca p. XVL 117 

a defcubrir a índia a 8. de Junho , hum 
fabbado , com três náos , e elle > e feu ir- 
mão Paulo da Gama em outra , e Nicoláo 
Coelho : trazia mais hum navio com pro- 
vimentos , de que era Capitão Gonfalo 
Nunes , criado do mefmo D. Vafco , o qual 
levava agua, e provimentos de fobrecellen- 
te ; e depois de paliado o Cabo da Boa 
Efperança , recolheo Vafco da Gama os 
mantimentos , e os repartio pelos mais na- 
vios , e a efte poz fogo* 

Anno de i^oo. Partiram treze náos, de 
que era Capitão Mor Ped raives Cabral , 
a hum fabbado nove dias de Março, Os 
Capitães da fua companhia , fora elle , eram 
Sancho de Toar , Simão de Miranda , Ay- 
res Gomes da Silva , Nicoláo Coelho , Nu- 
no Leitão, Bartholomeu Dias Piloto Mor, 
o que defcqbrio o Cabo da Boa Efperan- 
ça , Pedro Dias feu irmão , Vafco de Ataí- 
de , Pedro de Ataíde , Duarte Pacheco Pe- 
reira , Luiz Pires , e Gafpar de Lemos. 
Defcubrio efta Armada á vinda pêra cá a 
terra do Brazil , a que poz o nome Santa. 
Cruz ; e na altura das Ilhas de Triftao 
da Cunha viram hum efpantofo cometa , 
e logo lhe deo huma tormenta tão fupi- 
ta , que á vifta de toda a Armada fe fo- 
çobráram finco náos , Capitães Bartholo- 
meu Dias , Pedro de Ataíde , Aires Go^- 

mes 



n8 ÁSIA de Diogo de Couto 

mes da Silva, Vafco de Ataíde , e Simão 
de Pina. 

Anno de 1501. Partiram quatro náos , 
Capitão Mor João da Nova , deo á vela 
a 5. de Março : os Capitães, a fora elle, 
eram Diogo Barbofa , Francifco de No- 
vaes , e Fernão Vinet , Florentino , que vi- 
nha por conta de Bartholomeu Mechiane 
armador ; e Noroeíle Saette com Moçam- 
bique quarenta léguas ao mar delle defcu- 
brio á vinda a Ilha a que João da Neva 
poz o feu nome, e á torna viagem a Ilha 
de Santa Eiena ,• em dezefeis gráos do Sul 
eícallbs. 

Anno de 15*02. Tornou a partir pêra 
a índia o mefmo Vafco da Gama , que El- 
Rey D. Manoel honrou com o titulo de 
Dom , a elle , e a feus Irmãos ; e o fez 
Almeirante do mar da índia , o qual partio 
de Lisboa a 10. de Fevereiro com nove 
n náos , de que, a fora elle, eram Capitães 
D. Luiz Coutinho , filho de D. Gonfaío 
Coutinho, de alcunha o Ramiro, filho do 
fegundo Conde de Marialva, Pedro Affbn- 
ib de Aguiar , Francifco da Cunha, João 
Lopes Fereftrelo , Paiy de Caílanheda , Gil 
Matcfo , António do Campo , Gil Fernan- 
des, e Diogo Fernandes Corrêa. 

Logo apôs elle partio Vicente Sodré , 
Tio do mefmo Almirante , por Capitão 

Mór 



Década X. Cai». XVI. 119 

Mor de finco náos , debaixo da bandeira 
de D. Vafco da Gama , e hia pêra ficar na 
Coita do Cabo Guardafú, e em guarda do 
Eítreito de Meca :- os Capitães das outras 
náos , a fora elle , eram Braz Sodré j feu 
Irmão Álvaro Sodré , Fernão Rodrigues 
Bardaças 5 e António Fernandes. 

No meímo anno ao primeiro de Abril 
partiram outras finco náos , das quaes era 
Capitão Mor Eílevao da Gama , filho de 
Aires da Garria , e Primo co-Irmao do Al- 
mirante : os Capitães , a fora elle , eram 
Lopo Martins de Vafconcellos , Thomaá 
de Carmona, Lopo Dias, ejoão deBuena 
Gracia Italiano. 

Anno de 15*03. Partiram nove náos em 
três Capitanias ; a primeira j que partio 
cm Março , era de três náos , Capitão Mor 
AíFonfo de Albuquerque, Senhor de Villa 
Verde , filho de Goníalo de Albuquerque : 
os Capitães da íua companhia eram Duarte 
Pacheco Pereira, e Fernão Martins dê Al- 
meida. ' 

As outras três náos partiram entrada 
de Abril , era Capitão Mor Francifco de 
Albuquerque , Primo co-Irmão de AíFonfo 
de Albuquerque ; os outros eram Nicoláo 
Coelho , e Pedro Vaz da Veiga : eftas leis 
náos foram ordenadas pêra tornarem com 
a guarda da pimenta \ e indo de volta pê- 
ra 



120 ÁSIA de Diogo de Couto 

ra o Reyno , defappareceo a náo de Fran- 
cifco de Albuquerque. 

As outras três náos partirão a 15*. de 
Abril , era Capitão Mdr António de Sal- 
danha ; os mais Capitães eram Ruy Lou- 
renço Ravafco 5 e Ruy Fernandes Piteira: 
eftas náos hiam ordenadas pêra andarem 
de Armada no Cabo de.Guardafu. 

Anno de 1^04. Partiram treze náos, 
Capitão Mor Lopo Soares de Albergaria : 
os Capitães de fua companhia eram Pedro 
de Mendoça , Leonel Coutinho , Triítão 
da Silva , Lopo Mendes de Vaíconcellos y 
Manoel Telles Barreto , Lopo de Abreu , 
Filippe de Caílro , AíFonfo da Coíla , Pe- 
dro AíFonfo de Aguiar, Vafco da Silveira, 
Vafco Carvalho , e Pedro Diniz : da volta 
que eíta Armada fez pêra o Reyno perdeo- 
íe a náo de Pedro de Mendoça quatorzc 
léguas da aguada de S.Braz, 

Anno de i^O). Partia D. Francifco de 
Almeida , filho do Conde de Abrantes , 
com o titulo de Governador da índia , pe- 
ma ficar nella : deo á vela em tf. de Março 
com vinte e huma náos ; os Capitães del- 
ias eram os feguintes : D. Francifco de Sá y 
Ruy Freire , Vafco de Abreu , João da 
Nova ? Sebaftião de Soufa , Diogo Corrêa, 
Pedro Ferreira Fogaça , Lopo Sanches , 
Filippe Rodrigues , João Serrão , Lopo de 

DeoSj 



Década X. Ca p. XVI. 121 

Deos , Antão Gonfalvês , BartholomeuDias 
Caftelhano , Fernão Soares , Gonfalo Gil 
de Góes , Gonfalo Pereira , Lucas de Af- 
fonfeca, Lopo Chanoca, João Homem, e 
António Vaz. Eítes féis hiam em féis ca- 
ravelas pêra ficarem na índia ; e antes de 
chegarem á linha de Portugal fe foçobrou 
a náo de Pedro Ferreira á vifta das outras 
que lhe acudiram , e falváram toda a gen- 
te , e a náo de Lopo Sanches varou em 
terra quarenta léguas ao Sul do Cabo das 
correntes , e com a pregadura , e madeira 
fizeram hum caraveião , em que fe embar- 
caram os que quizeram , fó feffenta fica- 
ram em terra, e em hum efquadrao foram 
caminho de Çofala , aonde chegaram al- 
guns menoç. E ainda quando foi Pedro de 
Anhaya fazer aquella Fortaleza , achou vin- 
te e finco vivos , e Lopo Sanches no cara- 
veião defappareceo fem fe faber delíe. 

Logo em Maio apôs eftas Armadas 
partiram finco náos , Capitão Mor Pedro 
de Anhaya , que hia fazer huma Fortaleza 
cm Çofala : os mais Capitães eram feu fi- 
lho Francifco de Anhaya , Pedro Barreto 
de Magalhães , João Leite , Manoel Fer- 
nandes , e João de Queiroz. 

No Setembro feguinte partiram duas 
náos, Capitães .. Barbuda , e Pedro Quaref- 
ma, que EIRey mandou defcubrir o Cabo 

da 



122 ÁSIA de Diogo de Couto 

da Boa Efperança , c toda aquella Cofia, 
e Ilhas até Çofala , pera ver fe achavam 
novas de Francifco de Albuquerque , e Pe- 
dro de Mendoça. 

Anno de i^oó. Partiram onze náos, 
Capitão Mór Triítao da Cunha , que deo 
á vela a 6. de Março ; os mais Capitães 
eram Álvaro Telles Barreto , Leonel Cou- 
tinho , Job Queimado , Ruy Dias Pereira , 
João Gomes de Abreu, Álvaro Fernandes, 
Ruy Pereira Coutinho, Triítao Alvares, e 
João da Veiga. 

Juntamente com elle partiram outras 
féis náos , Capitão Mor Affoníb de Albu- 
querque , que hia pera ficar na Coita da 
Arábia , no Cabo de Guardaíu , e até Mo- 
çambique havia de ir debaixo da bandeira 
de Trilião da Cunha : os Capitães deitas 
náos eram Affoníb de Albuquerque , Fran- 
ciíco de Távora , Manoel Telles , Affoníb 
Lopes da Coita , António do Campo , João 
da Nova ; ambas eítas Armadas inverná- 
ram em Moçambique , íem paílar nenhuma 
náo á índia aquella monção. Eíte annô em 
quarta feira 13. de Janeiro á huma hora 
depois do meio dia houve hum eclipíô do 
Sol , que durou <huma*hora e meia, e ef- 
cureceo tanta parte , que fe viram muitas 
eítrellas na Cidade de Cochim. 

Anno de 1507. Partiram quatorxe náos 

em 



Década X. Cap. XVI. 123 

cm I^. de Abril, repartidas em três Capi- 
tanias j a primeira Capitão Mor Jorge de 
Mello , o Tranca , e com elle Henrique 
Nunes de Leão, e Jorge deCaftro, ambos 
Irmãos. 

De outras quatro náos era Capitão 
Mor Fernão Soares , os outros Ruy da Cu- 
nha , Gonfalo Carneiro , e João Collaço. 

Da Armada , que era de féis náos , veio 
por Capitão Mor Vafco Gomes de Abreu, 
que hia provido na Capitania de Çofaia ; 
os mais Capitães eram Lopo Cabreira, 
com quem elle hia embarcado , Ruy Gon- 
falves de Valladares , Pedro Lourenço , João 
Canoça , e Martim Coelho , e Diogo de 
Mello, que havia de ficar por Capitão Mor 
das náos , que foíTem á índia tomar a car- 
ga : todas eílas náos invernáram em Mo- 
çambique , e fó Fernão Soares foi tomar 
Cochim. Efte anno tremeo a te'rra nefta 
Cidade a 15. de Julho por efpaço de hu- 
ma hora com alguns intervallos muito ri- 
jamente, 

Anno de 1508. Partiram quadro náos 
a £. de Abril \ de que era Capitão Mor 
Diogo Lopes de Siqueira , que hia pêra 
Malaca ; os outros Capitães eram Jerony- 
mo Teixeira , Gonfalo de Soufa , e João 
Nunes. 

E porque ás cou£ts da índia o Capitão 

Mor, 



124 ÁSIA de Diogo de Couto 

Mor , e Governador não podiam acudir a 
todas ellas , ordenou EIRey de dividir o 
Eílado em três partes , por eíta maneira. 
Do Cabo deComorim até á China debaixo 
da jurifdicção de Diogo Lopes de Siquei- 
ra ; outra parte defde Çofala até á ponta 
de Dio com titulo de Capitão Mor de mar 
da Ethiopia , Arábia , Perfia 3 e Cambaya > 
pêra a qual elegeo Jorge de iVguiar , que 
havia de ir a fucceder a AíFonlò de Albu- 
querque , que andava no Cabo de Guarda- 
fú , e lhe deo íinco náos , de que , a fora 
elle , eram Capitães Duarte de Lemos , da 
Trofa , que lhe havia de fucceder em au- 
fencia , Vafco da Silveira , Pedro Corrêa 5 
e Diogo Corrêa feu Irmão , filhos do Balío 
de Leça ; e Jorge de Aguiar indo pêra a 
índia , fe perdeo nas Ilhas de Trilião da 
Cunha. 

A outra parte havia de fer defde a 
ponta de Dio até o Çomorim , de que ha- 
via de fer Capitão Mor , com titulo de 
Governador , Aífonfo de Albuquerque , a 
quem EiRey mandava que entregaífe D. 
Francifço de Almeida o Eílado. No mef- 
mo anno partiram féis náos mais ? Capitão 
Mor Francifço Pereira Peílana, e os mais 
Capitães eram Vafco Carvalho , Álvaro 
Barreto , João Colaço , Gonfalo Martins 
de Brito 5 e Triítão da Silva, 

An- 



Década X. Cap. XVL 125? 

Anno de i^ocj. Partiram doze náos a 
if. de Março, das quaes era Capitão Mór 
D» Francifco Coutinho Marechal , que hia 
feparado do Governador ; os Capitães de 
lua companhia eram Pedro AfFonio de A- 
guiar Sota-Capitão, Francifco de Sá, Vea- 
dor da Fazenda do Porto , Sebaftiãa de 
Soufa , Leonel Coutinho , Francifco de 
Soufa Maneias , Ruy Freire , Gomes Frei- 
re , Jorge da Cunha , Francifco Corvinel , 
Rodrigo Rebello de Caítello-Branco , Fran- 
cifco Marrecos , Braz Teixeira , Álvaro 
Fernandes , Jorge Pires Bixorda : achou o 
Marechal prezo a Affonfo de Albuquerque 
em Cananor, que o tinha alli o Vifo-Rey 
D. Francifco de Almeida , e o levou com- 
ligo a Cochim , onde o Vifo-Rey lhe en- 
tregou o Eítado , e fe fizeram amigos : 
foi efte o primeiro Governador , que fuc- 
cedeo na índia: e D. Francifco de Almei- 
da fe embarcou pêra o Reyno , e na a- 
guada do Saldanha foi morto pelos Ca- 
fres , e o Marechal também o mataram 
em Calecut , onde elle , e Affonfo de Al- 
buquerque defembarcáram. 

Anno de 1510. Partiram quatorze náos 
repartidas em três Capitanias , quatro a 8. 
de Março , em que hia Diogo Mendes de 
Vafconcellos , e com elle Balthazar da Sil- 
va , Pedro Quarefma , e Jeronymo Sarnigo. 

Lo- 



126 AS IA de Diogo de Couto 

Logo a 16. domefmo mez partiram fe- 
te náos , Capitão Mor Gonfalo de Siquei- 
ra , os outros Manoel da Cunha > Diogo 
Lobo , Jorge Nunes de Leão , Lourenço Lo- 
pes , João de Aveiro, e Lourenço Moreno* 

Depois em Agofto a oito do mez par- 
tiram três náos , Capitão Mor João Serrão , 
que hia defcubrir a Ilha de S. Lourenço; 
os outros Capitães eram Payo de Soufa, e 
do outro não fe acha o nome. 

Anno de 15 11. Partiram féis náos a 
19. de Abril , Capitão Mor D. Garcia de 
Noronha , que depois foi Vifo-Rey da ín- 
dia ; os outros eram Pedro Mafcarenhas , 
o das differenças , D. Ayres da Gama , Jor- 
ge de Brito , Chriftovão de Brito, e Ma- 
noel de Caftro Alcoforado. 

Anno de 15 12. Partiram oito náos em 
Março, Capitão Mor Jorge de Mello; os 
mais Jorge da Silva , Pedro de Albuquer- 
que , Gafpar Pereira, D.João d 3 Eça, Gon- 
falo Pereira , Vicente de Albuquerque , e 
Jorge de Albuquerque. 

No mefmo anno partiram mais três 
náos , Capitão Mor Garcia de Soufa ; 
os outros Lopo Vaz de Sampayo , que 
foi o das differenças , e Simão de Miran- 
da. 

Anno de 15*13. Partiram quatro náos, 
Capitão Mor João de Soufa de Lima ; os 

QUt 



Década X. Cap. XVL 127 

outros Francifco Corrêa , D, Henrique de 
Leão , e Jorge Lopes. 

Anno de 15 14. Partiram finco náos 
em Março , das quaes eram Capitão Mór 
Jorge de Brito , e os mais Francifco Pe- 
reira Coutinho , Manoel de Mello , João 
Serrão , e Luiz Dantas. 

Anno de i^i?. Partio Lopo Soares por 
Governador da índia , e deo á vela a 7. 
de Abril : levou quatorze náos • de que , a 
fora elle , eram Capitães D. Guterres de 
Monroy, D. Garcia Coutinho, D. João da 
Silveira , Jorge de Brito , Álvaro Telles 
Barreto , D. Aleixo de Menezes , o que 
depois foi Ayo de EIRey D. Sebaftião , 
que hia provido de Capitão Mór do mar 
da índia , Simão de Alcáçova, Diogo Men- 
des de Vafconcellos , Lopo Cabral , Simão 
de Oliveira , Chriílovao de Tavcra , e 
Francifco de Távora. 

No mefmo anno partiram Fernão Pires 
de Andrade pêra a China com três náos ; 
es outros Capitães eram Jorge Mafcare- 
nhas , e João Rebello : chegaram á índia 
juntamente com o Governador Lopo Soa- 
res. 

Anno de içió. Partiram finco náos., 
Capitão Mór João da Silva ; os mais eram 
Francifco de Soufa Maneias , que fe per- 
deo , AfFonfo Lopes da Coita , Diogo de 

Unhos ? 



n8 ÀS IA de Diogo de Couto 

Unhos , e António de Lima , que fc per- 
deo na Ilha de S. Lourenço. 

Anno de 1517. Partiram outras íinco 
náos, Capitão Mor António de Saldanha; 
os mais Pedro Quareíma , Manoel de La- 
cerda , D. Triítão de Menezes , e Rafael 
Caíianho , e huma caravela Latina. 

Anno de 15*18. Partio Diogo Lopes de 
Siqueira por Governador da Índia a 6. de 
Março com doze náos , de que , a fora 
elle , eram Capitães Ruy de Mello o Punho , 
D. Ayres da Gama , Garcia de Sá , Gonfa- 
lo Rodrigues o Grego , João Gomes Chei- 
radinheiro, Pedro Paulo , Lopo Cabreira, 
João Lopes Alvinoto , D. Gaftão Coutinho , 
Sancho de Toar , e D. João de Lima , que 
foi o que no Cabo da Boa Efperança ba- 
rafuftou com a fua náo hum peixe Agulha, 
e com o bico lhe deo tamanha pancada, 
que lho deixou todo mettido no coitado , 
cuja força fez abalar a náo de feição , que 
parecia dar em algum baixo ; e em Co- 
chim, dando pendor a náo , íe lhe achou 
o bico dentro no cofiado , e fe retirou, o 
qual era coufa façanhofa de ver. 

Anno de iyi^ Partiram treze náos, 
Capitão Mor Jorge de Albuquerque ; os 
mais eram D. Diogo de Lima , Lopo de 
Brito , Francifco da Cunha , Pedro da Sil- 
va 3 Diogo Fernandes de Beja, Chriftovãa 

de 



De ca da X. C A í>. XVI. I29 

de Mendoça , 'Gonfalò Rodrigues Corrêa J 
D. Luiz de Gufmão Caftelhano , que fe 
levantou com a náo, e matou os Officiaes § 
e fe foi metter dentro do Eítreito de Gi- 
braltar , João Rodrigues de Almada, Garcia 
Cahinho , o Doutor Pedro Mendes , que 
hia por Veador da Fazenda , izento do 
Governador , e Manoel de Sòufa , que foi 
tomar hum lugar da Coita de Melinde* 
chamado o Ma taro , onde o mataram com 
quarenta. Portuguezes , quefahíram a terra i 
e a náo foi varar a Zanzibar , onde todos 
os mais foram mortos. 

Na mefma companhia > e debaixo da 
fua bandeira partiram mais três náos pêra 
a China , os Capitães eram Rafael Cafta- 
nho , Diogo Calvo , e Rafael Preítelo. 

Anno de 1520. Partiram mais dez náos 9 
Capitão Mor Jorge de Brito, os mais eram 
Pedro Lopes de Sampaio, Pedro Louren- 
ço de Mello, Galpar da Silva , Lopo de 
Azevedo, Pedro da Silva, Lopo de Brito i 
Pedro Annes Francez* André Dias, e Ruy 
Vaz' Pereira. 

Anno de 1521. Partio D. Duarte de 
Menezes, Senhor da cafa de Tarouca "\ por 
Governador da índia , levou onze náos, 
cujos Capitães eram D. Luiz de Menezes 
feu Irmão , que hia por Capitão Mor da 
Índia , D. Joã,o de Lima , D> Diogp de Li- 
Couto. Tom. VI. P. I. I ma, 



# 



130 ÁSIA de Diogo de Couto 

ma , João de Mello da Silva , Francifco 
Pereira Peítana , D.João da Silveira , Diogo 
de Sepúlveda , António Rico, Gonçalo Ro- 
drigues Grego , è Vicente Gonçalves. 

Nomeímo tempo partiram quatro náos 
pêra a China , de que era Capitão Mor 
Martim Affoníb de Mello , e os mais Vaf- 
co Fernandes Coutinho , Diogo de Mello , 
feu Irmão Pedro Homem. 

No mefmo anno partiram outras três 
náos , Capitão Mor Sebaftião de Soufa, 
que EIRey mandava pêra .ir fazer a For- 
taleza da Ilha de S. Lourenço da banda de 
fora pêra recolhimento das náos , que por 
aquella parte caminhaíTem : dos Capitães 
das náos não fe acham nomes : no cami- 
nho defappareceo huma das náos , e com 
as duas foi tomar Moçambique. Em Agof- 
to feguinte teve recado deElRey D.João, 
que fuccedeo no Reyno por falecer efte 
anno EIRey D. Manoel , que fe fufíiveíTe 
110 negocio da Fortaleza de S. Lourenço , 
porque fe aílentou em feu Confeího que 
era defnecelfaria. 

Tempo de EIRey D. João , que ejie anno 
fuccedeo no Reyno. 

ANno de i<r22. Partiram três náos , 
que foi a primeira Armada que EI- 
Rey D. João o III. mandou y da qual era 

Ca- 



'Década X. Cap.XVI. 13Í 

Capitão Mor D. Pedro de Caítello-Branco : 
os mais Capitães eram D, Pedro de Cak 
tro , e Diogo de Mello. 

Anno de 1523. Partiram v íete náos, de 
que era Capitão Mor Diogo da Silveira: 
os outros eram Heitor da Silveira , D. An-* 
tonio de Almada 9 Manoel de Macedo, 
Pedro de Affonfeca , Diogo da Silva , e 
Ayres da Cunha , que fe perdeo em Mo< 
çambique. 

Anno de 15*24* Partio porVifo-Rey da 
índia o Conde Almirante D* Vafco da Ga- 
ma 5 o que defcubrio a índia , trouxe qua- 
torze náos : os Capitães eram D. Eitevão 
da Gama feu filho , que hia por Capitão 
Mor do mar da índia 3 António da Silvei- 
ra 5 o que fuftentou em Dio o cerco contra 
os Rumes , Francifco de Brito, Lopo Vaz 
de Sampayo , Affonfo Mexia , que hia por 
Veador da Fazenda , Lopo Lobo a Pedro 
Mafcarenhas i o daS differenças , D. Hen- 
rique de Menezes o Roxo , defpachado 
com Ormuz 5 António Carvalho a Menfe 
Gafpar , Chriílovao Brotado , que fe per- 
deo , D. Simão da Silveira , D. Francifco 
de Noronha 5 que também defappareceo. 

Anno de 1525. Partiram íineo náos fem 

Capitão Mór : os. Capitães eram D. Lopo 

de Almeida, Filippe de Caílro , que varou 

no Cabo de Rofalgate , Diogo de Mello , 

1 ii Fran- 



i^i ÁSIA de Diogo de Couro 

Francifco de Anhaya ,:. que fe perdeo ad 
íahir de Lisboa, mas falvou-fe a gente. 

Anno de 1526. Partiram íinco náos fem 
Capitão Mor :• os Capitães eram Triítão 
Vaz da Veiga , António Galvão , Francifco 
de Anhaya, António de Abreu, e Vicente 
Gil. 

Anno de 15*27. Partiram finco náos , 
Capitão Mor Manoel de Lacerda: os mais 
eram Chriftovao de Mèndoça , Irmão da 
Duqueza de Bragança , defpachado com 
Ormuz , Aleixo de Abreu , Balthazar da 
Silva , e Gafpar de Paiva : as náos do Ca- 
pitão Mor, e de Aleixo de Abreu vararam 
na Ilha de S. Lourenço no rio de Sant-lago , 
e falvou-fe em terra toda a gente , que os 
Cafres da terra mataram. 

Anno de 1528. Partio Nuno da Cunha, 
Veador da Fazenda do Reyno , por Gover- 
nador da índia com onze náos , de que , a 
fora elle , eram Capitães Simão da Cunha, 
e Pedro Vaz da Cunha feu Irmão : o Simão 
da Cunha por Capitão Mor do mar da ín- 
dia, João de Freitas, D. Fernando de Li^ 
ma , D. Francifco d 5 Eça , Francifco de 
Mendoça, Affonfo Vaz Zambuja , que fe 
perdeo na Ilha de João da Cova. 

Anno de 1^29. Partiram íinco náos, 
Capitão Mor Diogo da Silveira : os mais 
Henrique Moniz , que trouxe dous filhos , 

Ay- 



Década X. Cap. XVL 133 

Ayres Moniz, e António Moniz, que de-' 
pois foi Governador da índia, Ruy Gomes 
da Gran , Ruy Mendes de Mefquita , : e 
Manoel de Macedo , que foi feparado pê- 
ra ir a Ormuz prender o Goazil Raiz Xa- 
rife. 

Anno de i^3°' Partiram féis náos fem 
Capitão Mor : os Capitães eram Francifco 
de Soufa Tavares , Fernão Camello , Vicen- 
te Pegado , Manoel de Brito , Pedro Lo- 
pes de Sampayo , e Luiz Alvares de Paiva. 

Anno de 15*31. Partiram finco náos, 
que também não trouxeram Capitão Mor: 
Capitães eram Achiles Godinho , Diogo 
Botelho , João Guedes , e Manoel de Ma- 
cedo , que varou em Calecurem do Caba 
de Comorim pêra dentro , e falvou toda 
a gente em terra , aonde os foram bufcar 
de Cochim, 

Anno de 15*32* Partiram finco náos,. 
Capitão Mor o Doutor Pedro Vaz , que 
hia por Veador da Fazenda da índia , e 
por Capitão de Cochim: os mais Capitães 
eram Vicente Gil , D.Eftevão , e D. Paula 
da Gama, filhos do Conde Almirante, que 
defcubrio a índia , os quaes hiam defpa- 
chados com a Capitania de Malaca., o ou- 
tro era António Carvalho. 

Anno de 15*33. Partiram fete náos em 
duas Capitanias: a primeira era de D.Joãa 

Pe- 



134 A S I A de Diogo de Couto 

Pereira , que hia defpachado com a Capi- 
tania de Goa, Franciíco de Paiva, e Dio-^ 
go Mendes ; o outro Capitão Mor era D. 
Gonçalo Coutinho , que também levava a 
Capitania de Goa : levou quatro náos ? os 
Capitães , a fora elle , forão Nuno Furta- 
do , Simão da Veiga , D. Francifco de No- 
ronha , que defappareceo. 

No mefmo anno em Outubro partiram 
dez Caravelas , Capitão Mor D. Pedro de 
Caftelio-Branco : os mais Capitães eram 
Nicoláo Juzarte , Balthazar Gonfalves , An- 
tónio Lobo 5 Leonel de Lima , Heitor de 
Soufa , Franciíco Ferreira , Gonfalo Fer- 
nandes , João de Soufa , e Francifco Gon- 
falves Leme. 

Anno de i^/j. Partiram finco náos, 
Capitão Mor Martim Affonfo de Soufa , 
que hia pêra ficar na índia por Capitão 
Mor do mar : os mais Capitães eram Dio- 
go Lopes de Soufa , António de Brito, 
Simão Guedes, e Triftão Gomes de Mina. 

Anno de 15*35% Partiram fetenáos, Ca- 
pitão Mor Fernão Peres de Andrade* , os 
mais Martim de Freitas , Thomé de Sou- 
fa , Jorge Mafcarenhas 5 Luiz Alvares ? Fer- 
não Camelo , e Fernão de Moraes. 

Anno de 1536. Partiram finco náos, 
Capitão Mor Jorge de Lima :. os mais Ca- 
pitães D, Fernando de Lima , Martim de 

Frei- 



Década X. Cap. XVI. 13? 

Freitas , Lopo Vaz Vogado , e D. Pedro 
da Silva , filho do primeiro Conde Almi- 
rante. 

Anno de 15^37. Partiram finco náos, 
Capitão Mor Jorge Cabral , que depois 
governou a índia : os mais Vicente Gil , 
Gafpar de Azevedo , Ambroíio Rego , e 
Duarte Pacheco. 

Partiram o mefmo anno de 1537. ou- 
tras finco náos fem Capitão Mór , Capi- 
tães Diogo Lopes de Soufa , Aleixo de 
Soufa defpachado com a Fortaleza de Q> 
fala , e Moçambique, Henrique de Soufa 
Chixorro feu Irmão , e Fernão de Caftro. 

Anno de 15*38. Partio por Vifo-Rey da 
índia D. Garcia de Noronha com onze 
náos , Capitães D. João de Caftro , que 
depois foi Vifo-Rey da índia , D. João 
Deça, que trazia a Capitania deCananor, 
D. Chriftovao da Gama, filho do primeiro 
Conde Almirante, defpachado com Mala- 
ca , Luiz Falcão com a de Ormuz , Fran-* 
cifco Pereira de Berredo com a de Chaul, 
D. Francifco de Menezes com a de Ba- 
çaim, D. Garcia de Caftro com a de Goa, 
João de Sepúlveda com a de Çofala , Ruy 
Lourenço de Távora com a de Baçaim, 
Bernardim da Silveira o Drago com a de 
Dio , eíle perdeo-fe á vinda. 

Anno de 1539. Partiram finco náos % 

Ca- 



136 AS I A de Diogo de Couto 

Capitão Mor Diogo Lopes de Soufa , que 
defappareceo á tornaviagem : os mais D. 
Roque Tello , Álvaro Barradas 5 Simão So- 
çlré, e Henrique de Soufa Chixorro. 

Anno de i^o. Partiram quatro náos ',; 
Capitão Mor Francifco de Soufa Tavares: 
os outros Simão , da Veiga , Vicente Lou- 
renço 5 Batevias , e Vicente Gil. 

Anno de 1541. Partio pêra Governador 
da Índia Martim AíFonfo de Soufa com 
linco náos , Capitães D. Álvaro de Noro- 
nha , Álvaro Barradas , Francifco de Sou- 
ía , e Luiz Cayado : nenhuma náo deitas 
paííbu á índia > e todas invernáram em 
Moçambique , e o Governador Martim 
AíFonfo partio em Abril pêra a índia em 
hum Galeão , ^e levou em fua companhia 
a fua náo , que fe foi perder em Baçaim > 
€ eile chegou a Goa em Maio de 15*41. 

Anno de 1^42, Partiram quatro náos 
fem Capitão Mor , Capitães Henrique de 
Macedo , Balthazar Jorge , Lopo Ferreira , 
e Vicente Gil , que fe perdeo na Coita de 
Melinde, 

Anno de 15*43. Partiram finco náos > 
Capitão Mor Diogo da Silveira : os mais 
Capitães Simão Sodré , D. Roque Tello , 
fçrnão Alvares da Cunha , e Jacome Trif- 
tão 5 que arribou ao Reyno. 

Anno de 1544. partiram finco náos^ 

Qlr 



Década X. Cap. XVL 137 

Capitão Mor Fernão Peres de Andrade: 
os outros Capitães Luiz de Calataud , Ja- 
come Triftao , Simão de Mello , deípacha- 
do com a Capitania de Malaca, e perdeo- 
fe em Moçambique, e Simão de Andrade 
arribou ao Reynq. 

Anno de 154?. Partio D.João de Caf- 
tro por Governador da índia com féis 
náos , Capitães Jorge Cabral , que trazia a 
Capitania de Baçaim , D. Manoel da Sil- 
veira, que trazia a de Ormuz, D.Jerony- 
mo de Menezes Bacalháo, que trazia a de 
Baçaim , Simão Sodré , e Diogo Rebello. 

Anno de 1546. Partiram íinco náos , 
Capitão Mor Lourenço Pires de Távora, 
Capitães João Rodrigues Paçanha , D. João 
Lobo , que trazia a Capitania de Goa , 
Fernão de Alvares da Cunha, Álvaro Bar- 
radas y e D. Manoel de Lima , que tomou 
Goa , porquê todos os mais foram a Co- 
chim : vinha efte Capitão provido com a 
Fortaleza de Ormuz. 

Anno de 1547. Partiram féis náos fetn 
Capitão Mor, Capitães D. Francifco de Li- 
ma , Francifco de Lima, Francifco da Cu- 
nha , Balthazar Lobo de Soufa, Francifco 
de Gouvea , Bernardo Nacer, e D.Pedro 
da Silva, que fe perdeo em Angoxa , e to- 
da a gente fe falvou. 

No mefmp anno partiram outras féis 

náos 



13S ÁSIA de Diogo de Couto 

náos pelas novas que foram ao Reyno dó 
cerco de Dio , as quaes foram repartidas 
em duas Capitanias : na primeira Martim 
Corrêa da Silva, defpachado com a Capi- 
tania de Dio , que partio em o primeiro 
de Novembro ; das outras duas náos eram 
Capitães António, Pereira , que foi tomar 
Ormuz , e Chriítovão de Sá , que tomou 
Goa , e Martim Corrêa Angediva , onde 
invernou. Nefta Armada mandou EIRey 
mais três náos da governança da índia , e 
a D.João de Caílro com o titulo de Vifo- 
Rey : das outras três náos era Capitão Mor 
Francifco Barreto , que depois foi Gover- 
nador da índia , que levava a Capitania de 
Baçaim : os outros Capitães eram D. Hei- 
tor Aranha , e Pedro de Mefquita , que 
partiram em Dezembro , e invernáram em 
Moçambique por chegarem .tarde. 

Anno de 1548. Partiram onze náos re- 
partidas em três Capitanias , de finco delias 
era Capitão Mor Manoel de Mendoça , 
que hia defpachado com a Capitania de 
Sofala , e morreo em chegando a Goa : os 
mais Capitães eram Álvaro de Mendoça , 
Jorge de Mendoça , Manoel Rodrigues 
Coutinho , e Baftião de Ataíde. 

De outras três náos era Capitão Mor 
João de Mendoça, os mais Diogo Rebello , 
Fernão Alvares da Cunha : de outras três 

náos 



Década X. Cap. XVI. 139 

nàos era Capitão Mor D. João Henriques } 
que hia provido com a Capitania de Ma- 
laca ? e os Capitães das outras duas náos 
eram Ayres Moniz , e António de Azam- 
buja. 

Anno de 15*49. Partiram finco náos, Ca- 
pitão Mor D. Álvaro de Noronha , filho 
do Vifo-Rey D. Garcia , que vinha defpa- 
chado com a Capitania de Ormuz : os mais 
Capitães erão Diogo Botelho Pereira y o 
que foi na fuíla^ao Reyno , que trazia a 
Capitania de Gainahor 5 Diogo de Mendo- 
ça , Jacome Triítão , e João Figueira. 

Anno de 1550. Partio por Vifo-Rey da 
índia D. António de Noronha , filho do 
Marquez de Villa Real , com finco náos : 
os Capitães eram Lopo de Soufa , JD. Ál- 
varo de Ataide , «filho do Conde Almiran- 
te , que defcubrio a índia , que hia defpa- 
chado com a Capitania de Malaca , e foi 
tomar Pegú , D. Jorge de Menezes Baro- 
chc , e D. Diogo de Noronha de alcunha 
o Arcos , que fe perdeo no rio de Man- 
fangáo na Cofia da índia , e foi toda a gen- 
te por .terra a Goa , e o Vifo-Rey em No- 
vembro foi tomar Ceilão. 

Anno de 157 1. Partirão féis náos , Ca- 
pitão Mor Diogo Lopes de Soufa : os mais 
Capitães D. Diogo de Almeida , filho do 
Contador Mor, que engeitou féis annos a 

Ca- 



140 ÁSIA de Diogo de Couto 

Capitania deDio, e foi tomar Cochim ent 
Novembro , Ayres* Moniz Brito , Mefer 
Bernardo , Jacome de Mello , Francifco Lo- 
pes de Soufa defpachado com a Capitania 
de Maluco. 

Anno de 1552. Partiram íete náos , Ca- 
pitão Mor Fernão Soares de Albergaria : 
os outros Braz da Silva, António Dias Fi- 
gueiró , Francifco da Cunha , D. Jorge de 
Menezes , António Moniz Barreto , defpa- 
chado com a Capitania de Baçaim , e fe 
foi perder no rio de B%£vé) trinta léguas 
de Goa , e falvou-fe toda f a gente : nefte 
anno cafou o Principe D.João com a Prin- 
ceza Dona Joanna , filha do Emperador 
Carlos V. 

Anno de 1573. Partiram quatro náos, 
Capitão Mor Fernão Alvares Cabral : os 
mais Capitães D. Paio de Noronha , Ruy 
Pereira da Camará , e Belchior de Soufa 
11a náo Santa Cruz , que fe perdeo á. tor- 
na viagem* 

Anno de 15-5-4. Partio D. Pedro Maf- 
carenhas por Vifo-Rey da índia com féis 
náos , Capitães D. Manoel Tello , Belchior 
de Soufa, Miguel- de Caftanhofo , Fernão 
Gomes de Soufa , filho do Chanceller que 
foi tomar Ormuz, e Francifco de Gouvea; 
Vifo-Rey foi tomar Goa a 23 de Setem- 
bro 5 e na barra fe perdeo a fua náo > que 

fe 



Década X. Cap. XVL 141 

fe chamava S. Boaventura , e as outras náos 
forao a Cochim: efte anno faleceo o Prin- 
cipe D. João , e nafceo EIRey D. Sebaf- 
tião. 

Anno de i$$5- Partiram finco náos. 
Capitão Mor João de Menezes de Siquei- 
ra: os mais Capitães eram Jorge de Brito, 
Martim AíFonfo de Soufa , filho do Vea- 
dor do Cardeal D. Henrique , Jacome de 
Mello , e Pedro de Góes : deftas náos fó 
D. João paííbu ao Reyno , e as outras in- 
vernáram em Moçambique, 

Anno de 1556. Partiram finco náos, 
Capitão Mor D» Leonardo de Soufa : os 
mais Capitães Franciíco de Figeiroa de 
Azevedo , Vaíco Lourenço de Barbuda, 
António Fernandes na náo S. Paulo , que 
invernou no Brazil , e chegou a Goa o 
derradeiro de Janeiro , e Franciíco Nobre, 
que fe perdeo nos baixos de Pedro de Ba- 
nhos , e fizeram huma Naveta , em que fo- 
ram a Cochim. 

Anno de 15* 57. Partiram finco náos, 
Capitão Mór D, Luiz Fernandes de Vaf- 
concellos , filho do Arcediago D. Fernan- 
do, que á vinda invernou no Brazil , e á 
torna viagem fe perdeo na Ilha de S. Lou- 
renço , e falvou-fe no batel com perto de 
feffenta peflbas : os mais Capitães de fua 
Companhia eram Braz da Silva , António 

Men- 



142 A S I A de Diogo de Couto 

Mendes de Caftro , que invernou em Me* 
linde , e á torna viagem fe perdeo na Ilha 
de S. Thomé , João Rodrigues Salema de 
Carvalho , que invernou em Moçambique* 

Anno de i^S. Partio por Viíò-Rey da 
índia D. Conítantino , filho do Duque de 
Bragança , com quatro náos : os Capitães 
eram Aleixo de Soufa , que hia por Vea- 
dor da Fazenda geral , Pedro Peixoto da 
Silva , e Jacome de Mello. 

Anno de 15^9. Partiram finco náos, 
Capitão Mor Pedro Vaz de Siqueira : os 
outros Capitães eram Pedro de Góes , Luiz 
Alvares de Soufa, Luiz Duarte de Andra- 
de , que invernou em Moçambique , Ruy 
de Mello da Camará na náo S. Paulo , que 
arribou ao Reyno. 

Anno de 1560. Partiram féis náos , Ca- 
pitão Mor D. Jorge de Soufa , que ficou 
invernando na índia , e Vafco Lourenço 
Carrafcão , Lourenço de Carvalho , que á 
torna viagem invernou em Moçambique, 
Ruy de Mello da Camará na náo S. Pau- 
lo , que fe foi perder em Sumatra , e Fran- 
cifco Figueira de Azevedo, que arribou ao 
Reyno. 

Anno de 15*6 r< Partio por Vifo-Rey 
da índia o Conde de Redondo D. Fran- 
cifco Coutinho com finco náos : os Capi- 
tães eram Gonçalo Corrêa , Manoel Jaques, 

Fran- 



Década X. Cap. XVI. 143 

Francifco Figueira de Azevedo , e Pedro 
Alvares Vogado. 

Anno de 1562. Partiram féis náos , 
Capitão Mor D. Jorge Manoel na náo S. 
Martinho que fe perdeo na volta pêra o 
Reyno , Fernão Martins Freire na Efpe- 
rança : trazia a Capitania de Sofala Antó- 
nio Mendes de Caítro em S.Vicente, Fer- 
pao Coutinho de Azevedo no Tigre, Luiz 
Mendes de Vafconcellos na Rainha , e D. 
Rodrigo no Cedro. 

Anno de 1563, Partiram quatro náos, 
Capitão Mor D. Jorge de Soufa na náo 
Caítello, Diogo Lopes de Lima na Graça, 
Vafco Lourenço de Barbuda em S. Filip- 
pe , e perdeo-fe , eftando furta na barra 
de Goa , Vicente Fernandes Pimentel na 
Algaravia arribou ao Reyno. 

Anno de 1564. Partio porVifo-Rey da 
índia D, António de Noronha com quatro 
náos , elle em Santo António , Francifco 
Porto Carneiro em S. Vicente , António 
Martins de Caftro na Rainha, Damião de 
Soufa em Flor de Lamar. 

Anno de ifó^. Partiram quatro náos, 
Capitão Mor Francifco de Sá o dos Ocu- 
lo's na náo Chagas , Bartholomeu de Vaf- 
concellos no Tigre , invernou em Moçam- 
bique , e perdeo-fe de volta pêra o Rey- 
no, Martim Queimado Villa-Lobos em S. 

Ra- 



144 ÁSIA de Diogo dê Coíjto 

Rafael , e Pedro Peixoto da Silva na ' E£ 
perança. 

Anno de 1566. Partiram quatro náos 5 
Capitão Mór Ruy Gomes da Cunha , Co- 
peiro Mor de EIRey , na náo Santa Cla- 
ra , D. Diogo Lobo na Rainha , André 
Bugalho nos Reys Magos, Francifco Fer^- 
reira em S. Francifco. 

Anno de 1567. Partiram quatro náos y 
Capitão Mór João Gomes da Silva , que 
foi Veador da Fazenda do Reyno , na náo 
Heys Magos ; Pedro Leitão na náo Be- 
lém , Lourenço da Veiga na Annunciada 5 
Vicente Trigueiros no Galeão S< Rafael. 

Anno de 1568. Partio porVifo-Rey da 
índia D. Luiz de Ataide 5 Senhor da Cafá 
deAtouguia, com finco náos, elle nas Cha-^ 
gas , Pedro Ceíar na Fé y morreo aífoga- 
do na praia de Ccchim \ António Sanches 
de Gamboa em Santa Catharina , e paílbú 
efte anno fó ao Reyno 5 porque todas as 
mais invernáram em Moçambique , Damião 
de Soufa Falcão na náo F^emedios i Ma- 
noel Jaques em Santa Clara. 

Anno de 15^69. Partiram quatro náos, 
Capitão Mór Fiíippe Carneiro : os mais" 
Belchior de Soufa , Francifco Ferreira , 
João de Bairros: todas eftas três náos che-* 
gáram a Goa a 3. de Setembro. 

Anno de 1570. Partiram quatro náos* 

Ca- 






Década X. Cap. XVL 14? 

Capitão Mor Jorge de Soufa de Mendo- 
ca na náo Santa Catharina , D* João de 
Caftello-Branco na Annunciada, Lourenço 
de Carvalho no Galeão S. Luiz , Nuno de 
Mendoça no Galeão S. Gabriel. 

Anno de 1571. Partio por Vifo-Rey 
D. António de Noroliha eom finco náos, 
elle nas Chagas, António Moniz Barreto, 
que vinha por Governador de Malaca > em 
Bethlem , Ruy Dias Pereira em Santa Cia- 
s_ ra, António de Válladares na Fé i eFran- 
cifco de Figueiredo em Santo Éfpirito : 
neíla Armada veio alçada á índia , e de 
Moçambique pêra cá trouxe o Vifo-Rey 
mais duas náos j Manoel de Mefquita, 
Capitão , no Galeão S. João , que tinha 
partido primeiro que o Vifo-Rey em 13. 
de Outubro 5 que vinha defcubrir ó Cabo 
da Boa Efperança , e huma Naveta , em 
que tinha vindo Vafcò Fernandes Homem 
á conquifta do Monomotapa com o Go- 
vernador Francifco Barreto , o qual o Vi- 
fo-Rey armou em Moçambique 5 e deo a 
Capitania a D.Jorge de Menezes , que de- 
pois foi Alferes Mor do Reyno. 

Anno de 1572. Partiram quatro náos 9 
Capitão Mor Duarte de Mello na náoReys 
Magos , que fe perdeo á torna viagem ^ 
Gafpar Henriques em Santa Clara, Álvaro 
Barreto na Annunciada , e Pedro Leitão 
Couto. Tom. FI.P.L K de 



146 ÁSIA de Diogo de Couto 

de Gamboa em S. Francifco , e também 
defappareceo na jornada. 

Anno de 1573. Partiram quatro náos ? 
Capitão Mor D. Francifco de Soufa na 
náo Santo Efpirito , António Rebello em 
S. Gregório , Tintino de Vafconcellos na 
Bethlem , Luiz d 5 Alter em Santa Clara : 
deftas náos a S. Gregório fe paliou ao 
Reyno, todas as mais invernáram em Mo- 
çambique, e foi-fe o Vifo-Rey D. António 
neíta Armada na náo Capitânia. 

Anno de 1574. Partiram leis náos , Ca- 
pitão Mor Ambroíio de Aguiar Coutinho 
na náo Chagas , D, Diogo Rolim na Fé , 
Manoel Pinto Leitão em Santa Barbara , 
Diogo VazRedovalho na Annunciada, Pe- 
dro Alvares Corrêa em Santa Catharina, 
e Bartholomeu de Vafconcellos em S. Lou- 
renço. 

Anno de 1575'. Partiram quatro náos, 
Capitão Mor D. João de Caftello-Branco 
na náo S, Pedro, António Rebello em S« 
Gregório , Fernão Boto Machado em S. 
Sebaílião , e Álvaro Paes em S. João. 

Anno de 1576. Partio por Vifo-Rey 
da índia Ruy Lourenço de Távora na náo 
Chagas , faleceo antes de chegar a Mo- 
çambique , e ficou por Capitão Mor Chrif- 
tovao de Bovadilha , Simão Vaz Tello em 
Santo Efpirito > D. Jorge Baroche na Fé, 

foi- 



Decáda X* Càp, XVÍ. 147 

fòi-fe nella por Capitão Francifco de Mel-» 
lo Roncador , Mem Pereira de Sá em S. 
Luiz , e tornou nella por Capitão D. Duar* 
te de Sá o velho. 

Anno de 1577- Partio Mathias de Al- 
buquerque no meímo anno por Capitão 
Mor do Malavar com duas náos, elle ent 
Santa Catharina , e Balthazar Façanha em 
S. Jorge , e fe perdeo á entrada de Mo- 
çambique , e partirão em 7. de Março. 

Anno de 1578. Partiram quatro náos; 
Capitão Mor Pantaleão de Sá Ha náo Boa 
Viagem, Manoel de Medeiros em S, Pe- 
dro , perdeo-fe nos baixos de Pedro dô 
Banhos , e fizeram humaNaveta, em que 
todos foram a Cochim , Lourenço Soares 
de Mello 11a náo Annunciada, Miguel d J 
Arnide em S. João. 

Anno de 1579. Partio por Viíb-Rey 
da índia D. Luiz d 5 Ataíde , Conde de 
Atouguia, e veio na náo Santo António; 
Nuno Velho Pereira na Trindade , e vinha 
defpachado com a Capitania de Sofala , e 
João Alvares Soares em huma Caravela , e 
invernárain todos em Moçambique, e che- 
garam a Goa a 20. de Agoíto. 

E em Março do mefmo anno partiram 
três náos , Capitão Mor Jorge da Silva na 
náo S, Luiz , Mendo da Motta em S. Gre- 
gório, Eftevão Cavalleiro na náo Caranja. 
K ii Lo- 



14S ÁSIA de Diogo de Couto 

Logo no Outubro feguinte partiram 
duas Caravelas , Capitão D, Eítevão de Me-* 
nezes Baroche pêra Goa , João de Mello 
pêra Malaca cmo as novas da morte de 
EIRey D- Sebaílião. 

Anno de 15 80. Partiram íinco náos , 
Capitão Mor João de Saldanha na náo 
Chagas , Diogo Rodrigues de Carvalho na 
Boa Viagem , Rodrigo de Meirelles na 
Annunciada , foi tomar Ceilão , Pedro de 
l?aiva em S- Lourenço , Eftevao Alvo em 
S. João , foi a Cochim. 

Anno de i^Si. Partiram quatro náos, 
que foram defpachadas pelos Governado- 
res , eDefenfores doReyno, Capitão Mór 
Manoel de Mello da Cunha na náo S„ 
Francifco , Manoel Coelho em S. Luiz, 
João Debita Corte-Real em S. Gregório, 
foi a Cochim , D. Simão de Menezes no 
Salvador, arribou ao Reyno. 

Com efta Armada fazemos fim a todas 
as que os Reys de Portugal mandaram á 
Indía* 



DE- 



149 

DÉCADA DECIMA 

Da Hiftoria da índia. 

LIVRO II. 

i__ . ... ... , . — ... — 

CAPITULO L 

De como a não do Reyno chegou a Mala- 
ca , e D. João da Gama jurou a EIRey 
D. Filippe por Rey : e como D. Fran- 
cifco Mafcarenhas mandou por Capitão 
Mor de Malavar a Mathias de Albu- 
querque : e da Armada dos Aventurei- 
ros que o Vifo-Rey ordenou , de que fez 
Capitão Mor D. Simão da Silveira ; e 
por falecer antes de fe embarcar , foi 
eleito em feu lugar Diogo Lopes Cou- 
tinho. 

JA 3 atrás temos dito no Cap. VIIL do 
Livro I. o como de Moçambique def- 
pedíra o Conde D. Francifco Mafca- 
renhas a Leonel de Lima pêra Malaca, 
que chegou áquella Cidade poucos dias 
antes ^ de Outubro : foi muito feílejada a 
fua vinda por faberem novas do Reyno , 
e o Capitão D. João da Gama teve cartas 
mui honradas de EIRey D. Filippe , e:n 

que 



tjj$ ÁSIA de Diogo be Couto 

que lhe dava conta de fua fuccefsão ; e 
outras de feus parentes , por quem foube 
as coufas fuccedidas no Reyno. Leonel de 
Lima , Capitão da náo , depois de defem- 
barcado, vio-fe com D. Joáo algumas ve- 
zes , e lhe fez lembrança que íeria bem 
jurar EIRey D. Fiiippe por Rey , pois ef- 
tava já jurado em Portugal; e tantas lem- 
branças lhe fez deitas , que fe tomou D. 
João da Gama, por ver que queria Leonel 
de Lima naquelle negocio ganhar terra 
com EIRey , e com os homens , fazendo- 
fe cabeça, não trazendo regimento , nem 
papeis pêra nada ; e aífim- lhe diíTe , que 
elle não era mais que Capitão daquella 
náo , que as coufas que cu mp riflem pêra 
bem do feu aviamento as requereíTe , que 
nas outras fe não metteífe , que elle fabia 
irmi bem o que cumpria ao ferviço de EI- 
Rey, cujo VaíTallo era; e com iílo fe foi 
entretendo até vir recado de Goa , que era 
cabeça de toda a índia , que não podia tar- 
dar muitos dias ; porque pêra fe as coufas 
fazerem por ordem, era aílim neceífario : e 
aílim poucos dias depois diílo , que foram 
aos 23. de Novembro, furgio naquelle por- 
to a náo , em que hia Pafcoal Machado 
com os papeis ; e por ir hum balão , que 
chegou a ella primeiro que furgiífe , teve 
D.João da Gama avifo de como na Cidade 

de 



Década X. Cap. I. xyi 

de Goa ficava jurado EIRey D. Filippe ; e 
fem efperar por papeis , nem que defem- 
barcaíTe a gente delia , foi-fe á Sé , aonde 
fe ajuntaram os três Eftados , e alli juraram 
EIRey D. Filippe , e lhe deo a homenagem 
daquella Fortaleza , e fez todas as outras 
folemnidades acoílumadas ; e quando def- 
embarcou Pafcoal Machado com os papeis , 
já tudo eítava feito, e concluído, e D. João 
da Gama tirou feus papeis , e inítrumentos 
pêra mandar ao Reyno na mefma náo. 

E deixando eftas coufas , tornemos ao 
Vifo-Rey D. Francifco Mafcarenhas , que 
tanto que tomou pofle do Eílado , começou 
a correr com as luas obrigações ; e das 
primeiras em que proveo , foi defpedir 
huma náo pêra Ceilão , por eílar aquella 
Fortaleza muito desbaratada , e falta de 
tudo pelo cerco paliado , em que lhe man- 
dou dinheiro , e provimentos , e tratou de 
defpacliar hum Embaixador do Rey dos 
Mogores, que reinara em Goa > e que re- 
queria com cartas forro peia huma náo 
fua poder carregar em Goa pêra Judá , a 
que os rendeiros da Alfandega de Dio pu- 
zeram embargos , por fer muito em per- 
juizo delia , o que tudo o Vifo-Rey poz 
em Confelho \ e aífentou-fe que era necef- 
fario conceder-lhe , fem embargo dos in- 
convenientes que fe apontavam > por quan^» 

to 



íçi ÁSIA de Diogo de Couto 

to Otachar era Rey muito poderofo , e 
vizinho das terras de Damão , e que era 
muito importante confervallo em amizade 
pêra fegurança daquellas terras j e que aos 
contratadores da Alfandega fe lhes podia 
fazer razão daquellas quebras , conforme a 
hum Capitulo dos contratos paliados , e 
ainda do arrendamento que então corria , 
que dizia, quedando-fe algum cartaz forro 
a alguma náo pêra Judá , te lhe defcontaf- 
fe, e por elle o que fe achaífe nos Livros 
paliados , a náo de Judá , que na mefma 
Alfandega fizera direitos , pela que mais 
montara. E aílun fe achou montar a náo 
a maior dezoito mil pardáos de Laris , 
que depois por fen tença defcon taram por 
efte cartaz aos rendeiros da Alfandega. 

Defpachado efte Embaixador , entender* 
o Vifo-Rey na Armada , que havia de ir 
ao Malavar , de que tinha nomeado por 
Capitão Mor Matinas de Albuquerque , 
como atrás diííemos , que fe fez á vela a 
2,0. de Outubro com duas Galés , e vinte 
navios , de que eram Capitães , elle da 
Galé Efperança, D. Gilianes Mafcarenhas 
da Galé S, Paulo , das Fuftas Cofme de 
Lafetar , André Furtado de Mendoça , 
Chriítovão de Távora , António de Aze- 
vedo , Sebaftiáo de Macedo , Gonfalo Coe- 
lho, António de Mello, Lançarote Sardi- 
nha > 



Década X. Cap. I. 1^3 

nha, Álvaro de Avelar , João Rodrigues 
de Carvalho , António Vellez , Pedro Ho- 
mem Pereira, António de Lima , Belchior 
Brongel , D. Jeronymo , e D. Manoel de 
Azevedo Irmãos , Affonfo Ferreira da Silva, 
Francifco Ferreira Malavar , Pedro Fer- 
nandes feu Sobrinho , e outros ; em todos 
eítes navios hiam fetecentos homens , os 
melhores que andavam no ferviço. 

Partida efta Armada , quiz o Vifo-Rey 
também prover de outra a Cofta do Nor- 
te, porque teve noticia , e avifo por car- 
tas de Cananor, que nos rios do Malavar 
fe armavam muitos Corfarios pêra fe paf- 
farem a ella ; e querendo atalhar os damnos 
que fe receavam , armou oito navios com 
o nome de Aventureiros , como os palia- 
dos , por ferem mui temidos , e receados 
por toda a Cofta da índia : e por Capitão 
Mor elegeo D. Simão da Silveira , que 
começou a correr com. a Armada aprefla- 
damente. Eftando já preíles pêra fe em- 
barcar , adoeceo de huns falpicos pelo 
corpo, que affirmáram os Médicos ler ta- 
bardilho, e fe recolheo a curar em N. Se- 
nhora da Graça , onde em poucos dias fa- 
leceo com grande mágoa , e dor de toda a 
índia , por fer hum Fidalgo , que a ella 
veio, já homem , filho mais velho de feu 
pai , com muitas , e boas qualidades , e 

dons 



1^4 ÁSIA de Díogo de Couto 

dons da natureza, em quem todos traziam 
os olhos , e tinham efperanças de por fuás 
mãos tomar ainda dura , e cruel fatisfaçao 
do innocente fangue dos irmãos, que fem- 
pre clamaram por elle aos Ceos , ficando 
elle fó de trcs que eram , que todos mor- 
reram em o efpaço de três annos em o 
ierviço de Deos , e de feu Rey. D. Diogo 
da Silveira, e D. António da Silveira, Fi- 
dalgos, em quem todos tinham mui grande 
confiança, e efpèranças , que lhes fazia ter 
o zelo que lhes viam do ferviço de feu 
Rey, havendo já annos que D. Diogo ti- 
nha merecido muito honrada fatisfaçao , 
D. António com não haver mais que três 
que fervia , trabalhou por merecer tanto 
nelles , como outros muitos , e dignos de 
ferem todos irmãos ; e aíTim o foram tan- 
to em tudo , como o eram por natureza, 
parecendo-fe todos não fó no valor das 
armas , animo , e esforço , fenão em mui- 
tas , e boas qualidades de avifo , gentile- 
za , entendimento , confelho , primor , 
brandura, e liberalidade, e fobre tudo na 
morte , e na brevidade da vida , que fó 
pêra merecer a não tiveram curta , pois 
tomando-os a morte no melhor da vida, 
acabaram todos com toda a honra, valor, 
e merecimento que puderam ter adquirido 
em mais larga vida , fendo fempre efte 

ap* 



Década X. Cap. I. 157 

âppellido dos Silveiras na índia tão pró- 
digo do fcu fangue, que não ha parte em 
que o não tenham derramado por ferviço 
de feu Deos , e de feu Rey , como foi D. 
Álvaro da Silveira, que em companhia de 
Lopo Soares foi morto no Eftreito , Hei- 
tor da Silveira, que em tempo do Gover- 
nador Nuno da Cunha mataram nas Ilhas 
dos Mortos , como na IV, Década Cap. III. 
Livro VIL fica dito ; Manoel da Silveira , 
que fe achou com D. João de Caftro no 
legundo cerco de Dio , onde o feriram , e 
depois foi morrer a Chaul , VI. Década , 
Cap. V. Livro IV. D. Álvaro da Silveira , 
irmão do Conde da Sortelha , de que mui- 
tas vezes falíamos nas noíTas Décadas , que 
foi morto em Baharem , fendo I> Conftan- 
tino Vifo-Rey da índia , o Padre Doutor 
Gonfalo da Silveira feu Irmão , da Compa- 
nhia de Jefus , que peleijando com as ar- 
mas efpirituaes , foi morto pelos Cafres , 
padecendo gloriofo martyrio , e agora eftes 
três irmãos , e outros muitos dcfte appelli- 
do, que por abbreviar deixamos. 

AíTim que morreo D. Simão da Silvei- 
ra , elegeo o Vifo-Rey em feu lugar Dio- 
go Lopes Coutinho , filho de Lopo de Sou- 
ía Coutinho de Santarém, Fidalgo de mui- 
tas partes , e bom confelho , que fó iílo 
imfcou fempre o Conde Vifo-Rey D. Fran- 

cif- 



15*6 ÁSIA de Diogo de Couro 

cifco Mafcarenhas nas eleições que fazia % 
fem ter refpeito a parentes, e nem amiza- 
de , e por iíto teve fempre bom fucceiTo 
jem todas as coufas que ordenou , e nas Ar- 
madas que fez,, que foram muitas em todo 
feu Governo , e aííim foi elle mui temido 
dos inimigos do Eftado : e a 14. de No- 
vembro fe fez á vela com os ditos navios, 
de que, fora elle, eram Capitães João Ro- 
drigues Coutinho feu irmão , D. Francifco 
de Menezes , D. Francifco d 5 Eíía , D. Ma- 
noel de Menezes , Fernão de Caftro , An- 
tónio Collaço , e Balthazar Jorge Barata : 
eram eíles navios os mais ligeiros que ha- 
via na índia , e levavam a melhor folda-> 
defca que então fe achou ; e do que lhes 
aconteceo nefta jornada adiante daremos 
razão. E porque a Cidade de Goa eftava 
falta de mantimentos , ordenou também o 
Vifo-Rey outra Armada pêra ir dar guarda 
á cáfila dos navios , que os havia de ir 
bufcar á Colla do Canará, de que fez Ca- 
pitão Mor Guterres de Monroy de Beja. 
Efta Armada partio em 6. de Dezembro , 
o Capitão Mor em huma Galé , e quatro 
navios mais , de que eram Capitães Jero- 
nymo de Azevedo , Gafpar Juzarte 3 João 
Serrão , e Ruy de Sá Pinheiro ; e deita 
Armada que fez Guterres de Monroy eíli- 
*veram quatro viagens dando guarda a gran- 
des 



Década X. Cap. I. 157 

des cáfilas de navios de mantimentos , com 
que a Cidade de Goa ficou muito abadada, 

CAPITULO II. 

Do que aconteceo d Armada de Mathias 
de Albuquerque no Ma/avar. 

TAnto que o Capitão Mór do Malavar 
Mathias de Albuquerque chegou áquel- 
la Coita , começou a entender nas coufas 
que convinham pêra a guerra-, que havia 
de fazer aos Mouros , deitando-lhes muitas 
efpias em terra pêra o avifarcm dos pa- 
ráos que havia pelos rios > e das nács que 
pertendiam mandar pêra Meca ; e porque 
a povoação de Cculete pequeno era gran- 
de efcala de ladroes , determinou de a 
-mandar queimar , e ccmmetteo efte nego- 
cio a Francifco Fernandes Malavar (porfer 
Cavalleiro , e prático nas coufas da guer- 
ra , e da terra ) com dezoito navios , com 
que hum dia no quarto d 3 alva defembar- 
cou naquella povoação com trezentos ho- 
mens; e a primeira coufa em que puzeram 
fogo foi em quatro paráos deefporão, que 
eftavam varados , negociados pêra fahirem 
a roubar, que arderam todos ; e commet- 
tendo a povoação , a acharam defpejada, 
como todas as noites o faziam todos os 

da- 



158 A S I A de Diogo de Coxrf õ 

$aquella Cofta; porque com medo da Af* 
mada , tanto que anoitecia , fe recolhiam 
todos os moradores pêra o Certao ; e não 
achando reíiítencia , nem que roubar , de- 
ram-lhes fogo por todas as partes , em que 
íe confumio toda* Em quanto fe iíto fazia, 
os Marinheiros da Armada deitaram ao 
mar perto de íincoenta Almadias, que ef- 
tavam por aquella praia > que eram do fer- 
viço daquella povoação , no que os mes- 
quinhos (que fós são os que nas guerras 
padecem os damnos delias ) receberam no- 
tável perda , por ferem o remédio de que 
fe fuftentavam com fuás pefearias , e foi 
tudo fem rifeo algum embarcarem-fe a feU 
falvo, levando asAlmadias por poppa dos 
navios. 

PaíTado iíto > mandou o Capitão Mór 
pelo mefmo Francifco Fernandes queimar 
a povoação de Capccate com fós quatro 
navios 9 de que era Capitão António de 
Azevedo , Affbnfo Ferreira da Silva , Pe- 
dro Fernandes o Malavar, e o feu , e de 
madrugada entraram o rio , e mandou Fran- 
cifco* Fernandes defembarcar fó AíFonfo 
Ferreira da Silva com a gente do feu na- 
vio , e outra alguma que lhe deo dos mais, 
e' entrou a povoação , em que não achou 
reíiftencia , e a queimou toda , recolhendo- 
fe com dezoito Almadias, que os marinhei- 
ros 



Década X. Cap. II. 15*9 

ros lançaram ao mar , e ao embarcar de- 
ram perto de cem .Mouros com os noílbs 5 
e travaram huma muito crefpa briga. Ef- 
tando em terra Affbnfb Ferreira com fós 
dezoito homens , com que teve o ímpeto 
dos Mouros , que magoados de verem fuás 
cafas queimadas, fe vinham metter entre os 
noflcs como doudos , as noíTas fuftas che- 
garam a favorecellos na embarcação , o que 
ie fez com muito tento , fem perigar ne- 
nhum dos noííos , ficando os Mouros bem 
<efcaJavrados. E fendo já recolhidas as em- 
barcações , arrebentou na praia hum gran- 
de corpo de gente , que dos lugares vizi- 
nhos fe ajuntou pêra foccorrerem a povoa- 
ção 5 em quem os falcões das fuftas fizeram 
hum muito arrazoado emprego , de que fi- 
caram pela praia muitos eftirados. 

Paliado ifto 5 foube o Capitão Mor que 
no mefmo rio de Capocate eílava huma 
náo ncgociando-fe pêra Meca , que orde- 
nou de mandar queimar; e encommendan- 
do aquelle negocio a D. Gilianes Mafcare- 
nhas com fete , ou oito navios , cujos Ca- 
pitães eram Francifco Fernandes Malavar, 
D. Jeronymo de Azevedo, AíFonfo Ferrei- 
ra da Silva , Belchior Brigel , João Rodri- 
gues de Carvalho , Pedro Fernandes Ma- 
lavar , e outros 5 a que não foubcmos os 
nomes, dando-lhes por regimento, que fe 

pu- 



i6o à SI A de Diogo de Couto 

pudeífe mandar queimar a náo fem defem* 
barcar , o fizeííe. D. Gilianes entrou hum 
dia de madrugada pelo rio , onde tomou 
algumas pelíoas , de quem foub^ que a náo 
eítava muito aílima envafada em parte ^ 
aonde as fuftas não podiam chegar : e por 
fenao tornar fem fazer alguma coufa^ man-> 
dou pôr certos marinheiros, de quem con-* 
fiou aquelle negocio , que foííem queimar 
huns Bengales , que eítavam cheios de fa^ 
zenda dos Mouros : eftes muito encuberta-* 
mente lhes foram pôr fogo 5 que ateou 
com muita braveza , por haver alli muitas 
-eifas , e azeites , com que as lavaredas fo- 
ram tamanhas , que allumiavam como de 
dia : das nolías embarcações viram acudir 
os Mouros a falvar fuás fazendas; e apon- 
tando nelles os falcões 3 deram em meio 
daquelle cardume, em que fizeram grande 
deftruiçao , e affim muitos por falvarem as 
fazendas perderam as vidas. E porque a 
manhã hia apparecendo, e agente crefcia* 
fahíram-fe os noflbs fora do rio , deixando 
a terra entregue ao fogo , e a gente ao 
pranto da perda das fazendas , das vidas 
dos maridos 5 filhos , e parentes. Deita ma- 
neira andou Mathiss de Albuquerque fa- 
zendo guerra aos Mouros , que eíta hc to- 
da a que nós lhe podemos fazer , que o 
Çamorim mais fen tia pelos clamores dos 

po- 



Década X* Cap. II. 161 

pobres , e mefquinhos , que cada dia aco- 
dem a lhe pedir juftiça, porque (como já 
difle) são os que fentem mais a guerra 
que todos. E porque he neceflario acudir 
510 Çamori a dar guarda , e recolher os na- 
vios , que haviam de vir de Bengala , S. 
Thomé , Coromandel , e Negaparão , e de 
outras muitas partes , defpedio o Capitão 
Mor na fua Galé com mais quatro fuftas , 
cujos Capitães eram D. Jeronymo de Aze- 
vedo ,. Affoníb Ferreira da Silva , Francis- 
co Fernandes Moricale r e Pedro Fernan- 
des. Com eftes navios fe foi D. Gileanes 
pôr no Cabo de Comorim , alli efperou 
até recolher todos os navios daquellas par- 
tes , a que veio dando guarda até Cochim , 
c abaixo de Cochim tomou Afibníb Fer- 
reira hum cotocolao de Malavares 5 que hia 
fugindo delle , que lhe deo caça , varou em 
terra, e todavia lhe tomou o cafeo com o 
recheio , e féis Mouros vivos ; e deixan- 
do as Cáfilas em Cochim , tornou-fe^o 
Capitão Mor, que andava pela Coita , fa- 
zendo toda a guerra que podia , com o 
que a tinha bem aílbmbrada , e poíta em 
muitas neceífidades. 



Couto. Tom. VI. P.L L C A^ 



161 A SI A de Diogo de Couto 

CAPITULO III. 

Do que mais acontcceo efie verão a Ma* 

thias de Albuquerque : e de como def- 

truio as Rainhas da Serra , e 

de Olaia. 

EM quanto D. Gileancs andou no Cabo 
de Comorim efperando a Cáfila que 
trouxe a Cochim , ordenou Mathias de Al- 
buquerque de dar hum caftigo á Rainha 
da Serra , que jaz entre o Reyno de Cale- 
cut, e Cananor, que áquelle negocio man- 
dou o Goazil com quinhentos Naires , que 
a hum dia limitado deram todos juntos 
huns por terra, e outros por mar em fuás 
povoações , e lhas queimaram , e deftruí- 
ram , indo a noíTa Armada pelo rio aííima 
até á povoação da Rainha , que fera duas 
léguas , queimando de huma , e da outra 
parte muitas povoações , e cortando-lhe 
muitos palmares com morte , e perda de 
muitos que acudiram a lho defender ; e 
deixando tudo aílolado , fe recolheram os 
noííos com dous navios que foram de Por- 
tuguezes , que os Malavares tinham toma- 
dos ; e por lhe não ficar coufa por fazer 
pelas grandes intelligencias que Mathias 
de Albuquerque trazia em tudo , determi-^ 
nou de ir caítigar a Rainha de Olaia, aífim 

por- 



Década X. Ca?. IIL 163 

porque foi avifado que nofeu rio de Man- 
galor começava a alevantar huma parede 
de mar a mar com dous baluartes contra o 
aflento das pazes > como porque hia diffimu- 
lando con} as páreas havia já alguns annos. 
E querendo pôr eíle negócio em effeito, 
lançou-lhe algumas peílbas de confiança a 
modo de mercadores , que hiam comprar 
arroz , pêra verem o íitio , e modo das pa- 
redes , gente, e guarnições que a Rainha 
tinha , que viram tudo muito bem ; e avi- 
saram ao Capitão Mor do modo das pa- 
redes , que começavam a creícer fobre a 
terra huma vara de medir , que como a 
Rainha fazia aquillo com diflimulaçao por 
lhe não attentarem na obra , não tinha 
gente , nem guarnição alguma. Com efte 
recado voltou Mathias de Albuquerque 
com toda a Armada que trazia pêra Man- 
galor , e chegou hum dia de madrugada 
fem fer fentido , e logo defembarcou em 
terra ; e entrando as paredes , as mandou 
derribar pela gente miúda , e marinheiros , 
e elle com toda a foldadefca foi dar na 
Cidade de Olaia , aonde pofto que achaíTe 
alguma reíiítencia, poz logo a maior parte 
delia a fogo , e lhe mandou cortar todos 
os palmares que tinha de redor, e diílo fi- 
cou a Rainha quebrada, e os vizinhos tão 
atemorizados , que logo os de Carnate, 

L ii Cu- 



164 ÁSIA de Diogo de Couto 

Cubia , e Nabul acudiram com as páreas 
que deviam , que também havia dous, ou 
ires annos que diffimulavam , e Ababula 
de Penabuz de novo fe fez vaflallo de El- 
Rey de Portugal com obrigação de pá- 
reas 5 conforme aos mais vizinhos. 

Feitas eítas coufas , e outras com mui- 
ta ordem , tornou-fe o Capitão Mor pêra 
o Malavar , aonde tinha deixado muitas 
cfpias em todas as partes fobre as náos 
que fe negoceavam pêra Meca ; e chegan- 
do áquella coita , lhe deram rebate , que 
110 rio de Baliacor , meia légua de Pana- 
ni, eílava hum galeão varado efperando a 
monção pêra o lançarem ao mar pêra car- 
regar pêra Meca , e pêra o queimar fe lhe 
offereceo Francifco Fernandes Malavar , 
que já era vindo deCochim com D. Gilea- 
nes Mafcarenhas , affirmando-lhe que o ha- 
via de fazer fem rifeo algum , porque em 
huma Almadia havia de fazer aquelle ne- 
gocio. O Capitão Mor lhe deo licença , e 
.mandou em fua companhia a Francifco 
Ferreira da Silva com quinze foldados em 
outra Almadia ; e tanto que anoiteceo, 
partíram-fe ambos , e o Capitão Mor fe foi 
pôr com toda a Armada na boca do rio , 
por onde as x\lmadias foram ; e entrando 
muito encubertamente , chegaram aonde o 
galeão eílava , e lhe puzeram o fogo por 

mui- 



Década X. Ca?. III. 165* 

muitas partes , que fe ateou de feição quç 
cm poucas horas o desfez em pó , e em 
cinza; e quando fe ifto fazia, osfoldados, 
e marinheiros, quehiam nas Almadias, lan- 
çaram ao mar huma fufta nova , que eftava 
varada á borda d' agua , e tomaram ás 
mãos as vigias que nella eftavam. 

Feito ifto , recolhêram-fe as Almadias 
muito a feu falvo , e levaram á toa a fuf- 
ta ; não deixando porém de ter ao embar- 
car huma travada briga com muita gente 
que recrefceo ao fogo, de que alguns dos 
noíTos fahíram feridos : foi ifto muito feP 
tejado do Capitão Mor; e por fer avifado 
de outra parte que em Panani eftava outra 
náo á carga pêra Meca , determinou de a 
mandar queimar , porque lhe não fahiífe 
aquelle anno nada pêra fora ; com o tra- 
quete foi furgir defronte de Panani , que 
lie huma povoação entre Panani, eLenor, 
aonde hia acabar de tomar a carga : os 
noflbs tanto que a viram furta , a rodearam 
com tenção de logo a commetter por to- 
das as partes , como fizeram ; e o primeiro 
que lhe poz a proa, foi Álvaro de Avelar, 
que fe lançou logo dentro com os feus 
foldados , íem achar refiftencia ; porque os 
Mouros tanto que viram os nonos ir de- 
mandar a náo , mettêram-fe em batel , e 
foram-fe pêra terra. Entrados os noííos na 

náo , 



i66 ÁSIA de Diogo de Couto 

náo , acharam alguns marinheiros , e gente 
mefquinha , e huma grande cópia de fali- 
tre , e rofalgar, que em Meca tem muita 
valia , e acharam também algumas armas , 
c alguma artilheria; e levando-lhe as amar- 
ras , deram-lhe toa , e levaram-na ao Capi- 
tão Mor , que a eftimou muito , e entregou 
a Affoníb ferreira da Silva que a levaffe 
a Cananor , e a entregafle , como fez , que 
a mandou logo defpejar , e recolher tudo 
o que tinha em armazéns, 

Paílado iílo , deram outro rebate ao 
Capitão Mor de outra náo , que eftava no 
rio de Chalé á carga , que encarregou a 
André Furtado , pêra que a foífe queimar , 
c lhe deo oito , ou dez navios pêra iífo , 
que entrou no rio de Chalé , que por fer 
muito eítreito , foi fempre peleijando com 
muita gente de huma , e da outra banda ; 
mas eile com muito animo , por meio de 
nuvens de frechas , e pelouros, chegou á 
náo , que eftava muito fortificada , e mui 
bem provida de gente, a fim de fe defen- 
der. André Furtado a rodeou com os na- 
vios , e começou a bater com grande fú- 
ria , e trabalhou por lhe pôr a proa, e a- 
veriguar aquelle negocio de efpada ; mas 
os Mouros , que viram tamanha determi- 
nação , não oufando a efperar os noííbs, 
iangaram-fe a terra pelo bordo mais perto 

dei- 



Década X. Cap. III. 167 

delia , os noílbs chegaram a. lhe pôr as 
proas , fem acharem quem lha defendeíTe ; 
e porque era muito trabalho , e mor o pe- 
rigo de a levarem, pareceo bem a André 
Furtado dar-lhe fogo , como fez , mandan- 
do-lhe primeiro tirar alguma artilheria , e 
armas que tinha dentro , peleijando com 
muita gente, que de ambas as partes acu- 
dio a carregar fobre elles com nuvens 
de tiros , de que feriram alguns dos nof- 
fos. 

Eftas coufas mettêram grande medo , e 
efpanto nos Mouros , e o Çamorim não 
le fabia ajudar, nem dar a confelho , fen- 
tindo bem a perda dos feus que cada dia 
lhe hiam clamar. Sahidos eíles navios da- 
qui , foram-fe ao Capitão Mor, que deo 
volta a todo o Malavar com toda a Arma- 
da junta ; e tanto avante como Calecut, 
indo o navio de Affonfo Ferreira da Silva 
detrás de todos muito perto da terra , vio 
eftar em huns vallos huns poucos de Mou- 
ros ; e fem fallar com nenhuns dos outros 
Capitães , poz a proa em terra , em que 
faltou com feus foldados ; e rernettendo 
com os vallos que eftavam perto da praia , 
os cavalgou, eftando nelles mais de cento 
e ííncoenta Mouros , com quem teve huma 
muito afpera batalha , e da primeira furria- 
da de arcabuzaria lhe derrubou alguns j 

@n- 



168 ÁSIA de Diogo de Couto 

entre eíles foram dous Capitães dos navios 
que todos os verões fahiam a roubar ; e 
lançando a todos dos vallos , mandou em- 
barcar hum meio falcão , e outras armas 
que alli tinham , e depois fe embarcou 
muito a feu laivo com alguns feridos x que 
não perigaram. O Capitão Mor pofto que 
eftimou muito o bom fucceífo, não deixou 
de eftranhar a Affonfo Ferreira commetter 
aquillo fem fuá licença, porque lhe pude- 
ra acontecer mui grande defaftre , que 
elle fentíra muito , por fer á vifta de toda 
a Armada. Com eftas coufas fe enfrearam 
os inimigos de tal maneira , que algumas 
náos que tinham em outros portos , as en- 
vasaram em partes a que a noíTa Armada 
não podia chegar ; e affim aquelle anno 
nenhuma fez viagem, no que todo o Ma- 
lavar recebeo notável perda pelo muito 
que a todos importa o trato de Meca , e 
com que os Mouros fe fuílentam , e por- 
que não tem outros frutos na terra ; e to- 
do o mais reílo do verão andou a Arma- 
da por aquella Coita queimando , e deftruin- 
do muitas povoações de longo delia , e 
fazendo outros damnos bem grandes. E o 
principal foi no grande refguardo que o 
Capitão Mor teve em lhe não entrarem de 
fora mantimentos , porque não oufavam de 
navegar , por lhe ter o Capitão Mor to- 
ma- 



Década X. Cap. III. 169 

mado todos os portos , com que os poz 

em extremas neceffidades. 

CAPITULO IV. 

Do que aconteceo á Armada dos Aventu- 
reiros emSurrate com huma não deCali- 
che Mahamed : e de como os Mogores 
f altearam alguns foldados nojfos : e de co- 
mo Diogo Lopes Coutinho lhe queimou a 
Aldeã dos Abexins , e de outras coufas. 

Diogo Lopes Coutinho , Capitão da 
Armada dos Aventureiros , tanto que 
fahio pela barra de Goa fora , como já dif- 
femos no fim do Cap. I. do Livro II. fez 
lua viagem caminho do Norte pêra fe ir 
pôr fobre o rio de Surrate , como levava 
por regimento , pêra defender a fahida das 
náos de Caliche Mahamede , Capitão da- 
quella Fortaleza ; porque a refpeito do 
Lítado tratava de as lançar fóra íem Car- 
taz, porfer oVifo-Rey avifado , que citan- 
do efte Caliche na Corte do Hecbar , 
tratando-fe diante delle dos Cartazes que 
mandava pedir ao Vifo-Rey pêra fua náo 
(como já difíemos) quiz o Caliche ga- 
nhar terra com elle , e lhe diUe, que elle 
também havia de mandar outra náo ; mas 
que oCartaz que havia de levar era aquel- 

1c 



170 A SI À de Diogo de Couto 

le apunhado do traçado que tinha na 
cinta. E corno tinha paíTado ifto com a 
Hecbar , efcreveo a Sarrate que a fug. 
náo , que havia de vir a Meca , foffe tão 
bem negociada , que lhe não pudefle im- 
pedir a jornada a Armada dos Portuguezes , 
le a houvelfe ; e aííim fe fez , porque hum 
irmão feu , que eftava alli por Capitão, 
começou a prover na partida da náo , e 
a proveo baftantemente de artilheria , mu- 
nições ? e gente pêra íe poder defender. 
De tudo ifto foi o Vifo-Rey avifado por 
Cartas de Damão ; e porque convinha ao 
Eílado defenganar ao Caliche , que não po- 
diam fuás náos navegar fem falvo condu- 
£ko , deo por regimento a Diogo Lopes 
que fe foíTe logo lançar com toda a Ar- 
mada fobre Surrate , e que lhe havia de por 
entregue aquella náo do Caliche pêra dar 
conta delia , fe fahiffe daquelle porto fem 
Cartaz. Efte Caliche cafta Chacuthou , po- 
bre de fua nafcença , e moço , fe deo ás 
letras em companhia do Hecbar , e veio 
a fer grande douto na fua feita ; e por- 
que defde menino acompanhava fempre 
eíle Rey , foi-lhe muito acceito , e o en- 
carregou de coufas muito grandes , por fer 
homem prudente , e de bom confelho , 
pelo que veio a fer diante delle dos prin- 
cipaesj e veio a ter tanta poífe, qué veio 

a 



Década X. Cap. IV. 171 

a fazer feus irmãos que tinha grandes na 
Corte , e Capitães de mil , e de dons mil 
de cavallo cada hum ; o primeiro Chanca- 
lono , outro Mahamede Soltao , e o tercei- 
ro Jancalifchou , que he torto de hum 
olho, grande Cavalleiro , e muito liberal, 
c de todos eftes he o Caliche o mais mo- 
ço , e ao prefente fera de perto de feten- 
ta annos ; e quando o Hecbar conquiítou 
os Reynos de Cambaya , lhe deo a Forta- 
leza de Surrate , como na primeira Década 
fica dito , aonde com o que já tinha ad- 
quirido , com outras terras, aonde já eíta- 
va por íenhor , engroflbu tanto , que nos 
affirmou huma peflba de fua cafa , que ti- 
nha mais de vinte milhões de ouro em 
pedraria, e moeda, e hoje eftá em Laor , 
que he a Corte , por Veador da Fazenda 
Geral de feus Reynos. E tornando a noíía 
Armada , que hia feguindo fua viagem , 
fendo entre Bombar , e Bacar, encontrou 
de noite hum paráo de Malavares , que 
fentindo a Armada , foi apertando o remo 
o mais que pode , e alguns navios apôs 
clle , que o foram atropellando ; e toda- 
via Belchior Jorge Barata chegou a elle 
primeiro, efoi peleijando hum bom ef pa- 
ço ás efpingardadas até chegar D. Manoel 
de Menezes , que lhe poz a proa , e quaíi 
ao mefmo tempo que Belchior Jorge ; e 

ían- 



172 ÁSIA de Diogo de Couto 

lançando-fe todos dentro , mettêram os 
Mouros á efpada em breve efpaço , fican- 
do-lhe o paráo com todo o feu recheio 
nas mãos , cjue levaram pêra Bacá. Diogo 
Lopes Coutinho ajuntou os navios , e foi 
paílando o Surra te , e no bando da barra 
viram furta huma fermofa náo , que pare- 
cia de quinhentas toneladas , que eftava 
de verga d 5 alto , como que queria fazer 
viagem. Diogo Lopes a rodeou com os 
navios 5 e lhe mandou perguntar que náo 
era , e pêra onde hia : os de dentro lhe 
refpondêram que era do Hecbar y que 
hia carregar a Goga com Cartas do Vifo- 
Rey , que logo mandaram aprefentar ; c 
Diogo Lopes lhe poz o parte , e lhe man- 
dou dizer que fizeífem feguramente fua 
viagem > o que elles logo fizeram , e de- 
ram á vela pêra Goga. A nofía Armada 
entrou dentro no rio , e no Canal das Lei- 
teiras viram a náo do Caliche , que tam- 
bém era muito fermofa ; eftava de longo 
das barranceiras , e por fer muito alcanti- 
lado com peanhos em terra , e por dento 
apparecêram grandes baftidos de lanças ar- 
voradas , c correrem pêra de huma , e ou- 
tra parte muitos Mouros , como homens 
que fe faziam preftes pêra peleijarem. Dio- 
go Lopes Coutinho chegou á náo , e lhe 
mandou perguntar cuja era , e pêra onde 

hia: 



Década X. Ca?. IV. 173 

hia : ao que lhe refpondêram que era do 
Galiche , e que hia pêra Meca ; mas que 
efperava por Cartas do Vifo-Rey : ao que 
lhe diíTe o Capitão Mor , que eítava mui- 
to bem; mas que lbubeflem que fem ellas 
não havia de fahir daquella barra. E por- 
que ainda não era tempo de viagem , e as 
aguas eram paliadas , fem quem a náo não 
podia fahir dalli , quiz o Capitão Mor cor- 
rer a enfeada pêra haver novas de paráos , 
e afllm atraveílou a Goga , e dalli de lon- 
go da Coita a Dio , onde fe proveo do 
neceíTario ; e por fe vir chegando a Lua 
em tempo de outras aguas , tornou-fe pêra 
Surrate a vigiar a não , deixando-fe eftar 
dentro do rio a ver o que paííava ? e ef- 
creveo ao Vifo-Rey o eftado em que efta- 
va , pedindo-lhe mais navios , porque a- 
quella náo era grande , e poderofa , e que 
feria grão defcredito do Eftado fahir-fe 
fora fem a elle poder tomar por falta da 
Armada. E eftando aíum no rio , aconte- 
ceo que eftando a Armada hum dia da 
banda do Reynol com os efporoes em ter- 
ra , fahio-fe hum magote de vinte folda- 
dos , e foram-fe defviando a paífarinhar 
com humas efpingardas , coufas' que o 
Capitão Mor tinha muito defendido por 
conhecer a natureza dos Magores ; e an- 
dando alguma coufa alongados , deram 

nel- 



174 ÁSIA de Diogo de Couto 

nelles alguns ííncoenta de cavallo tão íu- 
pito , que não tiveram tempo de fe po- 
derem recolher 5 e nos primeiros encon- 
tros a alcançaram alguns íinco , ou féis ; 
os outros feitos em hum corpo com as es- 
pingardas nos roítos , peleijando muito ef- 
forçadamente com elles y recolhêram-fe a 
hum tezo , onde com muita ordem fe de- 
fenderam , derribando com as efpingardas 
alguns , por onde os mais não oufáram de 
os entrar : eftas novas foram todas ao Ca- 
pitão Mor , que as fentio muito , e logo def- 
embarcou com toda a gente pofta em ar- 
mas , e defpedio feu irmão João Rodrigues 
Coutinho com huma Companhia de foi da- 
dos 5 e elle com toda a mais gente fe foi 
pôr em parte aonde viííe tudo. Os noíTos , 
que peleijavam com os Mogores , tanto 
que fentíram o foccorro , apertaram tanto 
com elles , que os fizeram fugir \ e ao tem- 
po que João Rodrigues Coutinho chegou, 
andavam elles defpindo os mortos , que 
até as botas que todos trazem lhes defcal- 
çáram ; e recolhendo-os comfigo , fe tornou 
ao Capitão Mor 5 que ficou muito fentido, 
e deígoftofo de lhe acontecer aquelle dcf- 
aftre quaíi á fua vifta pelo defarranjo dos 
foldados , que nefta matéria cá n eftas par- 
tes nenhum refpeito tem , nem ás fuás pró- 
prias vidas , pondo-as cada hora a perigo 

por 



Década X. Cap. IV. 17 f 

por hum pequeno appetite. Entre os deí- 
pojos que eítes foldados trouxeram , foi 
huma lança com humas gazuas de prata, 
que foram de Portuguezes. Diogo Lopes 
deixou-fe ficar com aquella mágoa, que el- 
le poz em feu peito de fatisfazer , e co- 
meçou a traçar modos de o fazer , tendo 
dalli por diante tanto reíguardo na Arma- 
da , que não deixou ir mais a terra folda- 
do nenhum. Eftando nefte propoíito , che- 
garam três navios , que o Conde D, Fran- 
cifeo Mafcarenhas mandou armar emChaul 
com recado que lhe deram de Diogo Lo- 
pes Coutinho , de que eram Capitães Ruy 
Mendes , e Ruy Dias de Soufa , am- 
bos irmãos , e do outro não fabemos o 
nome , com o que a Armada ficava rnais 
poíTante , por levarem eítes navios mais de 
cem foldados , muito bons , e efeolhidos. 
Diogo Lopes Coutinlio como andava fen- 
tido da morte dos foldados , determinou 
de fatisfazer aquella quebra, e ordenou em 
fegredo com os Capitães de dar na Aldeã 
dos Abexins, por fer muito povoada, que 
feria pelo rio aífima quafi meia légua , e 
aílim acommetteo huma madrugada ; e dan- 
do nella de fupito , a entrou , queimou , e 
a gente delia fe acolheo pêra Suf rate; o ir- 
mão do Caliche houve aquillo por grande 
quebra , e affronta fua , por ferem todos 



176 ÁSIA de Diogo de Couto 

cites Mogores muito íbberbos , e arrogan-* 
tcs , e com muita prefla acudio com qui- 
nhentos de cavallo , muita gente de pé , e 
alguns Elefantes ? e certas peças de artilhe- 
ria de campo , e chegou á vifía da Aldeã 
a tempo que os noílos já embarcaram., 
por terem tudo feito a fua vontade; eche- 
gando-fe perto da praia , indo já os navios 
levados , lhe atiraram algumas bombarda- 
das 5 e das fuftas lhe refpondêram com ou- 
tra falva , de que alguns ficaram eftirados 
por eíTe campo: e quiz a defaventura que 
ao defamarrar dos navios fe embaraçafíem 
os de D. Francifco d 5 EíTa , e de D. Fran- 
cifco de Menezes , de maneira que fe não 
puderam aífailar. Vendo-os os Mogores da- 
quella feição , carregaram fobre elles com 
tantos tiros , que lhe feriram a mor parte 
da gente , e entre elles a D. Francifco no 
braço direito , de que ficou aleijado, e ma- 
taram dous foldados. Os noíTos que eíla- 
vam embarcados , por huma parte traba- 
lhavam por fe apartarem , e por outra la- 
boravam com a eípingardaria pêra affaftar 
os inimigos, em quem faziam bem damno. 
O Capitão dos Mogores andava á borda 
da barranceira fazendo defcer abaixo al- 
guns Elefantes pêra ferrarem em os navios 
com as trombas , e chegarem-nos mais pê- 
ra a terra pêra os porem em fecco porva- 

far 



Década X. Cap. IV. 177 

far a maré. D. Francifco d 5 Efía , e os 
mais foldados trabalharam , e peleijáram 
tudo o que puderam , fem poderem fer 
ajudados dos outros navios por caufa da 
força da corrente que defcia pêra baixo ; 
e tanto fizeram huns , e outros , que fedef- 
empeifáram , e affaíláram pêra fora quaíi 
todos feridos, e tão canfados , que já não 
podiam cornfigo : tirados do perigo , cura- 
ram-fe os feridos ; e porque D. Francifco 
de Menezes eftava perigofo , mandou o 
Capitão Mor que fe foíTe curar a Damão, 
c lhe mandou metter todos os mais feri* 
dos, e a D. Francifco de Menezes, filho de 
D. Pedro o Ruivo, pêra que nella tornaffe 
por Capitão. Efta defgraça fentio Diogo 
Lopes muito , porque tinha o negocio mui- 
to bem feito , fenao fora aquelle defaftre 
de fe embaraçarem os navios. 

Affaftados dalli , tornaram-fe ao feu 
porto a vigiar a náo ; e por lhes faltar a- 
gua , a foram fazer a huma Aldeã aílima 
defta dos Abexins , onde a havia , porto 

?(ue eftava pela terra dentro dous tiros de 
alcão ; e defembarcando com toda a gente 
á borda da ribeira , mandou o Capitão 
Mor a feu irmão João Rodrigues Couti- 
nho com huma companhia de foldados de 
cfpingardas a favorecer, e dar guarda aos 
marinheiros , e aos moços que levavam as 
Couto. Tom. VI. P. I. M ra- 



178 ÁSIA de Diogo de Couto 

vaíllhas , em que haviam de trazer a agua , 
e elle com toda a mais gente fe poz no 
campo á vifta dos navios, e da gente que 
hia fazer aguada. Os da Aldeã tanto que 
fentíram os noífos , fizeram logo muitas 
fumaças , que era o íinal que tinham pêra 
na Fortaleza fe faber que os noífos eram 
defembarcados. O Capitão de Surrate ca- 
valgou com muita gente , e alguns elefan- 
tes , e acudio áquella parte , que os noífos 
tiveram tempo pêra fazer aguada á fua 
vontade. E por ter avifo João Rodrigues 
Coutinho da gente que era fahida de Sur- 
rate, mandou diante os marinheiros, eelle 
fe deixou ficar pêra ver que gente era , e 
fe recolheo como embofcada em huma Al- 
deã, por ver fe os Magores entravam por 
ella com alguma defordem pêra lhes poder 
dar hum toque. O Capitão de Surrate che- 
gando á Aldeã , não oufou a entrar nella 
por fe recear dos nolTos , e deixou-fe ficar 
de fora 5 ordenando de fua gente huma 
meia lua , e rodeou a Aldeã toda. João 
Rodrigues Coutinho como os vio daquella 
maneira, deo fogo á Aldeã , e foi-fc íahin- 
do em hum corpo , e recolhendo-fe pêra 
ii praia , porque fe hiam os Mogores che- 
gando , e carregando fobre elles com 
grandes nuvens de frechas , e pelouros ; 
mas elles com o roíto nos inimigos , dif- 

pa- 



Década X. Cap. IV. 179 

parando fua arcabuzaria ., foram-fe com 
muito bom compailo recolhendo á praia ; 
e miíhirando-fe com o Capitão Mor > co- 
meçáram-fe todos a embarcar com muito 
boa ordem , fazendo-lhe campo os falcões 
das fuílas , que fizeram em o inimigo hum 
arrazoado emprego. Embarcados os noíTos 
a feu falvo , affaftando-fe pêra fóra o na- 
vio do Capitão Mor , deram dentro nelle 
huma falcoada , que acertou cm hum Ma- 
noel Freire de Andrade , homem Fidalgo , 
que eftava aílentado em huma prancha , 
de que cahio ao mar fem mais apparecer , 
de que o Capitão Mor ficou afias trifte. E 
porque as aguas eram acabadas , antes que 
viefifem outras ? fe fez á vela pêra Dio 5 e 
foi correndo a enfeada por ver fe acha- 
va alguns ladroes ; e depois que fe proveo 
naquella Fortaleza , tornou-fe a vigiar a 
náo. 



M ií CA- 



i8o ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO V. 

De como o Conde D. Francifco Mafcare- 
nhãs mandou feu fobrinho D. Jeronymo 
com huma Armada ao Eftreito : e do 
avifo que mandou á Cofia de Me linde , e 
Moçambique por haver novas de Galés : 
e do que aconteceo á Armada dos Aven- 
tureiros em Surrate : e de como os Mo- 
gores foram Jobre Damão. 



E 



Ntre as inftrucções que o Vifo-Rey 
D. Francifco Mafcarenhas trazia deEl- 
Rey muito encommendadas ,- era que logo 
mandaíTe huma Armada ao Eftreito a de- 
fender que não foífem a elle as nãos do 
Malavar , nem do Achem aos portos de 
Meca ; e porque logo , tanto que tomou 
poífe do Reyno de Portugal , foi avifado , 
que por alli fe vafava a mor parte da pi- 
menta da índia , coufa tanto em perjuizo 
do trato , e commercio delia ; e querendo 
o Vifo-Rey cumprir ifto \ ordenou huma 
Armada de três Galeões , e quatro Galeo- 
tas , e elegeo pêra a jornada feu fobrinho 
D* Jeronymo Mafcarenhas. A efta Armada 
fe começou a dar muita prefla \ e os Ca- 
pitães dos Galeões , que eram Fernão de 
Albuquerque , e João Furtado de Mendo- 
ça , começaram a correr com elles , .e com 

feus 



Década X. Ca?. V. 181 

feus Officiaes. Andando nefte trabalho ,. a- 
doeceo Fernão de Albuquerque na barra y 
e dcfcuidaram-fe delle os Officiaes da fa- 
zenda, por não pagarem aos que com elie 
corriam, e ficar entregue a alguns forçados 
das Galés pêra obrigarem , e darem ás 
bombas ; e eftes defejando fua liberdade, 
quebraram os ferros , e deram fogo ao 
Galeão , e deitaram-fe a nado a terra , e o 
Galeão ficou ardendo todo , e fe perdeo 
por defcuido a mais fermofa peça que no 
Eílado havia ; . e affim deram ifto em Por- 
tugal por culpa ao Conde D. Francifco 
Mafcarenhas , fendo ella toda do Veador 
da Fazenda , cuja obrigação he prover nef- 
tas coufas. E fempre vemos na índia , por 
quererem poupar quatro cruzados á fazen- 
da de EIRey , haver eílas , e outras feme- 
Ihantes perdas ; não havendo que nunca 
eíla fazenda crefce tanto , como quando 
fe defpende no que he neceíTario , e no 
que importa tanto ; porque , como já ou- 
tras vezes diífemos , he muito ordinário 
nefte Eftado moitrarem ao Rey crefcenças 
fantafticas , e encubrirem-lhe as perdas 5 e 
damnos que por ellas recebem , e dando- 
fhe a comer íiuma pirola amargofa debai- 
xo de hum falfo dourado. 

E tornando á noíTa ordem , vendo o 
Vifo-Rey queimado o Galeão > comprou 

hu- 



i$>2 ÁSIA de Diogo be Couto 

huma náo a hum Mercador ; e porque 
Fernão de Albuquerque não melhorava, 
nem eílava em eftado pêra fe embarcar, 
elegeo o Vifo-Rey por Capitão em leu lu- 
gar João Barriga Simões ; e dando prefla 
á Armada , fe Fez á vela a quatorze de Ja- 
neiro defte anno de 1582. em que com o 
favor Divino entramos. Os Capitães das 
quatro Galeotas era Francifco Corrêa de 
Brito , Belchior Barbofa , Affonfo da Silva 
Henriques , e Belchior de Paiva. Levava 
D.Jeronymo por regimento que fe fofle 
pôr a Monte de Félix, e que alli efperaíTe 
todas as náos que foíTem demandar o Ef- 
treito de Meca, e as tomaííe ; e que co- 
mo paflafle a monção , foífe invernar a 
Ormuz pêra com D. Gonfalo de Menezes y 
Capitão daquella Fortaleza , prover nas 
coufas doMagoftão, e caftigarem a EIRejr 
de Lara pela guerra que fazia a EiRey de 
' Ormuz , tanto em damno do rendimento 
daquella Alfandega. Dada a Armada á ve- 
la , foi feguindo fua derrota 3 a quem logo 
tornaremos. 

Pelas náos , que chegaram a Dio dos 
Portos de Meca , foi o Vifo-Rey avifado que 
em Moca fe faziam preftes três Galés , 
que eram as mefmas que foram aMafcate, 
fem dizerem pêra onde determinavam de 
ir ; receandc-fe que quizeífem paffar á Cof- 
ia 



Década X* Ca?. V. 183 

ta de Melinde , e dar vifta a Moçambi- 
que, defpedio quafi no mefmo tempo duas 
fuítas , de que foi Capitão Mor Fernão Bo- 
to Machado , homem Fidalgo, e foldado 
velho da índia , que hia em huma , e Coi- 
me de Faria em outra , e lhe deo por regi- 
mento que foíle á Cofta de Melinde , e 
que achando novas certas das Galés , reco- 
lheífe os Portuguezes , que andavam na Cof- 
ta , e fe foíTe com todos metter na Forta- 
leza nova de Moçambique , que eílava 
ainda imperfeita , porque os Turcos fe não 
fenhoreaflem delia ; e que da Cofta defpe- 
diíTe Cofme de Faria com recado a D.Je- 
ronymo Mafcarenhas , que havia de eílar a 
Monte de Félix efperando por elle pêra 
eílar fobre aviíò ao recolher das Galés , 
porque aííim não lhe poderiam efcapar , e 
que em Julho mandaíTe elle Fernão Botto 
a fua fufta ás Ilhas de Angoxa , fe houvef- 
fem Galés pêra fe fazerem em outra volta; 
e da viagem deftes navios adiante daremos 
razão , porque he neceífario continuarmos 
com os Aventureiros , que deixámos em 
Surrate. 

Vendo o Capitão daquella Fortaleza os 
faltos que os noíTos andavam dando por 
fuás Aldeãs , defpedio recado a Caliche 
Mahamede de tudo o que era paílado , que 
tanto que fe lhe diífe como eftava penho- 
ra- 



184 ÁSIA de Diogo de Couto 

rado com o Echebar , como já diífemos, 
c vio que a fua náo não podia fahir pêra 
Meca por caufa da noíía Armada, determi- 
nou de acudir áquillo , aílim por* fua honra , 
como por fua fazenda, pelo muito que per- 
dia em a náo não fazer viagem , peio que 
logo com muita preíla defpedio recado ao 
Cutubidicam , Capitão de Baroche , rnan- 
dando-lhe que ajuntaífe gente de Armada- 
ba , e Surrate , e fofíe fobre as terras de 
Damão , pêra que a Armada acudifie lá, e 
a fua náo tiveííe tempo pêra fahir fora lo- 
go. Com eíle recado formou o Cutubidi- 
cam hum bom exercito de gente de cavai- 
lo , e elefantes , e artilheria , e começou a 
marchar contra Damão , e entrou por fuás 
comarcas na entrada de Março , deípcdindo 
diante hum Mogor , chamado Caliocham , 
com mil cavallos , que foi entrando pelas 
praganas Buticer , e Pecari , que são muito 
povoadas , e do mór rendimento de todas 
as mais ; e tudo foi deílruindo , e aifoian- 
do , poíto que já os naturaes tinham reco- 
lhido fuás mulheres , e gado pêra as terras 
de Sarzeta por ordem de Marti m AíFonfo, 
Capitão de Damão 9 que com élle fe tinha 
concertado pêra iífo , e elle paífados feus 
feguros ; porque tanto que teve avifo da- 
quelle exercito, logo proveo em recolher, 
c íegurar todas eftas coufas, e defpedio rç- 

ca- 



Década X. Ca?. V. itf 

cado aoViío-Rey, pedindo-lhe foccorro , c 
começou a fe fortificar , porque eítava a 
Cidade aberta , e rota por muitas partes , 
mandando pelas praganas de fua jurifdic- 
çao recado , pêra que fe recolheílem todos 
os naturaes com feus móveis, e gados pêra 
a terra do Rey de Sarzeta, com quem (co- 
mo vizinho , e tão amigo que todas as 
fuás rendas tem nas Aldeãs da jurifdicção 
daquella Fortaleza , que são os coutos ) fe 
concertou , como aífíma diífemos , porque 
tratou que os inimigos na primeira entra- 
da não tiveíTem em que fe cevar , e achaf- 
fem as terras defpovoadas , e fem manti- 
mentos , que forçado lhe haviam de faltar; 
e a todas as Tanadarias de fua jurifdicção , 
que são Sanges , Danu , Tarapor , May 
avifou da vinda dos Mogores , e mandou 
que todas as mulheres , e meninos fe foíTem 
pêra Baçaim , e que os lavradores com feus 
gados , e móveis fe récolheífem pêra os ma- 
tos , como fizeram. Martim Affbnfo trazia 
efpias fobre os inimigos , e cada dia era 
avifado de tudo ; e fem dormir, nem def- 
cançar, tratou defechar-fe pelas partes que 
eítava roto ; e por fer certificado vir já o 
exercito inimigo por Balfar , e do numero 
da gente que trazia , entendeo que lhe era 
neceífario puxar por Diogo Lopes Couti- 
nho , e defpedio hum navio com cartas 

fuás 3 



i86 ÁSIA de Diogo de Couto 

fuás , proteítos , e requerimentos da Cida- 
de, pêra que fe foííe metter nella , porque 
citava rota , e Tem gente. Com efte recado 
foi-lhe neceíTario deixar tudo , e ir-fe pêra 
Damão, aonde foi muito feftejado, e junto 
com o Capitão repartiram as eítancias , e 
partes mais fracas pelos Capitães de Cica- 
cem , encarregando a João Rodrigues Cou- 
tinho o Baluarte de fobre a porta , que vai 
fahir ao campo grande , por eftar todo no 
chão , que elle com feus foldados , e mari- 
nheiros reformou em poucos dias de ma- 
deira , e adobes crus , com o que o fez 
muito forte , e fermofo , e o guarneceo de 
artilheria , e armas , ficando elle alli aga- 
zalhado com fincoenta foldados , e pela 
mefma maneira os mais Capitães fizeram 
nas partes que lhes coube , com o que a 
Cidade ficou pêra foffrer qualquer traba- 
lho ; e porque os Mogores fe vinham che- 
gando , defpedio o Capitão cartas ás Cida- 
des de Baçaim , e Chaul , em que lhes da- 
va conta do poder dos Mogores , e dos 
trabalhos que efperava , e lhes pedia que 
a foccorreílem , mandando-lhes encampar 
os Templos , e a Cidade : efte recado fe 
deo áquellas Cidades ; e não faltando nos 
vaífallos Portuguezes aquelle feu fervor, e 
lealdade antiga , com que fempre acudiram 
ás coufas defta qualidade, pelo que logo fe 

fi- 



Década X. Cap. V. 187 

fizeram muitos Fidalgos , eCavalleiros pref- 
tes com navios , e Toldados pêra irem íòc- 
correr aquella Cidade. Baçaim eftava mais 
perto 5 chegaram primeiro áquella Cidade 
dez , ou doze navios ? cujos Capitães eram 
Jorge Pereira Coutinho , Fidalgo de mais 
de feíTenta annos , que o zelo do ferviço 
de EIRey lhe fazia acudir a eftas coufas , 
como fe fora de trinta , D. Francifco de 
Noronha , D. Francifco de Soufa , D. Diniz 
d 5 Almeida, Duarte de Mello, D.Ruy Go- 
mes da Silva , Manoel de Mello , e outros 
todos com muitos , e bons foldados á fua 
eufta , e com grandes defpezas , foram to- 
dos mui bem recebidos do Capitão , e Ci- 
dade , repartidos por eftancias , que efta- 
vam rotas , que lhe reedificaram , e fortifica- 
ram muito bem com muito trabalho , c 
culto feu.. 

CAPITULO VI. 

De como os Mogores entraram pelas ter- 
ras de Damão : do damno que fizeram : 
e do que fez o Conde Vifo-Rey D. Fran- 
cifco Mafcarenhas em lhe dando as no- 
vas do cerco. 

DAdas as cartas de Martim AíFonfo , 
Capitão de Damão , ao Vifo-Rey , man- 
dou logo chamar a Fernão de Miranda , 

c 



i88 ASIÀ de Diogo de Couto 

e lhe diífe , que cumpria ao ferviço de El- 
Rey que embarcaíle logo pêra Damão em 
huma fuíta , e após eile mandaria os foc- 
corros que pudeííe , e regimento pêra fa- 
ber a forma em que devia de ficar , por- 
que o remédio de Damão eftava em fe elle 
ir metter dentro naquella Cidade. E Ftr- 
não de Miranda fem fazer detença alguma, 
fe embarcou no mefmo dia , porque logo 
lhe acudiram muitos Fidalgos , e foldados 
feus amigos pêra o acompanharem , e logo 
fe fez á vela em fua companhia Thomé de 
Souía Coutinho em hum Catacolão com 
alguns amigos, e naquella conjunção fahí- 
ram também alguns navios de Mercado- 
res , que eftavam na franquia, em que tam- 
bém fe foram embarcar muitos foldados , 
porque nas emprezas deíla qualidade os 
amigos de honra nunca efperam que os 
mandem , nem tem dever com pagas , nem 
ração , tempos , nem inconvenientes delle , 
que tudo facilita o defejo , e amor da pá- 
tria, e o do ferviço do leu Rey. No mef- 
mo dia que partio Fernão de Miranda, 
defpedio o Vífo-Rey huma Almadia com 
cartas a Mathias de Albuquerque , em que 
lhe dava conta da neceífidade de Damão , 
e que logo defpediíTe dez navios os me- 
lhores da fua companhia , e que os entre- 
gafle a D, Gilianes Mafcarenhas pêra fe ir 

met- 



Década X. Cap. VI. 189 

metter em Damão. Com eíla brevidade fa- 
bia o Vifo-Rey acudir ás neceffidades do 
Eftado com que remediava todas , e aífim 
teve bom fucceflb em todas as coufas que 
emprendeo. Efpalhadas as novas do cerco , 
pincipiaram-fe a negociar muitos Fidalgos , 
e Cavalleiros pêra os irem foccorrer, com 
que depois continuaremos , porque lie ne- 
ceflario fazello primeiro com Fernão de 
Miranda , que em poucos dias foi a Da- 
mão , o que os moradores eílimáram muito 
pela experiência que tinham de feu esfor- 
ço, confelho , e entendimento. O Capitão 
Martim AfFonfo , e Diogo Lopes Coutinho 
com os Fidalgos , Capitães , e Vereadores 
o foram receber á praia , por ter íido alli 
feu Capitão; e elle difle a Martim AíFonfo 
que o Vifo-Rey o mandava de foccorro 
áquella Fortaleza por feu foldado, que alli 
eftava com aquelles companheiros pêra tu- 
do o que cumpriíTe ao ferviço de EÍRey. 
O Capitão com palavras muito honradas 
lhe agradeceo aquellas cortezias , e lhe re- 
ípondeo que elle podia mandar naquella 
Fortaleza, como no tempo que nella fora 
Capitão , porque entendia que aflim era 
conveniente ao ferviço deElRey, e lhepe- 
dio ficaife de fora fem obrigação de ef- 
tancia pêra o ajudar na fortificação da Ci- 
dade , o que elle acceitou , e começou a 

cor- 



190 ÁSIA de Diogo de Couto 

correr com ella , como a peflba do Capi* 
tão, e de Diogo Lopes Coutinho. 

Poucos dias depois dilto chegaram á- 
quella Fortaleza alguns Capitães de Goa , 
que partiram logo apôs de Fernão de Mi- 
randa em navios feus cheios de muita , e 
boa foldadefca , que foram D. Martinho 
Silveira, D. Luiz de Menezes , Duarte de 
Mello , irmão de Martim Affonfo , D. Duar- 
te d 5 Eífa, e outros que nos não lembram. 
Com eíte íòccorro ficava a Cidade já iegu- 
ra , porque era grande , e eftava aberta por 
muitas partes : eftes Capitães tomaram á 
ília conta pedaços de entulho , tapigos , e 
outras coufas , em que fe exercitavam com 
os feus foldados , e marinheiros : os Mo- 
gores eram já entrados pelas terras de Da- 
mão , e tinham aflentado feu arraial ao lon- 
go de huma ribeira duas léguas da Cida- 
de , donde efpalháram pelas terras gentes 
de cavallo , que as andavam roubando , c 
fizeram aífás de damnos , porque ainda a- 
cháram muito gado , e lavradores por re- 
colher que levaram , cativaram, deílruíram, 
e efcaláram todas as Aldeãs. Eílas novas 
correram logo por todas aquellas Fortale- 
zas , donde cada dia acudiam Fidalgos , e 
Cavalleiros de foccorro. ED. Francifco de 
Caftro, Capitão deChaul, dando-lhe reca- 
do de Damão > no mefmo dia defpedio hu- 
ma 



Década X. Cap. VI. 191 

xna embarcação ao Vifo-Rey , e lhe mandou 
pedir licença pêra elle em peífca ir áquel- 
fe foccorro , o que lhe elle mandou , e elle 
fe fez preftes , e negociou em poucos dias 
vinte navios mui bem guarnecidos de gen- 
te ? e munições, e de tudo o mais necefla- 
■ rio pêra a guerra, porque os Capitães del- 
le eram Fidalgos , eCavalleiros principaes, 
e caiados naquella Cidade , que á cufta de 
fuás fazendas , como fempre fizeram , fe 
embarcaram em companhia do feu Capi- 
tão ; e dos que pudemos faber os nomes , 
são: D. Jeronymo de Menezes, Duarte da 
Silveira , filho do Craveiro de Évora , Bal- 
thazar de Siqueira, Pedro Preto , filho de 
Francifco Preto , Ruy Mendes de Figuei- 
redo , Francifco da Cunha , Mattheus de 
Gumede , João Ferreira Fialho , Gonfalo 
de Araújo 3 Amador Mendes Dorta , Ma- 
noel de Valladares , André Duarte , Bel- 
chior Colaço, Manoel Bocaro, e dous na* 
vios mais , que a Cidade mandava cheios 
de mantimentos , e munições á fua eufta , 
de que eram Capitães Jorge da Silva , e 
hum Foão Teixeira. D. Fernando de Caf- 
tro deo á vela com todos eítes navios , 
deixando a Fortaleza entregue a Álvaro de 
Carvalho, e em poucos dias entraram pela 
barra de Damão todos eíles navios emban- 
deirados , difparando a ília artilheria , e 

to- 



192 ÁSIA be Diogo de Couto 

tocando feus pifa nos , e tambores , coufa 
fermofa pêra ver. Foram eíles Capitães bem 
recebidos , e repartidos por eílancias , que 
elles reformaram, e fortificaram , ficando 
D. Francifco de fora pêra acudir ás coufas 
necefiarias , e tomou á lua conta fechar a 
praia da ponta do Baluarte de fobre a bar- 
ra até ao mar , porque não vieffem os Mo- 
gores metter-fe entre os navios , c a Cida- 
de , obra muito neceííaria ; e não particula- 
rizamos os baluartes , e eftancias , que 0$ 
Capitães do foccorro reedificaram , e to- 
maram por eílancias ; porque como a Ci- 
dade nao foi batida , e o cerco não foi 
por diante , havendo por efcufado , baila 
nomear os que foubemos , porque já foram 
offerecidos a todos os trabalhos que fe of- 
fereceíTe naquelle cerco, por muito prolon- 
gado que fofle. D.Pedro de Menezes, Ca- 
pitão de Dio, tanto que foube dos Mogo- 
res , defpedio em feu foccorro dous navios 
cheios de foldados , de que foi Capitão 
Jorge da Silva Coutinho. Com eíles foc- 
corros ficou a Cidade tão profpera , que já 
lhe não dava aos noíTos do cerco que fe 
efperava , antes praticavam em ir bufcar, 
e darem-lhe batalha em campo , porque fc 
não foíTem louvar que os cercaram. 



CA- 



Década X. Cap. VIL 193 

CAPITULO VIL 

De como D. Gilianes Mafcarenhas chegou 

a Damão : e do que os Mogores fizeram 

pelas Tanadarias : e da vifla que deram 

d Cidade : e da efcaramuça que os nof- 

fos tiveram com elles. 

D Ada a Carta do Vifo-Rey D. Francis- 
co Mafcarenhas a Mathias de Albu- 
querque , em que lhe deo conta da necef- 
íidade de Damão , logo com muita bre- 
vidade defpedio D. Gilianes Mafcarenhas 
com dez navios , de que ? a fora elle , eram 
Capitães Cofme de Lafetar , Chriílovão de 
Távora, feu irmão, Pedro Homem Perei- 
ra , António Vellez , Gonfalo Coelho , An- 
tónio de Lima , Sebaítião de Macedo , D. 
Manoel de Azevedo , e António de Aze- 
vedo : neíles navios hia a melhor foldadef- 
ca da Armada ; e dada á vela , foram fe- 
guindo fua viagem ; e antes de chegarem 
a Goa , houveram vifla de dous Catacou- 
loes de Malavares , a que deram caça ; e 
o primeiro que chegou foi D. Gilianes , 
que os fez varar em terra , e lhe tomou os 
cafeos , paliando por Goa, fem quererem 
nada delia. Antes de chegarem a Chaul, 
tomaram hum paráo de CoíTarios , que to- 
dos morreram , o que o mefmo D. Gilia- 
Cêuto. Tom. VL P. I. N nes 



194 ÁSIA de Diogo de Couto 

nes abalroou , e rendeo j e fem fe embara- 
çarem com outra coufa , chegaram a Da- 
mão, aonde entraram falvando a Cidade, 
fermoíamente embandeirados. Foi D. Gi- 
lianes bem recebido , e feus Capitães re- 
partidos por eftancias , com que a Cidade 
acabou de ficar fortalecida pêra fe defen- 
der a todo o poder do Gião Mogor. De 
todos eftes foccorros chegaram logo as no- 
vas a Cutubilicham , que defconfiado de 
poder fazer coufa alguma , e defenganado 
que a Cidade eílava provida de foldados , 
Capitães , e Fidalgos , determinou de virar 
às armas contra as Tanadarias , porque 
também fua tenção (como diífemos) nunca 
foi bater, nem commetter a Cidade, fenão 
©ccupar as terras por fe defaffrontar do 
que a noífa Armada lhe andou fazendo pe- 
lo rio de Surrate ; e por faber que a Ta- 
nadaria de Tarapor era rica com mercado- 
res groífos , determinou de a mandar fa- 
quear , pêra o que defpedio Califcham com 
mil decavallo, e alguns elefantes, de que 
logo foi o Capitão de Damão avifado , e 
mandou recado aos Capitães das Tanada- 
rias , pêra que eítiveíTem fobre avifo , por- 
que os não tomaíTem defcuidados. Os Mo- 
gores entraram por Sanges , e Dormi , 
queimando, e aliciando tudo; e chegando 
á povoação de Danu , onde eílava D. João 

de 



Década X. Ca?. VII. 19^ 

de Ataíde por Capitão , e muito fortifica- 
do em huma Torre que tinha com íincoenta 
homens , e recolhidos de redor delia todos 
os naturaes com feus gados , e no rio , que 
era largo , e fermolò , hum navio com 
vinte homens pêra do mar os favorecer ; 
e querendo elles commetter , os esbombar- 
deou D.João mui bem; e ainda lhes man- 
dou fahir alguns foldados , que travaram 
com os dianteiros huma efcaramuça , com 
que derribaram alguns , e lhes tomaram hu- 
ma bandeira, que D. João mandou depois 
ao Vifo-Rey , e lha deram 3 eftando hum 
dia folemne em S. Francifco , e elle a deo 
aos Padres. Os Mogores efcandalizados de 
D. João , foram-íe recolhendo , e paflaram 
a Fará, porque eílava defpejado, e o aflb- 
láram, queimaram, e mataram muitos mef- 
quinhos , e correram até May, onde o Ca- 
pitão com os moradores eítava fortificado 
no Templo dos Padres de S. Domingos , 
aonde também os efcandalizáram ; e depois 
de queimarem as aldeias todas , fe recolhe- 
ram outra vez a Damão cheios dedefpojos, 
e de gados principalmente. 

O Cutubichão deixou-fe eftar no lugar , 
onde aífentou o arraial , fem dar viíta á 
Cidade até dia de Ramos , que foi o pri- 
meiro que no campo apparecêram huns 
quinze , ou vinte de cavallo, apôs o Ca- 
N ii pi- 



196 ÁSIA be Diogo de Couto 

pitão do carnpo Francifco de Soveral , que 
vinha recolhendo o gado , e ao repique 
acudio o Capitão , e toda a gente folta ao 
campo ; e por lhe parecer cilada , deteve 
os foldados, que já fe efpalhavam em ma- 
gotes. Os Mogores chegaram até perto 
do Baluarte de João Rodrigues Coutinho; 
mas como viram íahir gente fora , logo fe 
recolheram , fem apparecerem mais que ef- 
íes. 

PaíTado ifto , logo ao dia dePafcoa pela 
manhã 5 fabendo fer aquelledia muito cele- 
brado dos Chriftaos , o quizeram também 
feftcjar*com lhes darem viíla de todo o feu 
campo , e foi a horas em que citavam to- 
dos aos Officios : dos Baluartes fe fez íinal 
a Mouros 5 a que logo acudiram os Capi- 
tães ao campo com toda afoldadefca, que 
andava folta fem obrigação de eílancia , e 
eram mais de mil homens 5 e foi a tempo 
que vinha dos Mogores a fio por entre 
humas hervas leiteiras , que eítam no cabo 
do Campo grande, fingindo a praia a mo- 
do de Lua > que fe eftimáram em três mil 
homens de cavallo. Os Capitães dos Aven- 
tureiros Fernão de Miranda , D. Francifco 
de Caftro , D. Martinho da Silveira , D. Gi- 
lianes Mafcarenhas ? e outros fahíram ao 
campo alguns delles a cavallo com o Ca- 
pitão da Cidade, que levou comíigo todos 

os 



Década X. Ca?. VII. 197 

os moradores a cavallo , com que fe poz 
em hum tezo , que fazia fora da tranquei- 
ra de João Rodrigues Coutinho pêra a ban- 
da da praia , onde fe deixaram eftar. D. Gi- 
lianes com os Capitães da fua Companhia , 
e toda a foldadefca com a fua bandeira 
foi-fe pôr fora a numa parte do campo, e 
o mefmo fizeram outros Capitães , que fi- 
caram fem eílancias ; os inimigos vinham 
engroífando cada vez mais o fio ; e huma 
das pontas da Lua , que refpondia á praia , 
veio a ficar perto do porto em que eftava 
o Capitão com a gente de cavallo, que o 
Capitão não deixou apartar delle, por não 
haver alguma defordem ; mas todavia fo- 
ram os Mogores chegando-fe tão perto , 
que foi neceífario fahir-lhe Fernão de Mi- 
randa com alguns companheiros de caval- 
lo ; e antes de chegar a elles , o chamaram 
de lá por Fernão de Miranda , muito cla- 
ro , porque era muito conhecido entre el- 
les. Eíte foi Califcham, que queimou Ta- 
ra, porque fe adiantou dos feus , brandin- 
do huma lança. Fernão de Miranda em o 
vendo apartar , e que era o que chamava 
por elle , adiantou-fe também dos feus , e 
bateo as pernas a hum fermofo cavallo 
ruço rodado ' em que hia ; e endireitando 
com o Mogor , encontrou-fe com^elle tão 
fortemente , que lhe quebrou a lança nas 

ar- 



198 ÁSIA de Diogo de Couto 

armas fem o derribar por vir precintado 
no cavallo , como todos o fazem , recolhen- 
do-fe o Mouro muito mal ferido pêra a 
ponta da Lua , e Fernão de Miranda pêra 
onde o Capitão eftava ; e porque os nolfos 
fe começaram a mifturar com osMogores, 
c os foldados travavam no meio do cam- 
po huma boa efcaramuça de efpingarda- 
das , de que derribaram alguns , acudio o 
Capitão pêra os recolher , por não haver 
algum defmancho , o que elles fizeram qua- 
íi por força , porque eílavam defejofos de 
provarem a mão com os Mogores em ba- 
talha aprezada ; e certo que pudera çfte dia 
ler hum muito affinalado pêra os Portugue- 
ses , fe houvera quem naquelle campo cha- 
mara por Sant-Iago , porque fó ifto baila- 
va pêra os foldados romperem de todo a 
batalha , fem terem dever com os Capi- 
tães ; mas parece que Deos não quiz que 
foífe aquelle dia mais ? pois tapou a boca 
a tantos homens , fem haver hum que ap- 
pellidaííe o Bemaventurado Santo , coufa 
tão acoftumada entre nós , que em qual- 
quer pequeno rebate logo o invocamos. Os 
boíTos quaíi por força (como já diílemos) 
fe foram recolhendo pêra de longo das 
tranqueiras 5 ficando os inimigos hum pou- 
co parados ; mas logo tornaram a voltar 
por onde vieram , bem foíligados da arti- 
lhe- 



Década X. Cap. VIL 199 

Iheria dos baluartes. Em quanto ifto fe 
pafíbu da outra banda do rio , esbombar- 
deáram a Cidade com algumas peças , que 
lançavam pelouros de ferro coado, que va- 
ravam os tédios da cafa dos Padres da Com- 
panhia , e pagavam ao campo largo , e 
grande, fem fazer nojo algum. Recolhidos 
os Mogores , nunca mais quizeram dar vif- 
ta , porque parece que lhes foi mal da- 
quella ; e tudo o de Catubidicham parou 
em efcaramuças , e entretenimentos , pêra a 
náo do Caliche poder fahir pêra fora livre- 
mente; e por derradeiro nao fez viagem, 
porque os Mercadores nao quizeram arrif- 
car luas peííbas , e fazendas ; porque ainda 
que á fahida nao tiveíTem rifco , a torna- 
viagem poderia fer que a nao fizeíTem, 
porque bem fe entendia que haviam de a- 
char Armadas fobre aquella barra. 



CA- 



aoo ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO VIII. 

Do que mais aconteceo em Damão : e das 
grandes dijferenças que houve entre o 
Capitão da Cidade , e dos Aventureiros : 
e de como os Mogores tratavam de pa- 
zes : e de como o Vifo-Rey mandou Gu- 
tierre de Monroy a invernar a Dio 5 e 
do que lhe fuccedeo. 

NEfte cílado eftavam as coufas de Da- 
mão , fem haver mais que andarem 
os Mogores pelas terras fazendo todo o 
damno que podiam j mas como o demónio 
he pai de zizanias , e difcordias , vendo 
que os Mogores não inquietavam os noíTos 
na Cidade ] quiz elle ordenar dentro nella 
outras guerras , e trabalhos , que houveram 
de cuftar mais ; e affim tomeçou a tomar 
achaques de coufas bem pequenas entre 
todos os Capitães , pêra por ellas os ir ac- 
cendendo mais em fúria , e tomarem as 
armas huns contra os outros ; e deixando 
os bicos pequenos , em que fó as defcon- 
fianças peccão , trataremos das fubftancias. 
Havia no Rio de Damão huma grande co- 
pia de fuftas daquelles Capitães , que vie- 
ram de foccorro , e cada Capitania tinha 
fua bandeira ^ e feu farol pelas quadras , a 
fuíla de Diogo Lopes Coutinho 7 Capitão 

Mor 



Década X, Cap. VIII. 201 

Mor dos Aventureiros , a de Fernão de 
Miranda de Azevedo, de D. Francifco de 
Caftro , e a de D. Gilianes Maícarenhas ; 
e como Diogo Lopes Coutinho era Capi- 
tão Mor do Norte dos Aventureiros , o 
Viíb-Rey lhe tinha dado largas Provisões , 
e poderes , pêra que todas as Armadas , 
que por toda aquella Coíla fe achaflem , 
lhe obedecefíem. E como o Capitão Mor do 
Norte dos Aventureiros por eíles poderes 
que levava houve que era menos cabo feu 
eítarem outras fuílas dos outros Capitães 
com bandeiras , e faroes , tratou de as ti- 
rarem , e ficar fó a da fua fufta , como Ca- 
pitão Mor que era , fobre que começou a 
haver defgoítos , porque Fernão de Miran- 
da era hum Fidalgo velho , que acabara 
de fer Capitão daquella Fortaleza , e que 
o Viíb-Rey mandara foccorrella com pala- 
vras de muita fatisfação , , porque entendeo 
que havia de afliftir naquelle cerco , como 
Capitão Mor do campo. D. Francifco de 
Caftro era Capitão de Chaul , e deixara a 
fua Fortaleza por vir foccorrer aquella 
com huma Armada de vinte navios , e que 
íó ao Vifc-Rey podia conhecer obediência; 
e D. Gilianes Maícarenhas era hum Fidal- 
go muito honrado ; e que viera de Mala- 
var por Capitão Mor daquelles navios por 
mandado do Viíb-Rey , fem ver outra cou- 

fa 



202 ÁSIA i>e Diogo de Couto 

fa em contrario : eilas eram as razões , que 
cada hum dellçs tinha , e allegava por íi , 
mas Diogo Lopes Coutinho não fe acabava 
de quietar com haver muitos Capitães ve- 
lhos , e peíToas graves , e Pveligiofas , que 
andavam mettendo a mão nefte negocio 
pera fe apaziguar, vindo-fe a concluir en- 
tre todos que ao Viíb-Rey fó pertencia ave- 
riguar aquillo y que fe lhe déífe conta de 
tudo , pera elle ordenar o que foífe fervi- 
ço de EIRey. Não fe contentou o demó- 
nio com iílo , mas ainda paliou adiante com 
fua malicia ; porque poucos dias depois 
diílo fuccedeo fazer hum foldado hum cri- 
me , e recolheo-fe á eítancia de D. Ber- 
nardo de Menezes , aonde o Capitão da 
Cidade o mandava prender , e não lho 
quizeram dar , do que elle tomado , foi lá 
em pefíba ; mas D. Bernardo , e feus ir- 
mãos D. Francifco , e D. Manoel de Me- 
nezes com feus foldados lhe defenderam , 
e acudio também Diogo Lopes Coutinho ; 
e diífe a Martim Affonfo , que aquelle fol- 
dado era de fua Armada , que elle trazia 
poderes do Vifo-Rey pera ninguém enten- 
der comelles, nem oscaitigar; efobre iífo 
fe atearam em razões , a que acudiram to- 
dos os Fidalgos, e gente da Armada, e fe 
mettêram em meio , e aífim fe recolheo ca- 
da hum pera fuás cafas. Martim AíFonfo 

de- 



Década X. Cap. VIII. 203 

depois de fer na Fortaleza, vendo que fi- 
cara alguma coufa acanhado , e que lhe 
não entregaram o foldado , tomando con- 
felho íbbre eíle negocio com alguns ami- 
gos , aconfelháram-lhe que foíTe prender 
Diogo Lopes por rebelde, e defobediente , 
e aífim mandou rebate ás juítiças , e a to- 
dos os cafados , e negoceou-fe pêra o ir pren- 
der. Diogo Lopes teve diílb aviíb , e reco- 
lheo-fe em fua cafa com cem homens de 
fua Armada com muitas armas , e panellas 
de pólvora pêra fe defender. IndoMartim 
Affoníb pêra lua cafa , e chegando á rua 
direita , como a foldadefca toda he amiga 
de novidades , e bandos , como ouviram 
dizer que Martim Aífonfo queria prender 
o Capitão Mor dos Aventureiros , acudi- 
ram á rua direita poílos em armas , largan- 
do as eítancias ; e deixando-as fós , e de- 
ferias , acudiram mais de feiscentos homens 
á parte de Diogo Lopes Coutinho com 
tenção de matarem Martim Aífonfo , que 
também hia com muita gente. Os Fidal- 
gos , e Capitães velhos , que havia na Ci- 
dade , acudiram pêra apaziguar o negocio , 
que eftava em eftado de fe romper a ba- 
talha, o que fora total perdição da Forta- 
leza , porque eftava certo morrer a mor 
parte delles ; e fe os Mogores foram avi- 
fados daquelle negocio , muito facilmente 



ao4 ÁSIA de Diogo de Couto 

puderam entrar na Cidade, por eftarem as 
eííancias foltas , e fem guardas. A confusão 
que havia entre os noíTos era tal , que nem 
Religioíbs com Crucifixos , nem Fidalgos 
velhos com a ília authoridade puderam apa- 
ziguar. A coufa chegou a tanto, que ale- 
vantou hum foldado huma efpingarda , e a 
encarou no Capitão pêra o derribar ; mas 
quiz Deos que o viíle D. Martinho da Sil- 
veira , e remettendo a Martim Afíbníb , o 
levou nos braços , e deo com elle den- 
tro cm huma cafa. Ao mefmo tempo da 
eftancia de João Rodrigues gritaram a 
Mouros no campo y o que não era ; mas 
quiz Deos infpirar nelle , porque logo acu- 
diram todos ás eítancias , e ao campo , 
com o que fe apartou aquella contenda. 
PaíTado iílo , tornáram-fe a metter peíToas 
graves no meio , e apaziguaram aquelles 
Fidalgos , e tornaram a fer amigos. 

Nelle mefmo dia chegaram alguns na- 
vios , que o Conde Viíb-Rey mandou com 
dinheiro , e provimentos pêra aquella For- 
taleza , e nelles enviou huma Provisão a 
Fernão de Miranda , em que lhe mandava 
ficaíle invcrnando naquella Cidade por Ca- 
pitão de toda a foldadefca ; mas debaixo 
da jurifdicção do Capitão da Cidade. Di- 
vulgado iílo , tomados os Capitães todos 
daquella mudança , principalmente D. Gi- 

lia- 



Década X. Cap. VIII. ao? 

liancs Mafcarenhas , logo. no mefmo dia, 
fem dar conta a peííba viva , fe embarcou 
no meímo feu navio , e fe foi pêra Goa 
aggravado do Conde , e dahi a dous , ou 
três dias fez o mefmo Diogo Lopes Couti- 
nho , e D. Fernando deCaftro com todos os 
feus navios. Poucos dias depois difto che- 
gou a Damão Zimgiricham , genro doCoge 
Çofar , de quem na noíla quinta Década 
Cap. XI. Liv* I. muitas vezes falíamos , que 
como era grande amigo dos Portuguezes , 
fabendo do cerco , partio pela poíta de 
Cambaya , onde eítava , pêra metter mão 
naquelle negocio, e fer terceiro entre Cutu- 
bichao , e os Portuguezes ; e chegando ao 
exercito com licença de Martim AíFonfo , 
fe foi ver com elle , que o recebeo bern 5 e 
o agazalhou na Cala de S. Domingos , e 
alli tratou fobre pazes, que por derradeiro 
fe não effeituáram, por lhe pedir o Capitão 
fatisfaçao de todas as perdas , e damnos 
que os Mogores fizeram pelas terras ; po- 
rém ficaram com elle de mandar recado ao 
Vifo-Rey, e do que elle mandaíTe o avifa- 
riam, e com ifto fe recolheo outra vez pê- 
ra Cambaya , muito fatisfeito das honras 
que recebeo dos Portuguezes , e o negocio 
de guerra ficou no eftado em que ellava, 
fem haver mais viíbs , nem aíTaltos , antes 
foram muitos de parecer que foíTem dar 

nos 



2o6 ÁSIA de Diogo de Couto 

nos inimigos huma madrugada com dous 
mil homens que havia na Fortaleza , com 
que muito facilmente os poderiam desbara- 
tar de todo , dando para iílb muitas ra- 
zoes ' y mas Martim Affoníb não quiz arrit 
car o poder , e deixar a Cidade fó , o que 
foi máo de foífrer aos foldados > porque 
publicamente praguejavam do Capitão com 
a foltura com que o coílumam a fazer na 
índia ; e como o Inyerno fe hia chegando , 
houveram os Mogores por feu partido re- 
colherem-íe pêra Baroche , o que affirmam 
por mui certo que eftranhou o Chebar ao 
Caliche mandar fazer aquella guerra fem 
fua licença , e ao recolher deixaram guar- 
nição de gente na pragana Bouticer , que 
era na jurifdicçao de Damão, que até ago- 
ra comem os Mogores por culpa dos Capi- 
tães 5 que foram diflimulando \ de que mais 
lhe relevava aos Capitães , que eílavam de 
foccorro naquella Cidade. Depois de terem 
recado de ferem os Mogores acolhidos , fe 
recolheram pêra fuás calas , ficando Fernão 
de Miranda por Capitão de toda a folda- 
defca que alli ficou , que foi da Armada 
dos Aventureiros , e a de D. Gilianes. Dio- 
go Lopes Coutinho em chegando a Goa o 
mandou prender o Vifo-Rey por culpado 
nas coufas da guerra , de que depois fe li- 
vrou. Nefte mefmo tempo foram ás teiras 

de 



Década X. Cap. VIII. 207 

de Dio três , ou quatro mil Mogores a ca- 
vallo, que vieram da Coita de Por, eMan- 
galor de fazer guerra ao Rey de Sabon , e 
deixáram-fe andar da outra banda de Gon- 
gala alguns dias ; e receando D.Pedro de 
Menezes , Capitão daquella Fortaleza \ que 
quizeílem invernar por alli , e que inten- 
ta (Tem faquear a Cidade , que era grande, 
e rica , proveo os pálios do mar , e da 
terra de guarda , e defpedio recado ao Vi- 
fo-Rey do que paliava , que tanto que lhe 
foi dado , defpedio Guterre de Monroy 
com cem homens em huma Galé pêra ir 
invernar em aquella Fortaleza; e chegando 
nefte tempo a Chaul , não quiz atraveílar 
o golfo em Galé , e fretou dous navios , cm. 
que fe mudou* Indo tomar Baçaim , achou 
carta de D.Pedro de Menezes em mão do 
Veador da Fazenda Francifco de Frias , 
em que lhe dizia que os Mogores eram re- 
colhidos a Cambaya , e que aílim o efcre- 
veífe ao Vifo-Rey , pêra que não met teffe 
cabedal naquelle negocio, pelo que fe hou- 
ve fer efculado fua ida: e difto tirou Certi- 
dões , e papeis, e voltou pêra Goa , dei- 
xando os foldados que hiam pagos , que o 
Veador da Fazenda entregou a Simão de 
Brito pêra irem invernar com elle a Dio, 
que por achar o golfo mui rijo , tornou a 
voltar pêra Bacaim, 

Pou- 



2o8 ÁSIA de Diogo de Couto 

Poucos dias depois difto , que foi na 
entrada de Maio 5 faleceo-lhe D.Pedro de 
Menezes , e fuecedeo-lhe o Alcaide Mor 
Simão de Abreu. E certo que foi grande 
perda a deite Fidalgo por as partes , e qua- 
lidades de lua peííoa , por fer Capitão ve- 
lho na índia de muita experiência , e gran- 
de confelhó , de quem EIRey tinha muito 
grande fatisfaçao , e eítava certo fer a pri- 
meira fuccefsao da governança da índia, 
Fidalgo bom Chriftao , e de muita verdade, 
e muito zelofo do ferviço de EIRey , com 
todas as mais partes conforme ao fangue 
de que procedia, porque era neto do Con- 
de de Cantanhede , filho de D. Manoel de 
Menezes , e de Dona Brites de Vilhena : 
foi enterrado naMiíericordia daquella For- 
taleza , e feus oflbs foram trasladados a 
Goa pêra huma Capella , que tem no Capi- 
tulo de S. Francifco : foi cafado duas vezes 
na índia , a primeira com Dona Bernarda, 
filha de D.Jorge de Sá , e a outra com 
Dona Luiza Coutinha , filha de Manoel 
Coutinho , viuva de Luiz Freire de Andra- 
de , de quem tinha huma filha chamada 
Dona Ignez Freire , que hoje he cafada com 
D.Diogo Coutinho , filho de D. Francifco 
Coutinho o Marialva. 



CA-* 



Década X. Cap. IX.' 209 

CAPITULO IX. 

Das coujas que o Vtfo-Rey proveo : e dos 

Capitães que âefpachou pêra fora : e 

do que aconteceo o refto do verão a 

Mathias de Albuquerque até 

fe recolher. 

DEfapreíTado o Viíò-Rey dâs coufas de 
Damão , por cujo refpeito paravam 
todas as mais ? logo tratou de defpachar 
as que haviam de ir pêra fóra , e foccorrer 
Ceilão 5 por lhe terem chegado novas de 
freíco que o Rajú fazia mudança de íi , e 
havia fufpeita que queria tornar a provar a 
mão com a Fortaleza de Columbo ; e por- 
que António de Soufa Godinho eftava pref- 
tes pêra ir a Pegú ás coufas que importa- 
vam , o defpedio logo com regimento , que 
pedifle a Mathias de Albuquerque , Capi- 
tão Mor doMalavar, mais dous Capitães, 
D.Jcronymo de Azevedo , e Affonío Fer- 
reira da Silva pêra irem com elle áquella 
neceffidade ; e que chegando a Columbo, 
fendo neceífario deixar-fe ficar , o fizeíTe j 
e que eftando as coufas quietas , paífaífe a 
Pegú a fazer feu negocio. 

Partido António de Soufa de Goa com 
três navios , de que , a fóra elle , eram Ca- 
pitães António de Faria, ejoão de Faria, 
Couto. Tom. VI. P.I. O che- 



2io ÁSIA de Diogo de Couto 

chegando ao Malavar, dco cartas , que le- 
vava a Mathias de Albuquerque > que lhe 
deo os dous Capitães que lhe pedia, e foi 
feguindo fua derrota ; e antes de chegar a 
Cochim , encontraram hum Paráo de Mala- 
vares , que levava hum Pangale deChriítãos 
tomado, a que foram dando caça já de noi- 
te ; e apertaram tanto , que lhes fci necef- 
fario largar o Pangale pêra poder efcapar, 
a quem chegou António da Coíla , e lhe 
deo toa , e recolheo-fe pêra Cochim. Os 
navios da fua companhia, que o não viram 
voltar , foram feguindo o farol toda a noi- 
te até pela manhã fe haverem viíla delle, 
pelo que voltaram pêra Cochim , aonde 
acharam António de Soufa ; e depois de fe 
proverem de agua , e de outras coufas , tor- 
naram á fua viagem ; e paliando o Cabo 
de Comorim , acharam já ameaços de in- 
verno , e houve alguns pareceres de Piloto 
que era já tarde pêra fe commetter aquelle 
golfão ; mas Aífonfo Ferreira da Silva , co- 
mo prático naquellas partes, e foldado ve- 
lho , diffe , que ainda poderiam atraveílar 
a Ceilão, e que fe fofie a foccorrer a For- 
taleza de EIRey, ainda que foffe cem tra- 
balho , e com eíla determinação fe fizeram 
todos á vela contra es pareceres dos Pilo- 
tos , e aífim foram atravefíando cem mares 
muito groílbs > e no meímo dia quebrou q 

mair 



Década X. Cap. IX. 211 

maftro ao navio de João de Faria , a quem 
António de Soufa mandou que fe foíTe ao 
longo da Cofta até á Fortaleza de Manar, 
e alíi fe proveííe de outro maftro , e o foífe 
efperar a S. Thomé j como fez : os mais 
navios foram atraveílando com tempo bem 
rijo , e chegaram a Columbo , onde foram 
muito feítejados ; e o Rajú tanto que teve 
novas deite foccorro , não bclio comílgo, 
e defpedio a gente que tinha junta, de que 
logo foi a vi fado João Corrêa de Brito , e 
houve António de Soufa por efcufado ; e 
deixando alii os navios de D.Jeronymo de 
Azevedo , e de António de Faria, partio- 
fe de longo da Coita até Manar , e dahi 
paliou os baixos , e foi fazer fua viagem. 

Mathias de Albuquerque, Capitão Mor 
do Malavar, que todo efte verão tinha fei- 
to huma cruel guerra aos Mouros de toda 
iiquella Coita , vendo que fe acabava o ve- 
rão , mandou recoJher as náos de Malaca, 
China , Maluco , Bengala , e mais partes 
com huma grande cáfila , e com tudo iíto 
fe foi recolhendo pêra Goa , e de caminho 
viíltou , e proveo as Fortalezas de Canará 
de tudo o neceífario , e dahi paífou a Goa. 
Neíta náo mandaram de Malaca huma de- 
Taifa , que fe lá tirou contra D.João da 
Gama , Capitão daquella Fortaleza , pelas 
culpas que tinha na Provisão do Licencia- 

O ii do 



212 ÁSIA de Diogo de Couto 

do Coime de Ruam, que lá foi por Ouvi- 
dor Geral , como na nona Década melhor 
fe verá , e por outras coufas , que lhe puze- 
ram, que foi poíla na Relação de Goa, on- 
de foi fentenceado que foífe defpejado da 
Fortaleza, e fe vieíle livrar a Gca; e com 
iílo defpachou o Vifo-Rey a Rcque de 
Mello , que viera com elle defpachado com 
aquella Fortaleza pêra ir entrar nella. Di- 
vulgado ilto por Goa , acudio D. Miguel 
da Gama a ver fe podia atalhar que feu 
irmão não foíle defpejado , porque havia 
de ter gente fua elpalhada , e receberia 
grande perda fenão a recolheíle , fendo 
Capitão ; mas não pode acabar com o Vi- 
Íò-Rey , mais que conceder-lhe que Roque 
de Mello , chegando áquella Fortaleza , 
tomaífe pofle da fazenda de EIRey , e 
mandaíle como Veador da fazenda delia 
em tudo , e que D.João da Gama íicaífe 
fendo Capitão da Fortaleza até Agoíto fe- 
guinte , havendo elle de acabar feu tempo 
por fim de Outubro. Defpachadas eíías 
coufas , e outros Capitães , que haviam de 
ir pêra fora , deram todos á vela a vinte 
de Abril por diante, Rcque de Mello em 
huma náo fua , Ayres Gonfalves de Miran- 
da em outra , em que hia fazer huma via- 
gem da China pêra Japão, que tinha com- 
prado aos Procuradores de D.Pedro Ma- 
noel , 



Década X. Cap. IX. 213 

tioel , irmão de D. António de Vilhena , 
que fe perdeo , fazendo eíla mefma via- 
gem 5 que EIRey concedeo a feu irmão no 
mefmo tempo que Jhe a elle cabia , com 
condição que pagaria as dividas de D. An- 
tónio. Foi também em outro Galeão João 
Alvares Pereira pêra Maluco, por fer pro- 
vido daquellas viagens, com quem hia em- 
barcado D. Álvaro de Caftro, que era pro- 
vido da Capitania da Fortaleza de Tido- 
re 5 e efcreveo a Diogo d 3 Azambuja, que 
nella eftava , huma carta mui honrada, em 
que lhe dizia que EIRey D. Filippe lhe fa- 
zia mercê, em huma lifta que trazia de três 
annos , daquella Capitania , na vagante 
dos providos , e lhe mandou huma carta 
de EIRey pêra elle , em que moílrava ter 
fatisfação dos feus ferviços , porque lhe fa- 
zia a mercê que o Conde lhe dera. Defpe- 
didos eíles Capitães pêra fora , e providas 
as coufas de Damão , como adiante dire- 
mos , cerrou-fe o inverno de Goa , em que 
não ha mais que vigiar as ribeiras, e viíi- 
tar as Armadas , e reformallas. 



CA^ 



214 ÁSIA de Diogo de Couto 

C A P I T U L O X. 

Do que aconteceo a Fernão Boto Machado 
na viagem até Moçambique , e a D. Je- 
ronymo Mafcarenhas noEJireito de Meca 
até chegar a Ormuz : e de como foi con- 
tra os Nequilins \ e do que com elles 
aconteceo. 

PArtido Fernão Boto Machado de Goa , 
como atrás diílemos no Cap. V. do II. 
Livro , foi atraveíFando aquelle grande 
golfão até haver vifta da outra Coita no 
Cabo que chamao dos Baxás , onde tomou 
lingua da terra , e íbube não ferem palia- 
das as Galés pêra baixo, pelo que foi cor- 
rendo a Coíla de longo , e fazendo por 
ella algumas coufas que levava por regi- 
mento; enao havendo alli que fazer mais, 
paíFou a Moçambique, e deo as cartas do 
Vifo-Rey a D. Pedro de Caftro ; e por não 
haver novas de Galés , nem fer neceílario 
invernar naquella Fortaleza , deo á vela 
pêra Goa na entrada de Abril , e no ca- 
minho na altura da Çacatorá acharam tan- 
tas calmarias, que o detiveram tantos dias, 
que eítiveram a rifeo de fe perderem por 
falta de agua ; e acudindo-lhes Deos noíFo 
Senhor com vento , os tirou do perigo , e 
foram bufear a Coita da índia já de vinte 

de 



Década X. Cap. X. 21^ 

de Maio por diante , e neíle caminho fe 
apartaram os navios. Cofmé Faya foi to- 
mar a barra de Goa > e deo novas ao Vifo- 
Rey da fua jornada , que elle eítimou ; e 
porque eftava receofo de haver Galés pelo 
trabalho que poderiam dar aquella cofta ; 
e Fernão Boto não oufando ir commetter 
a barra de Goa , foi bufcar a de Chaul, 
onde entrou , e varou o navio ? e efcreveo 
ao Vifo-Rey o que lhe aconteceo na jor- 
nada. 

Agora continuaremos com D.Jeronymo 
Mafcarenhas , que deixamos partido de 
Goa a quatorze de Janeiro paliado. Efta 
Armada toda junta foi haver vifta da coita 
da Arábia , e a Monte de Félix fe deixou 
andar até á entrada de Abril , efperando 
pelas náos , mandando todos os dias def- 
cubrir o mar pelos navios de remo ; e hum 
dia amanheceo hum delles ao mar aparta- 
do dos outros , e houve vifta de huma fer- 
mofa náo , que vinha com todas as velas 
enfunadas demandar aquella paragem , que 
tanto que houve vifta da fufta logo a co- 
nheceo , e entendeo que havia por alli Ar- 
mada de Portuguezes; e virando em outra 
volta , deixou-fe ir feu caminho : os da fuf- 
ta foram feguindo ; e como era ligeira, 
chegou a tiro de falcão delia , e lhe fez 
final ao amainar ? do que elia não fez cafo , 

pe- 
t 



ii6 ÁSIA de Díogo de Couto 

pelo que fe puzeram por poppa , e todo 
aquelle dia até anoitecer a foram varejan- 
do ás falcoadas , fem eíla dar nada por 
iííb , nem a Armada faber o que paflava : 
e tanto que anoiteceo , foi-fe na volta da 
Armada, e deo conta ao Capitão Mor do 
que lhe acontecera. D Jeronymo Mafcare- 
nhas fentio muito perder aquella náo , por- 
que forçado lhe houvera de ficar nas mãos , 
ienão fora a fuíla que a avifou ; e dando á 
vela pelo rumo que a náo levava , foi cor- 
rendo todo aquelle dia pêra ver fe a podia 
alcançar de vifta , o que não fez , porque 
fe tornou pêra a mefma paragem, havendo 
que affim como aqueila náo viera alli de- 
mandar , o poderiam fazer outras , e aíTim 
fe deixou eftar com mais vigia de que an- 
tes ; e acomeceo huma noite muito clara , 
e ferena no quarto da madorra verem hum 
final no Ceo bem grande, que foi abrir-fe 
todo o ar com tanta claridade , e refplen- 
dor que parecia de dia , e apôs iíío come- 
çaram a chover labaredas de fogo tão e£ 
paniofas , como fe no ar fe quebraíTem pa- 
nellas de pólvora, coufa que metteo gran- 
de medo em todos ; mas durou pouco , e 
tornou o tempo a ficar como de antes. D. 
Jeronymo deixou-fe eftar alli até a monção 
de fahir pêra Ormuz , como levava por re- 
gimento 3 e dando á vela com toda a Ar- 
ma- 



Década X. Cap. X. 217 

mada, chegou áquella Fortaleza, onde foi 
bem recebido \ e depois de defcançar , lhe 
deo D. Gonfalo de Menezes conta de como 
EIRey de Lara tinha entrado pelas terras 
do Magoílão , e tomadas algumas Fortale- 
zas de EIRey de Ormuz , ao que era ne- 
ceíTario acudir , aíTim por aquelle Rey fer 
vaílallo de EIRey de Portugal, como por- 
que com aquellas guerras eilavam os cami- 
nhos impedidos pêra as cáfilas , que deixa- 
vam de vir a Ormuz , e do que aquella 
Alfandega recebia notável perda. Eílas cou- 
fas fe puzeram em parecer dos Capitães, 
Fidalgos , e Cavalleiros velhos , e honra- 
dos , e aflen taram que era neceflario ata- 
lhar-fe aquillo , e deitar os inimigos fora 
do Magoftão , e que pêra iílb fe metteíTe 
todo o cabedal que havia naquella Forta- 
leza. EIRey de Ormuz com o Goazii fe 
offerecèram a acompanhar os Capitães na- 
quella jornada com quatro , ou finco mil 
homens. 

AíTentado iíto , começou D. Gonfalo a 
fazer os preparamentos ncceíTarios pêra a- 
quella jornada; e porque haviam de tardar 
alguns dias, pedio aD.Jeronymo que fol- 
fe com fua Armada dar viíla ao eftreito de 
Baçorá, que trabalhaífe por deitar os Ne- 
quilins fora daquella paragem em que efta- 
vam , e obrigallos a irem viver á Ilha de 

La- 



a 1 8 ÁSIA de Diogo de Couto 

Lareca , como tinha affentado com Rujr 
Gonfalves da Camará , fendo Capitão da- 
queila Fortaleza , como na nona Década 
fe pode ver, os quaes Nequilins, por gof- 
tarem das prezas que faziam nas Terradas 
que vinham de Baçorá , e que elles faltea- 
vam com feus navios , não podia havellos 
obrigar a nada, pelo que entenderam que 
era neceífario tirallos dalli , porque hiam 
engroflando com as prezas , e já as terra- 
das deixavam de vir a Ormuz, com o que 
fe podia dizer que aquelia Fortaleza efta- 
va de cerco por mar , e por terra , porque 
ella de íi não tinha coufa alguma por tudo 
lhe vir de fora. AíTentado iílo , negociá- 
ram-fe doze Galeotas , e em huma Galé 
embarcou-íe D.Jeronymo com toda a gen- 
te de fua Armada , e foi entrando pêra 
dentro do eftreito ; e antes de chegar a 
Nequilu , defpedio o Capitão Mor hum 
Árabe em huma embarcação pequena , por 
quem mandou pedir ao Xeque que quizeíTe 
fazer razão de íi , e cumprir o que eítava 
aílentado com o Capitão paliado , e que fol- 
gaiTe antes de ler vaíTallo de EIRey de Or- 
muz , e amigo dos Portuguezes , que não de 
EiRey de Lara : efte Mouro fallou com o 
Xeque dos Nequilins , que fechamava Muça , 
e tratou com elle as couías a que hia , e lho 
tornou á defpedir com a refpoíta , mandan- 
do 



Década X. Cap. X, 219 

do pedir ao Capitão Mor feguro pêra fe 
ir ver com elle á fua Galé , que lhe elle 
mandou , eftando já furto de feu porto : e 
logo veio o Xeque com alguns cabeças 
principaes, que D. Jeronymo recebeo bem; 
e praticado efte negocio , aífim os perlua- 
dio , que ficaram com elle de fe paífarem 
todos pêra a Ilha deLareca, onde viveram 
como vaiTaílos de EIRey de Ormuz, e que 
não trariam mais pelo mar terradas , nem 
outras embarcações ligeiras , com que cof- 
tumavam a roubar. Aífentado ifto , fizeram 
feus papeis , em que lhe D. Jeronymo li- 
mitou certo tempo pêra fe paífarem a La- 
reca , e lhe paífou carta de vaífalíagem , e 
feguros Reaes ; e feito , ifto , tornou-fe 
pêra Ormuz. 

CAPITULO XI. 

De como os Capitães de EIRey de Lara 
tomaram a Fortaleza de Xamel, e ou- 
tras que o Rey de Ormuz tinha 
no Magoflão. 

POrque nos pareceo melhor deixar eítas 
guerras que EIRey de Lara teve com o 
de Ormuz pêra efte lugar , o fizemos de 
induftria , por contarmos todas as coufas 
junta». Eftes dous Reys vizinhos he coufa 

mui 



220 ÁSIA de Diogo de Couto 

mui fabida que o de Ormuz foi fempre 
mui poderofo , mais que o de Lara , fendo 
antigamente o de Lara maior fenhor que 
Todos os que havia por aquellas partes , 
em quem o tempo veio a fazer o que cof- 
tuma em todos os Eílados , que he abater 
huns y e alevantar outros. E depois que o 
Rey de Ormuz veio a empobrecer , trata- 
ram os de Lara de fe fazerem fenhores do 
Magoílao , e de eílenderem os limites de 
feu Reyno , mandando pêra iífo algumas 
vezes exércitos , que fizeram bem de da- 
mno ; e como eíte defejo fe herdava com 
aquelle Reyno, efte que agora era Rey de 
Lara, lançando mão de algumas occafiões 
que fe offerecêram , determinou conquiftar 
todo o Magoílao , pêra o que formou efte 
verão hum arrazoado exercito , de que fez 
Capitão Mula Albereza , que foi entrando 
pelo Magoílao , e tomou logo a Fortaleza 
deTezer, em que eílava por Capitão Mor 
Mahamede Caíla Madis ; e deixando nella 
guarnição , pafíbu a Xamel , aonde eílava 
por Capitão Coze Zanede , cabeça de to- 
dos os Amadizes , que he huma Cabilda 
que vive no Magoílao , homens valentes , 
e determinados , que lhe entregou aquella 
Fortaleza fobre partidos , e fez que fe fa- 
hiria delia com todos os Amadizes , mu- 
lheres 3 filhos , e fazendas > que lhe o Mula 

AI- 



Década X. Cap. XI. WH 

Albereza guardou tão mal, que em toman- 
do pofíe da Fortaleza , mettêram todos os 
Amadizes a faço, e lhe tomaram fuás mu- 
lheres , e filhas , e lhas deshonráram , fa- 
zendo-lhcs todas as mais avexaçoes que pu- 
deram , de que os Amadizes ficaram mui 
de? honrados , e affrontados; e em quanto 
durou o cerco , que Mula Albereza poz 
fobre Xamel , que foram alguns dias Mir 
Mahamede Amadiz , a quem os Laris to- 
maram Tezer, havendc-le por abatido de 
lhe tomarem a Fortaleza , em que eítava , 
ajuntando os Amadizes que pode, deo hu- 
ma noite efcura fobre a mefma Fortaleza ; 
e tomando os Laris defcuidadcs , entrou 
dentro por efcadas , e metteo todos á efe 
pada , ficando outra vez de poffe da Forta- 
leza , tomando a de Xamel , e ficou nella 
Dor Capitão Reucambar , e com elle Mir 
^afcar com feiscentos homens, muita arti- 
■ heria , mantimentos , e munições ; e do 
que o Magoítão fe defpovoou todo , e as 
Cáfilas que coítumavam a vir daquellas par- 
tes da Períia pêra Ormuz, foram algumas 
roubadas dos Laris , e outras deixaram de 
vir , com o que ficou todo o Magoítão tão 
deftruido , faqueado , e roubado , que quaíi 
íicava a Ilha de Ormuz de cerco , porque 
de lá lhe vem tudo , agua , lenha , palha 
pêra os cavallos , galiinhas , frangos , va- 
cas , 



122 A S I A de Diogo de Couto 

cas, carneiros ; em fim todas as mais cou- 
fas neceílarias á vida humana, porque Or- 
muz não tem mais de feu que terras de 
fal , e com iíto a perda que começava a 
fentir a Alfandega pela falta das cáfilas de 
todas eftas coufas. Tinha D. Gonfalo de 
Menezes avifado aoVifo-Rey, pedindo-lhe 
ajuda , e licença pêra caftigar EIRey de 
Lara, e reílituir ao de Ormuz as Fortale- 
zas , e terras que lhe elle tinha tomadas , 
pêra que não vieílem as coufas mais em 
damno daquella Fortaleza. Efta foi a ra- 
zão , por que o Vifo-Rey deo por regi- 
mento a D.Jeronymo , tanto que acabalfe 
a monção do eltreito do mar roxo , aonde 
o mandava, fia fofle a Ormuz, e que com 
D. Gonfalo Capitão daquella Fortaleza foí- 
fe lançar o inimigo fora das terras doMa- 
goftão , que, como já différnos , aílentou 
com elle irem ambos áquelle negocio; pe- 
lo que em quanto D.Jeronymo foi aos Ni- 
quilins , fez D. Gonfalo as preparações ne- 
ceílarias pêra a jornada, que havia de fer 
no mez de Agoíto ; e como nella fe havia 
de achar EIRey , e o Goazil , era neceíTa- 
rio muita fabrica de fervidores , cavallos , 
e camellos , que EIRey mandou fazer pelas 
aldeãs do Magoftão. E em quanto aos Ca- 
pitães , defpedio EIRey a Rax Lardadi , e 
a Mirorenga com dous mil homens , pêra 

que 



Década X. Cap. XI. ptg 

que foílem diante , e recolheflem a-fi to- 
dos es Amadizes , que andavam qfpaíha- 
dos , o que elles fizeram ; e depois de to- 
dcs juntos , fcrão demandar hum Caílelete 
chamado Mauriqu.e, que fe fez pêra reco- 
lhimento das cáfilas , e pêra os Mercado- 
res deixarem alii feguros feus camellos por 
caufa do paílo que em Ormuz não tinham.., 
em que eílava alguma gente de EIRey dç 
Lara ; e commettendo elles o. Caítelete, foi 
logo entrado , e mortes a mor parte dos 
inimigos. Os noííos Capitães D. Gonfalo, 
■ eD.Jeronymo, tendo prefíes todas ascou- 
ias nf ceifarias , na entrada do mez deAgofr 
to mandaram pafiar tudo da outra banda, 
ficando fó agente que haviam de levar, 
de que fizeram alardo \ e acharam oito- 
centos Portuguezes, gente muito limpa, e 
bem armada ; e entregando D. Gonfalo a 
Fortaleza a João Corrêa de Brito com du- 
zentos homens pêra íua guarda , com iílo 
fe paíTáram da outra banda com toda a 
fabrica , que era muito grande : alli orde- 
naram de toda a gente de pé três bandei- 
ras : da primeira era Capitão Ruy Dias de 
Soufa, filho de Cliriftovão de Soufa de San- 
tarém , que era caiado naquella Fortaleza : 
da fegunda Simão da Coita , que neita jor- 
nada foi com tamanha fabrica de tendas^ 
cavallos , camellos , e fervidores , e FidaL- 

gos 



224 ÁSIA de Diogo de Couto 

gos cafados , que fó D. Gonfalo levava 
maior : da outra bandeira era Capitão D. 
Jeronymo Mafcarenhas , que hia na dian- 
teira com a mór parte da gente de fua Ar- 
mada. No meio deitas bandeiras fe orde- 
nou que foíTe João Furtado de Mendoça 
com toda a artilheria , e munições , e toda 
a mais bagagem , como Meftre do campo , 
e D. Gonfalo ficava na retaguarda com to- 
da a gente de cavallo, que feria perto de 
cento. EIRey com o Goazil havia de ir 
pelas ilhargas do exercito com toda a gen- 
te ordinária de fuás cafas, que feriam cen- 
to e vinte de cavallo , e quinhentos de pé. 
Neíla ordem quizeram começar a marchar; 
mas como he muito ordinário entre muitos 
Capitães haver diíFerença fobre jurifdicção, 
começou D. Jeronymo a mover alteração , 
dizendo que a elle lhe convinha levar a 
Bandeira de Chriílo , como Capitão Mór 
daquelles eftreitos, e pelos poderes que le- 
vava do Vifo-Rey , pelo que fe devem os 
Vifo-Reys de regular neíles poderes dos 
parentes , porque pelos honrarem quali fem- 
pre aíFrontão , e enxovalhão hum Capitão 
de huma Fortaleza, que pela ventura tem 
mais idade, ferviços , e merecimentos que 
outro que á força de poderes , e provisões 
Jhe quer preceder : o que vem a refultar 
€m deferviço de EIRey, e ódios entre Fi- 

dal- 



Década X. Cap. XI. 225* 

dalgos , que por pequenos pontos de honra 
deixam perder grandes occafióes : em fim 
a eítas differenças acudiram Religiofos , Fi- 
dalgos , Veador da Fazenda , e entre todos 
fe veio a determinar , que ao Capitão da 
Fortaleza convinha levar a Bandeira de 
Chrifío , como já eítá fentenceado pelo 
Vifo-Rey D. Luiz de Ataíde nas differen- 
ças que o mefmo Conde D. Francifco Maf- 
carenhas , eftando por Capitão Mor no 
cerco de Chaul , teve com Luiz Freire de 
Andrade, Capitão daquella Fortaleza > co- 
mo na oitava Década eítá dito. 

CAPITULO XII. 

De como os nojfos foram caminhando pêra 
Xamel: e do que lhes aconteceo até che- 
garem lá : e do Jitio d a que lia ter- 
ra , e Fortaleza. 

APaziguadas as coufas entre os Capi- 
tães , puzeram-íe em ordem de cami- 
nhar \ e porque D. Gonfalo levava o mor 
apparato , e fabrica que ninguém podia le- 
var , ainda que fofle o Viíb-Rey , não fe 
acharam fervidores pêra todos , porque le- 
vava muita, e rica prata de ferviço, huma 
muito grande , e bem provida difpenfa de 
todas as couías , como aquelle que todos 
Couto. Tom. VI. P. I. P os 



226 ÁSIA de Diogo de Couto 

os dias dava prato da fua meza a EIRey 
de Ormuz 5 e Goazil , e muitos Fidalgos , 
em muita abaftança , levava muitos , e fer- 
mofos cavallos ajaezados de ouro , e pra- 
ta pêra fua peílba , e a fua guarda , que 
era de homens Portuguezes de librea de 
muitas cores , e muitas charamelas , e 
trombetas, atabales, e outros infírumentos 
militares ; em fim tudo o mais que fe po- 
dia levar , como Capitão , que fabia re- 
prefentar aquelle lugar no meio de tanto 
vizinho , Perfas , Árabes , Turcos , e ou- 
tros Eftrangeiros , que andavam na Ilha de 
Ormuz 5 e a tudo lançavam o olho ; por- 
que como as novas íempre crefcem nas 
bocas , era muito neceííario que foífe af- 
lím , pêra que viflem os vizinhos , que fe 
hum Capitão de Ormuz fe abalava com 
aquelle poder , e pompa , que faria hum 
Vifo-Rey da índia , que nas orelhas de 
todos os eílranhos he num terror ; porque 
como na índia fe não vive, fenão de opi- 
nião , he neceííario que os Vifo-Reys , e 
Capitães a fuííentem por não vir a menos 
credito. E tornando á noífa ordem , 

Vendo D. Gonfalo que faltavam fervi- 
dores pêra toda aquella fabrica , aíTentou 
com D.Jercnymo , que caminhaíle diante 
com todas as bandeiras , artilheria , e ba- 
gagem , porque havia de marchar de va- 
gar 7 



Década X. Cap. XII. 227 

gar , e que antes de anoitecer aíTentaíTe 
feu campo , e tornafle a mandar os fervi- 
dores , e camellos pêra elle caminhar de 
noite , o que elle fez , e D. Gcnfalo fe pez 
logo a caminho ; e como não levava arti- 
lhèria , nem bagagem , andou em féis ho- 
ras o caminho que D.Jeronymo tinha an- 
dado todo aquelle dia, eaíTentcu fuás ten- 
das hum pouco affaftado. Ao outro dia 
muito cedo tornou D.Jeronymo a cami- 
nhar , ficando alli D. Gonfalo , e fubre a 
tarde lhe deram huma carta do Veador da 
Fazenda , em que Uie dizia , que fora avi- 
fado que a mulher de EIRey de Ormuz fa- 
zia de íi mudança com toda a lua familia , 
e que tinha terradas preftes pêra de noite 
fe acolher: e que afirmavam alguns que o 
Rey de Ormuz , e o de Lara citavam con- 
certados entre li pêra matarem todos os 
Portuguezes , e depois apoderarem-fe da 
Ilha, e Fortaleza de Ormuz, por iflb que 
viífe como hia , porque tudo fe podia luf- 
peitar de Mouros. D. Gonfalo com a carta 
ficou hum pouco fobrefaltado ; mas todavia 
pareceo-lhe que poderia aquillo fer outra 
coufa, porque o ódio daquelles dous Reys 
era muito grande, e antigo, e cobrado por 
damnos muito grandes, pelo que não pare- 
cia poífivel terem taes tratos ; mas lembran- 
dolhe que todaria eram Mouros , e que fe 
P ii não 



228 ÁSIA de Diogo de Couto 

não podia fazer tal , e paíTar aífim por coufa 
que tanto importava , occorreo-lhe huma 
mui apreflada determinação , que foi que- 
rer-fe ir ver com EIRey de Ormuz , que 
tinha fuás tendas hum pouco affaíladas , 
e moítrar-lhe a carta , e fe f e embaraçaíTe , 
matallo logo. AíTim com muita preífa man- 
dou pôr todos em armas , fem lhe dar con- 
ta do que paífava ; e entrando na tenda 
de EIRey , a mandou defpejar ; e ficando 
fòs , lhe íeo a carta com os olhos nelle pê- 
ra ver a mudança que fazia. EIRey a ou- 
vio toda com muita fegurança \ e depois 
lhe diíTe , que quanto á mudança da Rai- 
nha , podia fer verdade , por quanto ella 
ficava defgoftofa de a elle não levar na- 
quella jornada, que devia de fe querer vir 
pêra elle, e que não fufpeitaíTe outra cou- 
fa ; e que fe de fua lealdade concebera al- 
guma fufpeita , que alli o tinha , que o le- 
vaffe fempre comfigo na fua tenda \ e que 
a. todo o tempo que fentifle alguma altera- 
ção , o mataíle , pondo-lhe diante o como 
os Portuguezes o fizeram Rey , e a obri- 
gação , que por iííb , e por outras coufas 
lhe tinha , e cem o que D. Gonfalo fe 
quietou , e aííegurou em fua lealdade ; e 
deixando-o em fua tenda , fe recolheo pê- 
ra feu porto. 

D. Jeronymo tanto que naquelle dia 

af- 



Década X. Cap. XII. 229 

aíTentcu feu campo , tornou a mandar os 
fervidores , e camellos , que tomavam re- 
poufo até á meia noite , em que D. Gon- 
íalo começava a marchar \ mas elle tanto 
que anoiteceo , tomou comílgo vinte e fin- 
co cavallos , e fem dar conta do que paf- 
fava , deixou fuás vigias ordinárias, e foi 
caminhando apreíTadamente pêra onde D. 
Jeronymo eftava , que era em Doçar duas 
léguas dalli ; e entrando na fua tenda , 
lhe deo conta do negocio , pedindo-lhe 
que fem embargo defenao recear de nada,, 
foííe muito fobre avifo. E depois de pra- 
ticarem em outras coufas , que importa- 
vam , tornou D. Gonfalo a voltar pêra o 
feu arraial ? e chegou á meia noite ; e de- 
pois derepoufar hum pouco , tocou a cami- 
nhar , e foi andando até chegar D, Jerony- 
mo. Aquelle mefmo dia veio a Rainha ter 
ao exercito , e D, Gonfalo lhe fez muito 
grande recebimento , e aílim ficou fora de 
toda a fufpeita , e ella foi com EIRey toda 
a jornada. Deita maneira foram caminhando 
até Xamel, levando jácomfigo os Capitães, 
que EIRey de Ormuz tinha mandado dian- 
te, com o que o exercito ficava muito po- 
derofo : nefte caminho fe gaitaram quatro 
dias, não fendo mais de oito léguas ; mas 
deo-lhe trabalho por fer em Agoíto , em 
que as calmas daquellas partes são crue- 



2%0 ÁSIA DE DíOGO DE COUTO 

li/Umas , e haver grande falta de agua , 
porque fica aqaella parte quafi debaixo do 
Trópico de Câncer , e o Sol naquelle tem- 
po andar por derredor delle , como que 
aquellas arêas , e ferras defal ardem em 
fogo, e em labaredas. 

T^into que os noíTos chegaram á vifta 
da ferra de Xamel , aífen taram o arraial 
de longo de huma pequena ribeira , que 
corria pelo pé delia, de huma parte todos 
os noíTos , e da outra EIRey , Goazil , e to- 
da a fua gente ; e depois do campo aífenta- 
do, foram os Capitães com oRey, e Goa- 
zil reconhecer o íitio da Fortaleza pêra 
verem por onde fe podia commetter , e ef- 
tiveram notando tudo muito de vagar, no 
que acharam difficuldades muito grandes 
por caufa de fua fortaleza , e íitio , que 
he por efta maneira. 

Efta ferra de Xamel he feita á feição 
da copa de hum chapeo cufcuzeiro , muito 
alta , íngreme , e medonha : pêra a banda 
de Levante faz huma quebrada , como fe 
fe dera huma pedrada nefta copa de cha- 
peo , que a metteo hum pouco pêra den- 
tro , o que parecia feito da continuação 
das aguas das invernadas , a que também 
a induílria , e arte dos homens havia de 
ajudar : efta quebrada vinha a refponder 
ao pé da ferra quafi da largura de pouco 

mais 






Década X. Cap. XIL i$t 

mais de duas braças craveiras , onde pêra 
maior Fortaleza íua , porque não havia ou- 
tra entrada, fizeram hum mui groííb muro 
com huma porta pêra ferventia com hum 
Baluarte a cada canto , que ficava fobre 
ella ; e pêra defensão deita porta correram 
com hum muito forte Xarabando y . que he 
o que nós chamamos barbacã , afraítada 
hum pouco da porta de feição , que entre 
hum , e outro ficava hum mui fermofo ta- 
boleiro , em que fe agazalhavam duzentos 
homens , que alli tinham de guarnição. Ef- 
ta barbacã tornava a fechar de ambas as 
partes na rocha , e em cada remate hum 
forte baluarte 5 e no meio outro , que ca- 
hia fobre outra porta , que também tinha 
pêra ferviço : ao redor deita quebrada da 
banda de dentro corria huma baranda , em 
que agazalhava a gente da Fortaleza, que 
eítava ordenada pêra defensão daqueila íu- 
bida , fe fe entraífem ambas eítas partes : e 
eítas barandas ficavam perpendiculares fo- 
bre aquelle vão , que fazia da porta do 
muro pêra dentro : e eftes não tinham ne- 
ceífidade de outras armas , que de galgas 
de pedras grandes , que deitadas por alli 
abaixo 5 faziam tamanho terremoto que 
mettiam medo : a Fortaleza eítá poíta no 
cume da ferra , e pêra fubirem a ella , ha- 
via de fer por ruas fubterraneas , que pêra 

if- 



232 ÁSIA de Diogo de Couto 

iíTo tinham feitas á mão 5 por onde os que 
ficavam de lima fó ás pedradas podiam 
desbaratar o mundo todo , e em ííma tinha 
fua cifterna , e armazéns , e debaixo feus 
poços de agua mui boa. Os Larins eílavam 
dentro mui bem providos , e fortificados ; 
porque tanto que tiveram avilb da vinda 
dos Capitães , logo lançaram a gente inú- 
til fora , e recolheram dentro os quinhen- 
tos homens efcolhidos , com que determi- 
navam de fe defender. 

Os noíTos Capitães aífentáram que fe 
não podia commetter a guerra fenão pela 
parte da porta que fe podia bater j e que 
pêra paíTarem a artilheria havia de fer 
por hum caminho muito eítreito , que fica- 
va por baixo do Xarabando , que não po- 
dia fer fem rifco , porque da outra banda 
também fe fazia outra ferra muito alta , e 
grolfa , e por entre ambas ficava aquelía 
paífagem , que poderia fer doze até quin- 
ze paílos. Viíío , e notado tudo , viram 
que a ferra era muito mais forte , do que 
lha tinham pintado , e houveram-fe por 
enganados , ficando com bem de defcon- 
fianças daquelle negocio ; mas como ao 
peito Portuguez não ha coufa que o aca- 
nhe , determinaram de provar fua ventura , 
porque fe deíiftiffem daquella jornada , cref- 
ceria aos inimigos animo pêra lhe irem dar 

vif- 



Década X. Cap. XII. 233 

vifta até Ormuz ; e pêra fe fazerem fenho- 
res de todo o Magoílão , fem lho pode- 
rem impedir , com que a noíTa Fortaleza 
padeceria trabalhos , e affrontas. Em fim , 
determinaram de ir com o negocio por 
diante , e de paliarem a artilheria por a- 
quelle eftreito , e baterem a barbacã , que 
por aquella parte ficava defeuberta ao 
campo. 

CAPITULO XIII. 

De como fe pajfou a artilheria á outra 
banda com muito rifeo : e de como come- 
çaram a bater o Xar abando : e de 
como o ganharam por ajjalto. 

ASfentado entre os Capitães de palia- 
rem a artilheria pelo pé da ferra , fi- 
zeram preftes hum camello , huma efpera , 
-e alguns falcões, e a gente neceíTaria pêra 
menear ifto , e tudo entregaram a hum fol- 
dado chamado Manoel de Moraes com 
vinte companheiros pêra guarda da artilhe- 
ria , e pêra favorecerem os trabalhadores ; 
e fendo fobre a tarde , começaram a paliar 
o camello. Indo já ao longo da barbacã, 
como os de íima eftavam precatados , e 
preftes 5 deitaram fobre os que hiam traba- 
lhando tantos tiros de arremeço ; e tantos 



2,34 ÁSIA de Diogo de Couto 

fogos , que era couía medonha ; e como 
aquelle lugar era muito eílreito , tudo ca- 
hio fobre elles ; e tão apertados fe viram 
todos , que queimados , e abrazados foi- 
lhes forçado recolherem-fe y ficando-lhes 
lá o camello , e hum dos companheiros 
morto. Vendo os Mouros defamparada a 
peça de artilheria , e como os noífos fe re- 
colhiam tão efcalavrados , em anoitecendo > 
lançaram-fe alguns por cordas abaixo , e 
puzeram tantos materiaes de fogo fobre o 
camello , que lhe queimaram todo o repai- 
ro , e lhe ficou todo efcondido nas cin- 
zas. Os noífos Capitães vendo aquelle 
principio , e a retirada dos noífos , fentí- 
ram-no em extremo ; e por fer já noite, 
mandaram ter grande vigia no camello , 
porque os inimigos o não recolheífem , e 
defpedio logo D. Gonfalo pela porta hu- 
ma carta ao Veador da Fazenda , em que 
lhe mandava pedir hum repairo coniabre- 
vidade poílivei ; o que elle fez com tanta 
preífa , que ao outro dia lhe chegou ; e 
tornando os Capitães a ver, e praticar fo- 
bre as difficuidades daquella paífagem , 
aífentáram que todavia fe paííaífem por 
alli , porque rodear a outra ferra era per- 
to de duas léguas , de caminho todo mui- 
to afpero , e de grandes penedias , por on- 
de a artilheria não podia paliar , fenão 

com 



Década X. Cap. XIIÍ. 23? 

com muito trabalho; e com efta refoluçío 
fe negoceáram , e tornaram a encommen- 
dar o repairo ao mefmo Manoel de Mo- 
raes , pêra que com muitos corredores , e 
alguns companheiros irem diante a caval- 
gar o camelete , e D. Jeronymo Mafcare- 
nhas com toda a foldadefca ir detrás em 
íua guarda , e ficou ordenado que D. Gon- 
falo , EIRey , e Goazil íicafle na meíma 
ribeira cm que eftava. 

Tanto que foi o quarto da madorra, 
foram em muito íilencio os que levavam o 
repairo a cargo , e começaram a entrar 
por aquelle paço até chegar ao camellete ; 
e alevantando-o da cinza em que citava , 
cavalgáram-no no repairo ; e poílo que já 
os de Uma os tinham fentido , e já come- 
çava a cahir fobre elles lodos os géneros 
de arremeços com que feriram alguns , to- 
davia foram trabalhando , e paliando o 
camellete ate fahir ao largo , e da mefma 
maneira pafsáram as mais peças , ainda 
que com muito rifco , e perigo dos noffos , 
que com fua arcabuzaria aílim a montão 
foram fempre difparando pêra amedron- 
tarem os inimigos , que por caufa delia 
não offendêram os noííos tão defcuberta- 
mente. Paliada a artilheria , João Furtado 
de Mendoça , como Meílre do Campo, 
paílbu D, Jeronymo também com todas as 

ba- 



236 ÁSIA de Dioao de Couto 

bandeiras á outra banda ; e tanto que a- 
manheceo , efcolhêram o íitio pêra aífen- 
lar o arraial , e João Furtado prantou a 
artilheria na parte que melhor lhe pare- 
ceo , e alli fe fortificou , e fez fuás tran- 
queiras , e vallos muito a fua vontade. For- 
tificados os noílos , e poítas em ordem as 
coufas pêra a bateria , a começou João 
Furtado a dar na face do Xarabando com 
muita fúria , e continuação ; e pofto que 
lhe derribaram alguns altos , não lhe pude- 
ram fazer mais outro nojo , e ainda eíTas 
ruinas eram logo repairadas , porque tudo 
o mais era tão forte, que não havia coufa 
que rompeíTe por elle. Algumas defeon- 
fianças começou a haver nos nofíbs ; mas 
já lhes convinha não levarem mão daquelle 
negocio por opinião , e affim foram conti- 
nuando a bateria quinze dias continuos , 
fem fazerem mais que derribar os altos , 
como o primeiro dia , nem haver outra 
parte por onde os noíTos pudelTem com- 
metter a entrada , por fer toda a rocha tão 
alta , que era coufa medonha. 

Vendo os Amadizes o pouco damno 
que a bateria fazia , recearam que os Larís 
ficaífem com a vitoria , e que não pudef- 
fem tomar vingança das affrontas que del- 
les receberam ; e como eftavam com eíte 
ódio mortal , andavam imaginando modos 

pe- 



Década X, Cap. XIIL 237 

pêra lhes empecerem ; e por fim fe lhe of- 
Fereceo hum ardil muito efpantofo , que foi 
eíte. Lá bufcáram os principaes daquelle 
bando maneira pêra efcreverem huma car- 
ta a Raícambar , e a Mirlaícar Capitães 
da ferra , em que lhes diziam , que fem 
embargo das queixas que delle tinham, 
todavia lembrados ferem todos de huma 
Lei , haviam que feria Mahamede muito 
offendido com clles os não ajudarem , e 
avifarem, e favorecerem em algumas cou- 
fas , que os avifava que eltiveífem de bom 
animo , porque os Portuguezes já fe hiam 
enfadando do pouco que a bateria fazia, 
e entendiam que cedo fe levantariam dalli , 
e fe iriam pêra Ormuz ; que toda a pól- 
vora , e mais coufas que houveíTem rniíter, 
que elles lhas dariam todas as noites em 
muito fegredo pelo pé dos Baluartes de 
fobre a porta por cordas que elles de íima 
lançariam. Os Capitães dos Laris parecen- 
do-lhes que não entrava naquelle negocio 
malícia , fenao zelo de fua Lei , agrade- 
cêrão-lhes muito o avifo , e a vontade , pro- 
ínettendo-lhes de os fatisfazerem- de luas 
queixas ; e que quanto ao offerecimento 
que o acceitavam , e aííim começaram en- 
tre elles a correr cartas de aviíbs , e os 
Amadizes a provellos de pólvora em tanto 
fegredo que nunca fe íoube : a bateria foi- 

fe 



13& ÁSIA de Diogo de Couto 

íe continuando ; mas vendo o pouco que 
faziam naquella parte , aíTentáram a artilhe- 
ria em hum dos Baluartes de febre a por- 
ta , e çomeçáram-no a bater com muita 
fúria ; e foi tanto melhor o emprego da 
bateria, que lhes derribou huma grande par- 
te , por onde pareceo que fe lhes podia dar 
hum aiTalto, e ganhar-lhes o Xarabando , e 
aílim fe prepararam pêra elle ; e o dia que 
havia de fer , fendo a quarto d ? alva , com- 
mettêram o baluarte 5 levando a dianteira 
João Furtado , que arremetteo cem o Ba- 
luarte , e encoftou nelle as efeadas que 
levava já pêra iífo , e neíta primeira arre- 
mettida deram de fima do muro huma ef- 

f)ingardada em Ruy Dias deScufa, de que 
ego cahio morto ; a fubida foi commetti- 
da com muito valor , e continuada com 
muito esforço , e cem o mefmo lhe foi 
defendida dos inimigos; e atenndo-fe entre 
todos huma muito cruel batalha de efpin- 
gardaria , de que ficaram alguns dos ncííos 
feridos , João Furtado a poder de golpes, 
aílim de íeu esforço, como dos mais com- 
panheiros , fe poz em fima da rotura do 
Baluarte , e todos pafsáram muito grande. 
trabalho pelo muito que es inimigos íelhes 
defendiam , em que aconteceram alguns 
cafos bem notáveis , que nao particulariza- 
mos , porque nos faltou a informação del- 
i les, 



Década X. Cap. XIII. 239 

les , baila que por fim do negocio ficaram 
os noíTos fenhores do Baluarte , de que 
lançaram os inimigos bem efcalavradqs das 
mãos dos valeroíos Portuguezes , que tão 
animofamente nefíe combate fe houveram; 
e como dalli ficaram deícubrindo todo o 
Xarabando da efpingardaria , o fizeram des- 
pejar , e os Laris fe recolheram pêra den- 
tro da Fortaleza , ficando muitos eítirados 
por Uma dos muros ; porém não fem da- 
mno da noíía parte , porque foram mortos 
íinco , a fora alguns feridos. 

Ganhado o Xarabando , notou D. Jero- 
nymo com os Capitães o íitio todo , e af- 
fentáram que fe puzeífe em fima do Baluar- 
te a artilheria , e fe bateííe a porta que fe- 
chava a quebrada por onde fe fervia a fer- 
ra,, o que fe logo fez. D.Jeronymo repar- 
tio los Capitães pêra .de noite ficarem vi- 
giando a artilheria : o primeiro quarto ca- 
hio a\yafco da Silva , e a Francifco Corrêa 
de BritCKçom cem homens , que porque fi- 
cavam deítubertos pela banda de dentro 
á arcabuzaria dos Mouros , ordenaram pela 
borda do ijnuro huma tranqueira de ta- 
boas, e madeira, com que ficaram refguar- 
dados : aíp outro dia começaram a bater o 
muro , que fechava a entrada da ferra , e 
da mefma maneira o fizeram por três dias 
continuos , fem lhes fazer nenhum damno 

por 



240 ÁSIA de Diogo de Couto 

por fua fortaleza. Vendo João Furtado o 
pouco que fe fazia , mandou virar o ca- 
mello pêra as portas que lhe pareceram 
fracas , porque de noite enxergou por ellas 
claridade de cutra banda , e ás três bom- 
bardadas deram com ellas dentro , que fe 
os noílbs eítiveram preftes pêra o aílalto, 
logo fe puderam ganhar ; mas como eita- 
vam defconíiados do pouco que tinham 
feito , não lhes pareceo que tão de preíTa 
deflem com as portas dentro , pelo que os 
inimigos tiveram tempo de acudirem , c 
fortificarem-fe por dentro com huma tran- 
queira de páos mui groflbs atraveflados y 
e liados huns com os outros , que era de 
duas faces , que foi logo entulhado de far- 
dos de teimaras , com que ficou fendo mui- 
to mais forte. Foi-fe continuando a bateria 
alguns dias , em que começou a haver al- 
gumas deftemperas entre D. Gonfalo , e 
D.Jeronymo febre coufinhas que fe pude- 
ram mui bem diffimular , a que acudio 
João Barriga Simões , que ficou doente em 
Ormuz, que como era muito cavalleiro, e 
de bom confelho , e todos lhe tinham ref- 
peito, metteo a mão entre elles, e os tem- 
perou , e aquietou , e ficou no arraial acon- 
felhando , e peleijando , como elle fempre 
coftumava a fazer em todas as partes em 
que fe achou. 

CA- 



Década X. Cap. XIV. 241 

CAPITULO XIV. 

De como D. Francifco foi avifado que o fi- 
lho de EIRey de Lara vinha foccorrer 
es feus : e de como os nojfos fe fortifica- 
ram : e do ardil que os Amadizes ufá- 
ram com os Lar/s , porque Je entrega- 
ram a partido : e da grande crueza que 
os Amadizes com elles ufáram. 

INdo os noíTos continuando abateria de. 
ííma do Xarabando , vieram novas a- 
preííadas a D. Gonfalo de como hum filha 
de ElRey de Lara era abalado com finco, 
ou féis mil homens de cavallo.pera foccor- 
rer a ferra : iíto metteo grande confusão na 
exercito; e ajuntando- fe D. Gonfalo, e D«/ 
Jeronymo. ., fizeram chamamento de todos 
os Capitães > e.p.effoas principa.es , ^prati- 
caram fobre o que fe faria naquelle nego- 
cio- Alguns houve de parecer que fe de- 
viam recolher , porque o poder era gran- 
de \ e fe lhes tomaíTem o caminho de Or- 
muz por onde eram providos , náo haveria 
remédio , fenao perderem-fe , que o bom 
feria arrebentarem aartilheria, porque não 
fiçaífe em poder dos inimigos , e entraífeni 
pelas terras. D. Gonfalo , D. Jeronymo , e 
outros Fidalgos , e Capitães diíferam que 
fobre aquella artilheria de EIRey haviam 
Couto. Tom. VL P. L Q. to- 



242 ÁSIA de Diogo de Couto 

todos de morrer , que pêra finco , ou féis 
mil homens ? que fe dizia que o Principe 
trazia , elies tinham poder baftante pêra 
os irem bufcar aonde quer que eftivellem; 
e que fe os Portuguezes podiam peleijar 
com elles por eítarem alli muitos Fidalgos , 
Capitães , e Cavalleiros , muito valerofos , 
e esforçados , que o venceriam , fortifican- 
do-fe naquella parte em que eftavam , e 
que foíTem continuando a bateria, e traba- 
lharem por concluir aquelle negocio , pri- 
meiro que o Principe chegaíTe. Com eíla 
refoluçao mandou D. Gonfalo fortificar ó 
feu exercito de huma parede enfoífa, mui- 
to larga, e forte, com três Baluartes muito 
grandes de madeira entulhados , em que 
poz algumas peças de artilheria , e ospro- 
veo de muitas munições , deitando eípias 
pêra todos os dias o avifarem do que paf- 
fava em Lara. D. Jeronymo deixou-fe ficar 
na parte da bateria , que fempre foi conti- 
nuando , ficando aílentado que em vindo 
o Principe de Lara , fe ajuntaííem todos , 
onde D. Gonfalo eílava : íinco dias contí- 
nuos bateram os noíTos de íima do Xará- 
bando a porta da Fortaleza, em cujo muro 
fizeram algumas ruinas ; mas não de feição 
que fe pudeíTe por elle commetter a entra- 
da , pelo que fe refolvêram quebrar-fe a 
porta, e tranqueira que por dentro fizeram 

com 



Década X. Cap. XIV. 243 

com vais vens , ou com fogo pêra entrarem 
por ella , porque por outra parte não po- 
deria nunca fer: pêra iíto mandaram fazer 
mantas muito fortes pêra chegarem ás por- 
tas feguramente , como fizeram , e lhe pu- 
zeram tanto fogo , que as queimaram \ mas 
acharam por dentro outro muro mais grof- 
fo , e mais forte que o primeiro , o que os 
acabou de defconfiar daquelle effeito de 
todo , e affentáram de tornar á bateria , e 
não fe alevantarem dalli fem porem o mu- 
ro por terra ; e com iíto accrefcentáram 
mais peças de bater , com que foram fa- 
zendo no muro tamanha fúria , que que- 
brantou os inimigos , e começaram a temer 
feu damno , porque lhes matava a artilhe- 
ria muita gente , e lhes começava a fazer 
muitas ruinas ; e o que fobre tudo os aíTom- 
brou foi entenderem que os Portuguezes 
não haviam de deíiftir daquella empreza 
fem a concluirem , e ainda que foíle com 
muito rifco , e perigo feu ; e aillm lho man- 
daram dizer os Amadizes ? que fempre fe 
foram carteando com elles ? e aconfelhan- 
do-lhes que fe tiveíTem > e que fe defen- 
deífem tudo o que pudeífem , e lhes man- 
davam alguma pólvora , e outras coufas 
que lhes elles pediam , tudo pêra feu inten- 
to. Eftando as coufas neíle eftado, chega- 
ram novas aos Larís que EIRey de Lara 
Qji era 



144 ÁSIA de Diogo be Cotjto 

era falecido , e que o filho mais moço fe 
apoderara do Reyno , andando o mais ve- 
lho fazendo gente pêra os vir foccorrer, 
pelo que lhe fora neceflario voltar o po- 
der contra feu irmão , e que ambos fica- 
vam já em campo pêra fe darem batalha : 
iíto os defefperou tanto , que ficaram defa- 
coroçoados , fem faberem tomar determi- 
nação do que fariam , pelo que lhes foi 
forçado valerem-fe dos Amadizes , que ha- 
viam que eram amigos verdadeiros, eaílim 
lhes mandaram pedir confeiho naquelle tra- 
balho. Os Amadizes , que todos os feus 
foccorros , e ardis foram encaminhados a 
efle fim , entendendo-lhes as defconfianças , 
mandáram-lhes aconfelhar que naquelle ne- 
gocio já não havia mais que fazer , que 
commetterem alguns partidos aos Portu- 
guezes , e entregarem-fe com a fegurança 
das vidas. Eíle confeiho houveram elles 
que era de amigos , e logo alevan taram 
fobre o muro huma bandeira de paz ; e 
refpondendo-lhe os noflbs com outra , man- 
daram logo hum Embaixador, que D. Je- 
ronymo , e D. Gonfalo ouviram diante de 
EIRey ; e elle com muita humildade diífe, 
que elles queriam entregar aquella Fortale- 
za a EIRey de Ormuz, cuja era , e fahi- 
rem-fe fora de todas as fuás terras j com 
condição que lhes^ fizeífe mercê das vidas, 

ar- 



Década X. Cap. XIV. 245* 

armas , e cavallos. Os Capitães, vendo feu 
requerimento , deixaram a refolução a El- 
Rey , a quem aquelle negocio pertencia, 
que nãoquiz nelle fazer nada femconfelho 
dos Capitães, que affentáram vir-lhes bem 
conceder-lhe o que lhe pediam ; porque 
pêra tomarem a Serra por força, havia de 
cuílar muito ; e aífim refpondêram os Ca- 
pitães aos Embaixadores , que mandaílem 
os Larís peíToas de authoridade , e com 
poderes pêra aíTentarem , e concluírem a- 
quelle negocio com EIRey. Com ifto vie- 
ram outros dous , ou três dos principaes , 
que foram levados atenda de EIRey, onde 
os Capitães eítavam ; e proílrados diante 
delle , lhe pediram da parte dos Capitães 
dos Larís que lhes fizeíTe fua Alteza mercê 
das ^idas , armas ? e cavallos , e que en- 
tregariam a Serra , e fe fahiriam de todas 
as terras do Magoftão ; e ElRey> lhes re- 
fpondeo , que diíleflem aos Larís que elie 
lhes fazia mercê das vidas , e efmola das 
fazendas , porque muito antigo era fazerem 
os Reys de Ormuz efmolas aos de Lara ; 
e com ifto lhes mandou paflar feus feguros y 
e fizeram feus autos , e papeis , em que 
EIRey , e os outros Capitães noíTos aíligná- 
ram. Feito ifto, aífentou-fe que foffe Simão 
da Cofta (por fer homem muito conhecido 
de todos ) a tomar a entrega da Serra , c 

da 



246 A SI A de Diogo de Couto 

da Fortaleza 5 que foi nella recebido muito 
bem , e logo os Larís fe começaram a fa- 
hir com fuás armas , e cavallos , e todos 
em ordem foram caminhando de longo da 
ribeira pela parte, onde eítava EIRey. Os 
Amadizes , que eram efcandalizados , como 
já dilTemos no Cap. XI. deite Livro II. e 
todos os rodeios feus foram porque vieíTem 
parar naquillo , armáram-fe , e puzeram-fe 
á huma parte do campo ; e paíTando os 
Larís i deram nelles com tamanho ódio , e 
crueza , que naquella primeira pancada ma- 
taram mais de duzentos. Aqui houve huma 
muito grande revolta , e confusão , porque 
os noflbs Capitães não fabiam parte da- 
quelle negocio ; e vendo travada a bata- 
lha , armáram-fe muito á preíla. O Mir 
Larcar, que era hum dos Capitães da* Ser- 
ra , homem velho , grande Cavalleiro , e 
muito honrado, vendo aquillo , cuidando 
que vinha dos noílos Capitães , determinou 
de ou morrer , ou matar qualquer delles , 
e com eíta determinação poz pernas a huma 
fermofa égua , em que hia , e endireitou 
com as tendas , perguntando alto por D. 
Gonçalo , ou D. Jeronymo , e a primeira 
tenda a que chegou foi a de Vafco da Sil- 
va , que aomefmo tempo chegava aporta, 
armando humas armas pêra acudir ao re- 
boliço i e vendo vir aquelle Mouro , pare- 

ceo- 



Década X. Cap. XIV. 247 

ceo-lhe que vinha fugindo , e foi-fe pêra 
clie por lhe valer. OMir Lafcar como hia 
aviado , cuidando que Vafco da Silva era 
hum dos Capitães que hia chamando , ale- 
vantando o traçado , atirou-lhe hum faça- 
nhofo golpe , que quiz Deos foíTe em vão , 
porque fe o acertara , fem dúvida orfendê- 
ra; e ao mefmo tempo do golpe como hia 
aviado do cavallo , entrou pela porta da 
tenda , e foi fahindo pela outra á outra 
banda, coufa efpantofa ! porque qualquer 
daquellas portas não cabia mais que hum. 
homem em pé. Os foidados , que vinham 
acudindo , vendo aqueile Mouro daquelia 
maneira , fem faberem o que era , arremet- 
têram com elle, e o mataram. RaxCabar, 
o outro Capitão Larim , vendo-fe ferido , 
e apertado dos Amadizes , não teve outro 
remédio que recolher-íe á tenda de D. Je- 
ronymo até onde os Amadizes o feguíram , 
c de cujas mãos elle com muito • trabalho 
o livrou , tendo a porta que trabalharam 
por lhe entrar ; e vendo alguns mais efcan- 
dalizados que D.Jeronymo lhes valia, lhe 

{)edíram que já que não deixava matar aquel- 
e Mouro traidor, que lhes deshonrára fuás 
mulheres , e filhos , que ao menos lhes dei- 
xaílem beber hum pequeno de fangue de 
fuás feridas , que com iíTo ficariam fatisfei- 
tosj e D.Jeronymo os apaziguou o melhor 

que 



248 ÁSIA de Diogo t>E Couto 

que pode 5 e os fez recolher. D, Gonfalo 
andava a efte tempo com ElRey mettido 
entre os Làrís > eAmadizes pêra lhes vale- 
rem , e os que puderam efcapar de fuás 
mãos lhes foram dando guarda mais dehu- 
nia légua até os pôr em falvo. PaíFado efte 
negocio , querendo os Capitães partir pêra 
Ormuz , entregou EIRey aquella Fortaleza 
a Cogezenadem com quinhentos homens , 
c proveo de munições , e mantimentos em 
abaftança , com o que íicou fegurando todo 
o Magoftão , e os mefquinhos 5 e naturaes 
fe aquietaram , e as Cáfilas começaram cor- 
ter 5 e a Fortaleza de Ormuz tornou á fua 
propriedade; e deixando tudo provido, fe 
tornaram os Capitães ; e D. Jeronymo na 
entrada de Outubro fe partio pêra a índia 
com fua Armada. 

CAPITULO XV. 

Das coufas que fuc cederam em Damão y 

acabante o cerco : e de como os nojfos 

foram contra o Rey de S ar zeta > 

e lhe queimaram a fua Cidade y 

e defirutram fuás terras. 

EM o principio da^ guerra de Damão 
contámos de como tanto que o Capi- 
tão teve a nova certa delia ; trataram com 

o 



Década X. Cap. XV. 24^ 

crRey de Sarzeta de recolher em fuás ter- 
ras toda a gente , e gado defde Damão , 
por fegurar tudo dos Mogores ; e como o 
cabedal que lá fe recolheo era muito grof- 
ib , de gado , jóias , ouro , e prata , com o 
cevo da cubica , alevantando-fe aquelle Rey , 
com a bolada , lançou mão de tudo , havendo 
que melhor eftava com aquellas coufas , que 
lem ellas. Difto foi logo avifado o Capitão 
de Damão , e logo defpedio áquelle Rey 
alguns recados , e proteftos , de que elle 
zombou , como homem que eftava com o 
papo quente , pelo que com muita prefía 
avifou Martim AfFonfo ao Vifo-Rey de tu- 
do, que vendo que aquillo tocava a todos 
os moradores em fuás rendas , que eram 
groíTas , e a EIRey em feus foros , que eram 
muitos , o que tudo fe perdia por ficarem 
as Fortalezas defertas , e defpovoadas , além 
das mais culpas , que aquelle Rey tinha , 
de dar entrada por fuás terras aos Mogo- 
res , e de os acompanhar naquella jornada, 
ou foífe por vontade, ou por força, aíTen- 
tou que era neceílario caftigar-fe o Sarzeta , 
e ir-íe recolher a gente , e gado que em íi 
tinha , pelo que logo efcreveo a Martim 
Affonfo a réfolução que fe tomou , man- 
d.ando-lhe que com todo o poder foífe á~ 
quelle negocio , e repartiífe toda a gente 
em finco bandáiras , de que faria Gapitãa 

D. 



250 ÁSIA de Diogo de Couto 

D. Duarte de Sá, e D. Luiz de Menezes, 
Pedro da Silveira , e Fernão de Miranda , 
que havia de fer Capitão Mor de toda a 
íoldadeíca ; e que elle Martim Affoníb 
foíTe com toda a gente de cavallo > fican- 
do-lhe fempre íua jurifdicçao fobre todos. 
E com efta carta fe começou Martim Af- 
foníb a preparar pêra aquella jornada ; e 
ajuntando os Capitães a confelho, moftrou- 
Ihes a carta do Vifo-Rey ; e fem embargo 
demandar que fe repartilfe toda agente por 
íinco bandeiras 5 pareceo bem a todos que 
por não ficarem os Capitães dos navios 
foldados razos , que foílem todos com os 
de fua obrigação , porque aílim fe menea- 
ria melhor no gazalhado , defpeza , e co- 
zinha. AíTentado ifto , fez Martim AfFon- 
fo alardo de toda a gente , e achou perto 
de oitocentos foldados , e que entravam 
quatrocentos de efpingardas , e cento e trin- 
ta e oito moradores de cavallo , e toda efta 
gente repartio por Capitães , ficando Mar- 
tim Aífonfo com toda a gente de cavallo , 
€ com o guião de tudo. Preftes tudo , pu- 
zeram-fe a caminho , Fernão de Miranda 
na vanguarda , D. Luiz de Menezes na re- 
ta-guarda , e no meio de toda a bagagem , 
que era muita , a gente de cavallo repar- 
tida em duas partes pêra ir pelas ilhargas 
do exercito, pêra poderem- acudir aos que 

com 



Década X. Cap. XV. 25*1 

com o canfaco do Sol , e fede houveíTem 
no caminho mifter ajuda pêra lha darem 
nas ancas dos cavallos : hiam perto de mil 
peães da terra da obrigação das tranquei- 
ras com feus Capitães , que são foreiros 
aos Portuguezes , que também hiam repar- 
tidos pelas ilhargas do exercito , pêra nos 
matos , e partes eftreitas irem fazendo ca- 
minho. 

Nefta jornada fe acharam muitos Fidal- 
gos , e Cavalleiros ; e dos que pudemos 
faber os nomes são D. Duarte de Sá , D. 
Luiz de Menezes , Pedro da Silveira , to- 
dos três defpachados com a Capitania de 
Damão , Thomé de Soufa Coutinho , An- 
tónio de Azevedo, D.Rodrigo de Caftro, 
Diogo de Miranda de Azevedo o Velho T 
Francifco de Miranda Henriques, D. Fran- 
cifco da Gama , D. Manoel de Azevedo, 
c os Capitães dos navios , que muitas ve- 
zes nomeámos. Poílos os noííos a caminho, 
aquelle dia foram defordenados até á Al- 
deia da Mona , légua e meia de Damão, 
onde repousaram , e alli fe ordenaram no 
modo em que haviam de caminhar , como 
o foram fazendo. Martim Aífonfo , porque 
defejava de não romper com o Sarzeta , e 
mandar-lhe diante muitos recados , e pro- 
teftos , pêra que entregalTe as coufas que 
em íi tinha, primeiro que paflaíTe avante* 

fe- 



2p ÁSIA de Diogo de Couto 

fenao que foífe lua a culpa dos males que 
íuccedeflem , porque fe não havia de tornar 
fem tomar muito grande fatisfação da pou- 
ca fé que guardara , fendo amigo do Eíta- 
do. A eíles proteílos diiTimulou elle 5 e foi 
barlaventeando de tudo por lhe parecer 
<jue aquillo dos noíTos era fó commetti- 
mento , e que não paliariam adiante. Os 
noíTos foram caminhando todo aquelle dia 
até fe porem huma jornada da Cidade de 
Ramamagem , em que aquelle Rey refidia , 
que eítá finco léguas ao Norte de Damão. 
Vendo EIRey que todavia os noíTos fe 
hiam chegando ae tão perto , e que aquillo 
era já mais determinação que commetti- 
mento , defpedio com muita preíía hum 
Bragmane com recado ao Capitão , pedin- 
do-lhe que não paífaíTe dalli, que logo lhe 
mandaria tudo o que em íi tinha ; e que 
as perdas que naquella parte tinha dado , 
que elle fe obrigava a fatisfazellas pelo 
que fe julgalfe , ao que daria reféns baf- 
tantes. 

O Capitão poz aquillo em parecer , e 
elle com alguns de feu bando votaram 
que devia de ouvir-fe EIRey 5 e acceitar- 
lhe fuás fatisfações , pois o principal a que 
hiam era pêra trazer a gente , gado , e fa- 
zenda que em íi tinha , que offereçia íem 
golpe de efpada 5 como homem. que citava 

ar- 



Década X. Cap. XV. 2f$ 

arrependido do feito ; mas Fernão de Mi- 
randa com a mor parte dos Capitães fo- 
ram do parecer , que pois chegaram até 
alli , deviam paííar adiante , e caftigar 
aqueile defacato , porque entendiam que 
todos aquelles cumprimentos do Sarzeta 
eram manhas pêra os entreter , e por ter 
tempo de fe fortificar, e amparar ; e que 
fe elle tivera vontade de reftituir , Jogo 
primeiro que tudo houvera de mandar, o 
que em fi tinha ; e que fe diííimulaíTem 
aquella , cada dia faria huma traição pêra 
experimentar fe lha foffriam. Martim Af- 
fonfo vendo vencidos os votos pela outra 
parte , não pode ai fazer , poílo que defe- 
jou muito de não chegar a rotura pelo pro- 
veito que perdia naquelleRey, com o que 
os Capitães de Damão fe negoceão muito 
bem ; pelo que defpedíram o Bragmane, 
dizendo-lhe que elle hia caminhando , e 
que foílem elles diante ; e que fe antes de 
chegar lhe trouxeífem tudo o que EIRey 
tinha , lhe perdoaria , e fe tornaria pêra 
Damão. A levantado o campo , ao outro 
dia foram caminhando até ver viíla da Ci- 
dade de Romanagem , que eítá eítendida 
pelo pé de huma fermofa ferra , e a mor 
parte delia defce a hum campo muito gran- 
de^ e fermofo 5 e de longo delia vai atra- 
veílando huma ribeira de todo o anno , 

que 



254 ÁSIA de Diogo de Couto 

que fe vai metter no rio de Damão : fera 
a Cidade de meia légua em roda , e terá 
mil e quinhentos fogos , a mor parte de 
cafas de pedra , e telha com feus quin- 
taes, e hortas. 

Chegados os noííòs á vifta da Cidade 
ás oito horas de pela manha , puzeram-fe 
logo em ordem, de commetter , o que fez 
Fernão de Miranda, que levava a diantei- 
ra com a mor parte dos Fidalgos, e aven- 
tureiros pela fronteira; e Martim Aífonfo 
com toda a gente de cavallo fe foi eften- 
dendo de longo dçlla pêra lhe não pode- 
rem fugir os inimigos ; mas não foi nada 
neceífario, porque EIRey tanto que houve 
vifta dos noílos , logo fe poz em hum ele- 
fante , e fuás mulheres , e jóias em ou- 
tros , e foi-fe fahindo da Cidade pela par- 
te da ferra , e o mefmo fizeram todos os 
moradores , deixando-a fó deferta. Fernão 
de Miranda foi entrando pela Cidade , fem 
achar quem lho defendeífe ; e vendo os 
foldados que não havia com quem pelei- 
jar , começaram a faquear as cafas , em 
que ainda acharam algumas fazendas , ca- 
vallos , e gados , ainda que pouco de tu- 
do, porque não deixaram fenao o que não 
puderam levar. Vendo o Capitão a Cidade 
defpejada , mandou-lhe dar fogo por algu- 
mas partes, em que fe confumio toda com 

gran- 



Década X. Cap. XV. 257 

grande efpanto dos inimigos , que em íí- 
ma das ferras affaítadas o eftavam vendo. 
Feito iilo , recolhêram-fe os noífos pêra 
o longo da ribeira em lugares fombrios, 
e alli pafsáram todo aquelle dia com gran- 
des vigias , e inquietações , porque foram 
çommettidos por algumas partes dos ini- 
migos , que da outra banda do rio com 
fua arcabuzaria os varejavam rijamente, 
com que lhes feriram alguns - y e fendo fe- 
bre a tarde , alevantáram o campo pêra 
irem dormir ahuma Aldeã, que lhes fica- 
va atrás perto de meia légua , e foram ca- 
minhando , na vanguarda Fernão de Mi- 
randa 5 Martim Aífonfo no meio , e D. 
Luiz de Menezes na retaguarda , indo de 
caminho pondo o fogo a todas as Aldeãs 
que achavam ; e antes que anoiteceííe y 
chegaram aquelle Aldeia , onde haviam de 
paliar a noite , e alli affenráram o ar- 
raial na parte mais accommodada que 
acharam , e fe fortificaram o melhor que 
então pode fer. 

Efta noite tiveram grande rebate dos 
inimigos , a que todos acudiram em muito 
boa ordem ; mas não foi nada , porque 
fentindo elles que os fentiam , foram-fe re- 
colhendo ; oRamanada Rana (queaflim fe 
chamava o Rey de Sarzeta ) ficou muito 
alcançado do pouco que fizera na perten- 

ção 



i$6 A S IÀ de Diogo de Couto 

ção da defensão de fua Cidade ; e queren- 
do-fe fatisfazer defta quebra , ajuntou todo 
o feu poder, efoi efperar osnoflbs adian- 
te a hum paíTo . diffitultofo eftreito , onde 
lhe parecia que tinha muita avantagem 
pela ligeireza dos feus : ao outro dia che- 
gando os noflbs a efte paflb , o acharam oc- 
cupado dos inimigos 5 que eítavam lança- 
dos pelos matos , que hiam pela banda 
de fim a de huma, e outra parte; e aper- 
taram tanto com os noflbs , que lhes deram 
bem de trabalho , porque mal fe podiam 
manear naquellas eftreituras ; e afllm fica- 
ram muitos feridos de efpingardadas , e 
frechadas pelas muitas que de fima cahí- 
ram , e cahiam íbbre elles : durou efte a- 
perto hum grande efpaço ; e fahindo ao 
largo , appareceo o Sarzeta com todo o 
feu poder , e commetteo os noflbs com 
muito grande determinação pela reta-guar- 
da. D.Luiz de Menezes teve todo aquelle 
pezo acompanhado de foldados muito ef- 
forçados , que nefte tranfe íe aflinaláram 
bem, . 

E porque não fiquem fem galardão, 
nomearemos os que vieram á nofla noti- 
cia : António Godinho de Andrade, Gaf- 
par Fagundes , Fernão de Andrade, Gas- 
par de. Alvarenga , Franciíco de Azeve- 
do , Goníalo de Cáceres, Fernão Pacheco r 
ot> Bal-" ! 



Década X. Cap. XV. 25-7 

Balthazar de Siqueira, Manoel Pereira de 
Siqueira, João Leitão, Manoel de Almei- 
da da Silva , Pedro Louzado , Miguel Al- 
vares do Canto , Luiz Gonfalves Magro , 
filho de Ruy Gonfalves Magro , António 
Velíez , e outros muitos Fidalgos , e Ca- 
valleiros , que todos fe puzeram ao encon- 
tro dos inimigos, e peleijáram valerofamen- 
te ; mas elles aflím efpertáram com os nof- 
fos , que como brutos fe vinham metter 
nas arims ; e tanto , que hum delles , de- 
pois que difparou o arco , o lançou no pef- 
coço a Miguel iUvares ; e tomando-o en- 
tre a corda , e o arco , o teve alguma cou- 
fa fopeado ; mas elle com muito animo , e 
acordo fe arremeçou ao inimigo, e ás cu- 
tiladas o matou , como tinha feito a ou- 
tros : iíío mefmo fizeram todos eítes que* 
nomeamos , e outros que fizeram nos ini- 
migos grande eftrago ; e poíto que os nof- 
fos tiveram trabalho , foi caufa pêra que 
mais fe aííinalaíTem no esforço , e nos gol- 
pes que os inimigos receberam j e taes 
coufas fizeram , que houveram os inimigos 
por feu partido recolherem-fe , ficando os 
noífos defapreífados , mas muito feridos , 
em que entrou Miguel Alvares do Canto 
com huma efpingardada , e duas frecha- 
das , ou três. Sahidos os noífos daquelle 
perigo , dormiram aquella noite ao longo 
Couto. Tom. VL P. L R da 



15% ÁSIA de Diogo de Couto 

dâ ribeira , e ao outro dia entraram em 
Damão , deixando o Capitão as tranquei- 
ras das fronteiras do inimigo providas de 
guarnições baftantes pêra a defensão das 
Aldeãs. 

Poucos dias depois difto chegaram Em- 
baixadores do Rey de Sarzeta , e pediram 
ao Capitão perdão , e pazes , offerecendo- 
fe entregar logo tudo o que em íi tinha; 
e porque todos os Gentios da índia por 
ília natureza nada fazem por bem , e ain- 
da aquillo que deíejam , efperam que lho 
façam fazer por força , e principalmente 
eftes da terra de Damão, que deve de eílar 
debaixo dehuma conftellaçao , ou influencia 
de eftrella tão ruim, que fenão queimarem 
as mefmas terras , não dam fruto ; e aílim 
os naturaes delias fe os não oífendem , e 
tratam com rigor > não fazem coufa boa, 
como aconteceo a efte Rey , que até fenão 
ver queimado , e abrazado , não quiz en- 
tregar o que em íi tinha , o que depois fez 
por mal , porque lhe concedeo o Capitão 
pazes , com condição que entregaííe tudo ; 
o que elle cumprio de feição , que fe não 
ficou queixando nenhum Curbim. Depois 
difto chegaram cartas do Vifo-Rey pêra j 
Martim AfFonfo , e Fernão de Miranda, 
em que lhe mandava que fe ordenaífe no 
inverno huma Armada de vinte navios , e 

que j 



Década X. Ca?. XV. 259 

que. na entrada de Agoíto fofle nelles Fer- 
não de Miranda efperar as náos , que ha- 
viam de vir de Meca > e que tomafíe to- 
das , quer trouxeíTem cartas , quer não, 
Sois a culpa de quebrar as pazes fora dos 
íogores , porque com iflb poderiam fatif- 
fazer-fe das perdas que deram as terras de 
Damão; e o mefmo eícreveo ao Licencia- 
do Francifco de Frias , Vedor da Fazen- 
da , que eítava em Baçaim , mandando-lhe 
que déíTe pêra a Armada todas as coufas 
neceflarías. 




R ii DE- 



2ÔO 

DÉCADA DECIMA 

Da Hiftoria da índia. 

LIVRO III. 

^QBMMHBMMBMM^MWMflHBaiIlMBWaflWIWmWI W ill l , 11 IIIIIII IH illl WI l" H i III HI II I Mi I— — I — I —P 

CAPITULO I. 

De como o Turco mandou prover a Forta- 
leza que tinha nos Eftados da Perfia : 
e de como Oxd fe confederou com Seme- 
chombel Gorgiano contra os Turcos : e da 
batalha que com elles teve , em que os 
desbaratou. 

NA Década IX. damos conta das gran- 
des guerras que fe alevantáram en- 
tre o Turco Amurates , e Codabanda 
Rey da Perfia , e dos Fortes que o Turco 
mandou fazer em feus Eítados , coufa em 
que toda a índia (principalmente a Forta- 
leza de Ormuz) ficou aflbmbrada ; e por- 
que defde o anno de 78. em que os dei- 
xámos 5 até eíle , em que andamos , não 
houve mais que mandar o Turco prover 
os Fortes que tinha naquelleEftado , e dei- 
xámos de continuar com elles , porque não 
houve coufas notáveis , fomente deixar Xá 
de acudir áquellas coufas por muitas al- 
ie- 






Década X. Cai>. L 261 

terações que fe moveram na Perfia , aílím 
entre Turquimaes > como em outras partes , 
que o puzeram em eftado de mandar Em- 
baixadores ao Turco a tratar de alguns 
honeílos modos de pazes 5 fobre o que não 
foram bem refpondidos ; porque entre os 
apontamentos > e partidos pedio Oxá que 
lhe largaíTe os Fortes que tinha em Xe- 
ruão , e ficaram lá os Embaixadores mal- 
tratados , e avexados fem fe poderem vir : 
agora nefte anno em que andamos tratou 
o Turco de mandar reforçar aquelles pre- 
fidios pêra ver fe podia paífar adiante com 
outros ; e pêra eíta jornada elegeo Maha- 
mede Baxá , filho de Muftafá Baxá , o que 
ganhou aquelles Fortes , que formando hum 
muito poderofo exercito de mais de cento 
c vinte mil cavallos , muita artilheria , mu- 
nições , e hum grande numero de Roçado- 
res , e vitualhas , e com eíla potencia fa- 
hio da Cidade de Erzens, que fe tem pela 
antiga Cappadocia , a que os Gregos chama- 
ram Siros , e depois em tempo de Romaos 
Lecaria. Os Baxás que neíta jornada mais 
foram com eile eram Asao Gumilo , Baxá 
de Caeremete, (que, fegundo Rufili , he 
Aloriga de Ptolemeu , que elle na fua 
Taboa III. da Afia mette na Arménia 
maior) e o Baxá de Alepo , e Muras , Ci- 
dade principal na Meíopotamia , chamada 

(fe- 



afo ÁSIA ©fc Diogo de Couto 

(fegundo alguns) de hum frefco rio que 
por elle paíla , que cahe daquelle famofo 
monte chamado affim do Poeta Marcial, 
que , fegundo fingem os Poetas , foi alli 
afFogado por querer contender com Apolío. 
Nelta jornada levou o Baxá por guia Mof- 
tafá Manxeliar Georgiano hum dos filhos 
da viuva , de que na Década IX. falíamos 
na defcripçao da Geórgia , que nos annos 
atrás paílados fe tinha mudado da Lei de 
Chriíto á de Mafamede > e chamou-fe como 
elle 5 que fe oíFereceo ao Baxá pêra o levar 
por caminhos efcufos , e mais apreíTados ; e 
affim o foi levando por fuás próprias ter-n 
ras , paíTando por Altuncala , e Caracala, 
lugares que foram da viuva fua mãi , e 
dalli o foi paíTando por Ogri Caítello de 
Guifut Georgiano , que também fe tinha 
paífado ao ferviço do Turco : nefte cami- 
nho gaitaram muito tempo ? por fer todo 
afperiílimo por caufa dos muitos rodeios , e 
ferras. De todas eílas coufas foi logo avifa- 
do EIRey Codabanda , que lhe deram bem 
em que cuidar; porque por huma parte as 
coufas da Perfia eílavam em eftado que fe 
jiao podiam largar poraquellas; e por outra 
tinha ainda feus Embaixadores em Conf- 
tantinopla tratando de pazes : c havia 
quç fe mandava impedir aquelles foccor? 
vos , lhos poderia tratar mal , e indigna» 

mo 



Década X. Cap. I, 263 

rião o Turco com quem elle defejava dif- 
íímular, por ter tempo de acudir áscoufas, 
que em feus Eítados andavam alteradas , 
porque lhe era mais necetlario apagar as 
lavaredas que fe lhe accendiam dentro em 
cafa que as de fora ; e também lhe pare- 
cia ir contra fua obrigação , pois nos par- 
tidos que por feus Embaixadores commct- 
tia, era ficar-fe com aquelles Fortes, e os 
pudeíTe prover fem lho elle impedir. 

Coníideradas eílas coufas todas , offere- 
ceo-fe-lhe hum muito bom meio, e foi ef- 
te. Defpedio com muita preíTa Embaixa- 
dores a Semachumbel em fegredo , que era 
inimigo do Turco , e lhe mandou pedir 
que ajuntaíTe toda a gente que pudeíTe, 
affim fua , como dos vizinhos , e que elle 
lhe mandaria outra em trages de Georgia- 
nos , por não ferem conhecidos por Perlas, 
e que defendeíTe os paíTos ao Baxá > pêra 
que não foífe foccorrer os Fortes da Geór- 
gia , e Xervão ; ifto foi alvitre pêra elle , 
e logo foi com muita preíía ajuntar toda 
a gente que pode , e o Oxá lhe mandou 
dez mil homens de cavallo muito efcolhi- 
dos , e com todos foi efperar o Baxá ao 
caminho de Ogni , que he de feu próprio 
Etlado , por onde elle forçado havia de 
pairar. Chegados os Turcos á fua vifta , 
aprefentou-fe-lhe em campo o Efmahombel ; 

e 



264 ÁSIA de Diogo de Couto 

c èomo era muito valerofo, mandou defa- 
fiar o Baxá pêra batalha campal , que elle 
trabalhou por efcufar , por fe não embara- 
çar nada até foccorrer os Fortes a que hia. 
È porque chovia aquelle dia, deixou oEf- 
mahombel de commetter ; mas ao outro foi 
efperallo ao palio de hum rio pêra o tomar 
defordenado ao palíar, e alli o commetteo 
com grande determinação, e travaram am- 
bos huma mui afpera batalha , em que foi 
a dçítruiçao , e matança nos Turcos tama- 
nha , quç todo o campo eítava cuberto 
delles , e corriam arroios de negro fangue 
por muitas partes. Os Georgianos , e Per- 
las , que todos andavam de hum trage, 
peleijáram tão valercfamente , que puze- 
ram os Turcos em desbarato , e em tanta 
neceílidade, que tornaram a voltar o rio, 
porque fe mettêram com tanta prefla , e 
defordem , que fe aífogáram quarenta mil 
gaítadores que levavam pêra romperem os 
caminhos , e todo o dinheiro , que era mui- 
to , artílheria, e vitualhas, e provimentos 
ficaram em poder dos Georgianos , e Per- 
fas, no que fe cevaram bem áfua vontade; 
o Baxá da outra parte do rio ajuntou os 
fcus , e foi caminhando pêra Teflis , dizen- 
do todos por aquelle caminho mal á fua 
ventura , e blasfemando contra Mahame- 
de , tçndo pêra íi que todas as culpas da* 

quel* 



Década X. Cap. I. 265* 

quella desventura era do Manuchiar arre- 
negado , e ficaram fufpeitando que de pro- 
polito os guiara por alli , porque fabia o 
damno que lhes eílava ordenado. ÁíTim 
rotos, e perdidos chegaram a Teflis , onde 
acharam os Turcos , que alli eílavam de 
guarnição , muitos delles mortos , e os 
mais muito fracos, e debilitados, que não 
tinham figura de homens, por haver muito 
que íe lhes tinham acabado os provimen- 
tos , e já fe fuítentavam dos cavallos , e de 
hervas , e raizes que os corrompeo. 

Vendo elles o Baxá desbaratado, efem 
com que os prover , ficaram de todo trif- 
tes , e deíconfíados ; e o Baxá Cufo arre- 
negado , que alli eílava por Capitão , lhe 
encampou a Fortaleza , e os Toldados fe 
começaram a amotinar , e a requerer-lhe 
que já não eltavam pêra defender a For- 
taleza ; e a voltas diílo fe alteraram os 
mefmos que vinham com o Baxá, por ve- 
rem que os deixaria alli : mas elle a tudo 
fupprio com muita prudência, e brandura, 
temperando a todos com muitos , e largos 
promettimentos , e depois que os teve quie- 
tos , e moderados , lhes fez huma muito 
prudente falia, em que perfuadio a todos 
a empreftarem do que falváram nas bolfas 
o que pudeííem pêra foccorrer aquella 
Fortaleza do Grão Senhor ; e do pouco 

que 



i66 ÁSIA de Diogo de Couto 

que elle falvára daria quatro mil cruzados, 
e que fe obrigaria a lhes pagarem em do- 
bro tudo o que cada hum empreílaííe , e 
que com o desbarato paliado fe não ha- 
viam de acanhar , nem efcandalizar , por- 
que os caíbs da guerra não eílavam nas 
mãos dos homens \ e que não era novo 
nos que militavam acharem hum dia a for- 
tuna advería, e o outro profpera ; e que 
fe elles por vaflallos do Grão Senhor , e 
tão acoítumados a alcançar tão grandes 
vitorias , que por ellas o tinham feito tão 
grande Monarca , o fentiam muito , que 
não devia de fer aífim , porque quando a 
fortuna fe lhe tinha moftrado havia tantos 
annos tão mimofa em hum tão pequeno 
toque , não havia pêra que defconfiar : que 
tornaíTem todos fobre íi, que ella tornaria 
a voltar , e elles fe fatisfariam daquelle 
damno. Com iíto , e outras coufas que lhes 
diííe ficaram elles animados , e quietos ; e 
logo do que cada hum tinha empreitou 
hum pouco , e não tão pouco , que com os 
quatro mil cruzados que o Baxá deo , não 
fe ajuntaíTem trinta mil cruzados , que o 
Baxá logo mandou ao Georgiano Alexan- 
dre (a que os Turcos chamam Leusbeli) 
que era grande feu amigo , pêra que lhe 
mandafle todos os provimentos que pudef- 
fe , o que elle fez com muita preífa , man- 

dan- 



Década X. Cap. I. 167 

dando á Cidade de Trecergu (que em lín- 
gua Turca quer dizer ortigas , por haver 
alli muitas) a comprar todos os provimen- 
tos que houvefle, e delia lhe foi muito tri- 
go , muitos carneiros , e outras carnes, e 
legumes , com o que proveo o Baxá muito 
bem aqueíla Fortaleza : em Jugar do Baxá 
feu filho deixou Thomaz Baxú com outros 
foldados de refrefco , porque os que alli 
achou por fracos não eílavam pêra nada. 
Niílo gaitou o Baxá três dias , no caba 
delles fe partio com tenção de fazer volta 
por Temanis , por fe defviar do caminha 
que trouxera ; e paífando o rio á outra 
banda > tomou outro acordo ; e eftando já 
quaíi alojados , tornou a abater as tendas 
pêra correr pelo caminho de Altucaía , e 
Caracala , o que os Turcos tomaram tão 
mal pelo muito trabalho que tinham palia- 
do , que lhe difíeram, que na guerra não 
eílavam obrigados 3 refoluçóes de Capitães 
mancebos, porque aquellas mudanças mais 
pareciam de meninos que de homens , que 
Fe elle quizeíTe fazer outro caminho , elles 
não haviam deixar o que levavam ; e aííím 
com muita determinação fe defviáram a 
mor parte delles , e foram ter a Chars , e 
o Baxá a Altucalá com os que o quizeram 
feguir. Chegado aqui o Baxá acompanhada 
fempre do arrenegado Manuchiar, e como 



a68 ÁSIA de Diogo de Coirro 

já defconfiado do fucceflb paliado, temen- 
do-íe que ficaífe de todo perdido diante 
do Turco , determinou de deitar as culpas 
todas fobre o Manuchiar , e cortar-lhe a 
cabeça. Pêra iíto formou proceíTos contra 
elle em fegredo , que em todas as nações 
do Mundo tem o demónio iemeado elta 
malícia , e tirou teftemunhas falfas , que 
affirmáram que elle fe carteava com o Se- 
metrombel , e que por fua ordem o leva- 
ra por aquella parte , porque fabia muito 
bem que nella o efperavam. Com iílo de- 
terminou de matar o Manuchiar dentro 
na fua tenda , e o mandou chamar pêra 
iíTo : e ou elle parece que foi avifado , ou 
que fufpeitaíTe , e fe receaífe de alguma 
coufa , levou comfigo trinta, ou quarenta 
dos feus mais determinados , e os avifou 
que ficaífem de fora da tenda , e que kn- 
tindo dentro reboliço , cortaflem as cor- 
das, e a deixaifem cahir, e a outros pou- 
cos, que deviam entrar com elle, lhes man- 
dou que tanto que ouviílem remetter com 
o Baxá , deífem elles em todos os que 
com elle eítavam na tenda. Entrando elle 
na tenda , como o Baxá tinha avifado os 
feus, lançaram logo mão delle; mas elle, 
que era lium homem mui grande , e for- 
çofo , lançou mão da efpada , e defearre- 
gou fobre hum Sangiaço , que lhe poz a 

mão, 



Década X. Cap. I. 269 

mão 5 tamanho golpe pela cabeça que lhe 
cortou o turbante , e foi deícendo com o 
golpe , levando-lhe huma orelha com hu- 
ma pequena de queixada , e com aquella 
fúria foi endireitando com o Baxá , e gri- 
tando pêra os feus o ouvirem , e lhe deo 
algumas cutiladas > e matou hum Camarei- 
ro feu , que eílava junto delle , o que tudo 
fez em hum meimo tempo com tanta pref- 
teza , que quando os feus , que eftavam 
dentro , remettêram pêra dar nos Turcos , 
já elle tinha feito tudo. Os de fora tanto 
que fentíram o reboliço , cortaram as cor- 
das da tenda , que veio toda de romaria 
íbbre elles ao tempo que o Almuchiar tor- 
nava a endireitar com o Baxá Mahame- 
de , que ficou tão embaraçado com a- 
quella preíteza , que não pode tomar ne- 
nhuma determinação ; e o Manuchiar tan- 
to que vio atenda cahida fobre todos, foi- 
fe recolhendo pêra a fua eílancia, e poz-fe 
com os feus armados a huma parte. O Ba- 
xá arreceando-fe que o Manuchiar eítivef- 
fe conjurado contra elle com os Turcos y 
porque todos hiam efcandalizados delle y 
mandou abater as tendas , e alevantou o 
campo y fem querer entender com o Ma- 
nuchiar , e foi caminhando pêra a Cidade 
de Erzeni ; e o Manuchiar defviou-fe pêra 
outra parte > e defpedio logo correios ao 

Grão 



ijq ÁSIA de Diogo de Couto 

Grão Turco , a quem efcreveo todas as 
coufas pagadas , e as defordens do Baxá 
Mahamede ; e com iílb mandou muitas pe- 
ças ricas , eprefentes groílbs aosBaxás pri- 
vados , porque entendeo que niíTo eílava to- 
da a íua juftiça , e que aquelle era o bom 
negociar ; e affim o foi ,, porque o Turco 
o mandou chamar por cartas mimofas , e 
com promeíTas de honras que lhe fez , in- 
do-fe logo ver com elle , e lhe deo licen- 
ça pêra ir invernar á fua terra , e o Baxá 
ficou defacreditado , e mal recebido. Os 
Perfas , e Georgianos , depois que alcan- 
çaram aquella grande vitoria , foram-fe 
recolhendo carregados de ouro , e de def- 
pojos 5 que o Oxá feílejou muito , e ainda 
muito mais as defavenças que o Manu- 
chiar teve com o Baxá > porque do que 
paflbu com o Turco não tinha ainda reca- 
do , e entendeo que já o Manuchiar fica- 
va em defgraça do Turco, que era o com 
que as coufas da Períia podiam ir a me- 
lhor eílado. 



CA- 



Década X. Cat. II. 271 

CAPITULO II. 

De como Roque de Mello chegou a Mala- 
ca : e de como huma grande Armada do 
Achem foi fobre aquella Fortaleza : e da 
bateria que deo ás nãos que ejlavam no 
Fort o. 

PArtido Roque de Mello de Goa , co- 
mo atrás diíTemos.no Cap. IX. do Li- 
vro II. foi ter a Malaca a 20 de Junho ; e 
moftrando fuás Patentes a D. João da Ga- 
ma , diífe que fe cumpriíle o que o Vifo- 
Rey mandava , e fobre ellas fez feus pro- 
teftos , e reclamações pêra requerer as per- 
das , e damnos por quem bem lhe vieíTem. 
Roque de Mello tomou polTe da fazenda 
de EIRey com que começou a correr , fi- 
cando D.João na Fortaleza até fe cumpri- 
rem os dous mezes que oVifo-Rey conce- 
deo a D. Miguel da Gama feu irmão pêra 
elle poder arrecadar a fua fazenda. Eítan- 
do aílim as coufas , aos 22 dias de Agof- 
to appareceo fobre aquella Fortaleza huma 
Armada do Achem de cento elincoenta ve- 
tas , em que entravam fete náos de alto 
bordo , e onze Galés baftardas , tudo o 
mais lancharas , bantis , e outras embarca- 
ções \ e primeiro que tratemos do que fez, 
daremos razão que Armada era efta , e a 

que 



272 À S I A de Diogo de Couto 

que hia. Na Década IX. fe diíTe como fa~ 
leceo Sokão Malafaxa Rcy da Viantavia , 
que era caíado com huma filha do Achem, 
e não fem fufpeita de peçonha , que dizem 
mand^r-lha dar Enchifadel , a que com- 
mummente chamamos Rafale , que era ir- 
mão de lua mai , pêra lhe tomar o Reyno y 
como logo fez , porque não havia outro 
herdeiro ; e tanto que foi obedecido de to- 
dos , fe cafou logo com a mulher do fobri- 
nho filha do Achem , de que elle fe tomou 
tanto , que determinou de fatisfazer-fe da- 
quela affronta. Succedeo logo poucos dias 
depois fugir-lhe hum Capitão , chamado Sin- 
garax, em huma Galé carregada de ouro, 
e fazendas , e elle mefmo Rey agazalhallo , 
e recolhello, fem o querer entregar, man- 
dando-lhe o Achem pedir logo. E ajuntan- 
do affronta a affronta , mandou preparar 
huma fermofa Armada pêra mandar fobre 
elle , que era efla , que appareceo fobre 
Malaca, que hia mui bem provida de mui- 
ta artilheria, munições, e gente, e por Ca- 
pitão Mor vinha Amaraxa , ou Araxa, ho- 
mem prudente havido por Cavalleiro , e 
com elle outros três Capitães principaes, 
Raxa Macote por Capitão das Galés , Ma- 
raxalbela por Meftre da artilheria , e Se- 
ringa Malagorim por Meftre de Campo; 
eíles levavam por regimento que foífem fo- 
bre 



Década X- Ca?. II. 273 

bre a Cidade de Lor, e não fe IevantaíTem 
de fobre ella fem a tomar , e arrafar , não 
lhe entregando Singa Rajá , que lá efta- 
va fugido , e que de paíTagem déíTe viíla a 
Malaca , e viíTem fe lhe podiam fazer al- 
guma coufa. Eíla Armada appareceo á vif- 
ta daquella Fortaleza a dezenove de Agof- 
to ; e tanto que viram tamanha Armada , 
acudio D. João , e com elle Roque de 
Mello pêra prover nas coufas neceífarias > 
ajuntando-fe pêra iíTo em cafa do Bifpo 
com os mais Fidalgos y e Officiaes que alli 
havia ; e a primeira coufa que fizeram foi 
mandar prover de gente , e munições duas 
náos , que eítavam no porto , huma Santo 
António , Capitão Fernão Ortiz de Távora y 
que tinha vindo de Maluco , que fe foi 
metter nella com alguns foldados , que o 
quizeram acompanhar ; a outra de D. Jor- 
ge Baroche , Capitão de Cochim , de que 
era Capitão Eftevão de Valladares , e man- 
daram que D. Henrique Bandarra com to- 
dos os Malayos , e alguns Portuguezes fe 
foífem pêra a Tranqueira do Ilher, porque 
os inimigos não fe metteílem naquella po- 
voação ; e porque o Baluarte Sant-Iago , 
que o mefmo D. João tinha levantado de 
novo , eftava ainda imperfeito , todos jun- 
tos, fem fe efcufar nenhum eftado de pef- 
foa, começaram a cavallo a correr com o, 
Couto. Tom. VL P.I. S que 



274 ÁSIA de DroGO de Couto 

que lhe faltava ; os inimigos chegaram já 
perto de noite , e íurgíram hum pouco af- 
faftados da terra pêra a banda do Ilher ; e 
D. Henrique Bandarra, tanto que fe cerrou 
a noite , lançou fora das Tranqueiras a 
hum João Rebello , cafado , e morador em 
Malaca com alguns companheiros pêra vi- 
giarem a praia , porque os inimigos não vief- 
fem defembarcarnella fem ferem ientidos, 
e aílim fe foi pôr a huma parte com gran- 
de vigia na Armada. Os Achens , paliado 
o quarto da modorra , determinaram lançar 
alguma gente em terra pêra verem o efta- 
do em que a Tranqueira eítava , e pêra if- 
fo defpedio o Capitão Mor alguns bantis 
ligeiros , que foram pôr as proas na praia , 
em que os noífos eílavam , e com muito íi- 
lencio foram demandar as Tranqueiras pê- 
ra darem nellas ; e paííando por onde eíla- 
va João Rodrigues , que os não vio , fenao 
quando fentio o ferro, porque o tomaram 
defobrefalto , com tudo fentindo-fe cortar 5 
e vendo que eram inimigos , puzeram todos 
as mãos ás armas , e começaram huma mui- 
to arrazoada briga , indo-fe todavia reco- 
lhendo pêra a Tranqueira até onde elles o 
feguíram. D.João Bandarra vendo a revol- 
ta , fahio fora a favorecer os noífos : fendo 
fentido dos inimigos 5 foram-fe recolhendo 
pêra as fuás embarcações , fem os noífos os 

fe- 



Década X. Cap. TL 27? 

feguirem , aílim por fer de noite , como 
por não faberem o numero da gente que 
era : ao outro dia levou-fe toda a Armada 
de remo , e foi dando huma viíla á Cida- 
de , e foi furgir na banda de fora na Ilha 
das náos o mais perto que pode fer , e lo- 
go os Capitães deitaram gente nella , a que 
começou a fazer Tranqueiras , porque deter- 
minaram de bater alli as náos pêra fazerem 
alguma coufa, antes que fe recolheílem , e 
ver fe as podiam metter no fundo, eaííim 
as mandaram bater com grande importuna- 
ção, fazendo mor damno na náo Santo An- 
tónio , que ficava mais em barreira , em 
que mettêram muitos pelouros de fetenta , 
e oitenta arráteis de ferro coado , e lhe fe- 
riram alguns foldados. Aquelle dia , que 
começaram a bater as náos ( que foi o fe- 
gundo da chegada da Armada) tomou Ro- 
que de Mello poíTe da Fortaleza por nel- 
le fe acabarem os dous mezes de tempo 
que o Conde tinha limitado a D. João da 
Gama, que com agente da fua obrigação, 
depois de entregar a Fortaleza, fe aprefen- 
tou no Baluarte Sant-Iago , donde acudia 
a tudo o que era neceííario , correndo com a 
fortificação daquelle Baluarte até o acabar, 
o que tudo fez com muito trabalho feu , e 
de todos. Os inimigos hiam continuando 
com a bateria das náos , e hum dia foram 
S ii ai- 



^6 AS IA de Diogo de Couto 

alguns batéis feus a fazer alguma remetti- 
da a modo de quererem deiembarcar , a 
que acudio D.João da Gama , e mandou 
embarcar alguns foldados em outros Ban- 
tins ligeiros , o que elles fizeram com mui- 
ta prefira ; e commettendo com os inimi- 
gos , os foram correndo ; e António de An- 
dradre, que hia em humBantim , chegou a 
hum .Caleluxe muito fermofo , e o abal- 
roou , e axorou das primeiras pancadas ; 
e Nuno Vieira Velho , e outros Bantins 
foram feguindo os mais , que a poder de 
remo lhes efeapáram , e fe foram recolhen- 
do pêra a Armada com alguns homens 
menos , e muitos feridos. Fernão Ortiz de 
Távora , que eftava na náo, padeceo infi- 
nito trabalho ; porque quinze dias conti- 
nuos , que a bateram , vararam a náo por 
muitas partes , o que logo era reparado 
com muito trabalho feu , e dos companhei- 
ros que comíigo tinha ; e entre elles fe 
aíTmalou hum Gafpar Dias de Reboredo 
mais , Cidadão de Goa , que foi dos pri- 
meiros que fe oífereceo a entrar naquella 
náo , por ver que ninguém fe queria ir pê- 
ra ella pelo rifeo que corria , e muitos 
fez o Capitão embarcar por força , mas 
todos trabalharam , e pelejaram com mui- 
to valor, e esforço. 

CA- 



Década X. Cap. III. 277 

CAPITULO III. 

De como os Turcos , que hiam na Armada 
do Achem , ordenaram humas balfas de 
fogo pêra queimarem as nãos : e de como 
Nuno Monteiro , que andava no ejireito 
em huma Gale aça , foi foc correr a Ma- 
laca : e da afpera batalha que teve com 
a Armada do Achem : e de como por 
defajlre tomou fogo y e fe abrazou , e 
queimou. 

MUito enfadados ficaram os Capitães 
do Achem de em quinze dias não 
terem feito nada , tendo gaftado muita 
parte das munições naquelia bateria das 
náos : pelo que alguns Turcos , que na 
Armada vinham , fe lhe oíferecèram a fa- 
zer humas balfas de fogo com que quei- 
malfem as náos , que fabricaram íòbreduas 
jangadas cheias de barris de alcatrão , pól- 
vora , e outros materiaes ; e tendo-fe aca- 
badas na enchente da maré , as tomaram 
as Galés á toa , e as levaram ate ao canal 
pêra a corrente as ir deitando fobre as 
náos, e alli lhes deram fogo ] e as larga- 
ram ; e ellas começaram a correr com tan- 
ta braveza , que metteo nos noííos muito 
grande efpanto. Fernão Ortiz y Capitão da 
náo Santo António , que eftava diante, or- 

de- 



nyZ AS IA de Diogo de Couto 

denou algumas defensões pêra defviar a- 
quellas balfas \ fobre o que elles, e todos 
os feus foldados trabalharam tudo quanto 
foi poílivel. O Meílre da náo , que era 
hum mulato muito valente homem , chama- 
do Bartholomeu Fernandes , vendo o rifco 
que as náos corriam , fé as jangadas cahif- 
fem fobre ellas 9 fe embarcou com muita 
preífa em huma manchua pequena , e com 
elíe dous foldados valentes homens , hum 
chamado Gonfalo de Soufa , e do outro 
não íòubemos o nome; e tomando o remo 
em punho , com muita força chegaram a 
tempo que as Galés ainda traziam as jan- 
gadas á toa , mas já vinham ardendo ; e 
fem recearem nenhum perigo , mettêram-fe 
entre ellas , e as jangadas, e deram pique 
aos cabos , com que as jangadas fe foram 
atraveíTando , e defviando do canal , e com 
muita ligeireza fe tornaram a recolher pê- 
ra as náos , indo apôs elles muitas nuvens 
de pelouros , e alguns batéis muito ligei- 
ros ; mas de tudo os livrou Deos , pêra li- 
vrarem as náos daquelle foberbo fogo. 
Chegados á náo , metteo-fe o Meílre no 
Batel , que com os companheiros , e mari- 
nheiros, que com grandes efpequçs , e ef- 
torpalhos molhados foi defviar as balfas 
de fogo, que fe foram desfazendo por eíle 
mar y ç fenao fpra a induítria do Meílre > 

km 



Década X. Cap. III. 279 

fem dúvida que os Galeões foram abraza- 
dos. Fernão Ortiz de Távora > eEftevão de 
Valadares não fe defcnidáram ; mas tam- 
bém varejaram as Galés íbberbiilimamente , 
com o que fe foram recolhendo pêra a 
mais Armada com bem de damno , e de 
defgoíto de não vir a eífeito aquelle nego- 
cio , que elles tinham por averiguado ; e 
affim foram continuando fua bateria com 
tenção de fe não alevantarem dalli fem 
metterem aquelles Galeões no fundo, 

Vendo os noíTos o vagar com que os 
inimigos moítravam eítar , ficaram muito 
enfadados , e ficou havendo defconfianças 
de poderem as náos fuítentar-fe a tão ef- 
pantofas baterias , como cada dia lhe da- 
vam : pelo que D.João da Gama defejofo 
de provar a mão com os inimigos nas ef- 
tancias , e fazer hum feito muito honrado , 
fe oífereceo ao Capitão , e Bifpo , e lhe 
deo taes razões , e efperanças de lhe tomar 
a artilheria , que lhe concederam a jorna- 
da j e ajuntando os Fidalgos , e foldados 
amigos de fua obrigação , fez hum corpo 
de perto de duzentos homens , e pareceo 
bem aos Capitães mandarem avifar aos das 
náos , pêra que com toda a gente eftivef- 
fem preftes em feus batéis pêra fe acha- 
rem naqueile negocio ; e porque a ida dos 
Galeões era muito arrifcada, a engei taram 

mui- 



2<?o ÁSIA de Diogo de Couto 

muitos ; mas Nicoláo Pinto da obrigação 
do mefmo D. João fe offereceo pêra iflb ; 
e embarcando-le em huma embarcação pe- 
quena muito ligeira com outro companhei- 
ro f chegou ao Galeão de Fernão Ortiz , e 
lhe deo o recado , e a ordem de como ha- 
via de defembarcar, e em que horas , e o 
mefmo ao Capitão da outra náo , com o 
que fe prepararam ) e negociaram os batéis 
pêra aquella hora limitada ; mas como a 
fortuna fempre anda defviando as occafiões 
de honra a quem a bufca , o fez a efta em 
hum cafo muito laítimofo , e muito pcra 
fentir, que foi eíle. Ao tempo que os ini- 
migos apparecêram , andava Luiz Montei- 
ro por Capitão de humaGaleaça no eítrei- 
to de Sincapura, e trazia perto de feífenta 
foldados, os mais deli es filhos de Malaca, 
a quem D. João da Gama logo mandou 
aviíar da Armada do Achem , mandando- 
lhe que fe paífaífe ao eftreito de Sabão 
por ficar mais defviado do inimigo, e que 
delle fe não apartaífe , porque elle o avifa- 
ria de tudo o que fuccedeííe ; e que não 
deixaffe paííar nenhuns Turcos , e Juncos 
de mantimentos 3 e os detiveffe comíigo , 
porque não foflem cahir nas mãos dos ini- 
migos , e fe proveífem nelles : e não fe 
fegurando fo, em eíte recado , mandou-lhe 
fegundo^e terceiro 7 e o meírno fez Roque 

de 



Década X. Cap. III. 281 

de Mello , depois que tomou poífe da For- 
taleza , com penas de cafo maior fe fizeífe 
o contrario ; mas elle como era muito ef- 
forçado , e trazia comíígo tantos filhos de 
Malaca , pareceo-lhe a todos que não fa- 
riam o que deviam 3 fenão foílem loccorrer 
aquella Fortaleza; e porque entendiam que 
a Galeaça fó podia peleijar com toda a- 
quella Armada , concertados todos nefta 
opinião , não dando pelos mandados , e 
proteftos do Capitão , fizeram-fe á vela pê- 
ra Malaca , e apparecêram ao mar. Tanto 
que da Fortaleza foram viílos , defpeclio 
logo o Capitão hum Bantim muito ligeiro, 
em que mandou embarcar hum Nuno Viei- 
ra , por quem mandou dizer a Luiz Mon- 
teiro que logo fe tornaífe pêra o eílreito , 
fobpena de cafo maior 5 do que lhe a elle 
deo pouco 5 porque recolheo dentro a Nu^ 
no Vieira , e deixou-fe ir feu caminho com 
a Galeaça poíta em armas , e a artilheria 
leites y e carregada com determinação de 
paliar por toda a Armada inimiga , e ir 
íurgir na Poça. Os inimigos tanto que vi- 
ram a Galeaça , embarcaram com muita 
preíTa toda a artilheria que tinham nas ef- 
tancias 5 e ! com toda a Armada repartida 
cm duas partes foram commetter a Galea- 
ça ; e cercando-a á roda 5 a começaram a 
bater muito furiofamente. Luiz Monteiro, 

que 



282 A S I A de Diogo de Couto 

que vinha leites 5 e a ponto , recebeo os 
inimigos com muito animo , e começou a 
defcarregar nella toda a fua artilheria, que 
lhes fez mui grande damno ; porque como 
o mar eítava coalhado de embarcações , 
todos os tiros fe empregavam mui bem , 
matando , e deftroçando tudo o que acha- 
vam ; e tal deítruicão fizeram em todos os 
navios , que depois de haver muito que 
durava a batalha , fe affaftou a Armada pê- 
ra fora quaíi deítroçada ; e tomando entre 
íi confelho , afTen taram de abordarem a 
Galeaça com os Galeões , que eram mais 
alteroíòs que cila , e os guarneceram mui- 
to bem , e encheram da melhor gente da 
Armada , e foram commetter a Galeaça, 
difparando nella aquella tempeílada de tro- 
vões, ecorifcos, que parecia que tremia o 
mar , e a terra , e depois inveítíram a Ga- 
leaça por ambos os bordos, Luiz Monteiro , 
e os companheiros puzeram-fe em fua de- 
fensão com tamanho animo , e valor , que 
não arreceavam em nada aos inimigos , e 
fizeram tão altas coufas , e tão grandes f 
que não ouft a penna a efcrevellas , nem 
as palavras bailam pêra as efpecificar ; que 
foi tamanho o damno , e eílrago que fize- 
ram em os Galeões , que lhe foi forçado 
apartar-fe, ardendo em vivo fogo de mui- 
tas panellas de pólvora , que nelles lança- 
ram 



Década X. Cap. III. 283 

ram os da Galeaça , pofto que os mais dos 
foldados eítavam feridos , e abrazados do 
muito fogo, e das muitas panellas de pól- 
vora ; e andavam com o furor da briga 
íao animofos que nada fentiam; fenão fora 
a defaventura que lhe fuccedeo, houveram 
de chegar a Malaca victoriofos de tamanha 
Armada ; e foi , que eftando na mor fúria 
da briga , os inimigos já affaftados pelos 
não poderem foffrer ? acertou a vela da 
Galeaça a tomar fogo ; e andando os nof- 
fos apagando-o , cahio huma faifca pela 
efcotilha abaixo : os peccados a encami- 
nharam pêra huma gamela de pólvora ^ on- 
de os bombardeiros eílavam carregando 
humas cameras de falcões ; e dando nelles , 
tomaram fogo , e dalli paflbu á mais pól- 
vora que eftava em barris , e com aquella 
fúria arrebentaram as cubertas por eíTes 
ares com tamanho terremoto y que foi et 
panto. Da Fortaleza foi viíto aquelle efpe- 
étaculo com tamanho fentimento , que fe 
poz toda a gente em pranto , por terem os 
mais dos moradores nella filhos , e irmãos , 
c fobrinhos ; a Galeaça ficou alli ardendo 
cm chammas 5 abrazados nella quafí todos 
que alli hiam , porque parece que permit- 
tio Deos que com aquelle género de mor- 
te pagaíTem a defobedkncia de feu Capi- 
tão , que contra tanto mandado feu vieram 



284 ÁSIA de Diogo de Couto 

bufcallo naquelle lugar : alguns que o fogo 
lançou ao mar , tomaram os inimigos vi- 
vos , e os levaram cativos ; e contentando- 
fe com aquelle feiro , que elles com todo 
o feu poder não puderam alcançar , meio 
deftroçados fe fizeram na volta de Lor, 
aonde entraram , e os Capitães mandaram 
pedir ao Ragalé que lhes mandaíle logo 
Singa Rajá , do que elle zombou , porque 
já eítava muito fortificado , e provido de 
tudo. Os Achens vendo aquelle defenga- 
no , defembarcáram em terra , e aflcntáram 
feu campo á cuíla de muitas vidas dos 
feus , e começaram a bater a Cidade com 
muita fúria por efpaco de hum mez , em 
que aíTim os de fora , como os de dentro 
receberam alfas de damno. O Ragalé vio- 
fe tão apertado 5 que lhe foi neceífario 
mandar pedir foccorro ao Capitão de Ma- 
laca , que por confelho do Bifpo , e de D. 
João da Gama ; Capitães , e peífoas princi- 
paes j aíTentou de lho dar, porque não con- 
vinha terem alli o Achem , que era muito 
poderofo , e mandou negociar dez, ou do- 
ze batéis , cujos Capitães eram António 
Fernandes de Ilher , D. Henrique Bandar- 
ra, António de Andrade , e outros filhos de 
Malaca , e os mandou que fe foííem met- 
ter em Jor , e ajudaífem a defender aquel- 
la Cidade. 

Ef- 



Década X. Cap. III. 28? 

Eíles navios entraram de noite pela bar- 
ra dentro , fem ferem fentidos dos inimi- 
gos • e prepaílando pela galé de Raja Ma- 
lota , que eílava apartada das outras , dei- 
táram-lhe huma fomma de panellas de pól- 
vora , e apôs ellas fe baldearam dentro , e 
á efpada mataram quantos nella eítavam , 
e a Raja Maio ta cortaram a cabeça , e fe 
iahíram com ella , e foram defembarcar em 
terra, e entraram emjor, e a aprefen taram 
a EIRey , que a eftimou muito , e logo a 
mandou arvorar em íima de hum baluarte , 
pêra que os inimigos a vifíem. Os Achens 
ficaram muito amedrontados daquelle nego- 
cio , e muito mais de lhes dizerem huns ef- 
cravos que tomaram , que era chegada hu- 
ma grande Armada de foccorro ajor, eque 
o Capitão de Malaca fe ficava embarcan- 
do pêra vir peleijar ; e certo que parece 
que Deos guiou as línguas a eíles , porque 
logo os inimigos ficaram tão defcorçoados, 
que fem quererem efperar mais , fe embar- 
caram, e deram á vela pcra o Achem. Dif- 
to foi logo avifado Roque de Mello por 
hum Bantim , que António Fernandes de 
Ilher defpedio, com recado ; e porque efpe- 
rava por horas pela náo de S. Thomé, que 
havia devir carregada de fazendas, em que 
todos os daquella Fortaleza traziam feu ca- 
bedal , receando-fe que os inimigos a en- 

con- 



i26 A SI A de Diogo de Couto 

contraflem , defpedio hum Bantim ligeiro 
carregado de munições com regimento ao 
que nelle hia, que fefoífe delongo dacof- 
ta da terra de Malaca até dar com elia , e 
que lhe metteíTe dentro as munições ; e af- 
fim defpachou outro Bantim aefperar a Ar- 
mada dos inimigos pêra ver por onde fe 
recolhia. O Ragale , tanto que ficou defa- 
preííado , e que vio os inimigos recolhi- 
dos , deitou ao mar íincoenta Bantins mui- 
to ligeiros , em que fe embarcou com a 
melhor gente que tinha , e foi feguindo os 
inimigos pêra ver fe os podia derrubar ; e 
vendo que fe recolhia com muita preífa pe- 
la via de Baneales , e que hia já mui alon- 
gado delle , fez volta pêra Malaca, por lhe 
parecer fer obrigação dar os agradecimen- 
tos ao Capitão do ioccorro que lhe manda- 
ra , pêra o que lhe mandou diante pedir li- 
cença ; e depois do recado chegou á ba- 
hia , e pondo a proa no cães , defembarcou 
em terra com muita fegurança , e ahi che- 
gou o Capitão , e o Bifpo , e os Vereadores , 
e o povo , que o receberam com muita hon- 
ra , c o Capitão o levou pêra a Fortaleza, 
e o banqueteou aquelle dia efplendidamen- 
te 5 e o mefmo fez a todos os feus , e fo- 
bre a tarde lhes foi moftrar a povoação 
de dentro da Fortaleza , que eftava com 
todas as janellas alcatifadas , e pelas ruas 

mui- 



Década X. Ca?. III. 287 

muitas charamelas , e outros iníírumentos 
de alegria , e daquelle caminho fe foi em- 
barcar. Eítando já no cães, lhe mandou D. 
João da Gama , a quem o Ragalé defejou 
muito ver por neto do Conde Almirante, 
que defcubrio a índia , feu filho mais ve- 
lho, a quem o Ragalé fez muitas honras , 
e defpedindo-fe de Roque de Mello muito 
fatisfeito dos gazalhados que lhe fez, dan- 
do-fe hum a outro peíTas , e brincos ricos , 
e curiofos , e com ifíb fe embarcou , e fe 
tornou pêra Jor. D. João da Gama não 
quiz ver o Ragalé , nem fahio de fua cafa 
por pontos de opinião , mas mandou-o vi- 
fitar por feu filho , como diífemos. 

CAPITULO IV. 

De como Fernão ãe Miranda foi a Surra- 
te ejperar as nãos de Meca , e tomou 
huma Cidade de Balala : e do grande mo- 
tim que houve em toda a Armada con- 
tra o Capitão Mor. 

JÁ atrás ( no fim do Cap. XV. Livro II.) 
demos conta de como o Conde D. Fran- 
cifco Mafcarenhas mandara a Fernão de 
Miranda que na entrada deAgoílo foífe ef- 
perar as náos de Meca, e que tomaífe to- 
das , quer trouxeflfem cartas , quer não •, e 

jun- 



288 ÁSIA de Diogo de Couto 

juntamente com ellas cartas efcreveo outras 
ao Capitão de Dio , em que lhe mandava 
que no meímo tempo mandafíe a Armada 
da obrigação daqueila Fortaleza ao porto 
de Goga , e que alli efperafle por huma 
náo do Hecbar, a quem o Conde D.Luiz 
de Ataíde tinha dado cartas pêra ir tomar 
aquelle porto , fem a obrigarem ir pagar os 
direitos a Dio. Fernão de Miranda tanto que 
veio daqueila jornada do Rey de Sarzeta y 
que atrás contámos Livro II. Cap. XV. lo- 
go começou a tratar da Armada , e a mandar 
negociar todos os navios que havia , e a a- 
juntar marinheiros , e todas as mais coufas 
neceílarias pêra aquella jornada, o que fez 
cem tanta diligencia por haver falta de ma- 
rinheiros , que elle mefmo em peífoa foi a 
Baçaim , e Ataná negociallos ; e ajuntando 
huma fomma de marinheiros , tornou-fe a 
Damão, onde fe começou a deitar a Arma- 
da ao mar, a que acudio por terra o Vea- 
ilor da Fazenda , que eftava em Baçaim , e 
correo com todas as defpezas , e provimen- 
tos, conforme as Provisões que oVifo-Rey 
lhe tinha mandado fobre aquelle negocio ; 
e em fim tal prefla deram todos á Armada r 
que quando foram vinte e quatro de Julho , 
vefpera do Apoítolo Sant-Iago , fahio Fer- 
não de Miranda pela barra fora com vinte 
navios fermofamente guarnecidos, e cheios 

de 



Década X. Cap. IV. 2S9 

de muita , e boa foldadefca, que em Da- 
mão ficou aquelle inverno por caufa da 
guerra. 

Os Capitães que foram na jornada são 
os feguintes : Diogo de Miranda de Azeve- 
do, o Velho, D.Franciíco da Gama, Pedro 
de Soufa , Miguel de Azevedo do Couto, 
Pedro de Negreiros , António Pegado , 
Chriítovão Leitão , Luiz Rodrigues Fajar- 
do , António de Andrade , D. Pedro de 
Mello , Nuno Alvares Pereira , Fernão Mar- 
tins de Soufa , Meftre Domingos Venezia- 
no , grande official de galés , D. Manoel 
de Azevedo, Pedro Homem Pereira, Fran- 
cifco de Miranda Henriques , António de 
Lima, António Rodrigues oPonoba. Dada 
aveia, foram eíles navios feguindo fua jor- 
nada, cacharam os mares tãogroíTos da in- 
vernada que os comia , por fer naquella en- 
leada o inverno a mais foberba , e medo- 
nha coufa da vida , e foram de feição , que 
com a força rendeo o maftro ao navio do 
Capitão Mór , que fe pafibu a outro , e 
mandou ao feu Comitre que metteííe o na- 
vio no rio de hufn Brafari , que divide as 
terras de Damão dasdeBalfar, defronte de 
quem então eftavam , e que mandaffe buf- 
car outro maftro a Damão , e que logo fe 
foífe pêra Surrate , como elle fez , entran- 
do dentro do rio com trabalho , e no mef- 

Couto. Tom. FL P. I. T mo 



290 ÁSIA de Diogo de Couto 

zno dia foi recado a Damão , e nelle lhe 
mandaram o maííro novo, Fernão de Mi- 
randa foi feu caminho com toda a Armada 
quaíi alagada , e com todos os mantimen- 
tos quaíi molhados , e podres : e quiz Deos 
que omefmo dia afferraíTe o rio de Surra* 
te , onde entraram com muito rifco, e tra- 
balho, porfer amais foberba barra de ma- 
res , e mais perigofa de baixos , e reftingas 
que ha em toda a índia , por caufa do 
grande efcarceo que alli faz o mar com 
o fluxo , e refluxo, que he o mais apreíla- 
do , e impetuofo que no Mundo ha , e ao 
outro dia chegou o navio com o maftro 
jiovo , mas fcm mantimentos , por irem 
podres , como todos os mais de toda a 
Armada : pelo que lhe foi forçado defpe- 
dir recado a Damão , pêra que o proveíTem 
de novo , o que o Veador da Fazenda fez 
com muita preíTa , e carregou alguns Ta- 
rins de bifcouto , e arroz que lhe mandou, 
e elle mefmo foi a Surrate ver , e prover 
a Armada , porque havia de paíTar a Dio a 
tomar poíle daquella Fortaleza até chegar 
Manoel de Miranda , que era provido del- 
ia , que foi no Outubro feguinte ; e o Li- 
cenciado Francifco de Frias , depois que 
proveo a Armada , atraveflbu a Dio, e to- 
mou poíle daquella Capitania. Fernão de 
Miranda deixcu-fe eílar dentro em Surra- 
te, 



Década X. Cap. IV. 291 

te , e todos os dias de madrugada manda- 
va dous navios a vigiar o mar , o que fa- 
zia com grande rifco , e perigo por califa 
da barra que he crueliíTima ; aílim foram 
continuando até os três dias de Setembro, 
em que os homens andavam já cançados , 
e quebrantados , e com todo o fato podre 
por aquellas aguas , que alli chovem , pois 
«m dando na roupa , logo a apodrecem to- 
da, e o que era porque andavam fem man- 
timentos 5 que cada dia fe lhes molhavam 3 
porque tudo nadava em agua , aílim do 
mar 3 como do Ceo , que por todas as par- 
tes lhes entrava , e tudo com tanto traba- 
lho , e foffrimento que fó Portuguezes o 
puderam aturar. 

Neíle dia viram os navios , que fahíram 
a vigiar 5 huma fermofa náo , que vinha do 
mar em fora com todas as velas dadas a 
demandar aquella barra; e fazendo final á 
Armada , fahio toda logo pêra fora alvoro- 
çados todos pêra fe cevarem , e reftituirem 
nella dos trabalhos foffridos até então ; e 
efte dia foi o de maior tormenta , que na- 
quella jornada tiveram , e os navios palia- 
ram aquella barra com o mor perigo ? e tra- 
balho que todos : a náo houve logo vifta 
dos navios ; e conhecendo fer da Armada 
Portugueza , preparou-fe na volta do mar, 
e defpregou os traquetes que levava toma- 

T ii dos, 



2<?2 ÁSIA de Diogo de Couto 

dos , e Fernão de Miranda a foi feguindo 
com bolços da vela 5 porque os navios 
não podiam aturar os mares , e fe hiam af- 
fogando , e alagando , fó Diogo de Miran- 
da largou toda a vela , porque tinha hunx 
navio poílante , e foi-íe fahindo melhor 
aos mares ; e chegando á náo , lhe atirou 
a amainar , o que elia não quiz fazer, an- 
tes lhe refpondeo com outra bombardada , 
e fe deixou ir feu caminho fem dar por 
nada. Diogo de Miranda a foi feguindo 
por poppa esbombardeando-a , e ella re- 
fpondendo-Ihe com outros tiros mais gro£- 
fos , e dando-lhe os que hiam nella vifta, 
pêra que viíTem os noílos o ruim partido 
que tinham ; e aílim era verdade , porque 
aquella náo além de fer muito alterofa , e 
grande , trazia perto de feiscentos homens 
brancos , e vinte pelías de artilheria. Fer- 
não de Miranda chegou a ella com toda a 
Armada atempo que já hia anoitecendo , 
em que fe ella fez na volta do Sul , por fe não 
metter na enfeada , pelo que fe compaflbu 
cem ella Diogo de Miranda pela não per- 
der, e toda a noite foi fazendo farol a to- 
da a Armada , pêra que viííem , e aíhm o 
feguio toda a Armada 5 foíFrendo toda a 
noite grandes ventos , e mui defempaíTados 
mares 9 o que tudo lhe fazia eftimar em 
pouco o defejo que todos levavam de fe 

ce- 



Década X. Cap. IV. 295 

cevarem naquella náo , que forçado havia 
de vir muito rica. 

Tanto que amanheceo, rodeou Fernão 
de Miranda a náo com todos os navios, e 
a foi esbombardeando , porque não era 
poílivel abordaiia , aílim pela groííidão dos 
mares , como por fer muito alterofa, pelo 
que tratou de a defapparelhar, porque não 
havia outro remédio ; mas eila fe deixou 
ir muito confiada em feu poder, difparan- 
do a lua artilheria por huma , e outra par- 
te , de que quiz Deos livrar os no Aos na- 
vios , que efcapáram a ella por irem en* 
terrados , e efcondidos entre os mares , que 
eram tão cavados , que a tempos fe não 
viam huns aos outros. Indo aífim nefte tra- 
balho , lhe deram da Galeota de Nuno Al- 
veres Pereira com hum pelouro de meia ef- 
pêra , que quiz Deos que lhe acertaífem 
no maílro , que logo veio abaixo com to- 
do o velame , fícando-lhe-fó a cevadeira , 
c mezena com que fe deixou ir feu cami- 
nho , difparando fempre lua artilheria , e 
em Damão foram ouvidos. os tiros, porque 
hiam já tanto avante com o Balfar ; e en- 
tendendo o Capitão Martim Affonfo que 
a noifa Armada peleijava , negociou logo 
com muita preífa hum navio de hum Bel- 
chior Quinteiro , e lhe mandou metter 
muitas muniçõçs ., pannos velhos 5 ovos, 

a^ 



^94 ÁSIA de Diogo de Couto 

azeite de coco , unguentos , dous Ciruiv 

fioes , e os defpedio logo , pêra que fe 
ouveífem feridos que os foíTem curar , e 
fe faltaííem munições á Armada, os pudef- 
fem prover ; e ja fobre a tarde chegara a 
Armada , indo já avante acalmada , e os 
Mouros quaíi defconfiados , e cm diíferen- 
tes pareceres fobre o que fariam , porque 
huns diziam que foífem demandar terra , 
que eílava perto, eque varaífem nella pêra 
ao menos falvarem as vidas ; outros di- 
ziam que não fizeífem tal , porque ainda 
que varaífem não podiam efcapar ao cati- 
veiro , e ao menos mulheres , e filhos , que 
quaíi todos aili levavam , que melhor feria 
peleijarem até morrer, porque iílb era me- 
nos mal , que vir ás mios dos Portuguezes. 
Indo neíta indeterminação , foi-lhes força- 
do furgirem hum pouco antes do morro 
do parcel , porque fe acharam em fundo 
de menos de féis braças , e depois fe re- 
fumíram em mandar commetter partidos 
ao Capitão Mor , porque já não tratavam 
de mais que de fe fegurarem as vidas j e 
que quando lhas não quizeífem dar , que 
então fizeífem o que fizeram os da Ilha dos 
Mortos , que era matarem as mulheres , e 
filhos , e depois peleijarem até morrer em 
vingança da crueza que haviam de ufar; e 
pondo huma bandeira de paz > lançaram 

hum 



Década X. Cap. IV. 295* 

hum homem ao mar , que foi afterrar a fuf- 
ta de Francifco de Miranda , que ò levou 
ao Capitão Mor , e lançado a feus pés , lhe 
diíle , que Cide Balala , Capitão daquella 
náo , lhe mandava pedir licença pêra lhe 
mandar dous homens honrados a tratar 
com elle coufas que importavam , o que 
lhe elle concedeo , e vindos a elle , lhe 
pediram da parte do Capitão , e de todos 
os que vinham na náo , que lhes fizeíTem 
mercê das vidas , e lhes deífem embarca- 
ções pêra fe poderem ir a terra , que elles 
lhe deixariam a náo com todo o feu re- 
cheio. Fernão de Miranda poz aquelie ne- 
gocio em pareceres dos Capitães dos na*- 
vios , e aítentáram conceder-fe-lhes o que 
pediam , porque fegundo eftavam determi- 
nados (fegundo parece haver-lhes contado 
o Mouro 3 que veio á náo, o que lá palia- 
va) eftava certo não fe renderem fem euf- 
tar as vidas de muitos 5 e que pois lhe en- 
tregavam a náo , que era tão rica , e pode- 
roía, fem golpe de efpada, que não havia 
pêra que efperarmais. Aífentado iílo , paf- 
fou-ihe o Capitão Mor hum feguro Real , 
em que concedia as vidas a todas as pef- 
foas que na náo eftavam , e que os poria 
em terra muito feguramente , fem recebe- 
rem aggravo algum. Com efte feguro fica- 
ram os Mouros defalivados , porque fó p 

ca- 



i<)6 ÁSIA de Diogo de Couto 

cativeiro fentiam ; e logo fizeram entrega 
da náo ao Feitor da Armada , e outras 
peíToas , que o Capitão Mor elegeo , e to- 
dos fe embarcaram pêra terra com fuás 
mulheres , e filhos , íem levarem mais que 
os veítidos. Os íbldados da Armada vendo 
aquelle negocio, e que fobre tantos traba- 
lhos , e rifeos , como em dous mezes tinham 
paflado , fe lhes defarmáram em vão as 
efperanças que tinham do faço daquella 
náo , ajuntaram-fe alguns navios que fe fal*- 
láram , e foram-fe ao Capitão Mor , e de 
fora fe defmandáram em palavras contra 
elle; e depois que fe defenfadáram , deram 
á vela pêra Damão , ficando os leis navios 
com o Capitão Mor , e pelo caminho fo- 
ram fazendo bandeiras negras , com que 
entraram pela barra de Damão, o que met- 
teo grande confusão na Cidade , porque 
não fabia o que era paliado , e aquellas in- 
ílgnias triftes vinham reprefentando algum 
mal , e defaftrç. 

Chegados á praia , defembarcáram to- 
dos ao Tom de tambores , e pifanos , arma- 
dos , e poftos em fom de batalha ; e atra- 
veíTando a Cidade , fe foram metter em 
hum baluarte de fobre o campo , e alli fe 
fizeram fortes. O Capitão da Cidade não 
oufou a bulir comíigo , por ferem perto de 
trezentos homens , ç todos tão amotinados 5 

e 



Década X. Cap. IV. 297 

c conformes , que cada vez que queriam , 
atraveíTavam a Cidade com bandeiras def- 
enroladas , e tocando tambores , e pifa- 
nos , ao que os moradores todos fe reco- 
lheram em fuás cafas , onde fe fortificaram ; 
e chegou o defatino a tanto , que paífando 
hum dia eíles foldados pela porta de S. 
Francjfco 5 atiraram á portaria muitas ef- 
pingardadas , porque fora na Armada hum 
Padre , que foi de parecer do partido do 
Capitão Mor, E neíta forma chegavam to- 
dos os dias até á praia a vigiar a Armada , 
porque citavam todos juramentados de ma- 
tarem Fernão de Miranda : eíte foi o pri- 
meiro motim deite toque, que na índia fe 
vio entre Portuguezes. 

E tornando a Fernão de Miranda , 
quando vio ir os navios daquella maneira , 
fentio muito , e ainda o fentíra mais , fe 
foubera a forma em que os delles anda- 
ram em Damão efperando por elle; e dan- 
do cabo á náo , a levou a Damão , e en- 
trando com cila pela barra já em íima do 
banco 5 onde he mais perigofo, lhe corta- 
ram as toas , fem fe faber quem , a fim 
delia dar no banco pêra a roubarem ; e 
não eíleve diíTo muito longe , porque re- 
pontava a maré , e vinha já deícabeçando 
pêra fora. Fernão de Miranda com alguns 
navios do feu bando acudio a fazer cabe- 



298 ASIx\ de Diogo de Couto 

ca á náo , e a foi affaílando do banco á 
torça do remo ; e como a poz no canal , 
deitou ancora , e na outra maré a metteo 
dentro , e pafTou-fe do feu navio em huma 
manchua pequena pêra fazer amarrar a náo , 
e fegurar os feus navios , e foram-fe pêra 
terra. Os foldados do motim , que traziam 
o olho na Armada , arrebentaram pela 
praia ; e vendo o navio do Capitão Mor 
com o efporão em terra , remettêram com 
elle , e com hum furor defatinado o entra- 
ram pêra o matarem , cuidando que eitava 
dentro ; mas quiz Deos que efcapaíTe áquel- 
la fúria com ficar ( como diíTemos ) na 
manchua : a praça era toda huma confusão , 
e labyrinto , de forte que parecia huma ba- 
talha campal , porque tudo eram efpingar- 
dadas , gritos, e alaridos, que atroavam a 
terra : os foldados não o achando no feu 
navio, entraram em todos os mais em buí- 
ca do Capitão Mor fem o acharem. O Ca- 
pitão da Cidade quando vio aquelle defar- 
ranjo acudio á praia com Religiofos , e 
com Crucifixos alevantados , bradando por 
mifericordia , fem ferem ouvidos , nem ou- 
farem a fe metter no meio daquella confu- 
são. Fernão de Miranda ouvindo o Iabyrin- 
to , fem faber o que era , endireitou com a 
terra; e antes de chegar a ella , o avifáram 
do negocio , peio que lhe foi forçado re?» 

co- 



Década X. Caí. IV. 299 

colher-fe pêra a outra banda, onde fe dei- 
xou eílar até á noite , em que os foldados 
do motim fe recolheram ao baluarte , e 
Fernão de Miranda fe foi rnetter em S. 
Francifco, fem ninguém o íaber. O Capi- 
tão da Cidade com os Religiofos graves , e 
honrados gaftáram toda aquella noite , e to- 
do o dia feguinte em os moderarem , reíu- 
mindo-fe o Capitão que fe o haviam pelas 
prezas que efperavam da náo , que elle fe 
obrigava a lhas dar por aquillo que fe al- 
vidraífem. Em fim , tanto trabalharam nifto 
todos , que fe abrandaram os foldados 5 e 
fe concertaram que deíTem a cada hum dez- 
efeis Venezianos , que he o mais que fe a- 
chou por Juizes louvados ; a quantia de di- 
nheiro que fe nifto montava fe entregou lo- 
go aos Capitães pêra a repartirem porelles. 
Com ifto fe apaziguou o negocio , e fe 
diííimulou , porque pêra fe haver de cafti- 
gar tão grande motim , foram muitos , e 
muito honrados os culpados nelle : da mais 
fazenda da náo fe fez logo inventario , e fe 
mandou recado ao Vifo-Rey pêra prover 
naquelle negocio, 



CA- 



300 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO V. 

De huma náo do Hecbar , que foi repreza- 
da em Goga , a que acudio Fernão de 
Miranda: e de como o Vifo-Rey a man- 
dou largar : e do cajiigo que deo Fer- 
não de Miranda aos moradores do Caf- 
tdete. 

A Trás no Cap. IV. Liv. III. ficou dito 
como o Vifo-Rey D. Francifco Mas- 
carenhas efcreveo a Dio áquelle Capitão , 
que mandaife a Armada da obrigação da- 
quelia Fortaleza a efperar as náos de Me- 
ca ao porto de Goga. Eíle recado chegou 
depois da morte de D. Pedro de Menezes, 
por cuja virtude o Alcaide Mor , que lhe 
Tinha íuccedido , mandou negociar os na- 
vios , e commetteo a jornada a Francifco 
Ferrão da Cunha , que fora com D. Pedro 
por Capitão Mor da enfeada , de que fe 
elle efcufou por inconvenientes que teve , 
e elegeo a Braz de Azevedo , Capitão do 
Baluarte do mar, que na entrada de Agof- 
to fahio pela barra fora com finco navios 
jurai bem negociados ; e chegando aos ca- 
naes de Goga , furgio nelles , e poucos 
dias depois chegou huma Jtermofa náo do 
Hecbar , que vinha de Meca , e trazia car- 
tas do Vifo-Rey D. Luiz de Ataíde, pêra 

que 



1 Década X. Cap. V. 301 

que livremente pudeífe ir defcarregar em 
Goga , fem a obrigarem a ir pagar direi- 
.tos a Dio deitas cartas; e das duvidas que 
a elle puzeram os rendeiros das alfandegas 
de Dio, na nofla Década IX. fe verá me- 
lhor. A náo como vinha com falvo condu- 
61o , foi com muita fegu rança íurgir dentro 
dos canaes , onde a noíTa Armada eftava , 
que a rodeou logo , e não deixaram des- 
embarcar nenhuma coufa , nem ir da terra 
nada , e Braz de Azevedo defpedio com 
murta prefla recado a Dio do que havia de 
fazer. Os rendeiros das Alfandegas tanto 
que fouberam eílar a náo reprezada, man- 
daram logo proteítos , e requerimentos a 
Braz de Azevedo , pêra que levaífe a náo 
pêra Dio, porque os direitos delia lhe per- 
tenciam pelos Capítulos de leu arrendamen- 
to. A eítes proteítos refpondeo Braz de A- 
zevedo , que elle não havia de bulir na 
náo , nem fialla daqtielles cães pelo rifco 
que corria ; porque como a havia de tirar 
por força , e contra a vontade dos de 
dentro, eftava certo que quando fenão de- 
fendeííem , não haviam de querer marear 
as Velas; e que para o elle fazer, havia de 
miíter muitos marinheiros , e pilotos , o 
que elle não havia de tomar fobre li , e 
que fe havia de deixar eítar até ter recado 
do Vifo-Rey. 

Ef- 



302 ÁSIA de Diogo de Couto 

Eílava por Governador em Cambaya 
hum Bancare chamado o Rao , que o primei- 
ro dia que a náo alli chegou teve rebate, 
e com muita preíTa mandou homens de 
muito recado a Goa a requerer por parte 
do Hecbar juíliça ao Vifo-Rey , allegando 
que elle não fora fabedor da guerra , antes 
a eílranhára muito a feus Capitães , porque 
elle era amigo do Eftado , e nunca quebra- 
ria as pazes que com elle tinha feito. Em 
quanto eíles Procuradores chegam a Goa 5 
continuaremos nós com a náo de Goga. 

Eítando affim Braz de Azevedo com 
ella repreza até efperar recado certo do que 
havia de fazer , foi avifado que no rio de 
Surrate fe negociavam alguns paraos pêra 
virem favorecer a náo , porque parece que 
o Rao queria uíar de ambas as mãos : pelo 
que foi neceííario mandar recado a Fernão 
de Miranda , que eílava já com a náo em 
Damão , que tanto que fe lhe deo , defpe- 
dio logo Diogo de Miranda com alguns 
navios pêra fc ir ajuntar com Braz de Aze- 
vedo , em quanto elJe não hia, porque ef- 
tava acabando os negócios da outra náo. 
Os recados de Fernão de Miranda r e os 
Procuradores do Rao chegaram quaíi junta- 
mente a Goa; e vendo o Vifo-Rey as car- 
tas de Fernão de Miranda , defpedio Fran- 
cifeo Paes pêra ir a Damão tomar entrega 

da 



Década X. Cap. V. 303 

da náo , e das fazendas , e que levaíTe tudo 
pêra Goa ; em breves dias chegou a Da- 
mão , e tomou entrega de tudo , e voltou 
pêra Goa com a náo, Fernão de Miranda 
como fe vio defembaraçado daquelie nego- 
cio , logo fe fez á vela pêra Goga , e fe 
ajuntou com Braz de Azevedo , e ficou ef- 
perando recado de Goa , eme lhe não tar- 
dou , porque logo chegou num navio mui- 
to aprefíado , em que vinham os Procura- 
dores do Rao , que abbreviáram tanto efte 
negocio , que em vinte dias foram, e tor- 
naram 5 porque fe fouberam mui bem ne- 
gociar , que aprefentáram a Fernão de Mi- 
randa Cartas , e Provisões do Vifo-Rey , em 
que lhe mandava que largaífe a náo do 
Hecbar , porque fe aífentára em confelho 
dos Capitães fer affim neceífario por mui- 
tos , e juftos refpeitos , que fe não declara- 
vam ; porque pêra compenfação das perdas 
que o Eftado recebeo com a guerra de Da- 
mão , e pêra credito dos Portuguezes , baf- 
tava a náo do Cide Balala , que elle tinha 
tomado por força de armas , e com efta 
f efolução entregou Fernão de Miranda a 
náo , ficando-lhe na mão boas alviçaras , 
que os Mercadores por iífo lhe deram > 
porque vinha a mais rica que nunca fahio 
de Judá ; porque pelo livro dellâ fó em 
ouro , e em prata trazia carregados feiscen- 

tos 



304 ÁSIA de Diogo de Couto 

tos mil cruzados , a fora muito coral , bor- 
cados , recuicas , e outras fazendas. 

Entregada a náo , vendo-fe Fernão de 
Miranda defoccupado , e junta a Armada 
de Dio , a fua não fe quiz recolher, fem 
provar a mão , na Cidade de Gengimez , ao 
que commummente chamam o Callelete , 
oito léguas de Goga pêra Dio , por fer de 
Reineis grandes ladroes , cujo porto foi 
fempre recolhimento de todos os MaJava- 
res , Coutacolões , e Onores , que por alli 
andavam ás prezas das embarcações que 
hiam de Cambaya, e donde os navegantes 
daquella coita tinham recebido notáveis 
damnos , do que o Eftado eítava bem ef- 
candalizado ; e muitas vezes trataram os 
Vifo-Reys de mandar desfazer aquella la- 
droiça , que fempre encommendáram aos 
Capitães do Norte das Armadas ; mas nun- 
ca fe poz as mãos na obra , o que Fernão 
de Miranda quiz agora fazer por fe ver 
defoccupado de tudo , e para ifto deixou 
efpias de confiança pêra verem o fitio , e 
gentQ que dentro tinha ; e fendo bem in- 
formado de tudo , defembarcou naquella* 
parte hum dia pela manha , levando a dian- 
teira Diogo de Miranda, por fer feu Tio, 
e Fidalgo velho 5 que com a gente do dez 
navios , que pêra iílb lhe tinha nomeado, 
commetteo a Cidade , que eftá na face do 

mar ♦ 



Década X. Cap, V* * ys$ 

mar , cercada de huma tranqueira á roda* 
e Jiuma parte delia íbbre hum penedo ín- 
greme , que a natureza alli poz , fizeram 
hum Caftellete de adobes com feus baluar- 
tes, e revezes, que fica todo íbbre a Cida- 
de; e de huma ponta do penedo com hum 
rebelim , que vai fechar com a tranqueira 
da Cidade , por efta parte commetteo D. 
Manoel de Azevedo , e pela outra ponta 
da outra banda Pedro de Borges, e Diogo 
de Miranda pela fronteria da Cidade ; e 
poílo que acharam muita refiftencia , fize- 
ram por aquella parte entrada com morte 
de muitos inimigos , entre os quaes foi hum 
irmão dos Capitães do Caftellete , que tinha 
a feu cargo aquella parte, e aííim entraram 
a Cidade, aonde já acharam Pedro de Var- 
gas , que achando huma quebrada em hum 
canto do rebelim , fe lançou por elle den- 
tro com os feus , e foi levando os inimigos 
até á Cidade. D. Manoel de Azevedo , que 
eftava também no canto do Caftellete , vio 
huma bombardeira aberta , de que os de 
dentro com a preífa fe defcuidáram , e por 
ella fe metteo com os da fua obrigação , e 
foi entrando o Caftellete ás cutiladas , ma- 
tando muitos dos inimigos , e os mais dei- 
les o defpejáram , e fe recolheram pêra a 
Cidade , aonde já os noííos andavam pon- 
do o fogo a tempo que Fernão de Miran- 
Cwío.Tom.FLP.L V da 



s 



306 A S I A de Diogo de Couto 

da hia entrando com a fua companhia ; e 
porque a Cidade fe acabou de defpejar de 
todo , e os íbldados fe não defmandaíTem , 
mandou-lhe dar fogo por todas as partes y 
e fe fahio pêra fora , e recolheo a fua gen- 
te y porque havia por alli muitos lugares 
pertos , donde podia recrefcer foccorro , e 
fuccedeiTe defaftre , pois até alli tiveram 
tão bom fucceífo. 

Feito eíle negocio muito a fcu falvo , fe 
recolheo aos navios , e fefoi para Damão, 
or fe lhe acabarem os provimentos , e ai- 
i achou carta do Vifo-Rey , em que man- 
dava fe paífaífe a Baçaim , aonde havia or- 
dem pêra lhe armarem outros navios pêra 
andar todo o verão na coita do Norte , co- 
mo adiante fe verá. Francifco Pais chegou 
com a náo a Goa > e juntamente com elle 
o Cide Balala Capitão delia com alguns mer- 
cadores principacs , que fe concertaram 
com o Vifo-Rey; e pela fazenda delia , que 
tinha ainda em fi , lhe deram vinte e fete 
mil pardaos ; mas o cafco da náo fe lhe 
não quiz vender, com o Cide Balala metter 
todas as valias que havia em Goa , o que 
fez fufpeitar a alguns homens, que trazia 
nos entre-forros. muitos Venezianos ; fe os 
elia tinha , elles fe fumíram fem os nin- 
guém ver. Em fim a náo carregou-fe por 
EiRey , e depois foi vendida a D. Paulo 

de 



Década X. Cap. VI. 307 

de Lima , quando foi entrar na Capitania 
de Chaul. 

CAPITULO VI. 

Das coufas que nejle anno aconteceram em 
Maluco : de como o Governador das Ma- 
nilhas efcreveo a Diogo de Azambuja y 
Capitão de Tidore : e de como ejiava ju- 
rado em Portugal EIRey D. Filippe y e 
de outras coufas. 

QUando demos relação da perdição de 
D. João da Gama , o fizemos também 
de como o Galeão que Fernão Telles 
defpedio pêra Maluco com provimentos , 
de que era Capitão Fernão Ortiz de Tavor 
ra, não paflara de Malaca, pelo que a For- 
taleza de Maluco fe vio em tanto trabalho , 
e fomes por caufa da guerra , e lhe faltai 
rem três annos os Galeões da carreira , co- 
mo na Década IX. fe verá mais largamen- 
te: c fe D. João da Gama ,. Capitão de Ma- 
laca , o não provera , fempre fem dúvida 
paliara a mor trabalho. Agora vendo Dio- 
go de Azambuja , Capitão daquella Forta- 
leza , que lhe faltara também efte anno o 
Galeão da índia , não fabia o que cuidaíTe ; 
porém não defefperou de a foccorrerem de 
Malaca pela via da Jaoa na monção ordi- 
nária, que era em Julho feguinte. 

V ii Ef- 



308 ÁSIA de Diogo de Couto 

Eítando com eítas efperanças , remedian- 
do-fe o melhor que podia com grande pro- 
visão y chegou ao porto de Tidore huma Fra- 
gata aos dez dias de Março deite anno de 
15*82. em que andamos , a qual vinha de 
Manilha , e nella hum Francifco de Due- 
nhás com féis Hefpanhoes , que Diogo de 
Azambuja recebeo bem 3 e o Duenhas lhe 
deo huma carta do Doutor Sant-Iago de 
Vera 3 Governador das Filippinas 5 com huns 
actos ? e papeis authenticos , que lhe vieram 
por via da nova Hefpanha ; e abrindo a 
carta, vio que dizia afíim : 

» Si halta aqui era mui juíto nos fre- 
y> quentaffemos , y trataílemos a menudo , 
» fiendo tan vicinos , y vaffallos de Reys 
» Catholicos , y tan amigos , y deudos , mu- 
> cha mas rafon ay ai prefente pêra hazelo , 
)> haviendo íido Dios fervido de juntar ef- 
» tos Reynos en cabeça deElRey Don Fi- 
y> lippe nueftro Seíior ; de lo fuccedido à- 
» cerca defro non ay particular relacion en 
» eíta , affi por tener por cierto la havra 
» jà tenido bien larga , y copiofa por la 
» índia , y aun fegun fofpecha nuevo Vifo- 
y> Rey , pêro por la incertidumbre que las 
» coías dela mar tienen, enbio con eíta to- 
■» das las relaciones 3 que an venido a mis 
» manos de lo fubcedido defpues dela mor- 
» te dei Cardinal Rey 5 y aílí mifmo prefu- 

pueí- 



Década X. Cap. VI. 309 

» pueílo que em vueílra merced , coíno per- 
» fona de tan buenas partes , de quien fe 
)) ha hecho confiança de Placa tan impor- 
)> tante no puede dexar de concurrir la 
)) fidelidad que tiene jurada , y deve a fu 
» Rey , y que lo es EIRey Don Filippe nu- 
» eftro Senor que ai prefente reina , y eílà 
» recebido em Portugal por toda la nobrc- 
» za dei , me ha parecido que íi por aca- 
» fo la novedaçl prefente huvieííe alguna 
)> caufado en e0a tierra , y en Malaca , y 
a Macao con los naturales delias por nò los 
» tener en la fubjecion que los que nòs ou- 
D tros poífeemos ofFerecer de my parte 
)> el foccorro que defde aqui puede Su 
» Mageílad darles, que pêra las fuerças de 
» poraca nò fon poças, aDios gracias, las 
» de aqui aífy de gente, como navios, ga- 
» leras , como de artilheria , y municiones : 
» aífy prefupueíta fu fidelidad , offerecien- 
» do neceífidad , lo ofrefco yo a vueílra 
» merced em nombre de Sua Mageílad 
» contra todos os que intentaren de le 
)> deílervir en qualquiera manera ; y en eíla 
» rafon efcribo ai Capitan mayor de Mala- 
)) ca la que con eíla và. Vueílra merced fe 
)) la encamine en haviendo con quien , y 
» una copia de las nuevas , que embio ; y íi 
» ubiere alguna cofa particular en que le 
3> pueda íervir , me avife deilo , pues es ra- 

» fon 



3io ÁSIA de Diogo de Couto 

» fon que entre nos-otros aya toda huma- 
5> nidad ; y dei portador, que es un buen 

* foldado , podrà vueítra merced faber lo 
» demàs que de acà quiíiere. * 

Lida a carta , e papeis que com ella 
lhe deram, ficou Diogo de Azambuja mui- 
to fobrefaltado , porque por elles claramen- 
te fe moftrava íer EIRey D. Henrique mor- 
to , que dle ainda não fabia, e ter fucce- 
dido no Reyno EIRey D. Filippe , por fen- 
tença dada pelos Governadores , e Defen- 
fores do Reyno de Portugal y que o dito 
Rey D. Henrique em fua vida tinha nomea- 
dos j e coníideradas aquellas coufas , vendo 
que ás obras de Dcos não havia que dizer, 
logo tornou a defpachar a Fragata , e re- 
fpondeo ao Governador de Manilha na for- 
ma feguinte : 

» Recebi a carta de V. Senhoria com as 
y> mais relações que me mandou , que lhe 
» vieram de Hefpanha na era de 1580. e 
» chegou a tempo que eu não tinha novas 

* de. Portugal, nem da índia, por me faltar 

* o Galeão dos provimentos eíle anno. E 
» com receber grande contentamento de ter 
3) cartas , e novas de V. Senhoria , não pud^ 
» deixar de fentir naquelle gráo , que a ra- 

> zão me obriga , a morte tão apreíTada de 
» meu Rey de Portugal ; porque entendo 

> que fe vivera mais tempo , deixara as 

* cou- 



DecXda X, Caf. VI. 311 

3D coufas dos Eílados de feus Reynos tãõ 
» bem ordenadas , que não fuccedêram as def- 
» ordens, e defconcertos que sáo paliados; 
» mas pois noílb Senhor diflb foi fervido > 
» pra2a a elle que iílo feja pêra principio 
» de maiores bens (e não pêra maioreé 
» caítigos) como confiamos todos que feja. 
» Eftando os Reynos de Caftella , e Portu- 
» gal unidos debaixo do Governo , e admi- 
» niítração do mefmo Catholico Rey Dom 
» Filippe , que receberemos com toda a fi- 
» delidade , e obediência, vendo feu pro- 
» prio , e efpecial recado , e certeza de fer 
» legitimo Rey de Portugal ; e quanto aos 
» foccorros que V, Senhoria oíFerece , eu o 
» eíHmo , e tenho em muito particular mer- 
» cê ; mas ao prefente não ha novidade na 
» terra mais que a guerra que tenho com 
» EIRey de Ternate , que tenho pofto em 
)) eftado que com eítes poucos Portuguezes 
» poífo feguramente efperar pela Armada, 
» que efpero por via dejaoa, que fera da- 
» qui a três mezes ; e não me vindo , con- 
» forme o eftado em que eítiver, avifarei a 
» V. Senhoria , porque então he a monção 
)) dos vendáveis , que mui de preíTa pode 
» lá fer o recado. A carta que efcreveo ao 
» Capitão de Malaca 5 mandei ao da Forta^- 
y> leza de Amboino com as mais relações 
» pêra dalli as encaminhar a quem Francif- 

» co 



312 ÁSIA dê Diogo de Couto 

3> co de Duenhas também efcreveo. A via- 
» gem que fez até aqui foi muito acertada ; 
» porque fe viera pela derrota que trazia , 
> íem falta fe perdera , por terem arrenega- 
y> do todos os Chriftáos do morro \ he pef- 
}> foa pêra muito , e fiquei-lhe muito aíFei- 
y> coado, folgara que fora melhor agazalha- 
» do , mas o tempo, e a terra não podem 
» dar mais de íi \ delle pode V. Senhoria 
» faber as novas da terra* NoíTo Senhor, 
} &c. da Fortaleza dos Reys Magos de 
)> Tidore a 20. de Março de 1582. » Parti- 
da eíla Fragata , ficou Diogo de Azambu- 
ja efperando recado de Malaca, aííim pêra 
fe prover pelas neceílidades em que eíleve , 
como pêra faber as certezas das novas do 
Reyno , parando na guerra com o Rey de 
Ternate , e pairando com o de Tidore ^ 
porque não podia mais, 



CA~ 



Década X. Cap. VII. 313 
CAPITULO VII. 

. 

De como Diogo de Azambuja mandou pe- 
dir foccorro ao Governador de Manilha , 
por lhe faltar o de Malaca : e de como 
lho mandou por D. João Ronquilho : e das 
coufas que fuccedêrão até chegar D. Ál- 
varo de Caftro , que faleceo. 

ASÍIm ficou Diogo de Azambuja efpe- 
rando pelo foccorro de Malaca , ten- 
do pêra íi que fem dúvida lhe viria ; mas 
como Fernão Ortiz de Távora não paíTou , 
e as coufas de Malaca fe embaraçaram y 
não lhe foi nenhum provimento : pelo que 
vendo elle a monção paliada , deípedio a- 
preífadamente recado ao Governador de 
Manilha , pedindo-lhe o foccorreííe , porque 
eftava com muita neceílidade. Eíte recado 
chegou a Manilha em poucos dias ; e ven- 
do aquelle Governador o trabalho em que 
aquella Fortaleza eítava , e que já lhe fica- 
va em obrigação , por haver fuccedido no 
Reyno de Portugal EIRey D. Filippe , que 
havia de eílimar muito foccorrer aquella 
neceffidade , mandou logo negociar dez em- 
barcações cheias de mantimentos , e muni- 
ções , e nellas mandou embarcar Hefpa- 
nhoes , e por Capitão D.João Ronquilho, 
homem havido por esforçado ; e dando-fe 

prçí* 



314 A S I A ■ db- Diogo de Couto 

preíía , chegou com toda aquella Armada 
junta a Tidore , e foi muito feftejado de 
todos , e os mantimentos íe repartiram com 
ordem , e outros fe guardaram pêra as ne- 
ceffidades. Poucos dias depois difto chega- 
ram novas a Diogo de Azambuja , que na 
Ilha de Pachão eítavam dous juncos de Jaós 
carregados de cravo ; e vendo quanto em 
perjuizo aquillo era do commercio de, El- 
Rey , pedio a D.João Ronquilho quizeíle 
ir com fua Armada dar nelles , o que elle 
acceitou ; e negociando-fe bem , foi tomar 
Bachad. Os Jaós tanto que viram a Arma* 
da , quizeram fegurar as vidas , e houveram 
por leu partido deixar os Juncos , e pôr 
luas peíToas em terra, D.João Ronquilho 
chegou aos Juncos , e os tomou cõm féis-' 
centos bares de cravo , que tinham em íí 
trezentos cada hum ; e nao fe contentando 
com eíla boa preza, determinou de dar em 
terra , e haver os Jaós ás mãos j e affim défem- 
barcou com todos os feus : e nem em terra 
os quizeram os Jaós efperãr , e fe recolhe- 
ram pêra o mato , aonde também os foram 
bufcar , e os commettêram denodadamente. 
Os Jaós perfeguidos daquélla maneira , de- 
termináram-fe a morrer; efazendo-fe amou- 
cos , remettêram com os nóflbs , mettendo- 
fe pelas lanças íem nenhum medo, e foram 
ferir mortalmente alguns Portuguezes que 

hiam 



Década X. Ca?, VIL 315' 

hiam na companhia. Vendo a determinação 
dos Jaós , diíieram aos Hefpanhoes que vi- 
nham amoucos , e que trabalhaííem por 
lhos defviar que lhe não chegaílem. Hum 
Hefpanhol daquelles indireitou com hum 
Jao y e lhe metteo huma lança pela barriga ; 
e lançando o Jao as mãos á haílea , foi cor- 
rendo por ella pelo corpo , trabalhando 
por chegar ao Hefpanhol com hum criz 
que levava ; mas acudio outro Helpanhol y 
e deo no Jao tal golpe que o derribou mor- 
to , e alguns dos Jaós peleijavam com hu- 
mas armas , a que chamam Calabas , que 
são á maneira das fifgas , que tem huma 
arpoeria de pouco mais de braça e meia 
com o cabo , e lhe andava prezo no braço ; 
e aílim como atiram , fe acertam o inimi- 
go 5 ofifgam. e alando pela arpoeria, os le- 
vam a fi , e os matam , e affim hum deites 
atirando a hum foldado Portuguez , chama- 
do Affonfo Gil, o fifgou por huma ilharga, 
e foi alando por elle. Vendo-fe o foldado 
daquella maneira , arrancou de hum criz , 
que levava na cinta , e deo tal golpe em fi 
naquella ilharga , por onde a fifga eftava 
mettida 5 que fe abrio todo , e a fifga com a 
força fe defaíFerrou , e o foldado foi logo 
foccorrido de outros que o tiraram , e o le- 
varam ás embarcações , onde o curaram , t 
yiveo depois muitos annos : em fim por não 

ga£ 



316 ÀSIÀ de Diogo de Couto 

gaitarmos o tempo , os nofíbs apertaram 
tanto com os Jaós , que com morte de mais 
de íincoenta os mettêram pelos matos eí- 
peíTos , aonde os noílbs não puderam entrar. 
Feito ifto , recolheo^fe D.João Rouqui- 
lho com alguns feridos ; e chegando aos 
Juncos , por fe não embaraçar com elles , 
lhes mandou pôr o fogo aífim carregados , 
e todos arderam fem efcapar nada ; e de- 
pois 5 fegundo nos diíFeram , o Doutor Sant- 
iago de Vera , Governador das Filippinas , 
demandou eíte cravo a D. João Ronquilho , 
dizendo que jáeftava de preza peraElRey, 
e que não o podia queimar , no que lhe 
deo muito trabalho , e não foubemos no 
que iíto parou. D. João Ronquiiho chegou 
a Tidore , onde ficou favorecendo a guerra 
contra EIRey deTernate, dando alguns af- 
faltos em fuás Ilhas , e povoações. Dahi a 
pouco chegou áquella Fortaleza o Galeão 
da carreira , de que era Capitão João Al- 
vares Pereira , em que hia embarcado ; D. 
Álvaro de Caftro provido com aquella Ca- 
pitania , que foi logo mettido de poffe , e 
juraram EIRey D. Filippe porRey pelos pa- 
peis que o mefmoD. Álvaro de Caftro pê- 
ra iífo levava , e aífim ficou correndo com 
os trabalhos da Fortaleza ; e não havendo 
dous mezes que nella eftava , quando deo 
huma enfermidade, que foi geral naquelas 

Ilhas, 



Década X. Cap. VII. 3x7 

Ilhas, que em de ares corruptos, por ha- 
ver mais de dous annos que não chovia, 
de que adoeceram todos , e começaram a 
morrer muitos , e dos primeiros foi João 
Alvares Pereira , Capitão do Galeão , e 
apôs elle D. Álvaro de Caftro , que deixou 
nomeado em feu Teítamento por Capitão 
da Fortaleza a hum Martim Affoníb de Fi- 
gueiredo , cafado em Malaca , por huma 
Provisão que pêra iíTo levou do Vifo-Rey, 
em que lhe dizia que EIRey lhe fazia mer- 
cê da Capitania daquella Fortaleza , fobre 
o que começou a haver algumas alterações, 
e bandos. D. João Ronquilho , que poufava 
na Fortaleza , eílava enfermo , e vendo a- 
quella confusão , fechou-fe nelía com os 
feus , e mandou dizer aos Officiaes , e mo- 
radores , que não havia de entregar aquella 
Fortaleza fenão a quem fe julgafle por juf- 
tiça : que lhes requeria que fe compu^eífem , 
e fe determinaíTe aquelle negocio fem alte- 
ração. Em fim depois de ambos os perten- 
fores debaterem, c requererem feu direito, 
vieram-fe compor em o mefmo D.João, 
que tomando pareceres , e viílas as razões 
de ambos , julgou por Diogo de Azambu- 
ja , vifta a Carta de EIRey , em que dizia 
que fazia a mercê que o Conde lhe diria > 
e a fua Carta , em que também dizia que 
elle lhe fazia a mercê , que o Conde lhe 

di- 



^i? ÁSIA de Diogo de Couto 

diria do Capitão de Maluco > pelo que lo- 
go foi mettido de poíTe. 

Poucos dias depois diifo farou D. João 
Ronquilho , e partio-fe pêra a Manilha , 
deixando já aquella Fortaleza em melhor 
eftado. EIRey de Ternate tanto que foube 
da fua fahida , receando-fe que tornaíTe com 
maior poder, achou-fe fobrefaltado , e pa- 
receo-lhe que feria aquillo fua perdição ; 
porque já que EIRey D. Filippe herdara 
aquelles eftados , devia de mandar metter 
maior cabedal pêra tornar a haver aquella 
Fortaleza ás mãos ; e cuidando no que fa- 
ria , pareceo-lhe melhor meio fazer-fe ami- 
go com EIRey de Tidore, perfuadillo que 
fe levantaíTe contra os Portuguezes , eHef- 
panhoes , que os mataílem a todos , e que 
k não confentiíTem mais outros naquelías 
Ilhas ; e para o obrigar mais , metteo-fe em 
algumas corocoras , e foi-fe a Tidore , e 
do mar mandou recado a EIRey pêra que 
fe viíTem , fem dar conta a Diogo de Azam- 
buja de nada, e foi-fe metter na fua coroco- 
ra \ de que o Capitão foi avifado ; e recean- 
do-fe de alguma novidade , recolheo em a 
Fortaleza a todos os Portuguezes , e nego- 
ciou fua artilheria , e fe poz em armas y 
porque o não tomaífem de fobrefalto. Jun- 
tos os Reys , começou o de Ternate de 
perfuadir o outro ao que levava no inten- 
to , 



Década X. Cap. VIL 319 

to , encarecendolhe ainda mais os Hefpa- 
nhoes , affirrnando-lhe que eram peiores de 
contentar que os Portuguezes , e que com 
tudo huns, e outros fe não contentavam do 
que liberalmente lhes davam , fenáo que ain- 
da fe queriam fazer fenhores das poufadas 
alheias , como fe tinha vifto naquellas Ilhas : 
que deviam de trabalhar por lhes cortar as 
raizes , primeiro que vieílem a crefcer tan- 
to , que comeíTern tudo , e que lheslembraífe 
que ambos eram parentes, cunhados, ami- 
gos , e fobre tudo dehuma mefma lei , a 
quem os Portuguezes tinham feito tão gran- 
des afFrontas : que entendeííem que fe o 
jantaílem hum dia, que aelle o haviam de 
cear ao outro , que o bom feria ajuntarem- 
fe ambos , e convocarem parentes , e ami- 
gos , e cortarem aquelles herpes , primeiro 
que lhes chegaífem aos corações. EIRey 
de Tidore o ouvio bem; e conílderando a- 
quellas coufas , e correndo-as alli todas pela 
memoria , entendeo que lhe vinha bem fuf- 
tentar os Portuguezes em fua terra , porque 
fe os lançaíTe- delia , eíhva muito certo 
tomar-lhe logo o Reyno EIRey de Terna- 
te , como mais poderofo ; e como todas as 
fuás coufas as declaram por figuras , e com- 
parações , não lhe refpondeo mais que com 
eila pergunta : Se dous homens torem a 
hum defaíio , hum com efpada fó , outro 

com 



320 ÁSIA de Diogo de Couto 

com efpada, e rodella, qual delles eítava 
de vantagem? ORey de Ternate lhediífe, 
que o da rodella: Ah fim ? diíTe odeTido- 
re : Pois que fe vê que os Portuguezes são 
minha rodella , quero-me amparar com el- 
les. Vendo o de Ternate aquelle defenga- 
110 , voltou pêra ília cafa , e o de Tidore 
chegando aterra, lhe difleram que o Capi- 
tão eílava na Fortaleza com todos os Por- 
tuguezes poftos em armas , e em grande re- 
volta, fem faberem o que era, do que el- 
le ficou hum pouco embaraçado ; e indo-fe 
á Fortaleza , entrou nella fó , e muito fe- 
guro , e confiado ; e achando todos em ar- 
mas , perguntou que novidade eraaquella? 
Diogo de Azambuja vendo a fegurança da- 
quelle Rey , lhe refpondeo, que lhe difle- 
ram que fua Alteza fe fora m et ter nas co- 
rocoras deElRey de Ternate, que era feu 
inimigo , e que já o tivera prezo ; e por 
não faber o que aquillo feria , eítava pref- 
tes pêra lhe acudir, fe lhe quizeflem fazer 
algum defacato. BIRey eftimou muito a- 
quillo , e Uiq diíTe que aflim fe efperava 
delle. Neíle efcado deixaremos agora eílas 
coufas até tornar a ellas. 



CA~ 



Década X. Cap. VIII. 321 

CAPITULO VIII. 

Das Armadas que o Vifo-Rey D. Francif- 

co Mafcarenhas ordenou : e das nãos 

que ejle anno de 582. partiram do 

Reyno : e do que lhe fucceâeo 

na viagem. 

POrque as coufas de Damão não pode 
fer contarmo-las por pedaços , nos pa- 
receo bem concluirmos com ellas 5 como 
temos feito , por não cortarmos o fio da 
hiftoria : pelo que fera neceíTario tornar 
a continuar com as coufas , em que o Gon- 
de D. Francifco Mafcarenhas provêo no 
inverno , e com as Armadas que defpedio 
pêra fora. Acabado o verão , tratou logo 
o Vifo-Rey das Armadas , que havia de 
mandar pêra fora , e de reformar os na- 
vios pêra iífo , principalmente pêra Mala- 
ca , porque determinou de nos primeiros 
dias de Setembro foccorrer aquella Forta- 
leza ; porque nos derradeiros navios que 
daquellas partes vieram teve cartas de co- 
mo o Achem affrontado do fucceílb paífa- 
do mandava ordenar huma groíla Armada 
contra aquella Fortaleza , e foram as novas 
a tempo que já não podia prover : pelo 
que tinha determinado de na entrada de 
Setembro mandar hum Galeão com cem 
Couto. Tom. VI. KL X ho- 



322 ÁSIA de Diogo de Couto 

homens , e muitos provimentos , e muni- 
ções , a que mandou dar grande prefla , e 
juntamente com iíTo aos navios , c galés i 
que haviam de ir a Malaca , no que fe 
gaitou todo o inverno ; e na entrada de 
Agoito ordenou alguns navios pêra man- 
dar ao Malabar pêra proverem de manti- 
mentos na Coita do Comorim , e algumas 
náos , que eítavam carregando de pimenta 
pêra Meca ; e pêra eíta jornada éiegeo 
D. Gilianes Mafcarcnhas feu fobrinho , que 
começou a correr com a Armada : e por- 
que pela muita guerra que Matinas de Al- 
buquerque tinha feito o anno atrás ao Ma- 
lavar, com que o poz em tanta neceffidade, 
c aperto , que lhe mandou pedir pazes , fe- 
bre o que elle o não quiz ouvir: pelo que 
lhe foi neceflario mandar a Goa a tratallas 
com o Viíò-Rey eíte inverno, e com con- 
íelho dos Capitães fe aílentou que fe lhe 
concedeífem y e que pêra mais authoridade 
foíle Mathias de Albuquerque aoMalavar, 
e que lá as aífentaíle , e concluiífe com 
elle , fem embargo de haver de ir em Ja- 
neiro entrar na Capitania de Ormuz, por- 
que tudo podia fazer até todo o Novem- 
bro , e que fe podia recolher, e deixar a 
Armada a D. Gilianes Mafcãrenhas pêra 
íicar naquella Coita todo o mais reíto do 
Verão. Concluido iíto , começou o Vifo- 

Rey 



Década X. Cap. VIII. 323 

Rey a defpachar os navios que D. Gilianes 
Mafcarenhas havia de levar , que haviam 
de fer oito , : que a quatorze de Agofto 
lançou pela barra fora com tempos aíndá 
verdes , e grandes trovoadas. Os Capitães 
que foram com elle, são : D.João da Cu- 
nha , Francifco de Brito de Siqueira, An- 
tónio Pereira Pinto , Belchior Brangel , Lo- 
po de Atouguia , Diogo Canto , e Sebaftiao 
de Negreiros ; e chegando efta Armada ao 
rio de Bacanor , foube D. Gilianes eílarem 
dentro duas náos á carga pêra o Achem, 
pelo que íurgio fobre aquelía barra , por- 
que não fahiílem pêra fora. Vendo os Mer- 
cadores impedida a barra, e que fedeixaf- 
fem de fazer viagem perdiam muito , man- 
daram tratar com D. Gilianes Mafcarenhas 
que queriam ir pagar direitos á Fortaleza 
cie Barçalor , e a tomarem Cartazes da- 
queile Capitão , e que lhe dariam a iíTo 
fianças, e feguranças, o que lhes elle con- 
cedeo , e elles foram pagar direitos , e 
moílrar como não levavam fazendas defe- 
zas. Feito iíto, paífou D. Gilianes. á Coita do 
Malavar , e foi por ella tomando alguns 
navios pequenos , que hiam a hufcar a noz , 
e conforme a Certidão que paliou deita jor- 
nada , foram treze j e fendo avifadó que 
iio rio de Cunhale fe faziam preítes al- 
guns navios de Coííarios pêra fahirem a 

X ii ron- 



324 ÁSIA de Diogo de Couto 

roubar, foi-lhe neceíTario tomar-lhes aquel- 
la barra , aonde eíteve com infinito traba- 
lho , até chegar Mathias de Albuquerque 
com a mais Armada , e por iflb o deixare- 
mos até tornar a elle , porque he neceífa- 
rio continuarmos com outras coufas. 

Depois que EIRey D. Filippe teve os 
recados que diflemos , e vi o como ficava 
na índia jurado, e obedecido pacificamen- 
te , e bem diíFerente do que pela ventura 
fe efperava , determinou de prover em 
muitas coufas pêra o bom governo daquel- 
le Eítado, e entrou no defpacho das náos, 
de que havia de ir por Capitão Mor An- 
tónio de Mello de Caftro , que tinha com- 
prado aquella viagem a Pedro Peixoto da 
Silva ; e dando-fe preíla ás náos , que eram 
finco, fe fizeram á vela a quatro de Abril, 
o Capitão Mor na náo S. Filippe , Diogo 
Taveira nas Chagas , onde fe embarcou , 
João da Silva, irmão de Fernão da Silva, 
Regedor da Cafa da Supplicação, que era 
deípachado com a Capitania de Malaca , 
e levava comíigo D. Manoel de Almada 
feu fobrinho , filho de D. Antão de Alma- 
da , Capitão da Cidade de Lisboa , e de 
huma fua irmã , Luiz Caldeira na náo S. 
Luiz ; onde fe embarcou Gafpar de Brito 
do Rio , que eílava defpachado com a Ca- 
pitania de Ormuz , Gonfaío Rodrigues 

Cal- 



Década X. Cap. VIII. 325: 

Caldeira na náo Boa-Viagem , e João da 
Fonfeca no Galeão S. Francifco , que havia 
de ir carregar a Malaca. Eftas náos feguin- 
do fua viagem , acharam tempos tão for- 
tuitos , que a náo Capitânia , e o Galeão 
de Malaca , por não poderem paliar os 
abrolhos , arribaram ao Reyno , e a náo 
Chagas paliou adiante , e foi tomar Mo- 
çambique tarde , que lhe foi forçado ficar 
alli ; e depois na entrada de Dezembro fé 
partio pêra o Reyno com a carga da náo 
S. Pedro , de que era Capitão Leonel de 
Lima , que tinha vindo de Malaca, como 
no Cap. VIII. do Liv. I. fe verá ; porque 
por chegar alli tão deílroçada , que não 
podia fazer viagem , fe aftentem que fe to- 
maífe á náo Chagas aquella carga , e fe 
tornaífe pêra o Reyno ? e que a náo S. Pe- 
dro foíle invernar á índia pêra fe concer- 
tar , porque alli não havia apparelho pêra 
iífo : e certo que parece grande defeuido 
não haver naquella Fortaleza huma Ribeira 
de EIRey com a Fabrica de Madeira de 
toda a forte , entenas , e ferro , porque 
cairo , e breu ha infinidade delle pêra alli 
fe concertarem as náos que alli invernão , 
e fe proverem do que houverem de mif- 
ter , a cuja falta , e mingua vimos alli 
perder muitas que importavam muito , e 
cm que EIRey , e os contratadores das 

náos, 



326 ÁSIA de Diogo de Couto 

náos , e qs paíTageiros receberão notáveis 
perdas : e tudo pode EIRey pôr naquella 
Fortaleza , em taurins grandes , e vendelio 
muito bem aos contratadores das náos , 
no que fora mercadoria , e dobrara o feu 
dinheiro , e as náos , que tanto lhe impor- 
ta achar alli o remédio que agora lhes falta. 
Bfta náo S. Pedro , depois que deo carga 
ás Chagas , partio-fe pêra a índia em fim 
de Março ; e por não poder tornar a bar- 
ra de Goa , foi invernar onde invernou a 
náo S. Luiz , de que era Capitão Luiz 
Caldeira : foi-fe metter no parcel de Sofa- 
la ; e eltando furta defronte do Rio Qyili- 
mani com levantes , foi com as correntes 
caçando pêra terra; o que viílo porGafpar 
de Brito, e por outros, havendo a náo por 
perdida , embarcáram-fe no batel , e foram- 
ie pêra terra , o que foi caufa de todos 
defcorçoarem , porque com elles eftavam 
animados. Eílando os Officiaes em grandes 
defconfianças , pafTou pela náo Sampayo , 
que vinha de Sofala^ e o Capitão diíle aos 
Officiaes da náo que fe fizeílem avela com 
a cevadeira , e mezena , e armaífem huma 
cruzeta (porque tinham já cortados os maf- 
tros) e fe foíle pêra Moçambique , que 
elle os acompanharia , porque começava 
já a ventar da banda do ponente ; mas co- 
mo os Capitães , e Officiaes eftavam def- 

cor- 



Pegada X. Cap, VIIÍ. 327 

corçoados de todo , e já não trataram de 
mais que de falvar as vidas , podendo fal- 
var a ellas , a náo , e as fazendas , não 
querendo fazer nada do que elle diíTe , o* 
Capitão do Pangaio 9 tanto que a maré 
encheo por fua própria vontade , deram 
pique ás amarras , e foram varar em terra 
pêra onde fe foram no batel , deixando a 
náo em fecco ; e fazendo-fe em pedaços , 
fem quererem os Officiaes delia mais que 
quatrocentos mil cruzados de real es , que 
levavam de partes , nem paffarem-fe com 
elles ao Pangaio , o que muito bem pude- 
ram fazer , fe entenderam que a náo for- 
çado fe havia de perder ; e davam por ra- 
zão que aquelle dinheiro corria o rifeo 
daquella náo, e que tirando-o delia, acon- 
tecendo-lhe algum defaítre em terra 9 lho 
fariam pagar 5 como fe em ficar na náo 
ganhavam feus donos alguma coufa , e cor-r 
ria menos rifeo que na terra , e affim fe 
perdeo todo á mingua , e ft$o fabemos o 
que em Portugal fe fez niííb. 

Eíle dinheiro foi ter todo áf mãos do? 
Mouros , e Cafres da terra , e delles aos 
cafados de Moçambique , onde Gafpar de 
Brito morreo de febres , íp a náo Bqa-Viar 
gem chegou eíle anno á índia , por que o 
Conde Vifo-Rey teve novas de E1R ey , 
que elle feítejou muito 9 e com iíTo defper 

dio 



328 A SI A de Diogo dè Couto 

dio o Galeão 5 que eftava já preftes pêra 
Malaca , de que tinha nomeado por Capi- 
tão Pedro Lopes de Soufa , que por achar 
tempos contrários tornou a arribar, o que 
o Conde fentio muito pela neceílídade em 
que aquella Fortaleza havia de citar, 

CAPITULO IX. 

Das coufas que o Vifo-Rey mais proveo : 
e de como Mathias âe Albuquerque foi 
ao Malavar , e Guterre de Monroi a 
Cananor : e de como D, Miguel da Ga- 
ma fe foi pêra o Reyno na fua náo Re- 
líquias. 

VEndo o Vifo-Rey que não havia mais 
que a náo Boa-Viagem pêra ir pêra o 
Reyno , por terem chegado novas de Co- 
chim 5 que não fora lá nenhuma outra 
náo , ficou trifte , porque quizera ellê que 
em feu tempo não fe íentíra na índia fal- 
ta de pimenta , que he o fubftancial ; e pê- 
ra remediar ifto 5 fe contratou com D. Mi- 
guel da Gama pêra ir a fua náo Relíquias 
pêra o Reyno , que elle preparou , e ne- 
gociou muito bem pêra fe ir nella , porque 
não quiz efperar pêra fazer outra viagem 
de Japão y porque era tão pouco cubiçofo, 
que ̀ contentou com o procedido da pri- 
mei- 



Década X. Cap. IX. 329 

meira: coufa muito pêra efpantar, porque 
oofficio da cubica he, que quanto hum ho- 
mem mais tem, mais defeja então. 

Em quanto o Vifo-Rey dava deípacho 
ás coufas do Reyno , defpedio Mathias de 
Albuquerque pêra o Malavar , que fe fez 
á vela em fim de Outubro com duas ga- 
lés , elie em huma , e Leonel de Brito na 
outra , e dezefeis navios , cujos Capitães 
eram André Furtado de Mendoça , D. 
João de Caftro , António de Azevedo 5 
Gonfalo Coelho , Sebaftião de Macedo, 
Luiz Gonfalves Magro , Cofmc de Lafetar , 
Duarte da Silveira , Francifco Fernandes 
Moricale , Pedro Fernandes feu fobrinho , 
e. outros : levava mais huma galeaça , de 
que era Capitão hum Foão Corrêa 5 de fua 
obrigação , carregada de mantimentos 5 mu- 
nições , e outros provimentos pêra a Armada. 

Deípedida eíla , ordenou o Vifo-Rey 
com a Cidade outra pêra andar na Cofta 
do Canará , dando guarda ás cáfilas de 
mantimentos , que vem a Goa, que fe ha- 
via de fazer do hum por cento da Cidade, 
como eílava contratado com elía : deita 
Armada foi por Capitão Guterres de Mon- 
roi de Beja , que hia em huma Galé , e 
finco navios , de que eram Capitães Jero- 
tiymo de Azevedo Coutinho , João da Sil- 
va de Vafconcellos , Gonfalo de Soufa, 

Bfti- 



339 ÁSIA de Diogo de Couto 

Balthazar Fernandes , e Manoel Nunes. 
Eíla Armada fez eíte verão três , ou qua- 
tro viagens com cáfilas muito grandes, 
com o que a Cidade fe proveo baítante- 
mente pêra o inverno. 

Defpedidas eítas Armadas , foi o Vifo- 
Rey dando prefla aos defpachos das náos, 
que haviam de ir pêra o Reyno , porque 
não eram mais de duas , e havia muita 
gente: foi a feira tão cara, que por darem 
hum lugar pêra dormir a hum homem , e 
de comer a elle , e a hum moço , levavam 
os Officiaes oitocentos pardaos. Eíta he a 
razão , por que muitos deixaram de ir re* 
querer feus íerviços , porque não tinham 
com que poderem fupprir a tão exceíTivas 
defpezas , como são as deita viagem , e 
depois as da Corte , e ficam morrendo de 
fome pelos Hofpitaes da índia. 

E tornando ás náos a Boa Viagem , 
tomou primeiro a carga , e partio-fe pêra 
o Reyno : as Relíquias pelo muito que te-, 
ve que concertar , deo á vela a vinte e 
hum de Fevereiro, tão tarde que hiam os 
homens defefperados de poderem chegar 
ao Reyno. Seguindo eítas náos feu cami- 
nho , já junto das Ilhas Terceiras peleijou 
a náo Boa Viagçm com três , ou quatro In- 
glezas ; e foi a briga tal , que depois de 
muitos damnps de parte a parte , fe foram 

os 



Década X. Cap. IX. 331 

os inimigos recolhendo. A náo Relíquias 
achou no Cabo de Boa-Efperança tama- 
nhos contraftes que efteve arrifeada , e os 
Officiaes quizeram muitas vezes arribar a 
Moçambique ; mas D. Miguel da Gama 
fempre os animou , e esforçou , foíFrendq 
grandes riícos , e perigos por paliar ao 
Reyno ; e aílím pairou tanto , até que Deos 
lhe deo tempo com que pafíbu o Cabo, 
e chegou a Lisboa, e íurgio dentro no rio 
defronte dos Paços , acudindo toda a Fidal- 
guia, e Senhores que havia na Corte pêra 
defembarcarem D. Miguel da Gama. Quiz 
a defaventura que das muitas bombarda- 
das que a náo atirava pêra falvar a Cida- 
de , que tomaíTe fogo , citando rodeada de 
muitas embarcações , e com muito traba- 
lho fe apagou : e pela muita , e grande re- 
volta em que ifto metteo a Cidade , e pe- 
lo rifeo em que poz a náo , e tanta nobre- 
za, mandou EIRey que nunca mais falvaf- 
fem as náos depois de citarem furtas. Efte 
Fidalgo vendeo a fua náo , e depois de ir 
beijar a mão a EIRey, fe recolheo pêra a 
Vidigueira , onde fe quietou , e apofen- 
tou, e furtou muitas vezes o Gorpo a hon- 
ras, e lugares bem honrados. 

E deixando eítas coufas , tornemos a 
Mathias de Albuquerque , que deixámos par- 
tido pêra o Malavar, que de caminho foi 

vi- 



33^ ÁSIA dê Diogo de Couto 

vifitando as Fortalezas do Canará , proven^ 
do em muitas coufas ; e chegando a Cale- 
cut, íurgio com toda a Armada fobre feu 
porto, e tratou com o Comorim por recados 
fobre o negocio das pazes , de que elle 
cm principio moftrou gofto ; mas como 
delias nao efperavam os Mouros proveitos, 
fenao perdas , que lá tiveram fuás intelli- 
gencias com que entretiveram o Camorim , 
que começou a fe moftrar frio naquelle 
negocio ; e fobre reféns que lhe o Capi- 
tão Mor pedia pêra conclusão das pazes , 
começou a haver tantos inconvenientes , 
e dilações, que enfadado Mathias de Albu- 
querque daquellas coufas ( como quem fa- 
bia mui bem donde nafeiam todos aquel- 
]es eftorvos ) mandou lançar em terra al- 
guns Naires , que o Comorim lhe tinha 
raandado a modo de reféns. E por elles 
lhe mandou dizer , que lhe havia por ale- 
vantadas as tregoas ; e que foubeífe que 
lhe havia de fazer toda a guerra que pu- 
defle ; e tanto que foi noite , deo recado 
a toda a Armada que fe ajuntaífe a elle, 
e foflem furgir defronte da Cidade , e a 
bateflem do -mar, em quanto elle lhe nao 
fizeífe final , porque determinou de man- 
dar queimar duas náo^, que eftavam vara- 
das a huma parte 5 e quiz fazer crença de 
eommetter a deíembarcação pela face da 



Década X. Cap. IX. 333 

Cidade pêra divertir os inimigos a terem; 
os que haviam de ir áquelle negocio, tem- 
po de o fazerem a feu falvo : o que encar- 
regou a Francifco Fernandes Malavar , e 
Jhe deo ordem do que havia de fazer , e 
em fua companhia mandou a Manchua do 
cercaço da fua Galé com alguns íoldados 
de confiança pêra ajudarem. Preftes todos , 
tanto que foi o quarto da madorra che- 
gou a Armada a terra , e começou a ef- 
bombardear com grande terremoto , e ef- 
panto. Os Mouros , que acudiram áquella 
parte , cuidando que os noíTos queriam def- 
embarcar , e o Comorim , mandou que 
acudiíTe todo a feu poder , e a praia fe en- 
cheo de gente armada. Francifco Fernan- 
des , e os companheiros , que tinham a 
cargo queimar as náos ? tanto que ouviram 
a .tormenta,, da artilharia, foram-fc cozendo 
com a ribgira, e hum pouco affaftados das 
náos defeçparcáram em muito íilencio ; e 
chegando a ellas fem acharem impedimen- 
to algum , lhe puzeram o fogo muito á fua 
vontade ; e depois de atear em ambas , fe 
foram recolhendo a feu falvo , ficando as 
náos ardendo com tamanha braveza , que 
mettéram efpanto em toda a Cidade , e 
affím fe desfizeram em pó , e cinza com 
grande mágoa , e dor do Comorim , por- 
que o houve por affronta notável. 

Fei- 



334 ÁSIA de Diogo de Couto 

Feito iíto , recolheo-fe Mathias de Al- 
buquerque , e foi por toda aqúella Coítâ 
fazendo a mor guerra que pode , mandan- 
do queimar muitas povoações por Francif- 
co Fernandes Malavar , e por feu Sobri- 
nho , a quem acompanharam todos aquel- 
les Fidalgos, e Capitães com muito goíto ; 
c as principaes que fe queimaram foram 
Paxagale , Copocate , e Chatica , que são 
as maiores , e as mais fòberbas daquélla 
Coita. Eítas coufas todas fe fizeram com 
muito rifco , e perigo , a/fim á defernbar- 
cação , como ao recolher } e deixando toda 
â Coita aflblada , e abrazada , fazendo-fe 
tempo do Capitão Mór fe ir negocear pêra 
Ormuz , entregou a Armada a D. Gilianes 
Mafearenhas , como lhe efcreveo o Vífo- 
Rey , quando lhe mandou licença pêra fe 
ir entrar na fúà Fortaleza por tíjre caber o 
tempo, e na fua galé fe recolhe^ pêra Goa 
àa entrada de Dezembro , e iòmeçou a 
tratar de feu defpacho , que ú : Conde D. 
Francifco lhe dco mui liberalmente, e em 
Janeiro fe embarcou. 



CA- 



Década X. Cap. X. 335" 

CAPITULO X. 

Do que uconieceo a Fernão de Miranda na 

Cofia do Norte : e de como D. Jeronymo 

Mafcarenhas chegou a Goa , e o Conde 

feu Tio o tornou a mandar embarcat 

pêra irem cafiigar o Colle. 

HE neceíTano que continuemos agora 
com Fernão de Miranda , e com D. 
Jeronymo Mafcarenhas , que efperam por 
nós ha muito. Já atrás temos dito de como 
o Viíò-Rey mandou ordem a Fernão de 
Miranda pêra em Baçaim armar alguns 
navios , pêra com elles ficar guardando a 
Coita do Norte todo o reílo do Verão. 
Com eíle recado fe foi por Baçaim pêra 
dar prefla áquelles negócios , e em poucos 
dias armou oito navios muito bons , e 
cheios de muito luílrofa íbldadefca , e 
meiado de Novembro fe fez com todos á 
veia. Os Capitães eram Franciíco de Mi- 
randa Henriques , Manoel de Carvalhal y 
Pedro de Vargas, Luiz de Freitas, Gafpar 
Vaz , Pedro de Soufa , e Braz da Silva de 
Abreu : neíte mefmo tempo chegou D. Je- 
ronymo Mafcarenhas de Ormuz com toda 
fua Armada ; e fém defeançar dos traba- 
lhos da jornada 5 o dèfpedio o Vifo-Rey 
logo com huma Armada de oito navios 



336 AS IA de Diogo de Couto 

pêra feir a Baçaim ajuntar com Fernão de 
Miranda , pêra que ambos com o Capitão 
daquella ôdade foííem dar hum caítigo ao 
Rey dos Coiles pelos damnos que aquellas 
terras de Baçaim havia tantos annos rece- 
biam delle, de cujos moradores tantos cla- 
mores vinham cada dia aos Vífo-Reys ; e 
querendo o Conde acudir a iílo pela gran- 
de perda que EIRey i e os moradores da- 
quella Cidade recebiam , ordenou que fe 
ajuntaíTem todos eftes Capitães , e que en- 
traflem pelas terras de Colle , e lhas dei- 
truiflem de todo , por tocarem aquellas 
coufas já no credito do Eftado \ porque os 
Lavradores das Aldeias foreiras a EIRey 
de Portugal pêra viverem feguros defte la- 
drão , lhe pagavam em fegredo huma pen- 
são , que era de cada mura de bate dous 
larins , que vinha a montar muito pela 
groílidão daquellas terras : pelo que tinha 
o Viib-Rey mandado a Manoel de Salda- 
nha 5 Capitão daquella Fortaleza , que fe 
fizeíTe preftes com todos os feus morado- 
res , pêra que em chegando D.Jeronymo, 
e Fernão de Miranda , puzeíle logo aquel- 
Ja jornada em eíFeito. D. Jeronymo partio 
de Goa na entrada de Janeiro deite anno 
de quinhentos oitenta e três , em que com 
o favor Divino entramos , e os Capitães 
de fua Companhia foram Pedro Homem 

Pe- 



Década X. Cap. X. 337 

Pereira , João Rodrigues Coutinho , António 
de Lima , D. Manoel Affonfo Henriques, 
João Barriga Simões , Balthazar Jorge Barata , 
e Domingos da Coita. Dada á vela , foram 
correndo a Coita ? e anoitccendo-lhe hum 
dia defronte de Ceitapor ? recolhêram-fe 
dentro naquelle Rio; os navios de D.Ma- 
noel i\ffonfo Henriques , Pedro Homem 
Pereira , Balthazar Jorge Barata , e Antó- 
nio de Lima, e D.Jeronymo com os mais 
navios paííou avante , e foi furgir em hu- 
ma enfeada í que eítava logo perto : os que 
entraram no Rio de Ceitapor foram avifa- 
dos 5 que dentro eítavam dous paráos de 
Malavares ; e pondo-fe em armas 3 toma- 
ram o remo 5 e foram-fe pelo rio afíitna 
pêra os tomarem de fobrefalto , primeiro 
que tiveíTem avifo delles ; e chegando ao 
porto em que eítavam furtos , aífim como 
hiam á voga arrancada , os inveítíram , e 
lançaram muitas panelías de pólvora. Os 
Mouros , que eítavam dormindo bem des- 
cuidados , acordaram em meio das cham- 
mas 5 e não fizeram mais que dar comíigo 
no mar ; e dando os noílos cabos aos na- 
vios , os tiraram com todo o feu recheio, 
e foram furgindo na boca da barra ; e fen- 
do o quarto da madorra , viram os da vi- 
gia vir duas velas de mar em fora deman- 
dando o rio. Eítas eram hum paráo , que 
Couto. Tom. VL P. I. Y tra- 



338 ÁSIA de Diogo de Couto 

trazia hum Tauri carregado de mantimen^ 
tos , e que o dia de antes tinha tomado a 
hum Portuguez ; e apôs eftas velas viram 
logo outra , que era a fuíia de João Barri- 
ga Simões , que por ficar fora da enfeada ? 
onde fe recolheo o Capitão Mor , houve 
vifta daquellas velas , e as vinha feguindo : 
o paráo veio demandando a barra fem ver 
os noffos navios , por eítarem á fombra da 
terra já poftos em armas , efperando que 
lhe foíTem cahir nas mãos , como fizeram , 
e o primeiro que poz a proa no paráo foi 
Balthazar Jorge Barata ; e primeiro que 
chegaílem , lhe deram do paráo ( porque 
também vinham preftes) com hum berço, 
cujo pelouro o tomou pela tefta , e lego o 
derribou morto ; e do outro pelouro cahio 
também hum foldado chamado Domingos 
Pinto , que também logo morreo. Pedro 
Homem Pereira , que hia logo apôs Baltha- 
zar Jorge , poz a proa no paráo , e fe bal- 
deou dentro com feus foldados, e em bre- 
ve efpaço axoráram o navio , mettendo 
todos os Mouros á efpada ; e dando toa 
20 paráo , e o Tauri , tornáram-fe a feu 
porto , onde furgíram até pela manha , e 
os levaram a D. Jeronymo , que não fefte- 
jou muito aquillo pela morte do Barata , 
e defpedio os navios dos Malavares , e o 
Tauri pêra Goa , e com elles D. Manoel 

Af- 



Década X. Cap. X. 339 

AfFonfo Henriques, Pedro Homem Pereira, 
João Rodrigues Coutinho , António de Li- 
ma , e Domingos da Cofta , ficando com 
elJe os navios de João Barriga , e o que 
foi de Balthazar Jorge Barata , de que fez 
Capitão D.Bernardo de Menezes, que hia 
em huma Almadia pêra Baçaim. 

Eíles navios , que hiam pêra Goa > 
encontraram quatro paráos de Malavares , 
com quem peleijáram muitas horas muito 
esforçadamente ; e por ferem muito gran- 
des , e levarem muita gente, não puderam 
fer abordados , e fe affaíláram os noífos 
com hum foldado , que fe chamava de al- 
cunha o Fonfeca , morto, e muitos outros 
feridos , e os Malavares fe foram quaíl 
deftrq^ados ; os navios chegaram a Goa , e 
o Vifo-Rey deo o parao com todo o íeu 
recheio áquelles Capitães , e fobre iífo 
fez mercê de dinheiro , e logo os defpedio 
com tanta preífa , que ainda tomaram D. 
Jeronymo a entrada de Baçaim , que fe 
deteve em Chaul. 

Agora continuaremos com Fernão de 
Miranda, que deixámos fahido de Baçaim ; 
e andando dalli ate Gaçaim , teve por no- 
vas que na enfeada de Cambaya andavam 
alguns corfarios , pelo que lhe foi forçado 
voltar pêra lá ; e fendo tanto avante com 
a Gaçaim , eílando furto da banda de fó- 

Y ii ra. 



34° ÁSIA de Diogo de Couto 

ra , elle com dous navios , de que eram 
Capitães Luiz de Freitas , e Braz da Silva , 
porque os mais eítavam em terra , viram 
vir do mar duas galeotas de Malavares á 
vela, que os vinham demandar , cuidando 
ferem navios de Mercadores ; e fendo já 
perto que os conheceram , e viram que ef- 
tavam em armas , e com o remo em pu- 
nho, voltaram em outro bordo pêra fe aco- 
lherem ; mas Fernão de Miranda com os 
feus navios largaram as velas , e os foram 
feguindo: huma das galeotas não fe prepa- 
rou tão bem , e ficou á terra , e de longo 
delia foi fugindo ; a efta tomou Fernão de 
Miranda o balravento , e deíandou íbbre 
cila; e aflim á vela lhe poz aproa de meio 
a meio , deitando-lhe logo dentro huma 
fomma de panellas de pólvora , e da* pan- 
cada ficou a galeota toda adornada , e da 
preíTa que tiveram de acudirem a vela fe 
acabou de virar , tendo primeiro dado hu- 
ma boa íurriada de eipingardadas aos nof- 
fos , de que feriram alguns , e mataram 
Pedro de Valderrama , muito bom foldado. 
Fernão de Miranda tomou a vela, e a re- 
mo andou á pefcaria dos Malavares , que 
andavam a nado , e aílim ás eipingardadas , 
como ás lançadas , não eícapou hum fó de 
mais de cento e íincoenta que eram. Dos 
outros Capitães hum Luiz de Freitas foi 

fe- 



Década X. Ca?. X. 341 

feguindo a outra galeota ate perto de Ba- 
çaim ? que eram duas léguas ; e indo já a 
tiro de falcão , lhe atirou huma bombarda- 
da , que quiz Deos que lhe acertaile o 
maftro , e que déíle logo com elle em 
baixo ; e chegando á galeota , lhe poz a 
proa , e de bordo a bordo tiveram huma 
mui afpera batalha , principalmente da es- 
pingardaria , de que feriram alguns dos 
nolTos , e entre elles a Luiz de Freitas de 
huma çipingardada pela boca 5 que lhe 
rafgou toda huma queixada. Eílando trava-* 
dos huns , e outros , chegou o navio de 
Braz da Silva , que também os foi feguin- 
do ; e dando huma bombardada na galeo- 
ta , a metteo no fundo , e no mar foram 
todos os Malavares mortos. Feito iíto, 
voltaram os noffos pêra Baçaim 5 onde Fer- 
não de Miranda deixou os feridos , e to- 
mou outros foldados sãos 5 e rornou a cor- 
rer aenfeada de Cambaya, por onde andou 
até lhe darem recado do Vifo-Rey , que 
fe foffe a Baçaim ajuntar com D.Jerony- 
mo Mafcarenhas pêra a jornada de Colle; 
e deixando tudo ? voltou pêra lá ; e quan- 
do D. Jeronymo chegou áquella Cidade , 
havia poucos dias que elle era entrado 
nella. 



CA* 



342 A SI A de Diogo de Couto 

CAPITULO XI. 

De como o Capitão de Baçaim com D. Je- 
ronymo e Fernão de Miranda foram con- 
tra o Co lie : e do que lhe aconteceo 
até chegarem dfua Cidade , e a 
queimaram , e deftruírão. 

CHegados eftes dons Capitães a Ba- 
çaim , adiaram já a Manoel de Sal- 
danha , Capitão daqueila Cidade , preftes 
pêra a jornada, que o Vifo-Rey lhe tinha 
encommendada , e era também chegada to- 
da a gente de cavallo das Tanadarias de 
Tarapor , e Maym pelo ter aííim efcrito 
o Viíb-Rey a Martim AíFonfo de Mello , 
Capitão de Damão , a quem encommendou 
muito que trataífe com o Rey de Sarzeta 
ptra fe achar naquella jornada ; e allim 
pêra mais fegurança delia com a primeira 
guia daqueiles caminhos , que eram intra- 
táveis , Martim AfFonfo de Mello teve nif- 
to tal ordem que fe vio com efte Rey , e 
de tal maneira o perfuadio ao que o Viíb- 
Rey lhe pedia , que lho não pode negar. 
E affentados niííb , lhe deo o Rey de Sar- 
zeta dous filhos em reféns pêra fegurança 
de fua lealdade, e elle fe foi fazer preítes 
na Cidade de Talavarim , que he no ex- 
tremo das terras de Damão ; e das de Col- 

le 






Década X. Cap. XI. 343 

le pêra alli efperar os Capitães. Manoel 
de Saldanha tanto que teve recado de Da- 
mão , poz-fe logo em campo com toda a 
gente que havia y e fazendo alardo , achou 
duzentos de cavallo Arábios , e oitocentos 
foldados de pé , e quinhentos peães gen- 
tios da obrigação das terras , a fora efcra- 
vos dos Portuguezes , eChriftaos naturaes; 
e entre todos oitocentos de efpingardas de 
toda efta gente fizeram três bandeiras ; a 
primeira de toda a gente de Baçaim , que 
feriam perto de trezentos homens , havia- 
de ir com o Capitão de Baçaim, que leva- 
va a bandeira de Chrifto , e com ella fica- 
ram eftes Fidalgos , e moradores daquella 
Cidade de Baçaim Jorge Pereira Coutinho, 
António de André Pereira , e feus filhos, 
D. Francifco de Noronha , D. Francifco 
de Menezes , e D. Bernardo feu irmão , 
D. Ruy Gomes da Silva , Manoel de Mel- 
lo , Ayres da Silva de Mello , D. João 
Tello , e outros ; e das outras duas bandei- 
ras eram Capitães D. Jeronymo Mafcare- 
nhas , e Fernão de Miranda, e a gente de 
cavallo de Tarapor , e Maim ficou com 
feus Capitães pêra rodearem o exercito , 
c pêra corredores , e defcubridores do cam- 
po , em que entrava também huma com- 
panhia de gente de cavallo de Baçaim , de 
que era Capitão D, Francifco de Noronha j 

e 



344 ÁSIA de Diogo de Couto 

e por não haver differenças entre D. Jero- 
nynio , e Fernão de Miranda , ordenaram 
que foílem aos dias , hum na retaguarda , e 
outro na vanguarda, e nelta ordem come- 
çaram a caminhar , levando aífim a baga- 
gem , como algumas peças de artilheria de 
campo no meio do exercito : a primeira 
jornada fizeram até Agaçaim , e dahi paf- 
fáram a Manora , e Aílari i no que fe deti- 
veram três dias , e dalli paflaram a Tala- 
verem , onde já acharam o Rey de Sarze- 
ta com cento e íincoenta de cavallo , e 
quinhentos peães : os Capitães lhe fizeram 
grande recebimento , e Manoel de Salda- 
nha o levou fempre a par de íi , fazendo- 
lhe em toda a jornada grandes mimos , e 
agazalhados , e a fua gente mandou que 
foííe diante a defcubrir o campo, e a mof- 
trar os caminhos , e de longo de huma ri- 
beira caminharam fete dias , por onde fe 
foram detendo, porfer muito frefca , ede 
boa agua até entrarem pelos matos , por 
que foram marchando com infinito traba- 
lho , por fer todo tão efpeífo , afpero , e 
intratável , que fe não podia romper por 
elle pela malícia dos caminhos , que são 
muito eítreitos , c por entre ferranias ai- 
tiílimas , e bambuaes , que fobem ao Ceo , 
e tão grandes , e frondofos que de hum 
fó pé fahe huma mata , que toma grande 

dif- 



Década X. Cap. XI. 345* 

diítancia , e de huma a outra parte fe vem 
ajuntar por lima , deixando os caminhos 
tao eítreitos , e fechados , que em muitas 

Í>artes era necefiario defcerem-fe dos caval- 
os , e levarem-nos pelas rédeas , e irem 
cortando ramos , que davam pelos roftos 
a todos , e lhes fizeram muitas rafcaduras 5 
porque cortam como navalhas , dando eli- 
tes bambuaes de quatro em quatro annos 
nas pontas novas que lançao , humas efpi- 
gas de trigo faminto , que quafi quer pa- 
recer centeio , mas mais louro , de que fe 
faz muito arrazoado pão , e delle colhem 
huma grande quantidade por aquelles ma- 
tos , de que muitas vezes fe fuftentam. Por 
entre eftes matos caminharam os noííos 
muito de vagar , aíTim pela efpeíTura do 
caminho , como pela grande força da cal- 
ma, que affogava os homens , por fer entre 
ferras altiíTimas , onde o Sol reverbera , e 
onde nenhuma maneira de vento, nem vi- 
ração tem entrado ; e havendo quatro dias 
que caminhavam por entre elles , veio ter 
com os da noíTa dianteira hum filho do 
Colle mais -moco , e levado aos Capitães , 
lhe diíTe que elle andava fugido de feu 
pai por aggravos , e fem-razões que lhe ti- 
nha feito, e que vinha alli p'era os fervir, 
e acompanhar , e moftrar os caminhos, e 
ayifallòs de muitas coufas ; e que a primei- 
ra 



346 ÁSIA de Diogo de Couto 

ra era que não bebeíTem da agua dos po- 
ços que achaflem , porque em todos tinha 
leu pai lançado trigo cozido, que he amor 
peçonha que pode fer ; os Capitães o aga- 
zalháram , e receberam bem , e lhe deram 
hum bom cavallo , e algumas peças ou- 
tras , e aquelle dia , e noite foi com elles y 
e ao outro dia defappareceo fem ninguém 
dar fé delle , nem fe foube nunca o que 
aquillo fora ; mas devia de arrepender-fe 
do ódio com que vinha contra o pai. In- 
do affim os noíTos mui enfadados do ca- 
minho, chegou hum peão apreífado , edeo 
duas cartas a Manoel de Saldanha , huma 
de D. Francifco de Caílro , Capitão de 
Chaul , e outra de Francifco de Frias , 
Veador do Melique , e lhe efcrevêra , que 
cllc tinha efcrito a Cide Bofetá (aquelle 
Capitão Abexim , a que D. Conítantino to- 
mou Damão , como na Década VII. fica 
dito) que depois que foi lançado daquel- 
las terras, fe foi pôr a foldo do Melique, 
Rey de Chaul , e Tavia entre os extremos 
de feus Reynos , e daquelle dos Colles lhe 
mandava que com três mil homens de ca- 
vallo partiífe logo em favor dos Capitães 
de EIRey de Portugal , e lhe ajudaífe a 
deítruir os Colles , e que lhe efcreveífe que 
fe foffe detendo até elle chegar ; mas por- 
que não rabia fe aquillo era algum 'eftrata- 

gc- 



Década X. Cap. XI. 347 

gema , lhe encommendava muito que fe 
aprefíaíTe , e que trabalhafle muito de fa- 
zer o negocio a que hiam , primeiro que 
elle chegaíTe. Eítas cartas as moítrou Ma- 
noel de Saldanha a D. Jeronymo , e a Fer- 
não de Miranda, e logo js& novas fe efpa- 
lháram pelo exercito f com que começou 
roftinhos, e defconfianças , a que os Capi- 
tães acudiram , temperando-as com muito 
esforço , afErmando que aquiilo eram in- 
venções do mefrno Colle pêra os entreter, 
e fazer, tornar atrás , e aífim foram palian- 
do adiante com grande refguardo , e no 
cabo de quinze dias chegaram á vifta de 
Tavar , Cidade que eftava edificada em o 
cabo de hum fermofo campo muito largo , 
e direito , e em íima de huma ferra muito 
fermofa , que como atalaia defcubria pêra 
todas as partes muito longe. A Cidade era 
grande , e fermofa 3 a mor parte das cafas 
de pedra , e telha , e os apofentos de El- 
Rey , que eram fantafticos , eítavam cercados 
á roda de jardins , e pomares frefcos a feu 
modo. Tanto que os noííos defcub riram a 
Cidade , na mefma ordem que levavam a 
foram commetter , toda a gente de pé em 
hum efquadrão com fuás bandeiras defen- 
roladas , e a de cavallo pela tefta delia de 
huma, e outra parte : acertou efte dia de 
fer a dianteira de Fernão de Miranda , 

que 



34S ÁSIA de Diogo de Couto 

que ordenou a fua gente muito bem , e 
com muita confiança commetteo a Cida- 
de , que logo foi entrada fem reíittencia , 
porque a tinha EIRey defpejada , e eítavam 
todos os feus moradores por íima das fer- 
ras vendo o nolTo exercito. Entrada a Ci- 
dade , vendo os Capitães que não tinham 
com quem peleijar, mandáram-lhe dar fo- 
go por todas as partes , que fe ateou fo- 
berbiffimamente , pelo que os noffos fe 
fahíram pêra fora , e a huma parte delia 
aílentáram o feu arraial , porque dalli def- 
cubriam o campo pêra todas as partes , e 
nao os podiam inquietar com fobrefaltos : 
aqui eftiveram três dias , em que manda- 
ram queimar todas as aldeias vizinhas , on- 
de fe roubaram muitas coufas , e mataram 
muito gado , e cativaram alguns lavrado- 
res, não deixando pôr alli coufa em pé 
que nao foífe feita em pó , e cinza. 

CAPITULO XII. 

De como os nojfos fe foram recolhendo : e 

dos recontros que tiveram com os ini~ 

migos : e dos cafos que nelles 

fuccedêram. 

P Afiados três dias , em que os noíTos 
eftiveram fobre aquella Cidade , vendo 
que lhe não ficava já nada em que moftrar 

fua 






Década X. Cap. XII. 34^ 

íua ira , alevantáram o arraial , e foram 
marchando por aquelle fermofo campo com 
fuás bandeiras defcnroladas ao fom de 
feus tambores , e pifanos ; e indo pelo 
meio do campo , lhe fahíram alguns de 
cavallo , e travaram com os noífos , que 
não deixaram feu compaílb , e no cabo do 
campo lhe fahio EIRey dos Colles ao en- 
contro com hum corpo de gente , que fe 
eftimava em féis mil homens , e tinha 
mandado diante hum Capitão feu com hu- 
ma boa companhia 5 pêra que travaííe com 
a vanguarda , tanto que entra ffe pelo ma- 
to , como fez ; e outro Capitão que por 
outra parte pegaífe com elle. Com aquelle 
corpo de gente commetteo os noííos da 
retaguarda , e o mefmo fizeram pelas ou- 
tras partes , e deram muito trabalho aos 
que hiam entrando no mato , porque lhes 
tinham tomado as partes altas , e de íima 
os frechavam á fua vontade. D.Jeronymo 
Mafcarenhas , que levava a vanguarda , 
deitou duas mangas de arcabuzeiros pelas 
ilhargas do mato , que foram varejando de 
huma , e outra parte fem defcançarem , e 
derribando muitos dos inimigos ; e Manoel 
de Saldanha, que hia no meio com a ban- 
deira de Chrifto , também fe vio em aper- 
to , porque os inimigos dos altos lhe feri- 
ram muita gente ; e os que mór trabalho, 

e 



3?o AS IA de Diogo de Couto 

€ rifco paliaram , foram os de cavallo , por- 
que hiam mais em barreira, e não fe podiam 
aproveitar delles por irem a fio por aquel- 
las eítreituras. EIRey , que pegou com a 
retaguarda também , apertou muito com 
Fernão de Miranda, que não deixou o feu 
compaíTo , nem fahir foldado algum do 
feu lugar , laborando com fua arcabuzaria 
com muito boa ordem : e todavia allim a- 
pertáram com elle , que lhe foi neceííario 
voltar com lua companhia , e mandou a 
D. Francifco de Noronha , que ficou com 
elle , que com a gente de cavallo pegaíTe 
com os inimigos , por fer ainda no campo 
largo , o que elle fez com muito esforço, 
derribando daquelle primeiro encontro al- 
guns \ e miílurados todos travaram huma 
fermoía batalha. 

D. Francifco de Noronha andando na 
briga foi dar com hum foldado , que efta- 
ya no chão debaixo dos pé? dos cavallos 
dos inimigos ; e rompendo nelles , os fez 
aíFaftar , e alevantar o foldado , e lhe deo 
huma eftribeira , e o fez cavalgar nas an- 
cas , porque eftava muito ferido ; e com 
eíta volta que Fernão de Miranda fez pa- 
raram os inimigos, e os noííos tornaram a 
feu caminho até entrarem nas eftreituras , 
por cujas ilhargas lançou Fernão de Mi- 
randa D. Bernardo de Menezes , e D. Ma- 
noel 



Década X. Cap. XII. 35T 

noel AíFonfo Henriques com fuás compa* 
nhias pêra irern com fua efpingardaria va- 
rejando os matos , e fe affirma que mata- 
ram por entre elles muitos inimigos , por- 
que oitocentas efpingardas que hiam no 
exercito nunca defcançáram , e foram fa- 
zendo por aquelles matos grande deftrui- 
ção* Nefte trabalho paliaram até anoitecer, 
que fe recolheram a huma aldeia , em que 
defcançáram até pela manha com grandes 
vigias. 

Ao outro dia tornaram a feu caminho, 
e começando a marchar j alevantou-fe hu- 
ma voz por todo o exercito que o Cide 
Bofetá vinha já com três mil de cavallo 
perto , e que aquelíe dia feria com elles: 
ifto caufou em todos grande alvoroço , e 
nunca os Capitães puderam enfacar donde 
aquella nova fahio , pelo que não deixaram 
de imaginar que era invenção do Colíe pê- 
ra fazer deíòrdenar os noílos , como mui- 
tos começavam a fazer ; e foi a coufa de 
feição, que fe fumírão alguns, e fe adian- 
taram , e chegaram ás noíTas terras hum 
dia primeiro que todos. Os Capitães fen- 
tindo aquelle alvoroço, acudiram a elle o 
melhor que puderam , e com grande con- 
fiança , e animo os aquietaram , e foram 
caminhando com grande refguardo por al- 
gumas aldeias que mandavam queimar. 

Ef- 



35"2, AS IA de Diogo de Couto 

Efte mefmo dia chegou hum peão muito 
apreílado , e deo a Manoel de Saldanha 
huma carta , e pareceo que era do mefmo 
Cide Bofetá , e nella lhe dizia que ao ou- 
tro dia feria com elles ; c como tinham 
aquellas cartas de D. Francifco r e de Fran- 
cifco de Frias , em que o avifavam que 
elle fe fazia preííes pêra o ir foccorrer, ou 
foííe verdade , ou não , não fe quizeram 
mifturar com elles , e foram mais apreífa- 
damente fazendo fua jornada , dormindo 
nas melhores aldeias que achavam , não 
deixando de ferem períeguidos dos inimi- 
gos , e de efcaramuças. O Rey de Coíle 
defejava de fe fatisfazer da aíFronta qire 
lhe fizeram , e determinou de arrifcar tu- 
do , ou tomar vingança delia, efoi fempre 
ladrando após elles até hum paífo mui es- 
treito , e difficultofo 3 que aquelles matos 
tem , onde fe vem ajuntar duas grandes 
ferras , e pelo pé deixam hum caminho 
tão eftreito, que efcalfamente podem caber 
dous homens : aqui efperou o Colle aos 
noíTos com toda a fua gente lançada por 
finiâ das ferras 5 que ficavam como perpen- 
diculares fobre aquelle traníito pêra dalli 
ás frechadas os derrubarem hum a hum , 
fem fe poderem ajudar huns aos outros , e 
pareceo-lhe que tinha alli a vi&oria certa > 
porque naquelle mefmo palio desbaratou 

o 



Década X. Cap. XII. 35*3 

o pai deíle meímo Colle ao Capitão do 
■Malique , que foi fobre elle , e lhe matou 
perto de dous mil homens ; e fegundo al- 
guns homens antigos de Tarapor dizem , 
foi eíle mefmo Cide Bofetá , e para memo- 
ria deita viftoria tem alli huma ferra de 
oflbs , e caveiras. Chegados os noííbs a 
eíle paíTo , foram entrando fio por elle, e 
os inimigos começaram de íima a encravai- 
los muito á fua vontade, fem elles fe po- 
derem valer , nem defender ; porque como 
os inimigos eítavain por íima daquelles 
picos, e pela ligeireza que lhe a natureza 
deo, delpidos , e encaixados com feus ar- 
cos , e efpingardas nas mãos , faltavam de 
penedo em penedo, como bugios, e hiam 
frechando os noííbs a-feu falvo , de que fe 
elles não podiam defender por lhes ficarem 
os outros fobre as cabeças , e com o pezo 
das armas não poderem menear-fe ; e toda- 
via quem as levava efcapou ás frechadas, 
e todos os mais ficaram tão empenados, 
que pareciam ouriços cacheiros. 

Com todo efte aperto não fe defcuidá- 
ram 0$ Capitães de fua obrigação , e foram 
dando ordem á arcabuzaria , e varejando 
com elia pêra todas as partes; e como era 
tanto , fempre foi derribando muitos , e 
iielle tranfe peleijáram todos valerofamen- 
te na forma em que o pediam fazer. Fer- 
Çouto. ' Tom. VI. P. L Z não 



3?4 ASIÀ de Diogo de Couto 

não de Miranda , que também naquelle 
dia lhe coube a retaguarda , foi muito a- 
pertado dos inimigos , e efteve perdido de 
todo ; e chegando eftas novas ao Rey de 
Sarzeta , que hia em companhia de Manoel 
de Saldanha , em ouvindo que Fernão de 
Miranda vinha trabalhado , como era gran- 
de feu amigo, virou muito aprefíadamente 
alto : Peleija , meu Irmão , que aflim lhe 
chamava fempre ; e chegando a elle com 
a efpada na mão , como o vio em tama- 
nho aperto, poz-fe junto a elle; é chaman- 
do pelos Toldados Portuguezes , lhes diíTe , 
que bradaíTem pelo Sant-Iago dos Portu- 
guezes. E com efte impeto com que en- 
trou acompanhado dos feus 5 carregaram os 
noíTos inimigos , e os fizeram voltar , fican- 
do-lhes daquella feita nove de cavallo efti- 
rados. PaíTado cite tranfe, em que também 
morreram alguns dos noífos , foram cami- 
nhando mais delaffogadamente a entrarem 
nas terras de fua jurifdicçao 3 deixando El- 
Rey de Colle tão deftroçado , que muitos 
annos não tornaram os feus a fe reformar , e 
afemear fuás Aldeias, pelo que lhe foi for- 
çado mandar pedir pazes , deíiítindo da im- 
poíição que queria pomas Aldeias dos Por- 
tuguezes , que o Vifo-Rey lhe mandouconce- 
der; e por ler já firn do verão, recolhêram- 
fe aquelles Capitães das Armadas pêra Goa, 

CA- 



Década X. Cap. XIII. |yf 

CAPITULO XIII. 

J)a defajirada perdição de D. João da Ga* 

ma , vindo de Malaca: e de como fe faU 

vou no batel : e do que pajfou até 

chegar a Cochinu 

SUccedêram tantas coufas juntas na en- 
trada defte anno de 583. que não foi 
poffivel continuarmos com ellas por or- 
dem , e por iíTo feguiremos niílo o me- 
lhor que nos parecer ? porque nos não fi- 
que alguma , nem as confundamos , e por 
iíto deixámos a perdição deitas duas náos 
pêra éíte lugar , por não cortarmos o fio 
as coufas que fuccedêram mais perto. 

No Cap, IX. do Livro II. temos dito 
como o Conde D. Francifco defpachou 
Roque de Mello pêra ir entrar na Capi- 
tania de Malaca , de que tomou poíle , da 
maneira que diíTemos ; e fendo a monção 
de fe partir pêra a índia , que foi eíte 
Dezemoro panado , embarcou-fe D. João 
da Gama com fua mulher , e filhos , e fa- 
zenda em huma náo de D. Jorge Baroche 
feu fogro, que eítava por Capitão de Co- 
chim; e vinha tão rico efte Fidalgo , que 
affirmavam trazer mais de cento e vinte 
mil pardáps de feu , e em fua companhia 
partiram outras náos ? em que entrava o 

Z ii Ga- 



3?6 ÁSIA de Diogo dè Couto 

Galeão, de que era Capitão Fernão Ortiz 
de Távora , que não paffou a Maluco, 
como já diífemos, porque lhe veio melhor 
tornar-fe de Malaca com fazendas a fre- 
tes , por cuja falta a Fortaleza de Maluco 
padeceo os trabalhos que diíTemos , pofto 
que D. João da Gama a proveo algumas 
vezes , fendo Capitão de Malaca , como 
na IX. Década fica dito. E feguindo eftas 
náos fua viagem por differentes derrotas, 
aos ii. dias de Janeiro , entrando pelo 
boqueirão de Nicubar ás doze horas da 
noite, encalhou anáo emhuma lagea, que 
cftá em ii. gráos , com tanta força , que 
logo fe abrio pelo meio. D. João da Ga- 
ma eftava a efte tempo de proa vendo 
mandar á via (porque já os Officiaes hiam 
com receio daquelle baixo ) ; e fentindo en- 
calhar a náo , foi correndo á poppa 5 aon- 
de tinha fua mulher 5 e filhos , e já não 
pode pa{Tar por eftar a náo aberta ; e fen- 
do avifado que os marinheiros fe fenho- 
reavam do batel , receando que lho le- 
vaífem , acudio a elle, e mandou hum cria-* 
do feu , pêra que viííe fe podia paffar á 
poppa , e lhe detiveíTe fua mulher , e filhos 
pêra os recolher no batel ; e aííim foi , 
porque os Lafcarís , que affim fe chamam 
os marinheiros Arábios , vendo a náo en- 
calhada:^ os que eftavam de poppa falta- 
ram 



Década X. Cap. XIII. 357 

ram no batel , e foram-fe alardo á proa 
pêra tomarem fuás mulheres que nella le-^ 
vavam , e recolherem-fe. D. João da Ga- 
ma vendo o batel de proa , lançou-fe den- 
tro com alguns criados feus , e defamar- 
rando-íe , foi demandar a poppa pêra re- 
colher fua mulher , e filhos ; mas como 
naquelle boqueirão corriam as aguas mui- 
to , e o batel hia empachado , e fem re- 
mos mettidos , foi-fe defviando da náo 
hum pedaço grande ; o que viílo por D. 
João , mandou furgir , e lançou ao mai\ 
hum pequeno balão , que dentro hia , e 
nelle mandou embarcar três homens de 
confiança , pêra que lhe foííem trazer a 
mulher, e os filhos , e elle fe deixou ficar 
no batel , porque os marinheiros fe não 
levantaífem com elle. Os que hiam no ba- 
Ião fizeram efquipallo com alguns remos , 
e puzeram a elles efcravos , valentes ho- 
mens , e a poder de braço chegaram á 
náo , e recolheram D. Joanna , que acha- 
ram fentada em hum camarote do porpao , 
e com ella três , ou quatro criados feus, 
que a não largaram , que eftava como mor- 
ra , porque não fabia dos filhos , que eram 
dous , de que logo daremos razão. Metti- 
da efta íenhora no balão , a levaram a feu 
marido , que em extremo fentio vella da- 
quella maneira , e não faber dos filhos, a 

que 



3f8 A SI A de Diogo de Couto 

que elle queria muito , e principalmente 
ao mais velho. Eíle menino eftava com a 
lua ama em outro gazalhado ; e fentindo 
ella a marinada, o tomou comíigo , e fu- 
bio ao convés , que eftava já cheio de 
agua , e alli entre as mãos fe lhe affogou 
o menino fem lhe poder valer : o outro , 
que era mais moço , lançou mão delle hum 
criado , e com elle fe poz da proa na^ 
quella parte , que eftava alfentada fobre a 
lage , e alli o teve comíigo até o metter 
em huma jangada , que alguns fizeram , 
vnde o balão o achou , e o levaram ao 
batel , aonde já tinham levado fua mãi, e 
então foube da morte do outro filho ; e 
tomando eíle nos braços , pranteou o mor- 
to com tantas mágoas 5 que interneeêram 
a todos 5 e magoaram muito mais a D* 
João , que queria áquelle filho como os 
feus olhos ; mas vendo que para remédio 
de todos era neceííario esforço mais que 
lagrimas , tanto que amanheceo , foi de- 
mandar huma daquellas Ilhas de Nicubar, 
a que eftava da banda do Norte , que era 
deípovoada , e nella defembarcou com fua 
mulher, e gente que com elle hia 3 e man- 
dou o balão recolher toda a que eftava 
iia náo, que acharam em jangadas , e por 
ilhotas que alli havia , e em dous dias re- 
colheram perto de trezentas peífoas entre 

Por- 



Década X. Cap. XIII. 35*9 

Portuguezes , e efe ra vos , e morreram a£« 
fogados mais de ííncoenta, 

Vendo-fe D. João naquelle eítado , e> 
que não havia outro remédio pêra lahir 
dalli fenáo no batel , tratou de o concer- 
tar pêra iífo ; e dando-lhe bufea, acharam 
finco , ou féis mãos de arroz , e algumas 
ovas de peixe feccas , a que os Malaios 
chamam trubos , que era o mantimento 
dos marinheiros que hião no batel ; tudo 
iíto mandou D, João pôr a bom recado , e 
deo ordem a fe fazerem arrombados ao % 
batel de muitos bambas que na Ilha ha- 
via , e cortar alguns canudos de outros 
muito groífos pêra nelles recolherem agua 
cera a viagem , e mandou defpejar o ba- 
tel de muitas coufas que levava pêra reco- 
lher nelle a gente que pudeíTe j e em 
quanto fe iíto fez , não quiz D. João que 
ie buliffe no mantimento que havia , que 
era aquelle arroz , e ovas , e o tempo que 
alli eítiveram fe fuftentáram de marifeo to- 
dos y e de palmitos de feífenta palmeiras 
que na Ilha havia ; e por não haver com 
que as cortar , lhes foram aífima tirar os 
olhos, D. João deo muita preífa ao concer- 
to do batel , porque íe receou que da ou-, 
tra Ilha , que era povoada, e em que vi- 
viam grandes ladrões , os vieílem faltear , 
c eítava precatado com algumas armas que 

po- 



360 ASIÂ de Díogo de Cotrro 

pode ajuntar , das que o mar foi lanjan- 
do por aquellas ilhotas ; e como teve tudo 
preftes com fua mulher , e filho , e todos 
os Portuguezes , que eram fmcoenta e qua- 
tro , vendo que ainda o batel era capaz 
de mais , efcôllleo os eícravos , e efcravas 
de melhor feição , e mais obrigação , e 
recolheo dentro perto de noventa ; e a to- 
dos os mais que ficavam na Ilha fez huma 
falia , em que lhes dizia que bem viam a 
diligencia que fizera por lalvar a todos , 
que lhes rogava que fe confolaflem , e fi- 
cando naquella Ilha , paffaíTem como pu- 
deíTem , que elle lhes promettia , e dava 
fua fé que na primeira terra de Chriftãos 
que tomaíTe , compraria hum navio peta 
os mandar bufcar a todos ; e com iíto fe 
fez á vela , e foi feguindo feu caminho 
com tão grande refguardo do arroz , que 
não comiam fenão de vinte em vinte e qua- 
tro horas huma pouca de canja, que fe co- 
zinha em hum boião do Pegú , e meio 
quartilho de agua a cada peíToa , não que- 
rendo D. João que a elle , a fua mulher , 
e filho deífem mais que o ordinário ; e 
affim foram atraveíTando aquelle grande 
golfo com tenção de irem tomar Negapa- 
tão pela banda de fora da Ilha de Ceilão ; 
mas como o Piloto já arriado da perdi- 
ção 3 no cabo de treze dias achou-fe den- 
tro 






Década X. Cap. XIII. 361 

tro da enfeada da Ilha de Ceilão : e por- 
que o tempo não dava lugar pêra fahirem 
delia, e ir demandar os baixos 3 defembart 
cáram em Veadala com feguro dos Ada- 
gares , que são os principaes da terra ; 
mas depois com a cubica do refgate lhos 
quebraram , e reprezáram. Vendò-fe D. 
João naquelle trabalho , mandou avifar o 
Padre Fernão de Menezes da Companhia 
de Jefus , que eítava na coita da peitaria 
por Reitor , pêra que o foccorreíle. Era 
eíle Padre neto do Conde de Cantanhede, 
e filho de D. Pedro de Menezes da Fer- 
mczelha , homem virtuoíb , e bom Theo- 
Iogo , que tanto que teve recado de D, 
João , logo defpedio dous charatoncs car- 
regados de mantimentos , e foldados 5 e 
chegando a Beadala , recolheram D. João 
com toda a fua companhia , e no batel , 
e charatones fe foi D. João de longo da 
coita até Cochim. Defembarcados em ter- 
ra , logo D. João comprou huma Galiota , 
e metteo nella hum homem de fua obriga- 
ção , e lhe mandou que foífe bufcar aquel- 
la Ilha, e recolheífe todas as peífoas, que 
nella ficaram, por fe defobrigar da fé que 
lhes tinha dado. Eíte navio chegou áquel- 
4 a Ilha quafi no fim de Maio , e não a- 
chou nella peíToa viva, porque os da Ilha 
povoada tanto que viram que o batel fe 

par- 



362 ÁSIA de Diogo de Couto 

partio , foram á Ilha 5 e levaram a todos 
que nella acharam com figo. Huma coufa 
ntftáram aqui os da Galeota , que não he 
pêra paíTar : eíla foi , que as palmeiras , a 
que os noílbs tinham comidos os olhos , 
eftavam outra vez renovadas , e cheias de 
cocos em elpaço de finco mezes que a- 
quillo havia paííado. O Capitão do navio 
vendo que alli não havia que fazer , deo 
á vela pêra Pegú , onde levava por regi- 
mento foíle invernar. 

CAPITULO XIV. 

De outra não que fe per deo vindo da Chi- 
na junto de Jor : e dos recados que paf- 
saram entre o Capitão de Malaca , * e 
aquelle Rey fobre a fazenda , que ellc 
roubou delia. 

ENtre as náos que eíla monção partiram 
da China , foi huma de hum Simão 
Ferreira , que fora Contratador da Alfan- 
dega de Malaca , na qual fe embarcou a 
mor parte dos mercadores ricos que aquel- 
la monção partiram pêra a índia , e fe af- 
íirma que vinha amais rica que nunca par- 
tira do porto de Macao ; e atraveífando 
o grande golfo de Cambaya da Ilha de Pu- 
lo Candor pêra Pucotimão, teve hum tem- 
po 



Década X. Cap. XIV. 363 

po tão rijo que lhe levou o batel; e paíTa- 
do elle , indo demandar Malaca , fora do 
trabalho da tormenta , que foi grande , fa- 
zendo pela ventura mais conta com o mun- 
do que com Deos , com quem a não faze- 
mos , íenão aos tempos de neceífídade , e 
trabalhos; fendo em treze de Janeiro, tan- 
to avante , como o rio de Jor, indo á ve- 
la defcuidados , e contentes , foram enca- 
lhar em huma reftinga de pedras , que eílá 
de redor de duas léguas ao mar daquelle 
rio ; e citando a reftinga cuberta , por fer 
agua preamar , de todo ; e fendo a coufa 
tão fabida de todos , que não havia peíToa 
que a ignoraíTe , e o Piloto que na ndo 
vinha havido pelo melhor de todos da- 
quellas partes ; e tanto , que vindo hum 
Junco em fua companhia , eftando ambos 
furtos , hum dia de antes , e vindo os Pi- 
lotos á falia , deo o da náo regimento ao 
outro do rumo que havia de governar pe-, 
ra fe affaftar da reftinga , pelo qual o Jun- 
co foi governado , e paífou a feu falvo , 
e a náo foi encalhar nella de meio a meio 
em dia claro, e fereno; e dizendo muitos 
paíTageiros ao Piloto que Iriam perto del- 
ia , do que elle zombou , ou pêra melhor 
dizer , quillo Deos cegar , e que os pecca- 
dos de todos os levaíTem aífim a encalhar, 
fem fe poderem defviar , que parece quiz 

Deos 



364 ÁSIA de Diogo de Couto 

Deos caftigar o defafforo dos mercadores 
daquellas partes , que fem temor nenhum 
íeu vem carregados de moças cativas al- 
vas , e fermofas , com quem eftão muitos 
annos amancebados , trazendo-as em fuás 
camarás , como mas mulheres ; e como 
grandes , e públicos peccados são de Deos 
caíligados com grandes , e públicos calti- 
gos, elle os tem dado taes neftas viagens da 
China j e Japão na perdição de muitas , e 
ricas náos , que puderam os homens reco- 
lherem-fe , e recearem a pezada mão de 
Deos : e certo que parece que affim como 
naquellas partes reina mais a fenfualidade 
que em todas outras , affim parece que 
moftra Deos alli mais fua ira naquelles du- 
ros , medonhos, e infernaes tempos, com 
que tantas vezes ameaçou , e caítigou a 
muitos que chamam tufões , dos quaes já 
em outra parte dêmos particular relação. 
E tornando á hiftoria, encalhada a náo no 
baixo , foi-fe logo toda a hum a banda ; e 
como os homens hiam defcuidados de tal 
damno , tomando-os aífim de fupito , fica- 
ram todos como pafmados : e todavia al- 
guns mais efpertos acudiram a cortar os 
maílos , e alijar o fato do convés ao mar ; 
mas nada aproveitou , porque como era 
preamar , e a maré começou logo a efca- 
becear , ficou toda^ a náo em fecco , e o 



s Década X. Cap. XIV. 365- 

junco que hia em fua companhia , do qual 
era Capitão , e fenhorio Franciíco Vie- 
gas : como hia governando pelo roteiro 
do Piloto ? foi-fe defviando ao mar derre- 
dor de huma légua ; e em vendo encalhar 
a náo , furgio , e mandou lá o feu batel , 
mandando aos quenelle hiam que não che- 
gaííem á náo , porque lhe não metteíTem 
dentro alguma ancora pêra portar , por 
recear metter-lho no fundo , porfer peque- 
no. Chegado elle á náo , viram andar to- 
dos delia occupados a fazerem jangadas pê- 
ra fe fal varem , e outros já embarcados 
em alguns balões pequenos 5 que trazia a 
náo dentro , e hiam encaminhando pêra o 
junco; e o primeiro que encontraram , foi 
hum , em que hia António Dias de Men^ 
doca , mercador rico , que levava na náo 
íincoenta mil pardáos feus , e com elle 
também Simão de Mendoça , que vinha 
de fazer huma viagem do Japão. Com ef- 
te balão voltou o batel pêra o junco, aon- 
de também foram ter os mais balões ? e 
jangadas v ficando na náo o fenhorio delia 
com algumas peííbas. Tanto que da terra 
viram dar a náo na reftinga 5 acudiram mui- 
tas embarcações , a que chamam Celezes , 
que começaram a roubar, e efcorchar tudo 
o que puderam ; e Simão Ferreira , dono 
da náo ., vendo aquillo 5 embarcou-íe em 

hu- 



366 ÁSIA de Diogo de Couto 

Ruma daquellas embarcações , e foi-fe â 
Jor , e fe aprefentou áquelle Rey i e lhe 
contou fua defaventura , e pedio-lhe que, 
pois era amigo de EIRey de Portugal, lhe 
quizeífe dar embarcações por feu dinhei- 
ro pêra ir tirar as fazendas daquella náo, 
e levallas a terra , que delias lhe pagaria 
íeus direitos. EIRey o confolou , e ihedif- 
fe que fe não agaftaíTe , porque tudo fe lhe 
daria , e mandou logo que o Gfficial da 
guarda , e Alcaide do mar foffe á náo, e 
lhe lcvaíTe todos os Portuguezes , que ef- 
tavam na náo , o que elle fez ; e depois 
que defpejou a náo delles , e que os teve 
comíigo , mandou tirar toda a fazenda, e 
a recoiheo na Cidade em tarracines , a que 
elles chamam Gudces , e o mefmo fez a 
toda a artilheria , cordoalha , poleame , e 
tudo o mais que fe pode tirar da náo ; e 
andando neíla defcarga , foi paliando ou- 
tra náo , que vinha atrás, de que era Ca-* 
pitão Ignacio de Lima , que vinha de fa- 
zer viagem do Japão, em cuja companhia 
fe foi o junco pêra Malaca , e deram no- 
vas ao Capitão Roque de Mello do que 
fe pa!Tava. Vendo elle a importância do 
negocio , defpedio logo João Rebello com 
cartas , e recado pêra aquelle Rey , man- 
dando-lhe requerer fizeíle entrega de todos 
os Portuguezes , e fazendas , conforme ao 

con- 



Década X. Cap. XIV. 367 

contfato das pazes que entre elles havia; 
e vendo-fe elle com aquelle Rey , e tra- 
tando aquelle negocio com elle, lhe diííe, 
que eftava preftes pêra entregar tudo , man- 
dando-Jhe moftrar as fazendas , pêra que 
viíTe que as tinha juntas , e bem acondi- 
cionadas ; e affim o foi entretendo com 
manhas , e invenções até fe partirem pêra 
a índia todas as náos que eftavam em Ma- 
laca , porque tinham em Goa hum Embai- 
xador, que nas primeiras náos, em compa- 
nhia de D.João da Gama , tinha enviado 
ao Vifo-Rey a confirmar as pazes , e ou- 
tros negócios , porque lho não reprezaíTe , 
porque logo determinou de fe alevantar 
com aquella bolada , que era de tamanha 
importância. Tanto que foi avifado ferem 
todas as náos partidas , começou a vender 
em fegredo todas as fedas aos Grames , de 
que João Rebello foi avifado , e fe lhe 
queixou dilto , e efcrcveo a Roque de Mel- 
lo tudo o que paliava , aconiclhando-lhe 
que armaífe alguns bantins , e mandaíTe ef- 
perar eftes Grames ao recolher pêra as fuás 
terras ; e que também mandaíTe algum di- 
nheiro a comprar aquella fazenda", que fe 
vendia eni bom preço. Efte recado achou 
ainda huma náo, que eftava pêra dar á ve- 
la pêra a índia, pela qual Roque de Mello 
cfcreveo ao Vifo-Rey tudo o que naquelle 

ne- 



368 ÁSIA de Díogo de Couto 

negocio pagava , e juntamente defpedio 
hum Chcli , chamado João Pereira , com 
vinte mil cruzados em dinheiro feu pêra 
os empregar naquellas fazendas. João Ra- 
belio puxou tanto por aquelle negocio 
com EIRey , lembrando-lhe as obrigações, 
e amizade que tinha com o Bftado , e que 
não quizeíTe quebrar as pazes , porque o 
Vifo-Rey havia de acudir áquellas coufas , 
que EIRey por lhe tapar a boca lhe co- 
meçou a fazer entrega de algumas coufas 
de menos fubftancia , como foram, pedra 
hume , louça , .cobre, artilheria , e outras 
miudezas , pêra as quaes lhe pedio elle li- 
cença pêra comprar hum junco pêra as 
mandar pêra Malaca , a qual lhe elle deo ; 
mas por detrás defendeo que fe lhe não 
vendeífe fenão hum muito pequeno. Filan- 
do as coufas neíle eítado , chegou a Jor o 
João Pereira , que o Capitão de Malaca 
tinha enviado com o dinheiro , o qual le- 
vava ordem pêra fe entregar a João Re- 
bello , a quem efereveo , que alli lhe man-> 
dava aquelle dinheiro pêra pagar a EIRey 
todas as dcfpezas $ e direitos das fazendas 
da náo , pêra que EIRey tiveífe maior gof- 
to de as entregar; mas como João Pereira 
fempre foi havido por fufpeitofo , e ho- 
mem de invenções , defembarcou de noite, 
e em muito fegredo fe foi ver com EI- 
Rey, 



Década X. Cap. XIV. 369 

Rey, e lhe deo conta do que paliava, af- 
firmando-lhe que o Capitão , e Bifpo di- 
ziam que a fazenda da náo era perdida 
pêra elle, por dar a fua ácoíla, eque por 
iíTo mandava por elle aquelles vinte mil 
pardaos pêra reígate da feda. Com ifto fi- 
cou EIRey defaliviado , e pedio o dinhei- 
ro a João Pereira , o qual lhe elle deo , e 
ao outro dia fe vio com João Rebello , e 
lhe deo duas cartas do Capitão ; e pergun- 
tando-lhe elle pelo dinheiro, lhe diíTe que 
EIRey lho tomara , do que João Rebello 
ficou enfadado , e bem entendeo a maldade 
do Cheli , e foi logo ver-fe com EIRey, 
e lhe moítrou as contas do Capitão , pêra 
que viífe que mandava aquelle dinheiro 
pêra lhe pagar os gaílos , e direitos da- 
quella Fortaleza , pedindo-lhe que pois já 
que o tinha emíi, lhemandaífe entregar as 
fazendas , e que fe pagaífe dos gaílos que 
tiveífe feito. EIRey lhe diífe , que come- 
çaíTe a embarcar as miudezas , e artilheria , 
e que depois o faria ao mais. Com efta 
palavra comprou João Rebello huma cham- 
pana, por lhe não caber aquillo no junco, 
que já tinha ; e começando a embarcar a 
artilheria nella , o mandou EIRey chamar , 
e lhe diífe que não era contente que fe 
embarcaíTe naquella champana a artilheria 
de EIRey de Portugal feu irmão , pois nãg 
Couto. Tom. VL P. L Aa era 



370 ÁSIA de Diogo de Couto 

era bem fearrifcafíe aífim. João Rebello lhe 
refpondeo, que elle tinha licença pêra if- 
fo, e que elle tomava o rifco de tudo íb- 
bre íi ; mas EIRey como todos aquelles 
cumprimentos eram fingidos , e tinha de- 
terminado o que havia de fazer , diífimu- 
lou y e depois da artilheria embarcada , 
mandou huma noite dar furo á champana , 
e em amanhecendo fe achou toda debaixo 
da agua. Não deixou João Rebello de fuf- 
peitar a maldade de EIRey , e foi-fe a el- 
le com alguns companheiros ; e prefentes 
os feus 5 lhe encampou a artilheria de EI- 
Rey , e a fazenda da náo , pêra a todo o 
tempo dar conta delia ao Vifo-Rei da ín- 
dia , e de tudo mandou fazer hum termo ; 
e fahido de alli , embarcou-'e pêra Mala- 
ca , levando forçofamenre o dinheiro; mas 
fez-fe diílo tão pouco cafo , que julgaram 
todos que o Capitão o não perdeo , e os 
mercadores da náo tiveram porfeu partido 
mandarem hum homem ajor apediráquel- 
leRey licença pêra mandarem refgatarfuas 
fazendas , a qual lhe elle deo, e elles fora 
de Jor houveram muita parte delias. 



CA- 



Década X. Caí. XV. 371 

CAPITULO XV. 

Do que aconteceo a D. Gileanes Mafcare- 

nhãs no Malavar todo o rejio do verão : 

e do que aconteceo a André Furtado 

de Mendo ç a no rio de Cunhale com 

humas Gale o tas de Mouros. 

ENrregue D. Gileanes Mafcarenhas da 
Armada do Malavar , ficou continuan- 
do na guerra contra oÇamorim, queiman- 
do , deflruindo , e aflbíando feus portos, 
tendo tal guarda , e vigia , que não pude- 
ram lançar pêra Meca lua? náos , porque 
em lhas fentindo em qualquer rio , logo 
eram queimadas. Os mefquinhos clama- 
vam , e começavam a fentir a fome fobre 
as mais perdas , que todas eram fuás , de 
cafas que lhes queimavam , de palmeiras que 
lhes cortavam, e das almadias que lhes to- 
mavam , de forte que em toda aquella cof- 
ta havia deites prantos, e miferias , o que 
tudo D. Gileanes fazia com pouco rifco ; 
porque aquelles Capitães Malavares , que 
com elle andavam , como homens que ía- 
biam as ruas , os becos , e as ferventias , 
faziam a falvo feu tudo como ladroes de 
cafa ; e tanto fizeram , que duas vezes pu- 
zeram fogo á Cidade de Calecut , de que 
ardeo muita parte , e fe perderão muitas 
Aa ii fa- 



37^ ÁSIA de Diogo de Couto 

fazendas , e na barra lhe tornaram lmma 
Galeota , fobre a qual houve jogo de efpin- 
gardadas, de que morreram muitos Mouros ; 
e por outras duas vezes lhes queimaram a 
povoação de Panane , onde os noflbs tive- 
ram huma muito creípa briga , em que os 
Mouros receberam bem de damno; e affim 
fez D. Gileanes a guerra , que nas partes 
em que fe elles menos receavam , alli 
achavam comligo os noflbs , e lhe faziam 
fentir o feu flagello. E entre os lugares 
que mór damno receberam , foi a Ilha de Ca- 
rimao Duruti , meia légua pelo rio de Cha- 
lé aííima , na qual D. Gileanes mandou dar 
por Francifco Ferreira Moncelo , e com 
elle a mór parte dos Capitães da Armada, 
os quaes defembarcáram nella huma ma- 
drugada , e entraram , queimaram , deílruí- 
ram , e mataram muita gente, e a fora ou- 
tra inútil , que morreo aífogada no rio , 
aonde fe lançaram pêra paliarem á outra 
banda , e foram queimadas muitas fazen- 
das , e huma grande cafa cheia de falitre: 
o mefmo damno paífáram as povoações 
de Calagate , Calccur , e Marate vizinhos , 
e Calecu , Curiche junto de Chalé, e pelo 
rio de Chatua huma boa povoação , onde 
acharam grande refiftencia ; mas por fim da 
referta com morte de muitos inimigos fe 
recolheram a feu falvo, deixando a povoa- 
ção 



Década X. Cap. XV. 373 

çao ardendo em fogo , na qual fe queima- 
ram muitas fazendas , e dentro em huma 
cafa hum Palanquin muito rico da peíToa 
do Comori , o que elle teve por grande 
affronta , e agouro ; e as barras de íufpei- 
ta , onde podia haver paraos , mandou o 
Capitão Mor tomar , e repartio por ellas 
os navios da Armada pêra lhe impedirem 
a navegação : e deílas coube a André Furta- 
do huma vez o rio de Cunhale , por fer 
maior cuvil de ladroes daquella Coita. E 
eítando aqui com grande refguardo , e vi*' 
gias com íinco , ou féis navios , de que 
eram Capitães Cofme de Lafetar , Chrifto- 
vão de Távora feu irmão , António Perei- 
ra Pinto , D. João da Cunha , e outros no 
quarto d ? alva , viram vir três velas deman- 
dar aquella barra, as quaes eram duas Ga- 
leotas de traquete de Malavares , que tra- 
ziam á toa huma naveta pequena de Ma- 
noel de Miranda , Capitão de Dio , a qual 
tomaram em fahindo daquelle porto pêra 
ir pêra 3 Coita de Melinde carregada de 
fazendas , e de mercadores Portuguezes , e 
Gentios. Os noífos em havendo viíta del- 
ias , leváram-íe , e puzeram-fe em armas ; 
e como as Galeotas vinham defcuidadas de 
poderem alli achar aquelle impedimento, 
nem houveram viíta dos navios , por eíta- 
rem abrigados a terra , foram marrar com 

el- 



374 ÁSIA de Diogo- de Couto 

elles , e huma das Galeoras poz o efporao 
por hum dos bordos da fufta de Cofme de 
Lafetar, a qual como eftava preftes 9 deo- 
lhe huma furriada de panelias de pólvora, 
e efpingardaria que a axorou , e apôs iíTo 
fe lançou dentro com os feus foldados , e 
acabou de rendella 5 porque os Mouros que 
eícapáram , lançáram-fe ao mar : a outra 
Galeota ficou mais perto de Chriftovão de 
Távora , a qual como também hia leites , 
deo-lhe huma fal coada , que levava hum 
cartuxo ; e tomando-a de poppa a proa , 
foi fazendo tal deítruição , que affirmáram 
marar-lhe feífenta homens , e inveílio-a 5 e 
lhe deo cabo , e logo fe lançaram dentro 
nella fete foldados dos que hiam de proa, 
os quaes eram Miguel Alvares do Canto, 
Manoel de Soufa , homem Fidalgo , Fran- 
cifco Tavares , Balthazar Vaz Villela , Gaf- 
par Vaz natural do Porto 3 e outros dous , 
a que não íoubemos os nomes y os quaes 
ás cutiladas foram entrando pela Galeota , 
e os Mouros eftavam neíle ponto pêra cor- 
tar a cabeça a hum Vafco Pereira , de fete 
que tinham tomado na Naveta , e o ti- 
nham lançado fobre hum banco pêra iíTo ; 
e o Miguel Alvares , que foi o primeiro 
que entrou , deo entre elles com huma pa- 
nella de pólvora, com que os abrazou , e 
fe affaftáram , deixando a D. Vafco Pereira 

com 



Década X, Cap. XV* 37? 

com hum final já no peícoço. Eftando ef- 
tes fete dentro na fufta dos Mouros , quiz 
a defaventura que ouquebralTe o cabo, com 
que hia atracada á noíTa fufta , ou lho cor- 
taflem , com o que a fufta ficou por detrás 
da Galeota dos Mouros , que foi varar na 
fua praia, a qual eftava já cuberta de Mou- 
ros , que acudiram a favorecella , e entre 
elles o mefmo Cunhale , que andava capi- 
taniando , e fazendo chegar os feus á Ga- 
leota, que já eftava em fecco , e os noflbs 
fete dentro em batalha com os Mouros, 
fazendo maravilhas em armas. Chriftovao 
de Távora vendo-fe defamarrado da Ga- 
leota , mandou remar avante pêra acudir 
aos feus ; mas eram tantas as efpingarda- 
das , e tão baftas as nuvens de frechas , que 
cahiam fobre todos , que não podiam os 
marinheiros paííar avante , e nefta involta 
quiz a defaventura acertaíTem huma roquei- 
rada por fima do joelho a Chriftovao de 
Távora pelo lagarto que o varou todo , e 
elle fe encoftou aomafto com hum acordo, 
e animo efpantofo ; e mandou remar avan- 
te , porque o feu canteiro eftava já cahido 
com numa efpingardada , e não havia quem 
mandaíFe aos marinheiros , que hiam def- 
corçoados. Os que eftavam na Galeota dos 
Mouros carregaram fobre elles tanto, que 
não foi poífivel poderem-fe defender ; e 

ha- 



37^ ÁSIA de Diogo de Couto 

havendo já mais de huma hora que pelei- 
javam , vendo-fe todos feridos de muitas 
feridas , e que o feu navio não podia che- 
gar a tomallos , houveram por partido lan- 
jarcm-fe a nado a elle , porque ahi já não 
tinham que fazer , por a Galeota já eftar 
quebrada , e aííim fe lançaram ao mar, e 
elles, e os cativos , que na náo tomaram, 
que hiarn naquella Galeota ; fó hum , que 
não fabia nadar , ficou nella , e Balthazar 
Villela ataílalhado de muitas feridas , de 
que logo morreo ; e o cativo , que ficou 
dentro , foi levado a terra , e o Cunhale 
por fua própria mão lhe deo hum golpe, 
que o partio pelo meio. Os que fe lança- 
ram ao mar , foram tomar a fua fufta , fó 
dous cativos tomaram a de António Perei- 
ra Pinto. Eítes da Galeota ficaram todos 
feridos , Miguel Alvares de huma lançada , 
e outra frechada , Manoel de Soufa huma 
efpingardada , que lhe varou hum braço , 
e a barriga. Francifco Tavares huma fre- 
chada por huma ilharga , e outros outras 
feridas. D. João , que foi demandar a na* 
veta ? cuidando que era também de inimi- 
gos , chegou a ella , e o mefmo fez André 
Furtado ; e alguns Mouros , que dentro 
hiam em guarda , logo fe lançaram ao 
mar; e os foldados , que entraram dentro, 
querendo-a efçochar , o não confentio An- 
dré 



Década X. Cap. XV. ' 377 

dré Furtado , e teve muito trabalho em lho 
defender* Acabado efte negocio , affaítá- 
ram-fe os noflbs pêra fora, e fe recolheram 
pêra Cananor , levando comfigo a naveta 
com os mercadores , e gentios que nella 
hiam , aos quaes lhe deo fua fazenda , e al- 
li fe curaram os doentes ; mas o valerofo 
mancebo Chriítovao de Távora faleceo da- 
quella bombardada , e dizia-fe que de mal 
curado; mas ella foi grande, que lhe cor- 
tou a perna , e o lagarto , e acabou alli 
hum Fidalgo , quando começava a flore- 
cer , e a dar de íi muito grandes efperan- 
ças ; e Cofme de Lafetar feu irmão , que o 
ientio em extremo , levou a Galeota , que 
rendeo por poppa do feu navio. Deita ma- 
neira profeguio D. Gileanes na guerra , c 
por toda aquella Coita em tantas neceífída- 
des , que obrigados delia , o Rey de Cha- 
lé lhe commetteo pazes , que lhe elle con- 
cedeo , fazendo-fe VaíTallos de EIRey de 
Portugal com certas páreas , e fe obrigou 
a dar do feu rio lugar pêra huma Fortale- 
za na parte que o Vifo-Rey da índia apon- 
taífe, e pêra dia toda a pedra, e cal, tra- 
balhadores , e mais coufas que foífem ne- 
ceífarias , e que correria com a Chriítanda- 
de , aífim como de antes o fazia , e a fa- 
voreceria em tudo , e entregaria algumas 
pecas de artilheria y que eram de EIRey 

de 



378 ÁSIA de Diogo de Couto 

de Portugal 3 das quaes logo fez entrega. 
Com ifto fe deixou D. Gileanes andar pe- 
la Coita até fer tempo de fe recolher ; e 
andando já pêra iíTo , foi avifado que em 
Panane fe fazia huma fermofa náo pêra 
Meca , mas que eítava em parte, onde fe 
não podia queimar ; e querendo-lhe eítor- 
var a navegação , lhe mandou tomar a 
barra por alguns navios, que lhe tomaram 
hum batel , que hia carregado de pimenta 
pêra ella , o qual com medo dos noílos 
navios varou em terra , e a poder de ef» 
pingardadas foi tirado \ e fendo tempo de 
fe recolherem pêra Goa , ajuntou D. Gil- 
eanes Mafcarenhas as náos da China > 
Malaca , Maluco , e mais partes , e com 
ellas fe foi recolhendo de vagar por caufa 
dos Noroeíles. 



CA- 



Década X. Cap. XVI. 379 

CAPITULO XVI. 

Da antiguidade da Cidade de Barcelor 
na Cofia Canard: e de como os morado- 
res delia trataram de tomar a nojfa 
Fortaleza , e por traição , o que não hou- 
ve effeito por chegar a ella D. Gileanes 
Mafcarenhas : e de como elle dcftruio as 
Aldeias de AJfelona , e Cuculí nas terras 
de Salfete. 

A Cidade de Barcelor , que eílá íltuada 
na cofta do Canará em altura de qua- 
torze gráos do Norte efcaços, fegundo as 
efcrituras dos antigos Gentios daquellas 
partes > foi o mais celebrado porjto , e em- 
pório de toda a cofta da índia : e pelas 
coufas que nos contaram alguns Mercado- 
res, nos faz parecer fer efte o porto Selero 
de Plinio , de que fallando , elle diíle af- 
íim : » Quem partir do porto Selero (que 
» elle mette em quatorze gráos do Norte 
» na Cofta da Arábia , o qual parece .fer 
» o porto de Cúria Muria, que hoje anda 
» verificado em dezefeis gráos e meio) e 
» caminhar com o vento hipalo , que he o 
» Ponente , e for governando a Levante , 
» irá tomar de frecha hum dos portos de 
» Canará, de Batecalá pêra Barçolor. » E 
como sita Cidade por íua antiguidade fe 

vê 



380 A S I A DE DlOGÒ DE COUTO 

vê preceder todas as daquella Coíla , pode- 
mos conjecturar fer o Selero de Plinio , 
porque em riquezas , modo de governo, 
policia, com tudo ornais, lie mui diferen- 
te de todas as daquella Cofta, porque ef- 
ta fó fe governa como republica por cer- 
to numero de Senadores , eleitos pelo po- 
vo , que fempre são os mais antigos , que 
parece tomaram da communicaçao dos Ef- 
trangeiros da Europa , que pela via do 
mar roxo antiquiííimamente em tempo de 
Plinio , e antes muito navegaram pêra el- 
le , pelos grandiífimos proveitos que def- 
ías partes levavam , que, fegundo aííirma 
Plinio , montavam cento por hum ; e tam- 
bém porque em nenhuma Cidade da índia 
das maritimas houve fempre tão ricos mo- 
radores como neíla ; porque mui fabido 
lie que os mais delles fallavam por barras 
de ouro , e ainda na noffa entrada na ín- 
dia houve muitos que fallavam por tantos 
alqueires de Pagodes , por onde parece 
que feu commercio , e trato foi fempre 
maior que de todas as Cidades da índia; 
e eítes naturaes de Barcelor , a que cha- 
mam Chatins , que na lingua própria quer 
dizer Mercadores, são homens de 7 grande 
governo, de muito bom confelho na paz, 
e guerra , pelo que viveram tantas cente- 
ias de annos fem jugo alheio , confervan- 

do- 



Década X. Cap. XVI. 381 

do-fe fernpre em feu fer , fuftentando-fe de 
fuás mercancias , egrangearias da terra, que 
dá muito arroz , gengibre, pimenta, e fa- 
zem muitas , e finas roupas , e outras cou- 
fas muitas, cujas rendas, ou foros, ou di- 
reitos de todas as entradas , e fahidas fe 
oíFerecem a hum Pagode feu muito vene- 
rado , e alli ficam em depoíito pêra as ne- 
ceífidades publicas; e de cem annos a efta 
parte , depois que os Portuguezes defcu- 
b riram a índia , íe oíferecêram á devaçao 
dos Reys de Bifnaga , mas não que lhes fi- 
quem fujeitos , e com obrigação de pá- 
reas ; e depois que o Vilb-Rey D. Luiz de 
Ataíde fez naquelle feu porto aquella For- 
taleza o anno de ^(x). (como em feu lu- 
gar com o favor Divino diremos) foram 
os naturaes desfalecendo aíTim no credito y 
como na renda , porque ficaram com hum 
colar no pefcoço , fem fe poderem menear 

Êera parte alguma , porque os mercadores 
.ílrangeiros deixaram de continuar feu 
porto , aflim pelo abatimento das merca- 
dorias , como pela grande cubica dos nof- 
fos Capitães , que tudo o que por aquelle 
rio entra , chamam á Fortaleza , e o com- 
prao á fua vontade , tapando-lhes os ca- 
nos todos pêra os Chatins haverem as fa- 
zendas , fenão por fuás mãos , pelos pre- 
ços que querem , o que lhes foi fernpre tão 

xnáo 



3 8a ÁSIA de Diogo de Couto 

ináo de foffrer , que muitas vezes trataram 
de facudir de íi aquelle jugo 5 que tanto 
lhes carregava , fazendo guerra muitas ve- 
zes áquella Fortaleza 5 e pondo-a em aper- 
tos , e neceííidades , como na IX. Década 
fe verá ; e agora fendo Capitão D. Fran- 
cifeo de Mello de Sampayo , que trabalha- 
va por enriquecer como todos , alTim veio 
a efeandalizar os naturaes , que trataram 
de lhe tomar a Fortaleza á traição , por el- 
le naturalmente fer hum homem apouca- 
do , e ter alli fua mulher, com a qual ef- 
tava mais acanhado : pêra iílò fe concerta- 
ram com huns Chriftãos da terra da obri- 
gação da Fortaleza , nos quaes fentíram 
inclinação pêra iíío , promettendo-lhes gran- 
des dadivas , fe lhes deffem modo pêra po- 
derem tomar aquella Fortaleza ; e andan- 
do elles notando , e bufeando ardis pêra 
iífo , oíFereceo-lhes o diabo hum , que fe 
Deos lho não eftorvára , eítava certa a per- 
dição de tudo ; e foi , dizerem aos Chatins 
que as noífas Endoenças vinham perto , e 
que naquelles dias eílavam os noflbs oceu- 
pados em fuás penitencias , e que coftuma- 
vam quinta feira de noite a fazerem huma 
grande procifsão da Fortaleza até á povoa- 
ção de fora, onde os Chriftãos poufavam, 
que fe puzeíTe huma copia de gente de- 
trás da Fortaleza embrenhados em huns 

ma- 



Década X. Cap. XVI. 38$ 

tnatos , que alli havia , que tanto que a 
prociísão fahiíle , vieífem elies de longa 
do muro , e fe metteíTem na Fortaleza , 
porque ficava fó , e fe fechaíTem de den- 
tro , e que a mais gente eftiveíTe em par- 
te que défle de fupito nos noíTos , andan- 
do na procifsao , e os mataíTem a todos , 
o que feria muito fácil por quão defcuida- 
dos citariam daquelle negocio, AíTentado 
ifto , em que havia pouco que fazer pelos 
defcuidos com que vivemos na índia , e 
com que tratamos com homens que cada 
dia efcandalizamos , eftando todos preítes 
pêra aquella hora , ordenou Deos pelas 
orações , e innocencia de alguns daquella 
Fortaleza, trazer D. Gileanes Mafcarenhas 
com toda a fua Armada a mefma quinta 
feira de Endoenças pela manha , o qual 
por fer aquelle dia tão celebrado de todo 
o Chriílao , lhe pareceo bem psífallo na- 
quella Fortaleza ; e achando-fe aos Officios 
Santos , e á piocifsão , os Chatins de Bar- 
celor , que eftavam preftes pêra aquella ho- 
ra , vendo o eftorvo que fe lhes ofFerecêra 
com a vinda da Armada , deíiftíram por 
então do que tinham ordenado. D. Gilea- 
nes paílbu alli aquelle dia , e noite ; e ao 
outro dia , depois do Officio acabado , fe 
embarcou , e foi fazendo feti caminho pêra 
Goa y e chegado ao Cabo da Ruma , já meia- 

do 



384 ÁSIA de Diogo de Couto 

do de Abril , achou huma Almadia com 
huma carta do Conde D. Francifco Mafca- 
renhas , pela qual lhe mandava que defem- 
barcaíTe no rio do Sal , que vai cortando 
as terras de Salfete , e esboçar no mar pe- 
gado a porta do cabo , e que caíligaíTe as 
Aldeias deAífelona, por andarem feus mo- 
radores alevantados, enao quererem pagar 
os foros. D. Gileanes defpedio a cáfila pêra 
Goa , e defembarcou com toda a gente 
em os navios pequenos ,e foi demandar as 
Aldeias de Aílelona , que são três , muito 
profperas , e grandes, e as deltruio, aíío^ 
lou , queimou , e cortou muitas palmeiras , 
com o que os alevantados ficaram mui que- 
brados , e muitos annos não tornaram as 
Terras a feu fer. Acabado eíle feito, tornou 
a embarcar, e foi-fe pêra Goa. 

Depois no inverno lhe mandou o Vifo- 
Rey que ajuntaíle toda a lbldadefca, efof- 
fe a Salfete , e déíTe o mefmo caíligo ás 
Aldeias de Cuculí , que fempre foram ca- 
beça nos alevantamentos , e as principaes, 
e de mais, e peior gente que todas as de 
Salfete. D. Gileanes o fez ailim ; e ajun- 
tando quinhentos foldados , fe paífou a 
Salfete, e com fuás bandeiras desfraldadas 
entrou por aquellas Aldeias , e todas poz a 
ferro , e a fogo , fem deixar coufa em pé , 
e tudo á viíla de todos os inimigos mof- 
inos , 



Década X. Ca?. XVL 3I5' 

mos , que eram muitos , e andavam em 
magotes de ferra em ferra , vendo deftruir 
fuás fazendas , fem oufarem a lhes acudir. 
Por aqui andou dez, ou doze dias fazendo 
mui grandes eítragos até o Vifo-Rey o 
mandar recolher. 

CAPITULO XVII. 

Dos tratos que mais tiveram os Chatins 
de Barcelor pêra lhes entregarem a For* 
éaleza , os quaes foram defcubertos : e 
de como o Vifo-Rey mandou André Fur- 
tado a foccorrella : e das coufas em que 
mais proveo o Vifo-Rey. 

PArtido D. Gilianes de Barcelor, vendo 
os Chatins que perderam por fua cau- 
fa tão boa occaíiao , tornaram logo a aper- 
tar com os mefmos Chriftaos, e alfentáram 
com elles que lhe abririam a Fortaleza hu- 
ma noite, eque peitariam pêra iíío os que 
tinham as chaves. Eíles velhacos , a quem 
o demónio trazia cegos , defeubríram efte 
negocio a outro Chriítao , de quem o Ca- 
pitão fiava as chaves ; e tantas promeífas 
lhe fizeram que o renderam 5 e concluíram 
entre todos , que de noite no quarto da 
madorra mettefíem até fincoenta homens 
por efeadas , que lhe lançariam de íima, e 
Couto. Tom. VL P. I. Bb que 



3S6 ÁSIA de Díogo de Couto 

que eftes deflem fogo á artilheria, que el- 
les teriam cevada , e a eíle final acudiriam 
ires mil homens de armas , que haviam de 
eftar preftes - y que nefta revolta o que tinha 
as chaves da fortaleza lhe abriria as portas , 
que a tomariam ; e que quando ifto não pu- 
deífe fer, que fubiífem todos pelas efcadas , 
que lhe ficariam lançadas, e que osfincoen- 
ta fe fortificariam no Baluarte até os mais 
fubirem. Aífentado ifto entre todos, e que 
o dia havia de fer vefpera dePafcoa, como 
noífo Senhor he guarda das Cidades , elle 
ordenou que fe viefle a defcubrir efta trai- 
ção , ou ao menos a fufpeitar pela muita 
familiaridade que viram ter eíles velhacos 
com os Chatins , e nas muitas idas, e vin- 
das , que nefte dia fizeram ao Barcelor; 
pelo que o Capitão os mandou prender, e 
pôr a tormento , no qual confeílaram tu- 
do , aílim como temos dito ; pelo que fo- 
ram executados publicamente, e logo def- 
pedio ao Vifo-Rey o traslado dos autos , 
e papeis , pêra que foubeífe o eftado em 
que ficava, e o remediaííe, e provefle , e 
teve dalli por diante grandes guardas , e 
vigias nas chaves , e nos Baluartes. Os Cha- 
tins fabendo ferem defcubertos , deteraiH 
náram declaradamente fazer guerra á For- 
taleza , e tomalla por armas , e pêra ifto 
fe confederaram com EIRey de Tolar feu 

vi- 



Década X. Cap. XVII. 387 

vizinho , que quiz achar-fe neíte negocio; 
e ajuntando ambos finco mil homens, aba- 
laram contra a Fortaleza com tenção de 
roubarem a povoação de fora , e cativa- 
rem os cafados que nella moravam pêra 
aífim ficar a Fortaleza mais enfraquecida : 
iíto não pode fer em tanto fegredo, que o 
não vieííe a faber o Capitão, o qual com 
muita prefía mandou recolher dentro tudo 
o que havia na povoação , e poz Capitães , 
e gente de guarnição pelos baluartes , e pre- 
parou a artilheria pêra a fua defensão , e 
recolheo os mantimentos que pode , e re- 
parou as partes mais fracas , e tornou a 
avifar ao Vifo-Rey do perigo em que fica- 
va. Os inimigos chegaram á povoação a 
fegunda oitava da Paícoa no quarto da al- 
va ; e achando-a defpejada , lhe puzeram o 
fogo. Alguns foldados noífos, que ficaram 
em guarda da couraça, onde a gente eíla- 
va recolhida , fentindo os inimigos , fahí- 
ram a elles já manhã clara , e ás efpingar- 
dadas mataram alguns , e fe recolheram , e 
os Chatins foram aflentar o feu campo em 
parte , em que a artilheria lhe não podia 
fazer nojo , e dalli commettêram , e in- 
quietaram os noíTos com rebates , e aíTal- 
tos ; e como os provimentos da Fortaleza 
(que mais fe podem chamar cumprimen- 
tos) são fempre tão taixados, começaram 
Bb ii a 



388 A S I A de Diogo de Couto 

a faltar as munições , pelo que foi neceíTa- 
rio a Francifco de Mello recorrer ao Ca- 
pitão da Fortaleza deOnor, que eftava 
muito perto , o qual com muita preífa lhe 
mandou hurna manchua com pólvora , chum- 
bo ? murróes , e outras coufas deita forte y 
e alguns poucos foldados , com que fe fica- 
ram remediando melhor. Chegados os re- 
cados ao Vifo-Rey , no meftno dia man- 
dou fazer preítes André Furtado de Men- 
doça pêra ir de foccorro , e lhe deo tanta 
preífa que aos quinze de Abril , dous dias 
depois do recado , fahio pela barra fora 
com quatro navios , de que , fora elle , eram 
Capitães Diogo Corvo , Pedro Fernandes 
Moricole , c Pedro Fernandes Malavar , e 
em fua companhia foram ciguns navios, 
que eftavam pêra ir pêra Cochim , ficandg 
o Vifo-Rey negociando outros pêra Jhe 
mandar logo. André Furtado deo-fe tanta 
preíía , que em dous dias chegou áquella 
Fortaleza ; e defembarcando em terra , a 
tomou logo á fua conta por levar Provi- 
sões fobre tudo , e proveo os Baluartes de 
Capitães , e hum deo a Diogo Corvo , e 
outro a Pedro Velofo, e mandou reedificar 
as partes neceflarias , e fez todas as mais 
coufas que cumpriam á defensão daquellas 
Fortalezas com muita ordem , e prefteza. 
Os inimigos tanto que fouberam fer che- 
ga- 



Década X. Ca*. XVII. 389 

gado foccorro , alevantáram o campo ., e 
defiftíram da empreza. Logo André Furta- 
do foi avifado , e defpedio os navios pêra 
Cochim , e Cananor , que foram em fua 
companhia , e ordenou algumas manchuas , 
com que começou a fazer guerra pelo rio 
dentro aos Chatins , dando-lhes muitos , c 
contínuos afíaltos por todas as Aldeias ; e 
hum dia mandou a Diogo Corvo que déíTc 
no campo dos Ghatins com a fua gente , o 
que elle fez com muito animo, e teve hu- 
ma mui boa referta com os inimigos , aos* 
quaes tratou muito mal j e depois de fazer 
ao que hia muito bem , fe recolheo com 
Jiuma efpingardada em huma perna , da 
qual logo farou ; e outro dia foi o mefmo 
André Furtado dar em o Pagode Condan- 
fur, ao qual fe recolheo alguma gente , e 
lhe lançou dentro tanto fogo , que abrazou 
a todos , e queimou o Pagode , o que el- 
les fentíram muito, por fer de muito gran- 
de veneração fua peia oftenfa feita á fua 
religião , e na reedificaçao , e purgação d el- 
le ( a que elles chamam defempolear) gaf- 
taram muito dinheiro, e tempo. E porque 
tornou a haver alteração nos conjurados 
com aquellas coufas , avifou André Furta- 
do ao Vifo-Rey, pedindo-lhe gente, a qual 
elle lhe logo mandou em dous navios , de 
que eram Capitães Aífonfo Ferreira da Sil- 
va, 



390 ÁSIA de Diogo de Couto 

va , e Gafpar Fagundes , os quaes chega- 
ram áquella Fortaleza já em quinze de 
Maio. Com todas eítas coufas não fe ti- 
nha o Vifo-Rey defcuidado das outras de 
fua obrigação; porque no tempo que def- 
pedio André Furtado , andava negociando 
os provimentos pêra Malaca , e Maluco , 
que eram dous Galeões , o em que tinha 
arribado Pedro Lopes de Soufa em Setem- 
bro paííado , do qual deo a Capitania a 
Sebaíiião de Rezende ; e o outro Galeão , 
que havia de ir para Maluco , era do Ca- 
pitão Fernão Botto Machado provido com 
aquellas viagens.. Eílando já preftes pêra 
partirem , chegaram as novas de Malaca, 
e o Embaixador que EIRey de Jor manda- 
va a confirmar as pazes , que tinha feitas 
com D. João da Gama , ao qual o Viíb- 
Rey recebeo bem , e mandou apofentar ; e 
porque não houve dúvida em o Regale en- 
tregar a fazenda da náo de Simão Ferrei- 
ra , pois lhe ficava naquella Cidade o feu 
Embaixador , aflentou-fe em Confelho , que 
bailava por então o Galeão de Sebaíiião de 
Rezende , porque também era já o fim de 
Abril 5 e não havia tempo pêra mais foc- 
corro : eftes dous Galeões partiram de Goa 
já tarde ; e por acharem os tempos con- 
trários , tornaram a arribar , e Sebaíiião 
de Rezende foi tomar Goa a Velha ; e Fer- 
não 



Década X. Cap. XVII. 391 

não Boto metteo-fe em Angediva , onde in- 
vernou ; e com o mefmo tempo , que foi 
Sul desfeito , arribaram também as náos 
que hiam pêra Malaca , eada China , de 
que era Capitão Francifco Pais , que hi^t 
fazer a viagem do Japão por D. Leoniz 
Pereira , que eftava pofta nelle , e ficou 
também invernando em Goa a Velha ; e 
Ayres Gonfalves , que eftava em Japaor 
fazendo aquella viagem que tinha compra- 
do , ficou fazendo eftoutra , que cabia a 
Francifco Paes por virtude de lua Patente > 
porque era provido de huma, cuja Patente 
dizia que tinha falta de algum regiílo. Eíta 
arribada deitas náos fentio o Vifo-Rey mui- 
to pela falta que havia de fazer em Mala- 
ca , e pela neceflidade que lá podia hayer 
naquelle tempo. 



DE- 



20^ 

DÉCADA DECIMA 

Da Hiftoria da índia. 

LIVRO IV. 



CAPITULO I. 

Das coufas que ejle anno de 5 8 3. em que 
andamos fuccedêram em Perfia : e de co- 
mo Oxa foi contra feu filho Abax Mir- 
za , que ejiava no Cohoraçone por indu* 
zimento de Mirza Salmas Georgiano. 

JA que temos entrado no inverno , fe- 
guiremos a ordem que começámos > 
que he contar nelle as coufas alheias , 
e aííim continuaremos com as da Perfia, 
de que o anno atrás temos dado razão : 
pelo que fe ha de íaber, que quando Axa- 
thamas , como já temos dito , tratou de 
desherdar feu filho Codabanda por cego, e 
deixar o Reyno a Ifmael filho fegundo y 
havendo que da culpa da natureza a não 
tinhão feus netos filhos de Codabanda , e 
que não era juítiça que feus filhos , que de- 
pois de fua morte lhe houveram de fucce- 
dçr no Reyno , ficaíTem desherdados , deter- 

mi- 



Década X. Cap. I. 393 

minou repatir com elles feus cftados , por 
não íer de todo notado de cruel. E affim 
deo a Província Cohoraçone a Abax Mir- 
za o mais moço ; e que em quanto elle 
Chathamas fofle vivo fe não intitularia fe- 
nao por Governador; mas que depois to- 
maria o titulo de Rey , deixando o mais 
velho pêra outra coufa , que elle teria em 
feu peito , a qual pela morte o atalhar não 
houve effeito , ficando o pobre Príncipe 
chamado Amirhanze Mirza desherdado , 
fendo por íi muito valeroíb , e digno por 
certo do grande , e eítendido Império da 
Períia ; mas como os Reys não reinam fe- 
não por ordem de Deos , e não da dos 
homens , e as eleições que a elles lhes pa- 
recem acertadas , nos olhos de Deos são 
muitas vezes reprovadas , ordenou depois 
elle que iografle o Ifmael o Rey no pouco , 
e fofle morto pelos feus , e que tornaíTe o 
Reyno a Codabanda , a quem de direito 
pertencia, como na Década IX. mais par- 
ticularmente fe verá. Efte Rey Codabanda 
tanto que foi eleito , e pofto na Cadeira 
do Reyno, deo o governo de tudo a Mi- 
kar Saímas Georgiano , homem revoltofo , 
inhumano , e muito cubiçofo , o qual ca- 
fou logo fua filha que tinha com Amirha- 
Zem Mirza, filho herdeiro de Codabanda, 
com que ficou fua tyrannla deitando maio- 
res 



394 ÁSIA de Diogo de Couto 

íes raizes. Eíte vendo que feu genro ha- 
via de herdar o Império daPeríia por mor- 
te de feu pai , e que feu irmão Abax Mir- 
za eftava na Provinda Cohoraçone , que o 
avô em lua vida lhe dera , foi-ihe mao de 
íbffrer , parecendo-lhe que fe ficaífe naquel- 
le eílado , por morte do pai ficava o Iow 
perio da Períia muito quebrado , por fer 
aquella a principal Província delle; e que- 
rendo atalhar iíto , metteo em cabeça a 
EIRey, que o Abax Mirza feu filho fe in- 
titulava no Cohoraçone , onde eílava , por 
Rey da Perfia , e que já não lhe conhecia 
obediência, o que claramente fe via, por- 
que já nas revoltas paliadas nunca lhe man- 
daram foccorro contra o Turco ; e como 
puzeífe fem dúvida o pé na Períia , o pren- 
deria a elle , e a feu irmão, e os mataria 
pêra ficar fenhor de tudo ; e como eíte 
homem tinha grande authoridade diante 
de EIRey , e aquelle negocio tocava era 
tyrannia , coufa tão aborrecida , fez indi- 
gnallo contra o filho , pelo que aífentou 
com os do feu Confelho que Salmas tinha 
fobornados , que lhe era neceífario acudir 
ao Cohoraçone , em quanto o Turco não 
bolia comíigo ; e querendo ultimamente 
partir em pefloa com todo o feu poder 
contra o filho , concertou-fe com o Mamu- 
.çhiar arrenegado ( que com o fucceíTo de 

Te- 



Decad^. X. Cap. I. 395: 

Tefil ficou odiado com o Turco) e depois 
de fe tornar pêra as fuás terras , fe tinha 
cafado com Jiuma irmã de Simão Bel , cou- 
fa que Oxá eílimou , por entender que af- 
fim teriam as coufas da Períia mais fôle- 
go ; e o concerto que fez com elle, foi,, 
que elle , e feu cunhado fe fizeífem em 
hum corpo contra o Turco , porque por 
ferem feus Eftados juntos , bem podiam a 
pouco cufto defender-lhe aquelles paífos , 
e entradas , e romper-lhes os exércitos, 
que por elles paífaílem , e com iífo deixou 
a Imagulichão , Capitão mui experimentado, 
na Província de Xerutao , e em Tabris a Hi- 
marcham , Capitão dos Turquimaes , com 
o qual (por ter delle algumas fufpeitas) 
teve primeiro praticas , em que o quietou , 
c fe fegurou ; e depois de prover em eftas 
coufas , e outras , fe poz no caminho de 
Cohoraçone , levando comíigo leu filho, e 
fogro , que teceo aquellas meadas ; e con- 
tinuando feu caminho , foi entrando por 
aquella Província até á Cidade Cenfuar, 
a qual achou fechada , e o feu Capitão re- 
colhido dentro com grande guarnição, por- 
que não fabia o modo , e tenção com que 
aquelle Rey vinha; e pêra fe defenganar, 
lhe mandou hurn Embaixador primeiro fa- 
ber delle fe tinha algumas culpas , e que 
primeiro o ouvilfç 7 porque aquillo que fi- 

ze- 



396 ÁSIA de Diogo de Couto 

zera não era mais do que pêra fegurar fua 
peffoa ' y mas como o Mirza Salmas hia com 
o animo damnado por deíviar EIRey de 
lhe acceitar fatisfaçóes , lá por detrás indu- 
zio aos Toldados que commettefiem a Cida- 
de , e mataflem ao Capitão , e que elle lhe 
fegurava hum grande íaque delia ; e tanto 
fez nifto , que íem ordem alguma accom- 
mettêram com muitas efcadas , e vaifvens, 
com que deram com as portas fora , e af- 
fim foi a Cidade entrada com morte da 
Capitão , e laqueada , roubada , e efcalada 
de todo com grandes cabeças. Feito ifto, 
paliou EIRey adiante com o feu exercito, 
e foi recolhendo as guarnições das Cida^ 
des de Nexcor i Maxet , Niríls , Turbat, 
Guien , Malan , e Coran , mandando cortar 
as cabeças a alguns de feus Capitães por 
ordem do Salmas , porque com a morte 
deites (que eram os principaes daquella 
Província) ficaíle o Abax menos poderoío. 
E aflím chegou á Cidade de Hers muito 
forte por íitio, e bem cercada de muros, 
e cavas cheias de agua , a qual o Grão 
Tamorião , que a edificou , fez alli trazer 
de muito longe* Nefta Cidade , que era a 
cabeça daquelle .Eftado , eílava Abax Mirza 
com muitos Capitães inimigos mortaliífi- 
mos de Mirza Salmas ; e eílava muito for- 
tificado . porque não fabia a tenção do pai , 

e 



Deceda X. Cap. I. ^yy 

c fora avifado da ira com que hia entran- 
do por aquella Província ; e até fe não cer- 
tificar da verdade , não quiz offereccr-fe á 
ira do pai. Chegado EIRey aquella Cida- 
de , aíTentou fobre ella feu campo , e co- 
meçou a fentir em feu animo diveríbs ef- 
feitos de dor do filho , veíido que o cafo 
que alli o trouxera era de forte , que' por 
força havia de parecer cruel aos homens y 
havendo por grande infelicidade aquelle 
cafo : e que feu filho em lugar de fuften- 
tar , e defender a dignidade paterna , e ajun- 
tar fuás forças com elle pêra refiftirem a 
tamanho inimigo \ dera occafiao (fegundo 
lhe fazia crer o falfo Salmas) pêra lhe en- 
trarem por feus Reynos , e lhe tomarem 
parto de fuás Cidades ; e poílo que eftas 
couí^s o atribulavam muito , e o Salmas 
cada dia mais o atiçava a ira , e indigna- 
ção contra o filho , defejava de haver al- 
gum bom modo pêra algumas ccufas vi- 
rem a bom eftado, e não chegar a banhar 
as mãos no fangue do filho ; e mais tam- 
bém , porque aquella Cidade era mui for- 
te, e eftava muito bem provida, pelo que 
não era pofuvel rendella tão de preíla. O 
Principe Abax Mirza tanto que feu pai af- 
fentou o campo , logo lhe efcreveo huma 
carta , em que lhe pedia que lhe íignilicaf- 
fe as coufas que o moveram a indignar-fe 

con- 



398 ÁSIA de Diogo de Couto 

contra elle \ e fe era pêra lhe tirar aquel- 
le fenhorio , que EIRey feu avô lhe tinha 
dado , de que elle eílava de poíTe , fem 
nunca nelle o defervir , não era jufto ín- 
quietar-fe naquella matéria , e que elle co- 
mo filho obediente eílava preíles pêra com 
o fangue , e com a vida obedecer a todos 
os riiandamentos paternos, e a reconhecei- 
lo por Rey, e Senhor, como o era, eque 
ninguém mais que elle houvera de traba- 
lhar pêra o fuílentar naquclleEftado , e fa- 
vorecello , e ajudallo contra feus vizinhos , 
e comarcãos , huns bequis , que de contí- 
nuo lhe faziam dura guerra : que iílo era 
honra , e credito do Império da Perfia, e 
não mover contra elle feus exércitos , com 
que déíTe onfadia aos inimigos em elle vi- 
rando as coílas a voltarem fobre elle , e 
acharenvno enfraquecido pela falta dos 
Capitães que lhe matara ; que fe fua vin- 
da era a caítigar algumas culpas , que elle 
pela ventura inadvertidamente commetteria 
contra feu ferviço , que elle eftava muito 
apparelhado pêra com a vida , e eílados 
fazer todas as emendas que foífem necef- 
farias pcra fua fatisfação ; e iílo mefmo 
efcreveo ao Príncipe. Lerão ÍÒs , coníide- 
rando nellas as razões , e reverencia com 
que fe fubmettia a elles, vencidos de pie- 
dade , ficaram alguma coufa temperados 

na 



Década X. Cap. I. 399 

iia ira , e aílentáram de levar aquelle ne- 
gocio por outros termos ; e allím lhe re- 
ípondêram que fua vinda não era pêra lhe 
tirar o que feu avô lhe dera , mas que , fe 
fbfíe neceflario , pêra lho dar , e confir- 
mar de novo ; mas que íb o trazia a gran- 
de deíbbediencia que moítrára em fe inti- 
tular por Rey da Perfia , fendo elle vivo, 
e não querer mandar hum fó Capitão em 
fua ajuda contra os Turcos , que com ta- 
manhos exércitos lhe tinham entrado por 
fuás Províncias. Com cilas cartas ficou 
Abax Mirza defatinado , entendendo logo 
ferem tudo invenções do Saloias feu inimi- 
go , e affim logo tornou a efe rever a feu 
Pai , que ílíetléíFe licença pêra mandar feus 
Embaixadores , porque determinava de mof- 
trar diante delle fua innocencia , e a mal- 
dade de quem induzira contra elle as ar- 
mas paternas. EIRey lha mandou , e elle 
defpedio alguns homens graves , e velhos 
pêra reprefentarem fuás coufas a EIRey: 
cftes chegados a elle , os ouvio fó com o 
Principe ; elles proftrados por terra lhe de- 
ram fua embaixada nefta forma: » Senhor, 
» Abax Mirza teu obediente filho te man- 
» da por nós humilhar a eftes teus pés , e 
» que te jura pelo Creador dos Ceos , e 
» da terra , que eílendeo eíle ar , e poz a 
> terra fobre os abyfmos , e ordenou eífes 

â Ceos 



400 A S I A de Diogo de Couto 

» Ceos com as eftrellas , e efpalhou as 
y> aguas de redor da terra , e o fogo fepa- 
» rou em fua esfera , e que de nada fez 
» todas as coufas viventes , e pela cabeça 
» do Profeta Mafamede , por fua mulher, 
» e filhos , que já mais na culpa que lhe 
» puzeram , elle nem por obra, nem por 
» penfamento tem peccado contra ti , e o 
» mefmo juramento fazemos nós por' elle : 
» e da fua parte , e da noífa pedimos que 
» mandeis tirar devaflas deite cafo , e que 
» caftigueis o que tiver culpa nelle, e que 
)> feja elle o primeiro que com a cabeça 
» pague tamanho erro , fe o commetteo , 
» porque defde que feu avô o poz nefta 
» Província até hoje , fe não tem intitula- 
» do fenao por Governador da Cidade de 
» Heri , o que fe verá claramente pelas 
)> Provisões , Cartas , e Mandados , que em 
» os mais dos Officiaes acharam , que nun- 
» ca em fua imaginação lhe entrou inti- 
» tular-fe por Rey da Perfia , porque nem 
» por da Província Cohoraçone o fez nun- 
» ca. » Todas eftas coufas ouvio EiRey 
com muita attenção ; e refpondeo que aífim 
o cria delle, e que fobre iflb fe fariam as 
diligencias neceíTarias , e vio os mandados 
queAbaxMirza lhe tinha paliado , efez ti- 
rar além diífo grandes inquirições , e por 
tudo vio fer grande falíidade o que Salmas^ 

lhe 



Década X. Cap. I. 401 

lhe tinha dito ; e vendo íua malícia 6 e inno- 
cencia do filho, poz tudo emConfelho dos 
principaes Soltoes do feu exercito , e por to- 
dos foi Abax Mirza julgado porfem culpa. 
Os Embaixadores de Abax recolheram a {en^ 
tença pêra lha levarem , foram-fe com ella 
aos pés de EIRey, e lançados a elle, bei- 
jando a terra , lhe pediram muito affinca- 
damente que não diílimulaífe com aquelle 
negocio , e que caíligaíTe a Salmas por ca- 
far falfamente a Abax Mirza feu filho , fó 
a fim de lhe fazer cortar a cabeça, por fi- 
car o Príncipe feu genro fenhor abfoluto 
de tudo , e elle depois da morte de fua 
Alteza ficar governando todos aquelles Ef- 
tados } e que pela ventura como em coufa 
de reinar não havia Lei , vieíTe elle ainda 
a afpirar aquelle Império , e matar peraiíTo 
o Príncipe leu genro ; e com iíío o certifi- 
caram de muitas tyrannias , e maldades, 
que o Salmas tinha commettidas , de quem 
ninguém oufou nunca accufalio pela poífe 
que tinha no Governo 5 e no Reino. Vendo 
EIRey aquellas coufas , e certificado em 
fegredo de alguns que tudo era verdade, 
chamou os do íeu Confelho , e lhes deo 
conta de todo aquelle negocio , pedipdo- 
Ihes que nelle o aconfelhaflem fielmente : 
todos lhe diíTeram , que pois Mir Salmas 
induzira as armas paternas contra o fan- 
Gouto, Tom. VL P. I. Ce gue 



4oa ÁSIA de Diogo de Couto 

gue de feu próprio filho tão falfamente, 
tirando-o pêra iflb daPerfia em tempo que 
os Turcos nella hiam mettendo o pé , dan- 
do occafião a fe embaraçarem as coufas de 
feição que foíTe total a deftruiçao daquelle 
Império, que muito jufto era tiveífe o caf- 
tigo, que elle pertendia deflem a feu filho 
Abax, que fó acharam culpado nos cafos que 
falfamente lhe punha. Com iíto mandou El- 
Rey logo ir diante de íi a Saímas , e lhe 
mandou cortar a cabeça, o que o Príncipe feu 
genro não tomou a mal. EIRey fe reconci- 
liou com o filho, aquém fez muitas honras, 
eagazalhados, e o confirmou naquelle Eíla- 
do , no qual proveo de preífa em algumas 
coufas , e voltou pêra acudir ás da Períía. 

CAPITULO IL 

De como fabenão o Turco da ida do Xá ae 

Cohoraçone , mandou profeguir na em- 

preza da Perjta , e das coufas 

que nella fuccedêram. 

DEíIa jornada do Cohoraçone foi lo- 
go o Turco avifado da ida do Xá ; e 
parecendo-lhe que por alli lhe abria Ma* 
famede caminho pêra entrar naquelle Rey* 
no da Períia, de que tão fequiofo andava, 
não quiz perder as occafíões que lhe o 
tempo oíferecia j e entretanto que punha 

as 



Década X. Cap. II. 403 

as mãos nefta obra , quiz , em quanto ò 
Xá por lá fe detiveííe , mandar profeguir 
na emprcza da Cidade Orraviao , e fegu- 
rar o caminho que vai de Cahars pêra el- 
la , como que lhe ficaria o da Tabris mais 
fácil , e aberto , porque determinava de o 
mandar logo conquiftar ; e pêra cfta jorna- 
da elegeo Terat Baxa Bebei , e porfiado 
em fuás opiniões , mas todavia de bom 
confelho , de idade de quarenta annos, 
ainda que de animo terrível , de engenho 
prompto , evivo pcra calos ardlios , e mui- 
to afFeiçoado ao íerviço de EIRey , e lhe 
deo por regimento que nefta jornada fe não 
embaracaífe com outra coufa , fenao na 
conquifta de Baivan ; e que nas coufas do 
arrenegado Manuchiar não boliíTe , porque 
ainda que era digno de caftigo pelos paf- 
fadoSj como Barcad Mahamed , queria dif- 
fimular , e fervir-fe delle pêra lhe levar o 
dinheiro pêra o provimento de Tenfliz, 
pêra o qual lhe mandou íiocoenta mil cru- 
zados i e lhe efcreveo cartas honradas fó 
por efcufar ao Baxá Ferat aquella jornada. 
Efte Baxá partio de Conftantinopla , e 
fe paliou a Calcedonia pelo caminho de 
Amazia , e Civás , e chegou a Erzerum , 
onde efperou a gente, que tinha mandado 
fazer por Tripoli deSuria, Damafco, Ale- 
po 7 e por toda a Judea, Paleílina, Baby- 

Cc ii lo- 



404 ÁSIA de Díogo de Couto 

lonia , Bitinia , Cappadocia , Arménia , Bá- 
cora , e em fim potf todas aquellas partes , 
das quaes lhe acudia muita , e muito di- 
nheiro , e provimentos neceiíarios pêra a- 
quella jornada , e com hum exercito de 
cem mil cavallos partio efte Março palia- 
do de Azerum , e em oito dias chegou a 
Cah-ars , guiando-o nefte caminho Maxatehao 
Georgiano , que de Chriílão mudou fcif- 
ma, tomando a Lei dos Perfas ; e fugindo 
depois pêra o Turco , tomou a fua : da- 
qui de Cahars paliou aRuivan, e três dias 
antes chegou a efta Cidade , reedificou hu- 
ma Roca mui velha , e deftroçada^ a que 
os Turcos chamam Aíia Calaíi , e nella 
deixou quatrocentos foldados com hum 
fangiaço. Efta Cidade de Raivan eftá junto 
a hum monte altiffimo , que de contínuo 
fe vê cheio de nuvens , pela fralda do 
qual ha grandes 7 e fertiliilimos campos , 
por caufa das muitas, e grandes ribeiras, 
que defeem abaixo , e os retalhao , todos 
os quaes fe vam metter no rio Arafe ; ef- 
tá nove jornadas de Tabris 3 e no cami- 
nho tem Naincan , Ghrzifal , Maraut , e 
Sufian , lugares todos fortes por terem ca- 
minhos, e paífos mui difficultofos , e afpe- 
ros pêra exércitos. Tem a Cidade de Rai- 
van da banda do Norte a de Tenflis , e 
pela banda do Sul os campos Calderanes, 

e 



Década X. Cap. II. 405^ 

€ mais aífima pêra o Trópico a Aban. Go- 
mo logo Marciano Tocomac , Capitão de 
Raivan 3 vendo a grandeza do exercito dos 
Turcos , mandou recado a Simirchão , Go- 
vernador de Tabris , pêra que lhe foccor- 
reíTe , e o mefmo fez a Semaomber , e ou- 
tros potentados da Geórgia ; mas de ne- 
nhuma parte lhe acudiram , porque anda- 
vam todos occupados na defensão , e nos 
paííbs , e caminhos de Teflis , porque lhe 
não metteílem os Turcos foccorro. Cui- 
dando que o Baxá defpediíTe logo gente 
a iííb , alguns tiverão pêra ÍI que o Limur- 
chão , que eítava em Tabris , fora peitado 
do Baxá , pêra que fe não boliíTe , nem fe 
impediffe a obra da fortificação , que per- 
tendia fazer em Raivan. Vendo-fe Toco- 
mac naquelle eítado , e que faltavão os 
foccorros , que fempre efperou , houve por 
melhor confelho defpejar a Cidade 5 e dei- 
xar nella fó a gente inútil, e elle com to- 
da a de guerra deixar-fe andar no campo 
pêra inquietar os inimigos. O Baxá tanto 
que chegou a Raivan, tratou logo do For- 
te , que o Turco lhe mandava fazer , no 
qual logo começou a pôr as mãos , e edi- 
ficou nos jardins que Tocomac tinha de 
fora do muro 5 e em quinze dias levantou 
os muros 5 e baluartes em altura defenfa- 
yel. Tocomac como andava com a gente 

li- 



406 A SI A jde Diogo de Couto 

ligeira , deo-lhes alguns toques , em que 
lhe matou muitos Turcos. E por fera dú- 
vida fe tem que fe lhe mandaram os foc- 
corros que pedio , que fempre alcançara 
hum a grão viótoria, porque era muito gran- 
de Cavalleiro. O Baxá como tinha os mu- 
ros á roda em boa altura , mandou em 
meio alevantar huma fermofa , e alta tor- 
re pêra delia defcubrir as montanhas , e 
ao redor da Fortaleza mandou abrir huma 
grande , e funda cava , a qual encheo com 
agua daquelles rios , de que abrio hum bra- 
ço pêra ella ; e como teve acabado tudo , 
poz nella por Capitão a Sinão Baxá filho 
de Sagal , deixando-lhe as guarnições baf- 
tantes de artilheria , mantimentos , muni- 
ções ; e levantando o exercito, voltou pe- 
lo mefmo caminho a Cahars , onde deixou 
o Cembel com oito mil foldados , e mui- 
tos provimentos, e ordens pêra cada anno 
irem de trezentos em trezentos receberem 
fuás pagas a Erzerum , a Alepo , e outras 
Cidades da Suria, por não aguardarem pe- 
los foccoríos como Sirão ; e antes que fe 
levantaffe de fobre aquella Fortaleza, def- 
pedio huma companhia de foldados com 
os fincoenta mil cruzados que o Turco 
mandava pêra o arrenegado Manuchiar le- 
var a Teflis , e lhe efereveo fobre iíFo car- 
tas honradas , affirmando-lhe que por allf 



Decaca X. Cap. II. 407 

podia tornar á graça do Turco. Dado eíle 
dinheiro ao Manuchiar, defejofo de fe foi- 
dar com o Turco , fe poz logo no cami- 
nho de Teflis com quinhentos foldados de 
guarda j mas como Deos noífo Senhor ti- 
nha determinado outra coufa d elle , orde- 
nou que neíle caminho fe encontrafíe o 
Afemahombec feu cunhado^ o qual fabendo 
delle ao que hia , o reprehendia , e repre- 
hendeo gravifTimamente de deixar a Fé de 
Chrifto, em que nafcêra elle, e feus avós, 
pela malvada, e falfa feita de Mafamede: 
que lhe pedia, e rogava muito pelo amor, 
e parentefco que com elle tinha , quizeífe 
cahir no erro que tinha commettido , e 
deixaífe aquella infame fervidao , em que 
andava do Turco Amurates , da qual por 
fim de padecer infinitos trabalhos , e cui- 
dados , não colheria outro fruto que hum 
afpero cativeiro, e pela ventura huma def- 
ordenada morte , a qual elle por fim de 
tudo vinha a dar aos feus mais validos , e 
que mais honras lhe mereciam : e que por 
fim de tudo lhe lembrava a fé que tinha 
dado a EIRey daPeríla; e antes de fe el- 
le partir pêra a Cohoraçone, de fe ajunta- 
rem ambos contra o Turco , e lhe defende- 
rem os paílos por fuás terras , e que não 
quizeííe ficar tido por fementido entre to- 
dos os Georgianos, e Perfas. Com tão efc 

fi- 



408 ÁSIA de Diogo de Couto 

ficazes palavras lhe diíTe o Afemechon e£- 
tas coulas que de todo o envergonharam ; 
e cahindo no erro que tinha feito , o cer- 
tificou ao cunhado com moftras de muito 
grande arrependimento ; e tomando os cria- 
dos do Turco , que lhe trouxeram o di- 
nheiro , a todos cortou as cabeças ; e ajun- 
tando-fe com o Afemechon ( além do pa- 
rentefco) juraram de novo huma perpétua 
paz , e confederação contra o Turco 5 tra- 
tando logo alli de tornarem aos paífos a- 
coítumados , e a lhe defenderem tudo o 
que pudeíTem os foccorros de feus fortes. 

O Baxá Ferat chegando a Erzermn , foi 
avifado de tudo , e em extremo fentio a- 
quelle negocio pelo trabalho que receava 
a Teflis pela falta de provimentos j pelo 
que lhe foi forçado deípedir Azem Baxá 
com quinze mil cavallos efcolhidos , e lhe 
deo quarenta mil cruzados , pêra que os 
levaífe a Teflis ; e porque foífem mais li- 
geiros j e afforrados , repartio pelos folda- 
dos a quantidade de trigo que cada hum 
em feu cavallo podia levar 'pêra metter 
em Teflis : eíle íbccorro em quinze dias 
foi , e tornou de Teflis , tendo de pafTagem 
alguns recontros com os Georgianos , nos 
quaes morreram alguns Turcos. Apôs efte 
foccorro defpedio o Baxá a Refuan com 
féis mil foldados pêra irem deftruir as ter- 
ras 



Década X. Cap. li. 409 

ras de Manuchiar, o qual pelas achar des- 
pejadas 3 fez nellas alguns roubos , e da- 
mnos , e com iílo fe recolheo. EIRey Co- 
dabanda da Períia foi logo avifado de to- 
das eítas coufas por correios mui apreífa- 
dos ; e largando tudo , voltou pêra feu 
Reyno. E chegando a Caabriz 3 deteve o 
exercito , e mandou fazer mais gente por 
todas as Províncias , e efcreveo a feus Go- 
vernadores que fob pena de morte fe fof- 
fem juntar logo com elle a Tabris ; e dan- 
do-fe todos a preíTa , ajuntaram hum bom 
exercito , do qual Ferat Baxá, que eftava 
ainda em Erzerum , foi logo avifado , e 
defpedio correios ao Turco com cartas , 
cm que lhe mandava dizer, que ainda que 
eftava determinado de paífar a NaíTajun 
pêra edificar hum Forte , por fer aífím ne- 
ceílario pêra a jornada de Tabris , que 
fobreftava no negocio , por faber de certo 
que o Xá havia de peleijar com elle , o 
<]ue elle não queria fazer fem feu recado. 
O Turco lhe refpondeo que não entendef- 
fe por então em mais que em fegurar o 
paífo de Thomaniz 3 e Delori , pêra que 
não foífe neceífario o anno feguinte man- 
dar novo exercito pêra focçorrer aquellas 
praças , fenão que ficaííem em eftado de o 
fazer com qualquer pouco cabedal. Com 
iílo deíiftio o Baxá da empreza de Naci* 

van. 



4io ÁSIA de Diogo de Couto 

van 3 do que o Xá foi avifado , e desfez o 
exercito; e porque achou Ermichon , Capi- 
tão de Tabris, culpado nascoufas dos Tur- 
cos z podendo com os Turquimães defen- 
der-lhe a obra de Raivan , mandou-lhe ar- 
rancar os olhos , e o condemnou em per- 
dimento de bens , e fez Capitão dos Tur- 
quimães a Aleguliclião , que era mortal 
inimigo de todos , com o que elles fe amo- 
tinaram , e affirn deixaremos as coufas da 
Períia até tornarmos a ella. 

CAPITULO III. 

De como os moradores âas Aldeias de Cu* 
cuh\ e Salfete mataram o Padre Rodol- « 
fo Aquaviva , e outros quatro Com- 
panheiros , e a razão porque. 
. 

COmo os Padres da Companhia de Je- 
fus , verdadeiros agricultores do Ceo , 
andavam efpalhados pela índia pêra rom- 
perem matos marinhos , e eílereis , e cor- 
tarem todos os efpinhos , e cardos das ido- 
latrias , cujo fruto havia tantas centenas de 
annos não era outro que morte , e perdi- 
ção ; e como as Aldeias de Salfete, que são 
feífenta e féis , tão vizinhas á Ilha de Goa , 
que erão doEftado da índia, eílavam ain- 
da por cultivar, querendo difpôr por todas 

el- 



Década X. Cap. IIL 411 

cilas a planta Evangélica , que déíTe fruto 
de vida , puzeram mãos á obra pelos an- 
nos do Senhor 1559* aon de com muito tra- 
balho de corpo, e efpirito começaram a cor- 
tar , e diílipar o mato bravo , de que todos 
aquelles campos eítavam cubertos , achando 
pêra iíTo grandes inconvenientes , e impe- 
dimentos em os naturaes, mas grandes fa- 
vores em todos os Vifo-Reys , e Governa- 
dores da índia , principalmente em D. An- 
tão de Noronha , que por acudir ás affron- 
tas que os Padres recebiam naquella fanta 
obra, favoreceo-os , eajudou-os com o gla- 
dio temporal , caftigando os culpados , e 
pondo-lhes por terra mais de duzentos Pa- 
godes , como melhor fe verá na Déca- 
da VIII. onde cabe o tempo defte Vifo- 
Rei ; e com efte caltigo , e aífronta de lua 
Religião ficaram fempre os naturaes tendo 
grande ódio aos Padres; e ainda lhe cobra- 
ram maior , depois que viram multiplicar 
tanto a femente Evangélica , e alevantar 
€m as mais de fuás Aldeias templos ao 
verdadeiro Deos , e feus filhos , e netos , 
c parentes entrarem cada dia na manada 
dos Catholicos , fem lho elles poderem ef- 
torvaf: ainda os efcandalizou mais cuida- 
rem que ocaítigo que o Conde D. Francis- 
co Mafcarenhas (como atrás diíTemos) lhe 
xtafcêra dos Padres, o que lhes fez acerei^ 

cen- 



4i* ÁSIA de Diogo de Couto 

centar ódio a ódio , com o qual andavam 
efpreitando occafiao pêra fe poderem fatif- 
fazer nelles 5 a qual lhe o tempo logo of- 
fereceo por eíla maneira. 

Eftava nefte tempo por Reitor das ter- 
ras de Salfete o Padre Rodolfo Aquaviva 
Napolitano, filho do Duque d 3 Arria, fobri- 
nho de Cláudio Aquaviva , Geral de toda 
a Companhia , o qual havia pouco tinha 
vindo das terras do Grão Mogor , varão 
de vida exemplar 5 e de grande humilda- 
de , com a qual não fó a Chriílãos , mas 
ainda a Mouros , e Gentios tinha admira- 
do ; porque todo aquelle tempo que andou 
na Corte do Mogor affim refplandeceo o 
cheiro de fuás virtudes (de que fempre foi 
riquiffimo) que vindo delia contra fua von- 
tade, por cumprir com a obediência, dei- 
xou em todos aquelles Mogores tamanhas 
faudades , que quando lhes chegou a nova 
da fua morte , affim foi fentida , que fe vi- 
ram no Hecbar públicos affeílos de fenti- 
mento : em fim , como hiamos dizendo , ef- 
tando eíte varão por Reitor em Salfete , 
defejava muito de trazer á manada deChri- 
Ito as finco Aldeias deCuculí, que eítavam 
ainda bravias ; e praticando com os Padres , 
que tinha por companheiros , o modo que 
mito teria, aífentou-fc que asfoífem vifitar 
de paífagem, e notaíTem o lítio em que fe 

po- 



Decaída X. Cap, III. 415 

poderia levantar Templo ? e que logo to- 
mafíe poífe delias porChriílo, abalizando- 
as com o marco da nofía redempçao. An- 
dando neftes fantos propofitos 5 fuccedeo 
virem alguns Gentios daquellas Aldeias pe- 
dir aos Padres que quizeííem ir a ellas a 
fazer humas amizades entre dous princi- 
paes , que eftavam em ódio mortaliílimo , 
por cuja caufa todas as Aldeias andavam 
em revoltas , e poítas em bandos. Iílo ac- 
ceitáram os Padres com muito gofto, ten- 
do pêra li que Deos lhes offerecia aquella 
occaíião , pêra o que tanto defejavam ; e 
pondo-íe o Padre Rodolfo a caminho 5 le- 
vou comíigo quatro companheiros , que 
eram o Padre Francifco Pacheco , pai dos 
Chriftãos daquellas Aldeias , Francifco Ara- 
nha , fobrinho de D, Gafpar , e primeiro 
Arcebiípo de Goa 5 e em fua companhia 
foram o Efcrivão da Fortaleza de Rachol 
com dous Portuguezes 5 e alguns Chriftãos 
da terra. Chegados á Aldeia Couri , cabe- 
ça daquellas , foram muito feítejados dos 
Gentios 5 a cujo rogo Mam, que os agaza- 
iháram em huma ramada , que pêra iífo 
tinham feito. Aqui acudiram logo muitos 
moradores pêra verem fazer aquellas ami- 
zades ; e em quanto huma das partes tar- 
dou , praticaram os Padres entre íi daquel- 
Ics defejos com que andavam , e notaram 

hum 



414 ÁSIA de Diogo de Couto 

hum lugar pêra alevantarem huma Cruz. 
Efta prática foi entendida de alguns ; e fa- 
hindo-fe dalii com muita preíTa , deram re- 
bate na Aldeia daquelle negocio 5 e hum 
delles , que era havido por grande feiticei- 
ro , foltando os cabeilos , começou a perfua- 
dir a todos que acudiííem pela honra de 
feus Pagodes 5 eque tomaíTem vingança nos 
Padres , que foram caufa daquellas affron- 
tas , chamando a grandes vozes pelos Ído- 
los , bramindo , e excitando a todos com 
tal vehemencia, que fe lhes chegaram mui- 
tos y e tomaram as armas pêra irem dar 
nos Padres , feguindo todos aquelle feiti- 
ceiro , que com os cabeilos efpalhados pe- 
los hombros hia adiante faltando , e cf- 
bravejando. Difto forao os Padres avifados , 
e pareceo-lhes bem tornarem-fe a recolher, 
e aííim o foram fazendo , e no caminho 
encontraram com efta caterva infernal 5 que 
em vendo os Padres , remettêram a elles com 
huma fúria temerária. O Padre Pacheco , 
que fabia a lingua , adiantou-fe com os 
braços abertos , como que os queria abra- 
çar por amizade, dizendo-lhes que íeaquie- 
taíTem 5 e não receaíTem perturbação , nem 
novidade alguma ; mas elles como hiam 
damnados , fem efcutarem razoes , lhes re- 
fpondêram com as armas ; e achando mais 
perto o Padre Rodolfo com aquelía ijnodef- 

tia 



Década X. Cap. III. 415: 

tia que fempre teve , lhe deram hum gol- 
pe pelas pernas, de que logo cahio ; epon- 
do-fe de joelhos , com os olhos no Ceo , 
e as mãos alevantadas , inclinou o pefco- 
ço , no qual lhe deram dous façanhofos 
golpes , e por hum hombro hum que lhe 
derrubaram o braço todo , e finalmente lhe 
atraveífáram o peito com huma aguda fet- 
ta, que elle fentio bem pouco , porque ef- 
tava fua alma já levantada íbbre eíTes 
Ceos ; os mais deram em os outros Padres 
tantos golpes , e feridas , que renderam lo- 
go os efpiritos a Deos noíío Senhor* fó o 
Irmão Francilco Aranha ficou cahido, e es- 
tirado no chão com hum terrível golpe pe- 
lo pefcoço , e os peitos atraveiTados com 
hum agudo dardo, ainda vivo, mas havi- 
do de todos por morto. E não perdoando 
eíles bárbaros carniceiros a peílba viva , 
mataram todos os mais da companhia , fó 
hum Portuguez efcapou pelo efconder hum 
daquelles Gentios feu amigo. Feito ifto , 
tomaram aquelles innocentes corpos dos 
Padres , e os levaram a raílos até hum po- 
ço que alli eílava , e os lançaram dentro. 
O Irmão Aranha , que ainda eílava vivo,. 
de quem elies fe defcuidáram , vendo os 
bárbaros occupados naquella carniceria , foi- 
fe em gatinhas recolhendo pêra hum mato , 
que alli eílava perto, enelle fe embrenhou» 

Vin- 



41 6 A S I A de Diogo de Couto 

Vindo aquelles ferozes algozes de dar a- 
quella iepultura aos Padres , parece que fo- 
ram avifados como o Irmão Aranha fe fo- 
ra recolhendo pêra aquella parte ; e não 
querendo que lhe efcapaíle , o foram buf- 
car, e trouxeram á porta de hum Pagode, 
e alli amarrado a huma arvore lhe offere- 
ceram , e lhe perfuadíram que adoraíTe feu 
ídolo : o Irmão Aranha refpondeo muito 
confiante, que não era tão bruto que ado- 
raíTe páos , e pedras , como elles faziam , 
de que elies tomados o aííettiáram como a 
outro Sebaítiao, e fua bemaventurada alma 
banhada no freíco , e innocente fangue foi 
dalli receber a coroa do martyrio em com- 
jpanhia dos mais. Succedeo iíto aos 15 de 
Julho deíte anno de 1583. em que andamos , 
no mefmo dia , em que doze annos antes 
foram pelos hereges mortos os Padres Igna- 
cio de Azevedo, e feus 39 companheiros, 
indo pêra o Brazil , pelo que lie efte dia 
mui celebrado em toda a Companhia. 

As novas da morte deites Padres che- 
garam logo a Goa , e com elles fe alvoro- 
çou todo o povo-, com defejos de irem 
tomar latisfação delias , movidos da gran- 
de caridade , e amor de Deos , por fer 
aquillo feito em offenfa lua ; mas o Conde 
D. Francifco Mafcarenhas lhes foi á mão, 
por ferem já os aggreíTores paífados pêra as 

ter- 



Década X. Cáv. III. 417 

terras dos Idalxás , dizendo que as coufas 
tinham tempo , e que elle o buícaria, em 
que tomafle a vingança delles igual a tão 
barbara maldade. 

CAPITULO IV. 

Do que mais aconteceo em Barcelor : e da 
guerra que André Furtado fez aos Cha- 
tins : e dos navios que o Conde em Agof- 
to defpedio pêra o Malavar : e de como 
D. Jeronymo Mafcarenhas par tio pêra 
Malaca com huma Armada. 

T Ornemos a André Furtado ? que dei- 
xámos em Barcelor , porque he necefía- 
rio continuarmos com elle. Atrás diííemos 
como o Conde Viío-Rey lhe mandou mais 
dous navios , cujos Capitães eram Francif- 
co Ferreira da Silva , e Gafpar Fagundes. 
Chegados elles a Barcelor , armou André 
Furtado finco calamuíes , duas manchuas , 
c outras tantas almadias , com o que an- 
dou todo eíte inverno por aquelles mares 
deílruindo , queimando , e cortando todas 
as povoações dos Chatins : e hum dia foi 
commetter a Ilh^, que chamam a Grande, 
na qual elles tinham feito tranqueiras , e 
vallos , porque tinham alli muitas fazen- 
das ; e huma madrugada mandou defembar- 
Couto. Tom. VI. P. I. Dd car 



418 ÁSIA de Diogo de Couto 

Car nella AíFonfo Ferreira da Silva , dei- 
xando-fe elle ficar na íua manchua em 
guarda dos navios. AíFonfo Ferreira teve 
com os inimigos huma afpera briga , por- 
que acudiram muitos delles a lhe defen- 
derem a defembarcação ; mas os noífos 
apertaram com elles , que com morte de 
muitos os levaram de vencida por toda a 
Ilha , até os metterem por huma ponta que 
paífa á outra , e ao paliar delia fizeram os 
noífos nelles hum grande eftrago ; e fican- 
do a Ilha deferta , a mettêram a ferro , e a 
fogo , fem deixarem coufa em pé , em que 
ficaram dos noífos alguns feridos , e dous 
mortos , hum em terra , e outro na manchua 
do Capitão Mor , de huma efpingardada. 
Paífado iíto , lhe mandou dar duas vezes 
em Barcelor de cima ; e junto do Pagode , 
antes de chegar a Cidade , lhe queimaram 
todas as povoações que por alli havia , e 
lhe cortaram hum bom numero de palmei- 
ras ; e em hum paífo eftreito, aonde elles 
tinham hum berço de metal pêra defende- 
rem a paífagem , defembarcou André Fur- 
tado com a gente da fua manchua , e lho 
tomou em fim, que cada dia lhe dava aífal- 
tos , e lhe fazia tantos damnos 3 e deftruições 
por todas as partes , que os obrigou a lhe 
pedirem pazes , que lhe elle não conce- 
deo , por não ter ordem do Vifo-Rey ; e 



Década X. Cap. IV. 419 

fendo já alguns dias de Agoíto, tanto que 
o tempo lhe deo lugar , fahio pela barra 
fora com finco navios muito bem concerta- 
dos , e com elles andou por aquella Coita , 
efperando huma náo dos Chatins , que fe 
efperava vir de Meca , a qual parece que 
adivinhou o tempo, e fe foi a Ormuz, on- 
de pagou os direitos livremente , por fe 
não íaber ainda lá da guerra. O Vifo-Rey 
foi avifado por cartas fuás de todas as cou- 
fas fuccedidas naquelle inverno, e de como 
ficava na Coita com os navios ; pelo que 
ordenou logo nove, de que eram Capitães 
Simão Moniz da Camera , Jorge da Silva, 
Luiz Gonfalves Magno , D.João Rolim, 
Luiz Figueira de Azevedo , Martim Mo- 
niz , D. Francifco Tello , D.João Pereira, 
Thomé Vaz , e lhe mandou que foííetn 
ajuntar-fe com André Furtado pêra anda- 
rem com elle até chegar D. Gilianes , que 
havia de ir por Capitão Mor. Partidos ef- 
tes navios , que foi na entrada de Setem- 
bro, ficou o Vifo-Rey entendendo nas cou- 
fas de Malaca , porque pela derradeira náo 
que delia chegou teve as novas da perdi- 
ção da náo de Simão Ferreira , e do que 
tinha fuccedido a Rajale com o Capitão 
de Malaca fobre a entrega da fazenda, 
e da artilheria ; e pondo eítas coufas em. 
Gonfelho , aíTentou-íe que fe xnandaífe hu- 
Dd ii ma 



420 ÁSIA de Diogo de Couto 

ma Armada pofFante , affim pêra o Rajale 
fazer razão de íi , como a vifíe 5 como pêra 
enfrear o Achem , por haver novas que fa- 
zia a fua Armada preftes fem faber pêra 
onde \ e com ifto ter EIRey efcrito nas 
riáos pafladas que fora avifado que em In- 
glaterra fe faziam algumas náos preftes pê- 
ra paliarem a Índia : que mandafle huma 
boa Armada áquellas partes \ e que palian- 
do Já eftas náos , as bufcaíTem , e enfacaf- 
fem. Affentado ifto , elegeo o Conde por 
Capitão Mor defta Armada a feu fobrinho 
D.Jeronymo Mafcarenhas , e lhe nomeou 
três Galeões , huma Galé , e quatro Galeo- 
tas , que tudo eftava já preftes no inverno, 
e começou a pagar á gente pêra efta Ar- 
mada. Defta eleição fe aggravou Sebaftião 
de Rezende , que tinha arribado em Abril 
(como atrás diíTemos ) dizendo que elle 
eftava eleito , e com os gaftos feitos pêra 
aquella jornada , e que fe lhe não podia ti- 
rar 5 fobre o que não foi ouvido : depois 
nos diíTeram que em Portugal demandara 
o Conde fobre efte negocio , requerendo- 
lhe os gaftos das peças , e outras coufas. 
Em fim , nomeado D.Jeronymo Mafca- 
renhas > o fez com elle o Conde os Capi- 
tães que havia de levar , que foram eftes : 
João Furtado de Mendoça no Galeão San- 
ta Catharina , João Pvodrigues Coutinho na 

Ga- 



Década X. Ca?. IV. 421 

Galeaça Sant-Iago , e o Capitão Mor na 
náo Santo António , Pedro Homem Pereira 
na Galé ? e Lopo de Atouguia, João Ro- 
drigues Coutinho , Vaico da Silva , Sebaf- 
tião Bugalho, Paulo Coutinho nas Galeotas , 
e pêra efta jornada fe pagaram a alguns 
trezentos homens. O Conde defpachou o 
Embaixador do Rajale pêra ir comD.Jero- 
nymo , e lhe confirmou as pazes , que lhe 
D.João da Gama tinha feitas , cujos mais 
íubftanciaes pontos eram , que não feria 
amigo do Achem , nem recolheria os Chin- 
cheos em íeu porto ; e lhe accrefcentou o 
Conde mais , que tornaria a fazenda , q 
artilheria da náo de Simão Ferreira. Efta 
Armada fe fez á vela de vinte de Setem- 
bro por diante , e com ella continuaremos 
em íeu lugar , e primeiro partio o Galeão , 
de que era Capitão Fernão Botto Macha- 
do pêra Maluco , o qual tinha invernada 
em Angediva, como atrás fica dito. 



CA~ 



422 ASIÀ de Diogo de Couto 

CAPITULO V. 

Da Armada que efte anno de 5%^. par tio 
do Reyno , na qual EIRey proveo o Ar- 
cebifpado da índia : e do novo contrato 
que fe fez das nãos com Manoel Caldei- 
ra-, e de como D. Gilianes Mafcarenhas 
foi por Capitão Mor ao Malanar : e do 
que aconteceo a André Furtado até elle 
chegar. 

VEndo EIRey D. Filippe as coufas da 
índia tão quietas , tratou muito de 
propoíito de prover em todas eilas , que- 
rendo imitar aos Reys feus predeceííores , 
que fempre (como muitas vezes diífemos) 
continuaram nefta conquiíta do Oriente 
com os dous gládios efpiritual , e temporal , 
com os quaes fe abriram aquelles primeiros 
alicerfes. Tendo cartas de como era fale- 
cido o Arcebifpo de Goa D« Fr. Henrique 
de Távora, determinou de a prover de ou- 
tro Prelado, e aprefentou pêra iífo ao Sum- 
mo Pontifice a Fr. Vicente da Fonfeca da 
Ordem dos Pregadores , hum dos melho- 
res de feu tempo, pelo que lhe era muito 
acceito ; e vindc-lhe fuás letras Apoftoli- 
cas, o mandou EIRey embarcar com mui- 
tas honras , mercês , e mimos na Armada 
deite anno , que fe negociava por novo 

con- 



Década X. Cap. V. 423 

contrato que EIRey delia mandou fazer 
com Manoel Caldeira , removendo o que 
eftava feito com L,uiz Cefar por juftos res- 
peitos que pêra iífo teve , pelo qual novo 
contrato fe . obrigou Manoel Caldeira a 
mandar todos os annos á índia finco náos > 
e que EIRey feria obrigado a lhe dar ca- 
da anno mortos oitenta mil cruzados pêra 
a fabrica das náos ; e que elle Manoel 
Caldeira poderia nomear cada anno huma 
peífoa pêra Capitão de huma das náos , e 
eftes oitenta mil cruzados a dezefeis mil 
cruzados por cada hum ; e que lhe fazia 
EIRey mercê de huma Capitania Mor da 
Carreira da índia pêra cafamento de huma 
filha , a qual depois caíbu com Luiz Men- 
des de Vafconcellos , filho de Joanne Men- 
des de Efporan , que foi cafado com Dona 
Anna , filha de D. António de Ataíde, 
Conde da Caftanheira. E como foi tempo, 
poz Manoel Caldeira as náos de verga 
d 5 alto , e de vinte de Março por diante fe 
fizeram á vela , indo por Capitão Mor 
António de Mello Crafto na náo S. Filip- 
pe , em que o anno paíFado tinha arriba- 
do : as mais náos eram o Salvador, Capi- 
tão Eftevao Alvares , na qual fe embarcou 
o Arcebiípo D. Fr. Vicente , a náo Sant- 
iago , Capitão Fernão da Veiga , em S. 
Francifco Joio de Trigueiros , em S. Lou* 

ren- 



424 ÁSIA de Diogo de Couto 

renço Balthazar Marcos , que vinha pêra 
fervir nella, Ruy Gonfalves da Camera , hia 
mais o Galeão Sant-Iago pêra Malaca , de 
que era Capitão Manoel de Medeiros. Ef- 
te anno deípachou EIRey muitos homens , 
e mandou algum dinheiro ao Conde D. 
Françifco pêra ajuda das defpezas do Efta- 
do : eíías náos tiveram boa viagem , tomou 
Cochim , as mais foram a Goa por todo o 
Setembro : S. Salvador , em que vinha o 
Arcebifpo , defgarrou a barra de Goa , e 
foi ao Cabo de Rama abaixo finco léguas, 
onde eíleve muitos dias furta porcaufa dos 
tempos contrários 5 e o Conde lhe mandou 
as Galés pêra a revocarem. Chegadas as 
náos , e feítejadas á faude de EIRey , logo 
o Conde deípachou João Corrêa de Brito 
perá ir entrar na Capitania de Columbo , 
e Ceilão , da qual era provido , e foi em- 
barcado no Galeão dos provimentos , de 
que era Capitão António de Brito do braço 
cortado. Feito ifto , entendep no defpacho 
da Armada , que havia de ir ao Malavar, 
da qual eítava nomeado por Capitão Mor 
D. Gilianes Mafcarenhas ; e tanta preíTa 
lhe deo , que aos 20 de Outubro o deitou 
pela barra fóra : levava duas Galés, e elle 
em huma, e D.Manoel de Menezes, filho 
de D. Pedro de Menezes o Ruivo na ou- 
tra 3 e vinte navios de remo, de que eram 

Ca- 



Década X. Ca?. V. 425: 

Capitães António de Azevedo , D.Jerony- 
mo de Azevedo , D. Francifco de Mene- 
zes , irmão de D. Manoel affima > D. João 
Rolim, Diogo Corvo, D.Jorge da Gama, 
filho do Conde da Vidigueira , D. Vafco 
da Gama , que eíle anno tinha vindo do 
Reyno com mil pardaos de tença cada an- 
uo pêra feu entretenimento , Manoel do 
Carvalhal , Triítão Vaz da Veiga , Belchior 
Bungel , António de Lemos , Pedro da 
Fronteira , Francifco Fernandes Arei , Fran- 
cifco Fernandes Moricale , Pedro Rodri- 
gues , todos três Malavares , Manoel Cal- 
deira , Pedro Gonfalves , Pedro Garcia, 
Belchior Vaz, Eítevão Gonfalves, António 
Pires , Pedro Rodrigues , e outros : e por- 
que os Chatins de Barcelor tinham manda- 
do pedir ao Vifo-Rey pazes com muita 
inftancia, commettendo partidos honrofos, 
lhas concedeo , e deo por regimento que 
lá as acabaífe de aífentar com elles , e as 
juraíTc. 

Entre tanto que D. Gileanes não chegou 
ao Malavar, daremos razão das coufas que 
fuccedêram a André Furtado de Mendoça. 

Atrás diíTemos como em Agofto parti- 
ra de Barcelor, e andara por aqueila Coíla 
efperando huma náo dos Chatins , que havia 
de vir de Meca, Andando naquella para- 
gem y chegaram a elle os nove navios que 

o 



426 ÁSIA de Diogo de Couto 

o Viíb-Rey lhe mandou diante pêra fc 
ajuntarem a elle até chegar D. Gileanes , e 
com elles fe paliou logo a Cofia do Ma- 
lavar , e por ella fe deixou andar com 
grande vigia fobre feus portos , porque 
não fahiíTem coíTarios a roubar. Andando 
por ella , lhe deram huma carta de D. Jor- 
ge de Menezes Baroche 5 Capitão de Co- 
chim, em que o avifava de ferem paliados 
ao Cabo de Como rim oito , 011 nove na- 
vios deMalavares ao cheiro de hum junco 
da China muito rico , que por falta de 
tempo foi invernar a Negapatão , pelo qual 
fe efperava por todo o mez de Outubro* 
Com eftas novas fe paíFou logo ao Cabo de 
Comorim , tomando de paffagem Cochim 
pêra fe prover das coufas de que hia falto ; 
€ chegando ao Cabo , não achando alli 
novas de paraos , paílbu-fe a Toutocorim , 
que lhe pareceo que os paraos feriam paf- 
fados da outra banda dos baixos pêra es- 
perarem o junco ; e tomando parecer com 
os Pilotos fobre o paífar os baixos á outra 
banda pêra ir enfacar os paraos , achou 
contradicçao nelles, affirmando-íhe que era 
muito tarde , e que lhe podia acontecer al- 
gum defaftre : pelo que fe deixou andar 
por aquella paragem , allim porque fe os 
paraos tomaííem o junco, haviam de voltar 
por alli com as fazendas , e forçado lhes 

ha- 



Década X. Cap. V. 427 

haviam de cahir em as mãos , como pêra 
recolher alguns navios de Bengala, e de ro- 
da a Cofta de S. Thomé , que naquellc 
tempo haviam de vir pêra Cochim ; e an- 
dando aqui , teve por novas que junto do 
Cabo andava hum navio de Malavares ef- 
perando prezas : indo-o bufcar , efpalhou 
os feus navios ao mar , e á terra por lhe 
não efcapar ; e andando dous delles Capi- 
tães D.João Rolim , e Diogo Corvo com 
outros em huma paragem , amanheceram 
eftes dous com o parao , eílando furto : o 
navio de D. João Rolim acertou de ficar 
com a vela virada no bordo em que o pa- 
rao hia ; e tanto que vio os noíTos navios , 
cortou a amarra , e deo á vela ; e foi tão 
ditofo que o alcançou , e lhe poz a proa arfim 
á vela , lançando-lhe logo algumas panei- 
las de pólvora , e apôs ellas alguns Tolda- 
dos , que em breve efpaço axoráram o na- 
vio , matando alguns Mouros , e lançando 
os mais ao mar. A efte tempo chegou Diogo 
Corvo, que já não havia mais que a pefca- 
ria do mar , tomou ainda vinte e tantos 
vivos , e tomando o navio , foram deman- 
dar André Furtado , que o feftejou muito ; 
e depois de recolher toda a cáfila , e ter 
por certeza que os paraos eram recolhi- 
dos , voltou pêra Cochim , onde deixou to- 
dos os navios dos Mercadores , e com os 

feus 



428 ÁSIA de Diogo de Couto 

feus da Armada foi bufcarD. Gileanes , que 
já andava na Cofia do Malavar. 

CAPITULO vr. 

De como Soltao Almodafar Rey de Cam- 
baya , que o Mogor trazia prezo , fugio , 
e tornou a conquiftar aquelle Reyno : e 
de como Conde D. Francifco mandou 
Fernão de Miranda com huma Armada 
d enfeada de Cambaya , e do que lhe 
fuecedeo* 

NA Década IX. fe verá como o Timi- 
tichao , Governador de Cambaya , 
entregou aquelle Reyno ao Hecbar Rey 
dos Mogores^ e como elle caftigou ElRey 
Almodafar , e o entregou a hum de feus 
Capitães. Eíte Rey cativo andou na Corte 
do Mogor em poder daquelle Capitão até 
eíte tempo em que andamos , que feria 
derredor de dez annos , em que as coufas 
de Cambaya fe feguráram tanto , que com 
não haver naquelle Império mais de tre- 
zentos Mogores , aífim eram temidos , e 
refpeitados ? como fe foram trezentos mil , 
por não haver hum fó Capitão daquelles 
antigos vivo , e os naturaes ferem quaíi 
mulheres na aífeminação , e pouco animo. 
Succedeo o anno paffado de 582. alevan- 

ta- 



Década X. Cap. VI. 429 

íarem-fe alguns eílados ; que o Mogor ti- 
nha nas partes de Bengala , a que o Hec- 
bar mandou acudir por aquelle Capitão , 
que trazia o Rey de Cambaya , que foi 
aquelle negocio com hum groífo exercito, 
levando aquelle Rey comfigo • o qual pa- 
rece que nefta jornada teve alguma com- 
municação com humas mulheres do Capi- 
tão , as quaes lhe deram favor pêra fugir, 
e aííim defappareceo huma noite em tra- 
ges mudados : e por caminhos diíFerentes , 
iempre embrenhado , e com muito riíco 
de íua peíToa . foi ter ao feu Reyno de 
Cambaya , e na Cidade de Cambarate fe 
recolheo em caía de hum Baneane de quem 
fe fiou , o qual o teve em tanto fegredo , 
que em hum mez que alli efteve não foi 
vifto , nem conhecido de outra peííoa ; c 
por ordem do mefmo Baneane , que o 
acompanhou , fe pafíou áquella Coíra do 
rio , e chegou á terra do Jambo ; que foi 
hum dos Capitães que nas revoltas de 
Cambaya fe aíevantou com o que poffuia, 
e governava como já diflemos ; e dando- 
fe-lhe a conhecer , foi deile recebido , e 
tratado como herdeiro de hum tamanho 
Império, de quem elle era vaíTallo, confo- 
lando-o , e promettende-lhe de o favorecer 
até o metter de poííe do Reyno , e car- 
teando-fe com o Àmicham , filho de Tar- 

ta- 



430 ÁSIA de Diogo de Couto 

tachão , fenhor de Junagor , e da Coita de 
Dio ; e como Rey de Cache, de quem já 
nas outras Décadas demos razão , Jhe fez 
a faber da vinda daquelle Príncipe , e o 
mandaram viíitar com prefentes , e gran- 
des offerecimentos , concertando-fe EIRey 
com elle , e lhe deo huma filha por mu- 
lher, a qual elle acceitou por não ficar de 
rodo de/apegado em poder daquelles ty- 
rannos , que fe tinham alevantado com o 
que era feu , e por ter já aquelle recolhi- 
mento feguro pêra fua peflba ; e depois de 
fazerem feus defpoforios com grandes fef- 
tas , trataram todos de o irem metter de 
pofle do Reyno de Cambaya , viftoefta- 
rem as coufas todas difpoftas pêra então 
o fazerem com menos cabedal que em ou- 
tro tempo ; e formando feus exércitos , em 
que havia mais de trinta mil cavallos , to- 
mando o Almcdafar comíigo com muita 
veneração , entraram com elle pelo Reyno 
de Cambaya , e o mettêram de polle da 
mor parte de fuás Cidades , e Villas fem 
golpe de efpada , e foram cercar o Cotubi- 
cham fenhor de Baroche em Vercdora , e 
lhe deram tão afperos combates que o che- 
garam a eítado de o commetter com parti- 
dos , ao que EIRey Almodafar deo ore- 
lhas , e chegaram a fe concluírem , com 
condição que fefahiffem todos com fó fuás 

pef- 



Década X. Cap. VI. 431 

peflbas , pêra o que lhe paííou feguros, 
debaixo dos quaes lhe entregaram a Ci- 
dade ; e querendo EIRey começar a fazer 
o que fez o Hecbar aos Capitães de Cam- 
baya , tanto que houve Cotubidichão ás 
mãos , mandou-lhe cortar a cabeça , e o 
mefmo fez a todos os Capitães que com 
elle eílavam ; e deixando alli em Veredo- 
ra guarnições 5 paíTáram-fe a Baroche, on- 
de eílavam os filhos , e mulher do Cotubi- 
dichão , e lhepuzeram muito apertado cer- 
co; mas por a Cidade fer muito forte, os 
de dentro lha defenderam muito bem. Ef- 
tas coufas chegaram logo ao Vifo-Rey ; e 
porque era negocio de muita importância, 
o poz em Coníelho, e aflen taram que era 
neceífario ir-fe elle em peííoa ao Norte, 
e deixar-fe eílar em huma daquellas Forta- 
lezas até ver em que paravam as coufas 
de Cambaya , porque poderia fer occafio- 
naria o tempo conjunção pêra poder lan- 
çar mão de Surra te a pouco cuíto, porque 
naquelles tumultos fempre haviam de ficar 
alguns poftigos abertos por onde fe pudef- 
fe metter hum pé em qualquer daquellas 
Fortalezas , porque ás vezes he certo o 
rifão , Rio turvo proveito de pefc adores > 
e que além de importar muito aquelle por- 
to , feria muito neceífario pêra fegurança 
das terras de Damão ; e fe o Mogor tor- 
nai- 



'432 ÁSIA de Diogo de Couto 

naífe a voltar, fendo a Fortaleza de Surra- 
te do Eftado da índia , ficariam fempre 
tendo-lhe com ella hum pé no peícoço. 
Aífentado iílo , defpedio o Vifo-Rey Fer- 
não de Miranda com doze navios pêra fe 
ir metter na enfeada de Cambaya , e ver 
aquellas coufas , e em que paravão, pêra 
que fe o tempo lhe offereceífe alguma oc- 
caíiao , não fe perder á mingua. Fernão de 
Miranda fe fez logo á vela em 28. de Ou- 
tubro , e os Capitães que o acompanha- 
ram foram António de Azevedo , D. João 
de Crafto , Cofme de Lafetar , Gonfalo de 
Soufa , Fernão de Macedo , D. Jorge de 
Almada, António de Lima, Luiz Falcão, 
Ignacio Nunes j Balthazar Gonfalves ; e 
fem fe embaraçarem com coufa alguma, 
chegaram á enfeada a tempo que EIRey 
Almodafar tinha a Cidade de Baroche em 
muito aperto , e logo deitou Fernão de 
Miranda em terra algumas peífoas de con- 
fiança , enfaiadas do que haviam de fazer. 
Eftas começaram por fua parte ter algumas 
intelligençias , aílim com EIRey , como 
com a mulher , e filhos do Cutubidichão, 
fazendo-lhes crer que era alli chegado com 
aquella Armada em feu favor , oíferecendo- 
fe a EIRey pêra o ajudar , e á mulher, e 
filhos do Cutubidichão pêra os favorecer, 
ajudar , e falvar, quando foíTe neceífario j 

e 



Década X. Cap. VI. 433 

e de maneira foube tecer iílo , que com 
todos lhe ficou o lanço formofo , e todos 
lhe ficaram agradecendo feus offerecimen- 
tos , e aífim fe deixou ficar defronte de 
Baroehe com grandes efpias em terra , 
porque o avifaflem de tudo o que íuece- 
dia, indo EIRey continuando o cerco com 
muita preíla ; porque bem entendia que 
como chegaíTem as novas ao Mogor , ha- 
via de voltar , e aífim os deixaremos até 
fèu tempo. 

CAPITULO VII. 

Das alterações que houve no Reyno de Idal- 
xá : e de como alguns Capitães trata- 
ram de metter Cojuchão de pojje da- 
quelle Reyno : e do que fobre tfto fez o 
Conde D. Francifco Majcarenhas : e de 
como partio pêra o Norte : e do que fuc- 
cedeo a Fernão de Miranda. 

ERa tão foberano o governo de Lavar- 
chão Abexim no Reyno de Idalxá , 
que o não podiam íbffrer os mais Capi- 
tães ; e confederando-fe Anel Maluco , Ca- 
pitão General daquelle Reyno , Calabete- 
chão 5 e Ziadaulchão , trataram de metter 
no Reyno a Cofuchão filho de Miliachão , 
que eftava em Goa , e lançarem fóra hum 
Couto. Tom. VI. P. I. ' Ee Rey 



434 ÁSIA de Díogo de Couto 

Rey tão fraco , que conferiria a foberani- 
dade de hum Abexim , fendo elles Capi- 
tães naturaes de tamanhos merecimentos, 
e partes , e de mais experiência , e fer que 
o Abexim ; e porque ifto foífe em mais 
fegredo , trataram eftes fenhores do Rey- 
no , e Capitães delle de metterem o Cufo 
no Balagate efcondido ; e depois de alli 
o terem , declararem-fe com todos , e met- 
terem-no de políe do Reyno : e pêra ifto 
defpedíram peífoas de muita confiança pê- 
ra Goa , pelas quaes mandaram íignificar 
ao Cufo fua determinação , pedindo-lhe 
que trabalhaífe tudo o que pudeífe pêra 
paliar a Balagate efcondido, pêra que co- 
mo o lá tivelfem , fem dúvida ometteriam 
de pofle do Reyno. Praticadas eftas cou- 
fas entre eftes enviados, e o Cufo , deo el- 
le conta ao Conde Vifo-Rey delias , o qual 
por lhe não parecer bem aquelle modo, 
por haver que não poderia ter effeito , e 
que ficava quebrando as pazes ao Idalxá, 
não quiz dar licença ao Cufo , antes o en- 
tregou ao Alcaide Mor Affonlb Vaz Vie- 
gas , pêra que o tivefte em cuftodia , em 
quanto elle acudia ao Norte pêra onde fe 
negociava com muita preíla , dando outra 
muito grande ás náos que haviam de ir 
pêra o Reyno , e efcrevendo a EIRey o 
éftado das coufas da índia. 

Da* 



Década X. Cap. VII. 43^ 

Dado defpacho ás náos , foram tomar 
carga a Cochim , e de alli fe fizeram á vela 
até quinze de Janeiro de ^o^ em que com 
o favor Divino agora entramos , e embar- 
cáram-fe neílas náos muitos Fidalgos , e 
Cavalleiros, e o Padre Nuno Rodrigues da 
Companhia , que levava três Fidalgos Ja- 
pões a Roma a dar a obediência ao Sum- 
mo Pontifice \ e de fua chegada ao Rey- 
no , e da jornada que fizeram por toda a 
Itália até fe aprefentarem ao Papa , não 
daremos relação ; e quem a quizer ver, 
achar-fe-ha efcrita em Latim pelo Padre 
Duarte de Sande, e já imprefla. 

Partio também de Goa pêra o Reyno 
já de vinte de Fevereiro por diante D. 
Francifco de Crafto , que acabara de fer 
Capitão emChaul, emhuma náo fua que o 
deílruio ; porque tendo tirado mais de fe- 
te mil pardaos de fua Fortaleza , não fe 
contentando com elles, fe metteo naquella 
náo , a qual por ir mal arrumada , e não 
foffrer a vela , tornou a arribar logo o pri- 
meiro dia ; todas as mais 'náos chegaram 
ao Reyno afalvamento, fem lhes acontecer 
defaftre, fó a náo Salvador , indo correndo 
de hum temporal , lhe deo hum mar tão 
groífo , que lhe levou a varanda , e nella 
a Eítevão Alvo feu Capitão com hum filho 
feu y e os paífageiros elegeram por Capi- 

Ee ii tão 



436 ÁSIA de Diogo de Couto 

tão Alexandre de Soufa , que hia alli em- 
barcado , que acabara também de fer Ca- 
pitão de Chaul. 

E tornando ao Conde D. Francifco 
Mafcarenhas , tanto que defpachou as náos 
do Reyno , logo fe embarcou pêra o Nor- 
te , que foi pelas oitavas de Natal , e le- 
vou os navios , que fe puderam ajuntar; 
porque como hia a modo d 5 Aforado , e 
com voz de viíitar as Fortalezas , não hou- 
ve paga , nem ajuntamento geral , e ain- 
da o acompanharam de vantagem de qua- 
renta navios de Capitães que ás fuás cuftas 
os armaram. 

Primeiro que o Conde fe embarcaífe, 
entregou o governo a D. Fr. Vicente Ar- 
cebifpo pêra com o Capitão Chanceller, e 
outros Deputados defpacharem todas as 
coufas. 

Foi fua peífoa embarcada na Galé baf- 
tarda , e em outra D. Pedro de Caftro , 
irmão do Conde de Bailo , e nos mais na- 
vios os Capitães feguintes : Jcac da Silva, 
Pedro Lopes de Soufa, Manoel de Soufa, 
Ayres da Silva , Jorge Barreto , Franciíco 
de Soufa Rolim , João de Faria Secreta- 
rio , SebaíHão Barbofa Ouvidor Geral , 
João Mendes Peftana , Manoel Vaz , Af- 
fonfo Pereira Coutinho , Alberto Homem 
da Coita , António Colaço Lobo , Domin- 
gos 



Década X. Cap. VIL 437 

gos Carvalho , João Rodrigues, D. Fran- 
cifco Deça , o Licenciado Simão Borges , 
Martim Furtado , e outros navios de íer- 
viço. 

Na barra de Goa deixou o Vifo-Rey 
dous navios pêra fua guarda , de que eram 
Capitães Diogo Rodrigues Froes , que fi- 
cava por Cabeça , e Sebaftião Coelho ; e 
porque ficavam ainda em Goa muitos na- 
vios , defpedio o Conde de caminho Pedro 
Lopes de Soufa com outros finco pêra os 
ir recolher, porque havia novas de Coifa— 
rios , e elle foi feguindo fua derrota , Pe- 
dro Lopes de Soufa com outros finco (pê- 
ra os ir recolher) e foi recolhendo a fi os 
navios que fahião pêra fora, mandando re- 
cado aos que eftavam dentro , que logo fe 
fahiífem pêra fóra , porque até outro dia 
efperava por elles : o que fez com todos 
os que fe ajuntaram , com os quaes fe fez 
á vela , ficando em Goa hum fuílarão , em 
que fe embarcava hum Embaixador do Mo- 
gor , que eílava em Goa , o qual fe deixou 
ficar de vagar, porque tinha muitas fazen- 
das pêra embarcar ; e quando fahio pêra 
fora, já não achou a Armada, pelo que fe 
foi fó feguindo fua viagem, indo alli em- 
barcado João Rodrigues Preto, filho de Si- 
mão Gonfalves Preto , Chanceller Mor do 
Reynp, que por fe defcuidar da embarca- 
ção 



438 ÁSIA de Diogo de Couto 

çao em que havia de ir , quando acudio ao 
cães , jà não achou outra fenão aquella , 
e aos dous dias de fua viagem deram com 
elles huns Catacoulões que os abalroaram , 
centraram, abrazando-os os Mogores com 
muito fogo que dentro lhe lançaram, com 
o qual alguns fe botaram ao mar , e o mef- 
mo fez João Rodrigues Preto que logo 
morreo ; os ladrões roubaram o navio , e 
o deixaram com os Mogores , a que não 
fizeram mal por fer Mouros , e ainda lhes 
levaram mais de trinta mil cruzados que 
levavam empregados em couías pêra o 
Mogor : aífim roubados , e deílroçados 
chegaram a Chaul , aonde já o Vifo-Rey 
eítava, que fentio muito fazer-fe-lhe aquel- 
la defcortezia quaíi na fua companhia > pe- 
lo que logo defpedio outra vez o mefmo 
Pedro Lopes com féis navios pêra levar a 
cáfila pêra Goa , e pêra ir dar guarda á 
que havia de vir das Fortalezas de Canará 
com mantimento pêra Goa , e de fua via- 
gem adiante daremos razão. 

Alli em Chaul fç deixou o Conde ficar 
defpachando algumas coufas , e defpedio 
peílbas de confidencia, humas pefa irem a 
Baroche em muito fegrçdo a viíltar aquel- 
le Rey , e oíFerecendo-lhe pêra o favore- 
cerem , e ajudar , e outras pêra fazerem o 
mefmo á mulher ; e filhos do Cutubidi- 

chão, 



Década X. Cap. VIL 439 

chão , que ainda eftavam de cerco > e en- 
tre tanto aperto que fe fallava já em con- 
certos , os quaes dahi a poucos dias fe 
concluíram com condição , que deixaflem 
ir todos livremente, eque lhe entregariam 
a Cidade. Fernão de Miranda, que não fe 
defcuidava em nada , foi logo avifado da- 
quelles tratos, pelo que com muita preífa 
lançou huma peflba emBaroche, pela qual 
mandou dizer á mulher , e filhos do Cutu- 
bidichão que fc não fiaífe de hum homem , 
que fobre o mefmo feguro lhe matara feu 
marido , oíFerecendo-lhe aquella Armada 
pêra nella os pôr onde quizeíle com toda 
a fua fazenda , parecendo-lhe que pelo ef- 
candalo que tinha tão frefco daquelle Rey 
lhe acceitaíTe feus offerecimentos , no que 
faria hum muito grande negocio , e de mui- 
ta honra, e proveito pêra o Eftado ; mas 
como eftavam já fobre concertos , e os feus 
já muito atemorizados , quizeram antes cor- 
rer feu rifco , e entregarem-fe ao Almoda- 
far Mouro , como elles , que não fiarem-fe 
dos Portuguezes , e affim fe lhe entrega- 
ram , e EIRey poz naquella Fortaleza por 
Capitão Nazircham , irmão de fua mulher , 
com dous mil homens , tomando todos os 
thefouros de Cutubidichão , e huma colcha 
que valia quatrocentos mil cruzados, por- 
que era toda de fetim broslada y e lavrada 

de 



44^ ÁSIA de Diogo de Couto 

de monterias de ouro, e cachos de aljôfar ," 
obra além de muito rica mui curiofa , que 
fe podia imaginar que eram muitos , e tan- 
tos , que hum Portuguez chamado Francis- 
co Rodrigues > muito continuo Mercador 
de Cambaya , nos affirmou que fó a renda 
valia a dita quantia. Recolhido tudo iílo , 
foi EIRey com todo o feu exercito cercar 
a Cidade de Amadabá , onde eílava fortifi- 
cado Agicola , colaço de EIRey dos Mogo- 
res , e no cerco houve muitos fucceííbs 
que deixamos. E porque aquelle negocio 
era pêra devagar , deixou EIRey alli feu 
fogro com doze mil cavallos , e elle com 
todo o mais poder foi fenhoreando tudo o 
que havia do Reyno , aíTolando , deítruindo > 
e roubando todas as Cidades, villas, e lu- 
gares de maneira , que o miferaveí Cam- 
baya padeceo em pouco mais de dez an- 
nos as mores mudanças , caítigos , e deílrui- 
ções que em todo o Oriente fe viram. Fer- 
não de Miranda tanto que foi avifado da- 
quelle negocio , não tendo alli mais que 
íazer , reçoíheo-fe pêra o Vifo-Rey. 



CA- 



Década X. Cap. VIII. 441 

CAPITULO VÍII. 

Do que fez o Mogor , tanto que fouhe das 
coufas de Cambaya : e de co.no buma 
ndo fua , que vinha da índia , joi ter a 
Goga : e de como Balthazar de Siqueira 
partio de Dio com alguns navios pêra 
a represar y e do que paffou. 

DE todas eílas coufas acontecidas em 
Cambaya teve logo o Mogor avifo , 
o que fentio muito , e lhe deram bem em 
que cuidar ; e logo íem fazer detença , def- 
pedio o Mirzacham, filho do Capitão Par- 
feo , que lhe ajudou a conquiftar aquelle 
Reyno , como já diífemos , o qual com a 
mais gente que pode ajuntar ie poz em 
caminho , ficando o Hecbar fazendo-fe 
preíles pêra partir apôs elle. 

Eltando ailim as coufas neíte eftado , e 
todo o Reyno quaíi poíto em poder do 
Rey Almodafar , chegou á Cidade de Go- 
ga huma náo do Hecbar , que vinha deju- 
da , a qual trazia cartas do Vifo-Rey , e 
furgio dos Canaes pêra dentro , fem faber 
as revoltas que no Reyno hiam. Braz de 
Azevedo, Capitão Mor da Armada de Dio, 
que havia alguns dias eítava alii favorecen- 
do os navios que hiam de Cambaya pêra 
aquella Fortaleza a pagarem os direitos, 

v tari- 



I 



442 ÁSIA de Diogo de Couto 

tanto que vio a náo furta , foi-fe a ella ; 
e fabendo fer do Hecbar , que trazia car- 
tas , tratou de lho não guardar , e de levar 
era Dio , porque havia que o Mogor pe- 
a guerra que mandara fazer a Damão ti- 
nha quebradas as pazes, e já as cartas lhe 
não valião : os Mercadores da náo requere- 
ram fua jufliça , e com iífo lhe dariam al- 
guma coufa , com que elle a deixou , e fe 
foi pêra Dio. 

O Capitão da Cidade de Goga , que 
já citava pelo Almodafar , tanto que vio 
furta a náo, e a noíía Armada ida, man- 
dou-lhe metter dentro cem efpingardeiros 
pêra fua guarda , e mandou levar a terra 
os mais ricos Mercadores que nella vi- 
nham, e com clles os Capitães , eOfficiaes, 
e mandou defapparelhar a náo , porque de- 
terminava de a defcarregar ; e defpedio lo- 
go recado a EiRey , o qual com muita 
brevidade mandou Muftafá com finco , ou 
féis mil cavallos pêra fazer defembarcar as 
fazendas. Os Mercadores da náo , e outros 
de Cambaya , que eftavam intereíTados na- 
quella náo , defpedíram recado a outros 
feus procuradores , que tinhão em Dio , os 
quaes requereram a Manoel de Miranda, 
Capitão daquella Fortaleza , que mandaíTe 
levar aquelia náo a Dio, porque elles que- 
riam pagar os Direitos delia, fe lhes fizef- 

fem 



Década X. Ca?. VIII. 443 

fem algum favor. A iíto acudio Serepte, 
hum Bramene rico, que era o rendeiro, e 
fe concertou com os Procuradores dos 
Mercadores todos em hum preço modera- 
do , com o que Manoel de Miranda def- 
pedio logo Baíthazar de Siqueira, que ali 
eftava por Provedor da Fazenda , pêra que 
foííe levar aquelía náo a Dio , o qual foi 
embarcado em hum navio com quarenta 
homens, e levou huma Manehua , de que 
era Capitão hum Luiz de Oliveira , com al- 
guns foldados , e deo-fe tanta preíTa , que 
o mefmo dia partio de Dio; e paliando de 
noite por Madre Faval , lhe fahio hum pa- 
rdo de Malavares 5 pêra o qual fe poz em 
armas , e commetteo ; mas vendo elle a- 
quella determinação , fez-fe pêra a volta 
do mar , e Baíthazar de Siqueira foi feu 
caminho , e á outra noite feguinte chegou 
a Goga , e foi demandar a náo pêra fallar 
com os de dentro ; mas elles que já cita- 
vam poftos em armas , lhes bradaram que 
fe aífaftaíTem , porquê era de noite , e não 
fabião quem eram. Baíthazar de Siqueira 
lhes mandou fallar por hum Abexim que 
comfígo levou, muito conhecido de todos 
os de Cambaya , chamado Cide Rana , o 
qual lhe diíTe que alli hia naquelies na- 
vios, e que não queriam mais que favore- 
cer os Mercadores, porque a gente de El- 

Rey 



444 ÁSIA de Diogo de Couto 

Rey os não roubaíle , e que fó a iffo par- 
tira de Dio : que viífem fe haviam mifter 
alguma coufa , porque eítava preíles pêra 
tudo o que cumpriíle a elles ; e com ouvi- 
rem iílo , lhe refpondêram que fe aíFaítaf- 
fem , que como foíTe de dia , faliariam 
com elle , o que elle fez ; e chegando a 
terra , lançou neila o Cide Rana pêra to- 
mar falia de hum Babugi Sarage da náo , 
pêra faber delle a vontade dos Mercado- 
res , e fe queriam ir pêra Dio , mandando- 
lhes oíFerecer muitos favores. Poíto o Cide 
Rana em terra , negociou tudo muito bem y 
e foube que os Mercadores não defeja- 
vam outra coufa , antes mandaram reque- 
rer a Balthazar de Siqueira que os levaíTe 
a Dio , que elles eram contentes de cum- 
prir o que eítava aífentado com o Rendei- 
ro daquella Alfandega acerca dos direitos 
das fazendas daquella náo. Com iílo tanto 
que foi ao outro dia , mandou Balthazar de 
Siqueira dizer á gente que eítava em guar- 
da da náo , que os Mercadores que alli 
vinham eram livres , e que podiam levar 
fuás fazendas pêra onde quizeífem , e que 
queriam ir pêra Dio , pêra onde elle os ha- 
via de levar , e por iífo que fe determinaf- 
fem, A iílo lhe refpondêram, que o que to- 
cava ás fazendas dos Mercadores confen- 
íiriam em fe irem y e as levarem \ mas que 

as 



Década X. Cají». VIII. 44? 

as que foílem do Hecbaí* do Rao , c de 
outros alevantados , não a haviam de entre- 
gar , porque pertencia a EIRey Almoda- 
far, como verdadeiro Senhor, e herdeiro 
daquelle Reyno. Vendo Balthazar de Si- 
queira aquelia determinação , diílimulou, 
porque não tinha Armada pêra nada , e 
efperava cada dia por mais navios, que o \ 
Capitão de Dio ficou de lhe mandar ; e 
por lhe não fentirem fraqueza , foi entre- 
tendo o negocio com recados , e proteftos. 
Neíte meio tempo chegou a Goga Amofta- 
fa , que tinha defpedido EiRey Almoda- 
far com finco , ou féis mil homens , e al- 
guns elefantes , o que elle mandou pêra 
recolher a fazenda da náo , e logo foube 
de tudo o que os da náo tinham paflado 
com Balthazar de Siqueira , e lhes mandou 
recado que nada deixafiem defembarcar, 
porque toda aquelia fazenda pertencia a 
EIRey Almodafar feu Senhor , e que elle 
eílava alli pêra os favorecer contra os Por- 
tuguezes n e que não fe levaíTem de nada ; 
e cem efte recado fe alteraram os da náo, 
que era muito grande, e com hum cão de 
metal pela proa a ir , e vir da terra com 
recados , e refpofta deMufíafá, o qual man- 
dando advertir aos da náo que fe os noC- 
fos apertaífem muito , elles cortalfcm as 
amarras , e deffem com a náo á coíla, on- 
de 



446 ÁSIA de Diogo de Coutg 

de os noííos lhes não podiam fazer mais 
•nojo , e aífim fe íalvaria toda a fazenda. 
Neftas idas , e vindas que o batel fazia, 
paffava pela fufta de Balrhazar de Siquei- 
ra 5 fem o falvar , nem ufar com clle de 
cortezia alguma , moítrando nifTo eítarem 
foberbos conr o favor de Muílafá ; do que 
tomado Balthazar de Siqueira , mandou a 
Luiz de Oliveira , Capitão da Manchua, 
que tanto que o batel tornaíTe a paliar pê- 
ra terra , o fofle abalroar , e abrazaíTe to- 
dos os que hiam nelle , e lhe prefez pêra 
ifíb vinte foldados. O Luiz de Oliveira fe 
fez preíles ; e vindo o batel pêra terra já 
á boca da noite, indo demandar o cfteiro , 
endireitou com elle, e lhe poz a proa , e 
logo lhe lançou dentro tantas panelas de 
pólvora que o axorou , e abrazou todos 
os que nelle hiam, matando muitos, e ca- 
tivando todos os mais , e com o batel por 
poppa fe recolheo pêra onde eitava Baltha- 
zar de Siqueira. Tanto que da terra viram 
o fogo , e a briga , acudiram á praia , e 
gritaram aos da náo que lhe cortaífem as 
amarras ; e querendo-o fazer, acudiram a 
ífCo os Mercadores , porque os tinha já 
Balthazar de Siqueira mandado avifar, que 
fe a gente que lá eílava em guarda quizef- 
fe bolir nas amarras , que a metteífem á ef* 
pada , que elle feria logo em feu favor* 

Eí- 



Década X. Cap. VIII. 447 

Eftando aflim eíte negocio , fendo o quar- 
to d ? ante alva, chegaram alguns navios de 
Dio , que lhe vinham dar íbccorro , com 
os quaes Balthazar de Siqueira rodeou a 
náo ; e tanto que amanheceo , que os de 
lá viram os navios , commettêram logo par- 
tidos , e feguro , pêra que livremente fe pu- 
deílem ir pêra terra , o qual elle lhes con- 
cedeo , e a gente que alli eftava de guar- 
nição fe começou logo a defembarcar , dei- 
xando a náo aos Mercadores com todas as 
fuás fazendas , e Balthazar de Siqueira 
mandou bufcar Taurís pêra defcarregar a 
náo , porque não era poffivel tiralla dalli. 
Ao outro dia chegou Fernão de Miranda 
com fua Armada, o qual havia pouco, tem- 
po era vindo a Dio a fe prover ; e fabendo 
o que tinha Balthazar de Siqueira paliado 
em Goga , voltou pêra lá , e achou o ne- 
gocio em tão bom eftado , que por não 
ter que fazer fe tornou pêra a enleada , e 
Balthazar de Siqueira ficou defcarregando 
a náo em muitos Taurís , e navios , que 
logo acudiram de Dio , e nelles levou to- 
da a fazenda, e em Dio pagou os direitos, 
conforme ao concerto que os Procuradores 
dos Mercadores tinham feito com o ren- 
deiro , fem fe fazer nenhum aggravo a Mer- 
cador algum. 

CA- 



448 ÁSIA de DioGo de Couto 

CAPITULO IX. 

De como Mizarchão chegou a Cambaya: 
e dos recontros que teve com a gente de 
EIRey até chegar o Hecbar: e de coma 
EIRey Amodafar lhe largou o Reyno , e 
fe recolheo : e do que fez o Conde D. 
Francifco no Norte : e de como os Mala- 
bares mataram D. João de Cajlro : e 
da morte de D. Gonfalo de Menezes. 

TAnta preíla deo o Mizarchão , que o 
Mogor defpedio ás coufas de Cam- 
baya > que em menos de quarenta dias en- 
trou por aquelle Reyno, onde fe lhe ajun- 
tárani alguns Capitães do Mogor que an- 
davam elpalhados , com os quaes determi- 
nou de dar batalha a EIRey Amodafar, 
que cá eftava outra vez fobre a Madava ; 
e chegando duas jornadas daquella Cidade , 
aífentou o feu exercito , por efperar mais 
gente , e dalli mandou alguns corredores 
até Madava , que tiveram alguns encontros 
com a gente daquelleRey, em que de am- 
bas as partes houve perdas. 

Eítendo as coufas afíim , poucos dias 
depois chegou o Hecbar pela pofta em 
camellos, como da outra vez; e entrando 
por aquelle Reyno com hum arrazoado 
exercito , foi tomando outra vez tudo o 

que 



Década X. Cap. IX. 449 

que eftava por Amodafar : eftas novas lhe 
chegarão , com as quaes tomou tão grande 
medo , elle * e os mais de ília liga , que 
fem guardarem momento , levantaram o 
exercito , e foram-fe ; e paÍTando por Cam- 
bujete , e pelas mais Cidades daquella 
parte , as faqueou todas ? e delias levou 
hum grande theíburo com que fe recolheo 
a feus Reynos; o Hecbar teve aviíb defua 
ida , e em frefco defpediò Mizarchão com 
trinta mil de cavallo , pêra que foffem fe- 
guindo os inimigos , e lhes conquiftaffe fuás 
terras , e os deftruiííe de todo : e pêra mais 
o obrigar , e honrar ? lhe deo o titulo de 
Chanchana , que he òomo Condeftable do 
Reyno , o qual na lua lingua quer dizer 
Senhor dos Senhores. Partido efte Capitão , 
defpediò também os filhos de Cutubidichão 
com hum grande exercito pêra irem cercar 
Narzichao, cunhado de EIRey Amodafar , 
que eftava em Baroche mui fortificado • e 
ao mais velho deo a Capitania daquella 
Cidade , como feu pai a tinha : e das jor- 
nadas deites dous Capitães adiante daremos 
razão y porque he neceífario continuarmos 
com as coufas por ordem. 

As novas da chegada do Mogor a 
Cambaya foram logo ao Conde Vifo-Rey, 
que eftava em Chaul ; e fabendo que ti- 
nha outra vez conquiítado aquelle Reyno, 
Couto. Tom. VL P. I. Ff ' e 



450 ÁSIA de Diogo de Couto 

c que os Reys da liga eram fugidos ) hou- 
ve que não tinha que fazer naquelle nego- 
cio , e mandou a Fernão de # Miranda que 
correíle toda aquella coita do Norte pêra 
haver novas de alguns colTarios ; e andan- 
do por ella, foi avifado que alguns paráos 
eram paíTados pêra a enleada de Cam- 
baya , pelo que fez volta pêra lá ; e an- 
dando apôs os ladrões , lhe deo hum tem- 
po tão groflb , por ler em conjunção de 
Lua , que eíteve toda a Armada perdida , e 
foi-lhe neceffario correr com pequenos bol- 
fos de vela por onde cada hum pode , o 
que lhe durou todo aquclle dia , c noite , 
vendo-fe cada hora i e cada memento fub- 
mergidos dos mares que cruzavam por íi- 
ma delles : ao outro dia de madrugada a- 
bonançou o tempo , e cada hum íe achou 
pêra fua parte, fem faberem huns dos ou- 
tros, cuidando cada hum delles, pelo tem- 
po que paliou , que os outros feriam per- 
didos. D. João de Caftro foi amanhecer 
entre Tarapor, eMaim na coíla de Damão 
pêra Baçaim ; eindo demandar a terra qua- 
& deftroçado , foi dar de rofto com dous 
paráos de Malavares , que parece que com 
a mefma tormenta fe tinham recolhido em 
algum rio daquelles. D. João fez logo to- 
mar as armas , vindo mais pêra deícança- 
rem todos , que pêra entrarem em outro 



Década X. Cap. IX. 45-1 

perigo; e porque trazia toda a pólvora mo- 
lhada j negociaram alguma que acharam de 
melhor feição pela íurriada que haviam 
de dar ; e porque os paráos vinham alon- 
gados hum do outro algum efpaço , man- 
dou ao feu catureiro que lhe inveíliíTe lo- 
go o que vinha mais perto 5 porque ren- 
dendo-o , ficar-lhe-hia menos que fazer ; e 
apertando o remo , foram demandar o coffa- 
rio , o qual fe foi detendo tudo o que po- 
de 5 quando vio aquella determinação , por- 
que o outro chegaíle ; e quando D. João 
de Caílro chegou a lhe pôr a proa , já o ou- 
tro oitava com elle ; e como cíie Fidalgo 
defejava de fe parecer com feus avós , en- 
commendando-íe a Deos , e animando os 
léus 3 inveftio ambos os navios , ficando-lhe 
hum por poppa , e outro por proa ; e de- 
pois que os noílbs defpendêram as panei- 
las de pólvora todas com que abrazáram 
muitos Mouros , levaram mãos ás armas , 
porque as efpingardas não hiam pêra nada , 
e ás cutiladas , e lançadas peleijáram mui- 
to valerofamente , matando muitos dos ini- 
migos que nunca lhe puderam entrar o na- 
vio, fobre o que trabalharam bem ; mas os 
noííos lho defenderam com grande valor, 
recebendo fobre iífo muitas , e muito gran- 
des feridas que o animo 3 e furor lhe não 
deixava fentir. D. João , vivo retrato do 
Ff ii mor- 



4^2 ÁSIA de Diogo de Couto 

morto avô , fez efte dia tamanhas maravi- 
lhas que pafmou a todos ; porque com fer 
muito mancebo , quando era neceíTario 
mandar , o fazia , como fe toda a fua vi- 
da curfára a guerra ; mas a fortuna invejo- 
fa de hum tão honrado penfamento , endi- 
reitou hum pelouro de huma efpingarda 
que o tomou pelos peitos , que logo o 
derrubou morto. Os léus vendo o feu Ca- 
pitão eftirado , determinaram fatisfazer fua 
morte, e venderam muito caro fuás vidas, 
e affim fizeram ccufas notáveis com gran- 
de damno , e deftroço dos. inimigos ; mas 
como Deos noífo Senhor tinha aJli peito o 
termo a todos , acertou de dar huma pa- 
nella de pólvora em hum barril delia, que 
tinham os noífos de poppa , e tomando fo- 
go , deo com quantos havia do mafto á ré 
por eííes ares , ficando a fufta defpejada ; 
e affim os peitos que as armas inimigas 
nunca puderam vencer , as fuás próprias 
foi neceíTario que também fe compraffem , 
pêra que elles fe rendeífem com mais glo- 
ria , e efeapáram vivos fó três , que foram 
cativos , dos quaes ainda hoje vive hum 
Manoel Nogueira cafado em Goa , de quem 
nós foubemos efte fucceíío. 

A mais Armada de Fernão de Miranda 
foi temar diverfos portos , tcdadeftroçada, 
e desbaratada ; e de alguns marinheiros 

que 



Década X. Cap. IX. 45^3 

que fe falváram a nado do navio de D. 
João de Caftro lbube o Capitão Mor a def- 
aventura que lhes íuccedeo , a qual fentio 
tanto , que ainda que perdera hum irmão 
muito querido , fe não entriftecéra mais, 
e aífim moftrou no exterior a triíleza que 
todos nelle fentíram; e depois que ajuntou 
os navios , fe foi a Chaul , onde o Vifo- 
Rey eítava , e da barra lhe mandou as no- 
vas da perda de D. João por António de 
Azevedo, por elle fe não atrever a lha dar, 
e elle lhe certificou o grande fentimento w 
com que Fernão. de Miranda hia poraquel- 
le máo fuccefib. O Conde fentio muito a 
morte daquelle Fidalgo, aífim pelo paren- 
tefco que com elle tinha , como pelas efpe- 
ranças que de íi tinha dado , e mandou 
chamar Fernão de Miranda , e o coníbíou , 
e mandou que tornaífe a voltar pêra fima 
em bufca dos ladrões , e que fe não affaf- 
taífe muito de Damão , em quanto o Mo- 
gor andaífe porCambaya: o que elle fez, 
e tornou a bufcar a enfeada fem achar cou- 
fa alguma ; e vendo que a Coíla de Dabul 
pêra Goa ficava fem guarda , defpedio pêra 
ella António de Azevedo com féis navios, 
com os quaes andou todo o reílo do ve- 
rão dando guarda ás cáfilas que hiam pê- 
ra Goa. Nelle tempo faleceo nefta Cidade 
D. Gonfalo de Menezes , que eíle anno ti- 
nha 



45*4 ÁSIA de Diogo de Couto 

nha vindo fervir a Capitania de Ormuz , 
muito rico ) e foi enterrado em S. Francis- 
co com grande dor , e fentimento de to- 
dos , por fer hum Fidalgo de muito gran; 
des partes , e qualidades de fua pcílba- 
nunca cafou , e teve huma filha natural, 
que depois foi cafada com Garcia de Mel- 
lo , filho de AfFonfo de Torres , cunhado 
do Alferes Mor do Reyno D. Jorge de 
Menezes , irmão do meímo D. Gonfalo y 
que ambos foram filhos de D. João de 
Menezes , Alferes Mor de Portugal , e de 
Dona Maria de.Mendoça , filha de Jorge 
de Mello Pereira 5 de alcunha o Tranca y 
e neto de D. Luiz de Menezes, Capitão 
Mor do mar da índia , que foi em tempo 
do Governador D. Duarte de Menezes , Fe- 
nhor da cafa de Tarouca feu irmão, e am- 
bos filhos do Conde Prior D. João deMene- 
zes. 

CAPITULO X. 

Das coufas que aconteceram em Goa , ef 
tando o VÍfo-Rey no Norte : e de como Cu* 

fochão foi levado por engano ao Balaga- 
te , onde lhe tiraram os olhos : e do que 

fuccedeo ao Vifo-Rey até chegar a Goa. 

NO Cap. VIL deite Livro dêmos con- 
ta de como Anel Maluco , e outros 
Capitães do Idalxá fe concertaram com o 

Cu- 



Década X. Cap. X. 457 

Cufochão , filho de Malechão , pêra o met- 
terem em Balagate , e de como oVifo-Rey 
o deixou entregue ao Alcaide Mor , pêra 
que fe não foífe de Goa. 

Eftas coufas não puderam correr em 
tanto fegredo , que não foííe ás orelhas do 
Abexim de Lavarchão , que tinha o Rey 
moço em feu poder , e governava abfolu- 
tamente tudo , as quaes lhe deram muita 
em que cuidar ; mas como era velho , e 
fabedor , houve que os mefmos Capitães 
lhe abriram caminho pêra haver Cufo ás~ 
mãos 5 pêra com iflb acabar de fobrefaltos y 
que cada dia recebiam aquelles Reys ''com 
a eftada deftes homens em Goa ; e abrindo 
a bolfa , que lie o melhor negociar de to- 
dos , dizem que quitara algumas peílas 
entre nós pêra o favorecerem , e formou 
cartas falfas em nome dos Capitães > que 
fe carteavam com o Cufochão , chapadas 
com ílias próprias chapas , que houve ás 
mãos por invenção , nas quaes lhe diziam 
trabalhaífe todo o poífivel por fe paífar da 
outra banda , porque logo lhe haviam de 
acudir muitos Capitães pêra o guardarem; 
e que como ellcs tiveífem recado , o 
mandariam levar pêra íima do Gate. Eftas 
cartas deo a hum Bramene por nome Vi- 
tuia , de que fe confiou , e por elle efcre- 
veo também o de ^avarchão Amoratechão , 

e 



45TÓ ÁSIA de Diogo de Cou^ 

e Governador de Cochão , e lhe dava con- 
ta daquelle negocio , mandandó-lhe que 
dafua parte efcreveíTe também oCufochão 
que fe foíTe pêra elle , e que o efperava. 
Eftas cartas deo o Bramene a Cufochão 
em muito fegredo , e tratou com elle a- 
quelle negocio , fezendo-lho muito facii 
com que o abalou: logo apôs elle lhe lan- 
çou o Delevachao hum Diogo Lopes 
Baião 4 que tratava no Balagate em cavai- 
los , homem fufpeitofo aííim a Deos , co- 
mo a Coroa , do qual fe affirma ter do 
Jdalxá fete mil pardaos de renda cada an- 
no por velhacarias fuás , novas , e alvitres 
que levava de Goa cada vez que hia com 
cavalios. Eíle vio-fe em Goa com o Cufo 
algumas vezes em fegredo, e aílim o fou- 
be perfuadir ao que queria , affirmando-lhe 
que oefperavam de liia banda, e que fem 
duvida em pondo os pés no Balagate, feria 
Rey , que lhe tirou algumas dúvidas , fe as 
tinha, com a carta deVitula, e aílim por 
fua ordem defappareceo huma noite , e 
paíTou-fe da outra banda , e foi-fe recolher 
em huma Aldeia chamada Perio, huma lé- 
gua de Benaítarí , onde lhe acudio alguma 
gente , que não fabia dos tratos , a lhe fa- 
zer veneração. Diíto foi logo Maratechao 
avifado , e defpedio hum Capitão com du- 
zentos dç cavallo que o prendeo ; e levou 



Década X. Cap. X. 457 

aonde elle eílava , e com elle fe poz no 
caminho do Gate ; e chegando a hurna 
Fortaleza chamada Morigi , achou recado 
de EIRey que logo lhe tiraíTe os olhos , 
porque receou que indo com elles hou- 
veíTe alguma alteração, o que logo Maru- 
tachão fez, achando-fe o pobre Cufo mui- 
to enganado , e entendeo que fó os Portu- 
guezes lhe falláram fempre verdade ; e 
depois de cego , foi levado a Vifapor, e 
EIRey o mandou metter em hum Caftello 
forte, e lhe mandou dar finco Pagodes ca- 
da dia pêra afua defpeza ; mas durou pou- 
co 5 porque logo faleceo de huma poíthe- 
ma. Depois mandou o Idalxá levar fua 
mulher , e huma filha que tinha , e lhe deo 
humas boas Aldeias, e além diííb fincoen- 
ta pardaos cada mez para feu entreteni^ 
mento. Eítas coufas todas pafsáram , em 
quanto o Conde D. Franciíco eíteve no 
Norte , o qual depois que vio não tinha 
que fazer nas coufas de Cambaya , deo 
defpacho a -muitas daquellas Fortalezas do 
Norte , no que gaitou quafi todo o Mar- 
ço , e por fer tempo de fe ir pêra Goa a 
prover nas coufas do Sul , fe fez á vela , 
deixando Fernão de Miranda com a fua 
Armada pêra invernar em Damão , e or- 
dem pêra que António de Azevedo , e D. 
Jorge dç Almada deíTem mezas aos folda- 

dOS y 



458 ÁSIA de Diogo de Couto 

dos ; e indo o Vifo-Rey tanto avante co- 
mo Sefardao , nove léguas de Cbaul, en- 
controu Pedro Lopes de Soufa , que ti- 
nha mandado a dar guarda á cáfila de Ca- 
nará ; e depois que a deixou em Goa a 
falvamento, voltou pêra o Norte em buf- 
ca do Vifo-Rey, acompanhando-o até Da- 
bul o Falfo : dalli o defpedio o Vifo-Rey 
com hum regimento que fe fofle pôr ío- 
bre a barra de Dabul ate fahir de dentro 
huma náo de JoaoCobaço, que os Turcos 
tomaram em Mafcate ( como em principio 
deita Década Cap. X. do Liv. I. temos di- 
to) eftando outra vez á carga pêra lá; 
porque indo pêra o André em Setembro 
paliado , arribara áquella Cidade, e ajun- 
tou-fe a iflb o que agora contaremos bre- 
vemente. 

Quando o Abexim do Lavarchao fe 
alevantou com o governo do Reyno do 
Idalxá ( como ha pouco diflemos ) pêra fe- 
gurar-fe em fua tyrannia , deílerrou pou- 
cos , e poucos os Capitães , e privados , 
que foram de Aíiáo Yalxa, em cujo poder 
ficou EIRey Abrahemo feu fobrinho ; e 
entre eftes foi hum Cid Ali caíla Ceide , 
e de -tamanha prudência , e governo, que 
em quanto Alião Yalxa viveo, teve o fello 
do Reyno , e governou tanto tudo , que 
pêra fer Rey não lhe faltava mais que o 

no- 



Década X. Ca?. X. 45-9 

nome, e com eíte degradou também huma 
mulher cafta Cherquís de idade de feííen- 
ra e finco annos , pequena de corpo , mui- 
to alva y e parecia que em feu tempo fora 
fermofa , de grande governo , e prudên- 
cia, e aíErmou-le que eítava ainda virgem, 
cavalgava em fe.rmofos cavailos , em que 
era tão deítra, e exercitada, que em todo 
o Balagate não havia quem lhe fízeífe van- 
tagem; veítia Cabaias muito finas até abai- 
xo do joelho , e calções compridos até o 
peito do pé , e çapatos mourifcos , touca- 
va toalhas muito alvas , e finas , com que 
dava algumas voltas poucas de redor da 
cabeça de feição que com as pontas fe vi- 
nha a rebuçar quafi até os olhos , peleija- 
va nas batalhas com arco, e aljava a modo 
das Amazonas; e certo que fe parecia em 
tudo , fegundo o que fe delia diz. Efta 
mimofa mulher de EIRey Alião era odia- 
da de todos os Grandes do Reyno , por- 
que mexericava com EÍRey , e ainda di- 
ziam que lhe fazia haver os filhos , e fi- 
lhas ; em fim ambos foram degradados , e 
por adherencia alcançaram licença pêra fe 
irem embarcar a Dabul pêra Meca , onde 
então fe eítava fazendo preftes. E fabendo 
que o Conde Vifo-Rey eítava em Chaul , 
lhe efcrevêram que tinham negócios muito 
importantes que tratar com elle , e que 



460 ÁSIA de Diogo de Couto 

ficavam embarcados pêra Meca , que os 
mandaífe tomar na barra , e levar pêra 
Goa , porque cumpria aííim ao ferviço de 
ElPvey de Portugal. 

Defpedido Pedro Lopes de Soufa , deo- 
lhe o Viíb-Rey por regimento que tomai- 
fe eftas peííoas , e as levaííe comíigo , e o 
Viíb-Rey paflbu pêra Goa, onde logo co- 
meçou a tratar dos provimentos de Mala- 
ca , Maluco ? e Ceilão , mandando dar 
preíTa ás Armadas que havia de mandar 
pêra aquellas partes , a que logo tornare- 
mos ,' porque he necefíario continuar com 
outras couías. 

CAPITULO xr. 

De como Pedro Lopes de Soufa trouxe a 
Goa Cid Ali , e Bebi Acilá : e do que 
pa[fdram em Goa : e do que aconteceo a 
D. Gileanes Mafcarenhas no Malavar : 
e das pazes que fez com o Comorim. 

APartado Pedro Lopes do Viíb-Rey, 
foi em fua Armada a Dabul , e por 
caufa dos nordeíles fe recolheo no Falíb , 
que he abaixo duas léguas , e alli efteve 
até á entrada de Abril , que o avifáram 
que a náo eftava carregada, e poíta no ca- 
nal pêra fahir pêra fóra ; e levando a anco- 



Década X. Cap. XI. 461 

ra , foi-fe a Dabul , e furgio de redor da 
náo , e mandou dizer ao Tanadar que fe 
lhe nao entregaííe a náo , que fora de João 
Cabaço ( que também eftava á carga ) que 
havia de levar aquella pêra Goa. O Tana- 
dar tanto que vio aquillo , mandou com 
muita brevidade defcarregar a outra náo, 
e a entregou a Pedro Lopes de Soufa , ten- 
do ainda com elle muitos cumprimentos. 
Pedro Lopes tanto que deitou a náo fora, 
recolheo no feu navio o Cid Ali , e a Be- 
bi com fua fazenda, e farnilia; e fahindo- 
fe do Reyno , foi-fe peia Goa , levando a 
náo cornílgo ; e por ventarem nordeíles , em 
breves dias chegou áquella barra : o Conde 
Vifo-Rey mandou metter a náo dentro, e 
a entregou a Leonardo de Figueiredo, ir- 
mão de João Cabaço cuja era , e ao Cid 
Ali , e Bebi mandou agazalhar , e correo 
com elíes muito bem. As coufas que trata- 
ram algumas vezes com o Vifo-Rey não fe 
fabem , mas fufpeita-fe que foi pêra favo- 
recer Mahamede Cham , irmão do Cufo y 
pêra o metterem no Reyno, porque já do 
Meale não havia mais entre nós que aquel- 
le filho baftardo ; e nao vindo eftas coufas 
a effeito , depois de eftar em Goa mais de 
hum anno , foi-fe o Cid Ali pêra o Mogor, 
e a Bebi foi preza pela Inquifição por cou- 
fas que nao fabemos j mas dizia~fe que per- 

fua- 



462 ÁSIA de Diogo de Couto 

fuadia algumas peíToas Chriftans pêra fe 
tornarem á Lei de Mafamede , e outras 
coufas, pelo que foi caftigada, e degrada- 
da peta Ormuz , donde por via do Conde 
fe paíTou pêra o Mogor , e o perfuadio a 
ir conquiítar aquelle Reyno , o que elle de- 
pois fez , como em feu lugar diremos. 

Agora concluiremos com D. Gileanes 
Mafcarenhas , Capitão Mor do Malavar, 
que ha muito que deixámos , porque foi 
neceflario , por não contarmos fuás coufas 
por pedaços. Depois que efte Capitão Mor 
chegou áquella Coita , fe lhe adiantou An- 
dré Furtado , que tinha vindo do Cabo do 
Comorim (como atrás fica dito) começou a 
continuar na guerra , defendendo a navega- 
ção pêra todas as partes , e mandando-lhe 
queimar muitas povoações , em que entra- 
ram Capocate , e Cetúr , em que fizeram 
grande damno , e aílím lhe ahrazáram , e 
tomaram muitas embarcações , e pelo- rio 
de Chalé dentro lhe queimaram as povoa- 
ções do Curi , Manduriti , onde lhe corta- 
ram muitas palmeiras , e mataram muito 
gado , groíTo , e miúdo , que os Naires tem 
por coufa religiofa , e que muito fentem ; 
c fecretamente por ordem de Francifco 
Fernandes o Malavar fe poz de noite fo- 
go aos Paços do Comorim em Calecut, que 
arderam por muito bom efpaço , do que 

eJ- 



Década X. Cap. XI. 463 

elle fe houve por muito injuriado ; e por 
eíla maneira queimaram também Parianga- 
le , e Pulipatecule junto da Fortaleza de 
Cunhalé , e outras povoações pelo rio den- 
tro , e lhe deram em outros lugares , em 
que fempre lhe fizeram affás de dam.no, e 
em todo efte verão tomaram os noííòs vin- 
te e dous Cataculóes , que são os que mor 
eftrago fazem em navios Portuguezes , que 
todos os outros navios. 

Eftas coufas todas fizeram os Capitães 
da Armada todas por vezes, ganhando nes- 
tas fahidas muita honra ; e por não ferem 
coufas em que he forçado nomear os ho- 
mens , os não particularizaremos ; e nefta en- 
volta tomaram também fere gandras das 
Ilhas de Maldiva 'carregadas de fazendas, 
c queimaram huma náo , que eíla v a carre- 
gando pêra Meca. Com eftas coufas poz o 
Capitão todos os moradores daquella 
Cofta cm tantas neceífidades , que commovi- 
do o Comorim do pranto geral de to- 
dos que acudiam a lhe fazer queixas , lhe 
mandou commetter pazes , ao que elle deo 
orelhas ; e tanto puchou por iífo , que 
vieram a aflentar que fe viíTcm na praia 
de Calecut pêra de rofto a í*ofto as con- 
cluírem , porque fe receava o Comorim 
que os feus Regedores eftiveífem peitados 
dos Mouros ; e que fe correffe aquelle ne- 
\ go- 



464 ÁSIA de Diogo de Couto 

gocio por elles , nunca fe faria nada bem 
feito. Concluido niílo , mandou o Co- 
morim as feguranças de fua peíToa , e 
com ilTo defembarcou hum dia limitado, 
levando comíigo quaíí todos os Capitães 
da Armada , que eítavam com as proas em 
terra. O Comorim ao mefmo tempo che- 
gou á praia acompanhado de feus Regedo- 
res ; e havendo nas vifitas as cortezias or- 
dinárias , trataram fobre o modo de pa- 
zes , de que o Capitão Mor levava feus 
apontamentos feitos ; e debatidos entre el- 
les , brevemente vieram a concluir com as 
condições feguintes. 

» Que eile Comorim fe obrigava a dar- 
» lhe lugar pêra huma Fortaleza no rio de 
» Panané em reftituição da de Chalé com 
» hum pedaço de campo pêra povoação, 
» e a habitação da gente Chriíla da terra. 

» Que aíTim os Chriílãos , como os 
» Mouros pagariam os direitos de todas 
» as fazendas que entralfem , e fahiflera 
» daquelle Porto, aííim como pagavam na 
» Alfandega de Cochim. 

» Que elle Comorim daria féis peças 
» de artilheria de metal pelas que fe to- 
» máram em Chalé. 

» Que fe obrigava a dar pimenta nos 
» feus Reyncs pêra duas nãos do Reyno 
» pelo preço que a dava EIRey de Cochim. 

» Que 



Década X. Cap. XL 46^ 

» Qu e ^ e obrigava a mandar cortar os 
5) efporóes aos navios de remo que em' 
y> feus portos houveíTe , e que ficariam de 
» carga. 

» Que entregaria todos os Portuguezes y 
» e Chriftãos que por todo o feu Reyno 
» houveíle cativos. 

» Que derrubaria a Fortaleza que o 
» Cunhaíe tinha feito no leu Reyno , tan- 
» to que a de Panane foíTe feita de pedra , 
)) e cal , e outras coufas que não relatamos 
» por ferem eftas as principaes. » 

O que o Comorim logo concedeo , e 
aífignou com feus Regedores nos papeis 
oue diíTo fe fizeram , e elle paífou de tu- 
do Ollas 5 o que tudo fe fez com muito ap- 
plaufo , e contentamento de todos. Feito 
iílo y embarcou-fe o Capitão Mor ; e de- 
pois de recolher os navios de Malaca , 
China, Bengala , e de todas as mais par- 
tes daquella banda , deo á vela pêra Goa y 
e de caminho foi provendo, e viíitando as 
Fortalezas de Canará, e com toda efta ca* 
fila chegou a Goa aos 8. de AbriL 



Couto. Tom. VI. P. L Gg C A- 



466 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO XII. 

Do que fuccedeo a D. Jeronymo Mafcare* 
nhãs em toda a viagem até fe tornar pê- 
ra a índia : e do que lhe aconteceo em 
Ceilão : e dos aj] altos que João Corrêa 
de Brito mandou dar em terras doRajú. 

DEixámos de continuar com D. Jero- 
nymo Mafcarenhas , porque o guar- 
dámos pêra efte lugar por contarmos fuás 
coufas todas juntas. Partido elle de Goa 
com toda a Armada , foi feguindo fua der- 
rota ; e fendo dos Canaes de Gomes pêra 
dentro , aífaítando-fe delle a fufta de Lopo 
de Atouguia , foi correndo de longo da 
Coita do Achem , e por ella encontrou a 
náo doReyno, que luar' pêra Malaca, por- 
que era em Outubro ; e parecendo-lhe que 
era náo Ingleza por irem com a imagina- 
ção nos Ingleses , foi demandalla , e fem a 
conhecer , fe poz ás bombardadas a ella. 
Os da náo como também hiam receofòs de 
Achans , parecendo-lhes também que a fuf- 
ta era delles , pela mefma maneira os fer- 
viram com alguns tiros , que não fizeram 
damno por ferem de longe. Andando nif- 
to ? lhe entrou o vento rijo com que a fuf- 
ta deixou a náo 7 e foi feguindo fua via- 
gem; 



Década X. Gap. XII. 467 

gem; c chegando a Malaca, deram por no- 
vas que encontraram huma náo Ingleza , e 
que peleij aram ccmella. Poucos dias depois 
chegou ella , eaffirmáram todos que pelei- 
járam com huma Galiota de Achens y mas 
logo fe foube o engano. 

D. Jeronymo chegou a Malaca ; e ajun- 
tando-fe em cafa do Capitão Roque de 
Mello com o Bifpo , Vereadores , e pef- 
foas principaes , praticaram fobre as coufas 
que levava por regimento fobre o negocio 
de EIRey de Sor, e da náo de Simão Fer- 
reira, e fobre as coufas do Achem; e pra- 
ticadas entre elíes , aífentou-fe que pois o 
Achem não bolia comíigo , e o Rajale li- 
nha fatisfeito dafua parte com fua obriga- 
ção ; e entregou a artilheria , e parte da 
fazenda ; e que das mais tinha provado por 
hum inftrumemo , que mandou requerer 
que fe tiraíTe , como os Coletes a tinham 
roubado ; e fendo elles os que menos qui- 
nhão , ou nenhum levaram , íenao fó o no- 
me de Coletes , que he de Ladrões , que 
he o que quizeram dar aos que mais rou- 
baram, que fe não havia de boíir com el- 
le, e que juraffcm , e conSrmaflem as pa- 
zes como oVifo-Rey mandava; e que dei- 
xaflem alguns navios naquelles eílreitos pê- 
ra favorecerem os juncos , e mais embar- 
cações que vieffem de Jaoa , e das mais 

Gg ii par- 



468 ÁSIA de Diogo de Couto 

partes com fazendas , e mantimentos pêra 
Malaca , com efta refolução defemaftreou 
DJeronymo os Galeões , e os mandou con- 
certar , e deípedio Pedro Homem Pereira 
na fua Galé pêra levar o Embaixador ao 
Rajale, e haver de jurar as pazes. Elle lá 
foi bem recebido daquelle Rey , que tinha 
bem feita a cama ás fuás coufas > e jurou 
as pazes com muitas feitas. 

Chegada a monção da índia , deixou 
D. Jeronymo por Capitão daquelle mar a 
João Furtado de Mendoça no fcu Galeão, 
e com elle Vafco da Silva em outro cha- 
mado S. Pedro , e S. Paulo , que tinha vin- 
do de Maluco 5 no qual tinha ido D. Ál- 
varo de Caftro , e alguns navios Nantins , 
que lhe mais havia de crdenar. Negocia- 
do iíto 5 e outras coufas , deo á vela pêra 
Goa , e foi feguindo fua viagem , em que 
o deixaremos por hum pouco pêra darmos 
razão das coufas que neíle tempo fuccedê- 
ram em Ceilão. 

Atrás demos conta de como João Cor- 
rêa de Brito foi entrar na Capitania de 
Columbo, de que veio provido do Reyno 
em companhia do Conde D. Francifco. 
Chegado áquella Fortaleza, foi continuan- 
do na guerra contra o Reju com muita 
íubítancia ; e por fer avifado que no porto 
• de Baligão citavam recolhidos três paraos 

de 



Década X. Cap. XII. 469 

deMalavares cheios de muitas prezas, que 
aquelle verão fizeram pela Coíla de Nega- 
param , defpedio Ambroíio Leitão por Ca- 
pitão Mór de quatro navios com regimen- 
to que os foífe tomar dentro no mefmo 
rio. Partidos eftes navios 3 poucos dias de- 
pois chegou D. Jeronymo Mafcarenhas com 
fua Armada ao porto do Columbo, ejoão 
Corrêa de Brito lhe pedio mais alguns na- 
vios pêra irem ajuntar-fe com Ambroíio 
Leitão, porque lhe não eícapaíTem os pa- 
ráos. D. Jeronymo lhe deixou Pedro Ho- 
mem Pereira na fua Galé, e a Galeota de 
João Rodrigues de Carvalho , e elle fe 
partio pêra Goa. João Corrêa , além deftas 
embarcações , mandou negociar outras al- 
gumas a terra , ainda que pequenas , e man- 
dou embarcar nelias os Araches , Manoel 
Pereira , e Domingos Fernandes com du- 
zentos Laícarins , e deo por regimento a 
Pedro Homem que entrafle no rio de Bala- 
gão , e tomaííem os paráos , e queimaílem 
a povoação. Chegados eftes navios á ponta 
de Baiangale , encontraram Ambroíio Lei- 
tão ; e ajuntandorfe todos , foram furgir na 
boca do rio , onde os paráos eftavam , e 
alli ordenaram que todos os Portuguezes 
defembarcaíTem por huma parte , e os Ara- 
ches pela outra pêra divertirem os inimi- 
gos 3 e lhes ficar a defembarcaçao mais fok 



47<3 AS TA de Diogo de Couto 

gada, e-aífim foram demandar a terra ; è 
na em que os Portuguezes puzeram os pés 
acharam hum grande corpo de gente, que 
acudira a lhes defender a deièmbarçaçaó , 
com os quaes travaram huma fermofa , e 
arrifcada batalha , porque os inimigos eram 
muitos mais , e peleijavam por defensão 
de luas cafas , e fazendas. OsAraches com 
feusLafcarins defembarcáram em outra par- 
te ; e não achando defensão , foram de- 
mandar huma ponte por onde os inimigos 
haviam de paílar , fe foílem fugindo dos 
noflbs , a qual eítava da banda do Pagode 
de Tanavaré ; e porque nenhum pudelTe 
efcapar, a desfizeram ; e dando volta por 
dentro de huns palmares , foram rebentar 
pelas coitas dos inimigos , que andavam 
em batalha muito travada com os noilos ; 
e arremettendo a elles com grande fúria, 
e grita , mataram , e derribaram muitos , 
e todos os mais como foram tomados de 
fobrefalto , deíacorçoáram , e lançaram a 
fugir : os noflbs os foram feguindo por hu^ 
ma parte , os Araches pela outra até os 
metterem pela povoação, fazendo huns, c 
outros muito grande eftrago nelles ; e por 
não haver defordem , que fempre neftes 
cafos fuccede , mandaram os Capitães pôr 
fogo ás cafas , que eram cubertas de pa- 
ljiar , e palmas, o qual ateou tão furiofa- 

men- 



Década X. Cap. XII. 471 

mente que em breres horas foi tudo feito 
em pó , e cinza , porque arderam muitas 
lojas cheias de roupa , anflão , azeites , 
manteigas , caneila , e outras coufas, que 
accenderam muito a braveza do fogo , o 
que tudo eftava pêra carregarem pêra Me- 
ca , Achem , Mafulipatão , Pegú , e para 
outras partes , por fer efte rio huma gran- 
de efcala de todos. Feito iílo , puzeram fo- 
go aos navios , que acharam alíim em ter- 
ra, como no mar, que foram vinte efincp 
miúdos , e hum Galeão , que fora de Por- 
tuguezes , que varou naquella coita , o qual 
eftava já concertado pêra ir pêra Meca ; 
fó os paráos dos Malavares fe falváram, 
por eftarem pelo rio aílima três léguas em 
parte a que os noííos não podião chegar; 
morreram dos inimigos mais de duzentos , e 
derredor de cento de Malavares. Com eíta 
vitoria fe recolheram os noííbs a Colum- 
bo , com o qual o Raiu ficou tão affron- 
tado, que queria morrer de pezar. Pedro 
Homem Pereira , e João Rodrigues de Car- 
valho deram logo á vela pêra Goa , aonde 
chegaram quaíi ao mefmo tempo que D* 
Jeronymo Mafcarenhas. 



CA- 



47* ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO XIII. 

De como EIRey de Cochim ãefijlio do di- 
reito que tinha na Alfandega , e o traf- 
pa/Jou a EIRey de Portugal: e dos alvo- 
roços que houve naquella Cidade Jobre ef- 
te negocio. 

AS coufas que o Vifò-Rey trazia mais 
encommendadas de EIRey , eram fazer 
duas Alfandegas , huma em Chaul , e outra 
çm Cochim , fobre o que elle trabalhou 
muito todo o feu tempo com folicitar eílc 
negocio por meio de peííoas principaes fe- 
culares, e Religiofos , e com muitas pro- 
meflas que por parte de EIRey fez aos 
moradores daqucllas Cidades; e aonde fez 
mais inftancia foi na Cidade de Cochim , 
porque não he tratar com povo , porque 
pêra elle cftava já havia muitos annos a 
Alfandega feita , porque todos os Portu- 
guezes , e moradores daquella Cidade par 
gam direitos a EIRey de Cochim por hum 
Alvará, que EIRey D.João lhes tinha paf- 
fado o anno de mil e quinhentos e trinta, 
porque lhes fez graça de lhes conceder que 
os cafados naquella Cidade lhe pagaíTem 
das entradas das fazendas da China a féis 
por cento , havendo refpeito aos grandes 
mçrçcimentos dos Reys antepaíTados , c 



Década X. Cap. XIII. 473 

feus. Efte Alvará lhe confirmou EIRey D. 
Filippe o anno de 1580. em que foi jura- 
do por Rey de Portugal por huma carta 
efcrita em Badajoz a 7. de Novembro. Ef- 
ta graça lhes concedeo 5 com declaração que 
fó os caiados , e moradores deCochim lhe 
pagariam os direitos aífima declarados 5 e 
depois que EIRey D. João lhes fez a pri- 
meira concefsão , correndo o tempo em dian- 
te , forão os moradores daquella Cidade 
fazendo tantos , e taes ferviços aos Reys 
de Cochim , que por elles lhes fizeram de 
lhes quitar dous e meio por cento nos di- 
reitos de luas fazendas, e que fó ficafletn 
pagando a três e meio , o que depois fe 
veio a entender que era em muito damno, 
e perjuizo da Alfandega de Goa; eChaul, 
e Baçaim fe vafavão naquella Cidade , e 
fe defpaehavam por meio daquelíes mora- 
dores como fuás , por que logo a Alfande- 
ga de Goa ( a mor parte da fazenda dos 
moradores) fentio muito abatimento em 
fuás rendas , e entradas , no que EIRey man- 
dou prover, e dar ordem com que iíTo fe 
evitaífe* Eílas coufas tratou o Conde D, 
Francifco em muito fegredo por cartas com 
o Licenciado Francifco de Frias , que em 
cafa de EIRey deCochim eítava homiziado 
por muitos Capítulos , que outro Letrado 
deo contra elie, de erros que commettêra 

em 



474 ÁSIA de Diogo de Couto 

em feus officios ; e como eíle homem era 
fagaz , e de grandes traças , e invenções , 
com que tinha obrigado aquelle Rey mui- 
to , porque de feu faber, e letras fe apro- 
veitava pêra feus negócios. Tratando efta 
matéria muitas vezes com elle , o perfua- 
dio em que tornaíTe a renunciar em EIRey 
de Portugal a poiTe em que eílava dos di- 
reitos que os moradores daquella Cidade 
lhe pagavam ? dando-lhe claramente a co- 
nhecer as grandes perdas que as rendas da 
índia recebiam com aquellas liberdades > 
promettendo-lhe da parte de EIRey muitas 
outras honras , e favores , que vieflem a 
importar mais á fua fazenda. Tantas cou- 
fas lhe diífe , e tantas promeífas lhe fez 
fobre efta matéria , que veio a conceder no 
que o Conde pedia , e defpachou logo Itua- 
na Camena , Geral Capitão de feu campo , 
e Regedor Mor de feus Reynos , e Janga- 
rá iV^ena feu Lingua , e com elles Bento 
Ferreira feu Secretario , com todos os po- 
deres que lhe podia dar pêra irem em com- 
panhia de D. Gileanes a Goa a tratarem , 
e concluírem aquelle negocio com o Vifo- 
Rey. Elias peííbas foram em Goa muito 
feftejadas , e recebidas ; e entrando o Vifo- 
Rey com elles em negocio , o levou por 
taes termos , e lhe concedeo pêra . o feu 
Rey tantas coufas que vieram a concluir 

no 



Década X. Ca?. XIIT. 475* 

nó que o Vifo-Rey pertendia ; e pelos po- 
deres que levavam, fizeram logo fuás capi- 
tulações , e contrato, cuja fubítancia he a 
feguinte. 

» Que Elrley de Cochim deíiftia da- 
» quelie dia pêra todo o fempre de todo 
)> o direito , e acção que tinha na Alfan- 
)> dega de Cochim , e dos direitos que feus 
» moradores lhe pagavam , por quaesquer 
» Cartas , Alvarás , e Conceísões que elle 
» tiveíTe , affim de EIRey D, João , como 
y> deElR.ey D. Filippe , e o trafpaflava nel- 
» le, e em todos os Reys de Portugal feus 
» íucceffores \ e havia por bem que todos 
» os direitos que elle arrecadava naquella 
» Cidade pelas graças a EIRey de Cochim 
)) concedidas , fe arrecadaíTem , e recebef- 
» fem daquelle dia por diante pêra a fa- 
)) zenda de EIRey de Portugal por mão de 
» feus Officiaes ,\ e Thefoureiros. 

» E que rodos os moradores, que não 
» foílem cafados em Cochim 5 que vieííem 
» da China, Malaca, Maluco, e mais par- 
» tes do Sul, não pudeíTem defembarcar , 
» nem baldear fuás fazendas no porto de 
>> Cochim , e paliariam a Goa a pagar di~ 
>) reitos delias ; e os cafados , aflim Portu- 
» guezes , como Mouros , Gentios , e Ju- 
» déos , pagariam em Cochim , aonde de£- 
)> embarcariam fuás fazendas a féis por 

» cen- 



476 ÁSIA de Diogo de Couto 

y> cento a EIRey de Cochim , a fora as la- 
» gimas dos Ofiiciaes : e que na dita Al- 
» fandega de Cochim pagariam direitos a 
» EIRey de Portugal todas as fazendas que 
» aili foliem ter de todas as mais partes, 
» todos os Portuguezes , filhos dos Portu- 
)) guezes , meíliços , e Chriftãos da terra ; 
» e que as fahidas pêra fora deitas fazen- 
» das pagariam ao Rey, de cuja jurifdic- 
» çao delle Rey de Cochim pagariam dif- 
» fo mefmo direitos de fahida a EIRey de 
y> Portugal , com outras claufulas , e apon- 
» tamentos que deixamos por não ferem 
» neceífarios. » 

Feitos eftes papeis , e aílignados eftes 
concertos , defpachou o Conde os Embai- 
xadores com muitas honras y e mercês , c 
efereveo áquelle Rey cartas de grandes 
agradecimentos , fignificando-lhe o muito 
grande ferviço que tinha feito a EIRey de 
Portugal naquelle negocio , com que evi- 
tara muitas vezes defordens y e damnos nos 
rendimentos de fuás Alfandegas , e mandou 
grandes Provisões ao Licenciado Francifco 
de Frias com poderes de Vedor da Fazen- 
da , e Ouvidor Geral pêra pôr eíte nego- 
cio em ordem : efereveo a D. Jorge Baro- 
che , Capitão daquella Cidade , e a Ma- 
noel de Soufa Coutinho , que alli eftava 
com fua mulher 7 £ cafa, o qual tinha fa- 

hi- 



Década X. Cap. XIIT. 477 

Lido da Capitania de Ceilão , e outras pef- 
íòas com quem elle tinha communicada 
aquelle negocio , pêra que o favoreceflem , 
e ajudaflem em tudo. Chegados eftes Em- 
baixadores a Cochim , publicáram-fe logo 
os regimentos da Alfandega, os quaes tan- 
to que foram fabidos dos cafados y e mo- 
radores, que eílavam innocentes de tudo, 
ajuntáram-íe, e praticaram fobre efte nego- 
cio ; e aílentáram que defendeííem a íua 
liberdade por armas , quando os não qui- 
zeíTem ouvir por juíliça : e fahidos de alli 
todos juntos, foram a cafa do Capitão, e 
diante delle fizeram feus proteftos > e re- 
querimentos, dizendo que lhe não podiam, 
tirar afua liberdade em que eílavam, pois 
EIRey D. Filippe lha concedera ; e elle 
Capitão , quando o juraram por Rey na- 
quella Cidade , e delia deo nova homena- 
gem , jurou de lhos fuílentar : que eram 
muito leaes vafíallos de EIRey de Portugal , 
e que aíTim o tinham moftrado fempre nas 
coufas de feu ferviço , que fe offerecêram : 
que elles naohiam naquelle negocio contra 
elle : que quizeíTe que lhe pagaíTem os di- 
reitos , e que a Alfandega foíle por elle, 
que eílavam muito preíles pêra iíío ; mas 
que não haviam de confentir darem-fe a 
hurn Rey Gentio, como aquelle. O Capi- 
tão trabalhou pelos quietar , dizendo-lhes 

que 



3 



47$ ÁSIA de Diogo de Couto 

que elle naquelle negocio não podia nada 
que EIRey lhe faria juftiça , fe lha reque 
reíTem. Sobre ifto íe ajuntaram tcdos algu 
mas vezes em camera , e nella aflentáram 
que o defendeílem pelas armas contra 
quem lhe quizeffe dar fuás fazendas a EI- 
Rey de Cochim , ficando fempre refervado 
o ferviço de EIRey , a que todos eftavam 
tão obrigados ; e porque não houveífe quem 
fe lançaífe de fora naquelle negocio, orde- 
naram que fízeílem todos juramento fole- 
mne de defenderem fuás liberdades até per- 
derem as vidas , e as fazendas , e com ifto 
fizeram chamamento de todos os naturaes 
Chriftaos com os Portuguezes fazendo alar- 
do , no qual fe affirma acharem mais de 
quinze mil efpingardas , porque entravam 
nifto mais de dez mil Chriftaos daquelles; 
e poftos todos em armas , foram-fe á Igre- 
ja de S. João , que cila fora da Cidade, 
e puzeram humMiiral febre o Altar, e fo- 
bre elle juraram todos de defenderem fu?s 
liberdades , de perderem as vidas , e de 
matarem 3 e perfeguirem tedes os que foli- 
citaífem , e fallaífem contra fua juftiça , e 
mettêram depois mais, cie fe per alguma 
via em algum tempo âlgúm de aquelles 
que alli efiayam foíTem prezos pela juftiça, 
e condemnados em pena de rrorte , e per- 
dimento das fazendas y que em tal cafo to- 
dos 



Década X. Cap. XIIL 479 

dos acudiriam por iífo , e fe tornariam a 
incorporar pêra o tirarem , e falvarem até 
arrifcarem *as vidas , e as fazendas. Com 
iíto fe recolheram pêra a Cidade , não dei- 
xando de continuar com feus proteftos em 
favor de fuás liberdades. O Capitão D. 
Jorge tanto que vio o que eftavaaífentado , 
mandou chamar o Licenciado Francifco de 
Frias acompanhado de fua guarda , e com 
outros homens pêra logo começar a correr 
com as coufas da Alfandega ; e chegando 
ao terreiro da Fortaleza y deram os qafaclos 
nelle pêra o matarem , e por dita fe aco- 
liíeo á Fortaleza , onde D. Jorge o fechou. 
e depois com trabalho o tornou a mandar 
por mar pêra cafa de EíRey de Cochim, 
aonde eítava , e affim perfeguíram muitas 
peílbas , que corriam por parte do Vifo-- 
Rey nefte negocio , e os principaes foram 
Manoel de Soufa Coutinho , e Luiz Cor- 
rêa , cunhado de D. António de Noronha, 
os quaes fe temeram 5 e vigiaram grande- 
mente , e da cafa de ElP^ey de Cochim 
não oufava a apparecer ninguém na Cida- 
de; e ainda manHáram dizer áquelle Rey, 
que lhe haviam de ir queimar a fua povoa- 
ção , e deftruir a fua Cidade , e dar-lhe ba- 
talha em campo, por iflb que fe determi- 
naííe , porque elles por fua liberdade eífe- 
vam apoftados a perderem as vidas , e as 



480 ÁSIA de Diogo de Couto 

fazendas; e as peflbas que ifto mais fentiam \ 
eram as mulheres , que de dia , e de noite 
perfuadiam os maridos afuftentarem as fuás 
antigas liberdades , porque eíles foram os 
dotes que com ellas acharam ; porque fe 
lhes pirzeíTem direitos , feria pêra aquelíe 
Rey tudo o que elles ganhaííem. Vendo o 
Capitão aquella união geral , não oufou 
de bulir com coufa alguma , e parou o ne- 
gocio da Alfandega 5 porque já também era 
o inverno entrado. O Vifo-Rey depois de 
defpedir eftes Embaixadores , defpachou as 
náos pêra a China, Malaca, Maluco, pêra 
onde foi Fernão Ortiz de Távora, por {qr- 
tença que houve da Relação , pofto que Fer- 
não Botto tinha partido entrada de Setem- 
bro , e levou fentença pêra carregar pri- 
meiro que elle : foi embarcado no feu Ga- 
leão Duarte Pereira de Sampaio , que era 
dcfpachado com a Capitania daquella For- 
taleza , por ferem vindas novas íer faleci- 
do D, Álvaro de Caílro , como atrás dif- 
femos , e com ifto fe cerrou o inverno. 



DE* 






4?i 

DÉCADA DECIMA 

Da Hiftoria da índia. 

LIVRO V. 

CAPITULO L 

Das coufas que fucceàêram em Cambaya: 

e ãe como o Mogor tornou a Jenho- 

rear aquelle Reyno. 

JÁ entramos no inverno , em que nos 
cabem as coufas alheias, e por iffo con- 
tinuaremos com cilas. Atrás no Cap. 
IX. do Liv. IV. temos deixado Mizarcham 
(a que daqui por diante chamaremos Chan- 
cana) defpedido com hum grande Exercito 
apôs aquelles Reys , que entraram com o 
Amodarar pelo Reyno de Cambaya , e os 
filhos do Cutubidicham com outro contra 
Baroche , que eftava ainda pelo Rey Amoda- 
far, em que Mizarcham eftava por Capitão; 
agora continuaremos comelles, e primeiro 
fera com o Chancana. Partido efte Capitão 
apôs aquelles Reys com trinta mil de ca- 
vallo , foi-os feguindo ; porém com receio 
por ferem feus eftados em ferras afperas, 
Couto. Tom. VI. P.L Hh e 



482 ÁSIA de Dioao de Couto 

c paflbs muito direitos % e difficuitofos , por 
onde forçado havia de paliar muito arrif- 
cado. E porque pêra paliar a conquiftar a 
ferra dejunagor, onde o Amocham eítava, 
havia de paflar pelas terras do Rey de 
Zambo , que eram trabalhofas , quiz ufar 
com elle de manha pêra fe fegurar , e va- 
ler-fe delle neita jornada , porque depois 
que acabaíle , ahi lhe ficava tempo pêra 
fe vingar ; e aílim fe carteou com elle, e 
tratou reduzillo ao ferviço doMogor, pro- 
mettendo-lhe fazer perdoar todas as culpas 
que tinha , e outras coufas , em que não 
quiz fer avaro , ás quaes elle fe rendeo , 
tanto pelo intereífe , quanto por medo; e 
concertados ambos , foram contra o Amo- 
cham , que já eítava avifado de tudo , e fe 
tinha recolhido na ferra do Juganor com 
muitos provimentos , munições , e folda- 
dos , e grangeou alguns Portuguezes , que 
naquelle porto eftavam com feus navios co- 
mutando fuás fazendas, pêra que femettef- 
fem na ferra com elles , como fizeram , com 
que ficava bem feguro. E eíta ferra de Ju- 
ganor he tão alta, ingrime , e intratável, 
que canção os olhos de olhar pêra íima , 
a qual a natureza fez em roda fechada to- 
da á mão , deixando-lhe hum fó paífo mui- 
to ingrime, e eftreito pêra fefubir aífima á 
Fortaleza , que fica no cume delia ; e por 

e£ 



Década X. Cap. I. 483 

cfte caminho aííim ingrime até lima ha de 
huma , e outra parte muitos baluartes , e 
guaritas fortiífimas 5 e a entrada abaixo he 
tão fortificada com muros , c couraças que 
a fazem inexpugnável ; porque além de fer 
affim neceíTario pêra defender a entrada, a 
fortificaram mais por ter em baixo agua , 
de que toda a ferra fe fuftenta , a qual he 
de hum fermofo poço , donde he levada 
até ao cume da ferra por nove noras , e a 
primeira vai cahir em hum tanque muito 
Fermofo, que eílá ao primeiro baluarte; e 
dalli por outra nora fóbe a outro tanque, 
que eílá em outro poço , e afílm vai até á 
Fortaleza, e delia bebem todos, e he baf- 
tante pêra tudo , pofto que no inverno a 
agua da chuva , que fe recolhe em alagôas , 
fuftenta muito tempo o gado que em íima 
fe recolhe. O Chancana antes de chegar á 
ferra foi avifado que o Rey Amodafar era 
paliado adiante com o de Cache, pelo que 
houve por melhor confelho cercar o Ami- 
chao , e tomar-lhe aquella ferra , porque 
com ella fe faria logo fenhor de todos os 
mais eftados ; e affentando o feu campo ao 
pé delia , notou feu íitio , e Fortaleza , e 
houve que todo o tempo que alli gaílaífe 
feria baldado , porque aquella ferra não fe 
podia tomar por nenhumas forças huma- 
nas j e com iííb começaram a cahir afpe- 

Hh ii ras 



484 ÁSIA de Diogo t>E Couto 

ras aguas de inverno , em que não era pofc 
llvel poder-fe por alli deter ; e alevantan- 
do o exercito , foi deftruindo todos os lu- 
gares de redor com tenção de fe tornar pê- 
ra Cambaya , e deixar aquelia jornada pêra 
o verão feguinte. O Rey do Zambo como 
era homem muito acautelado , vendo a ten- 
ção do Chancana , receando que como o 
não houveíle mifter lancaffe mão delle , e 
pagafle por todos , como vio tempo , fe 
lhe defviou , e mettco pelos matos , por 
onde o Chancana o não quiz feguir, fazen- 
do volta pêra Cambaya , onde ainda achou 
o Hecbar , e logo o defpedio pêra ir con- 
quiítar o Reyno de Verara ; e neíla jorna- 
da o deixaremos pêra continuar com os fi- 
lhos de Cutubidicham , de que deixamos 
partido contra Baroche. 

Chegados eftes Capitães com oito , ou 
dez mil cavallos á vifta daquella Cidade, 
lhe puzeram hum muito rijo cerco , com- 
mettendo-a muitas vezes por aíTaltos , em 
que houve damnos de ambas as partes , 
porque o Mizarcham era grande cavallei- 
ro , e eílava bem provido ; e todavia ven- 
do que aquelles Capitães accommettiam 
tão determinadamente, eque era já meiado 
de Junho , e tinha o fcccorro tão longe, e 
fobre tudo a efperança da vida duvidofa ; 
porque fc os filhos do Cutubidicham o to- 

maf- 



Década X. Caí. I. $$ 

maíTem , forçado lhe haviam de cortar a 
cabeça , como feu cunhado Amodafar fez 
a feu pai ; fobre tudo recear-fe dos que ti- 
nha comligo , porque tinha fufpeitas que 
eftavam alguns delies peitados fobre quem 
já trazia o olho : querendo a fua vida , a 
guardou até que lhes entregou huma grande 
feita, que elles fazem na Lua de Julho , em 
que os Mouros coílumam fazer fuás qua- 
refmas 5 e jejuns , e nelles não comem maig 
que huma vez ao dia, eefta de noite, com 
grandes goítos , e ceremonias. Como tinha 
já traçado na fantazia o que havia de já 
fazer , tomou huma noite de aquellas al- 
guns homens de mais obrigação fua até 
vinte ; e quando vio , e fentio os do ar- 
raial mais embebidos em feus banquetes , 
em que gaitavam de ordinário até paíían- 
te de meia noite , fahio da Fortaleza , e 
com muita confiança foi entrando por meio 
do exercito fem alvoroço algum , notando , 
e vendo os Mogoies em fuás tendas co- 
mendo, e bebendo com muito regozijo. E 
perguntando-lhe alguns quem hia alli ? re- 
fpondeo na fua lingua que era Faão , que 
vinha de vigiar , nomeando alguns daquel- 
lçs Capitães apartados das eítancias por on- 
de paliava , porque lhe fabia os nomes 3 e 
as eítancias todas ; e como elles híam com 
aquella confiança 7 c era de noite , não hou- 
ve 



486 ÁSIA de Diogo de Couto 

ve que fufpeitar, nem que replicar, e af- 
lim atraveflíáram todo o arraial ; e como 
o Nazircham fe vio fora delles , aprefíbu- 
fe o mais que pode , andando toda aquel- 
la noite fem defcançar até fepôr em para- 
gem fegura , que pode caminhar a feu fal- 
vo , e ailim foi ter ao Reyno do pai* Ao 
outro dia, que na Fortaleza o acharam me- 
nos , mandaram recado aos filhos do Cu- 
tubidichão , e lhe abriram as portas , e fo- 
ram recebidos dentro , como fenhores da- 
quella Cidade , e com iíto acabou o Rey- 
no de Cambaya de ficar outra vez em mão 
dos Mogores ; e não tendo o Hecbar alli 
mais que fazer, partio-fe pêra a Cidade de 
Agaya , e deixou em Cambaya por Gover- 
nador a Gicoia feu collaço. 

CAPITULO II. 

De como o Turco mandou Ferat Baxd a 

prover os Fortes que tinha nos EJíados 

da Perfia : e da batalha que Simão 

Bel deo a Refuan Baxd , em que 

o desbaratou* 

DEixámos o anno paíTado as coufas da 
Perfia em Ferat Baxá defiftir da empre- 
za do Nativan, e mandar-lhe o Turco fe- 
gurar os paílbs de Tjiomani 7 e Lori , por- 
que 



Década X. Gap. II. 4S7 

que pertendia profeguir naempreza deTa- 
bris. Com eíle recado do Turco lançou fa- 
ma o Fer at Baxá , que queria paíTar a Na- 
tivan , pêra que o Perfa acudiíle alli , e el- 
le tivefle tempo de fazer as fortificações 
que lhe mandavam : e aíiim nefta primave- 
ra partio de Erzerum pela via de Aflanca- 
lafi, e chegou a Chars , onde fe deteve oi- 
to dias a prover as coufas daquella Forta- 
leza. Dalli fe paflbu a Lori , donde defpa- 
chou AíTan Baxá com finco mil cavallos 
pêra ir defcubrir a terra até Thomanis , o 
que fez fem achar quem lho impediíTe até 
Heleri , huma Fortaleza que foi de Simão 
Bel Georgiano , a qual tem huma roca for- 
tifilma com huma alta, e funda cava rodea- 
da de muralhas fortes , e terá de circuito 
huma boa légua, eftá duas jornadas deTri- 
felis. Chegado aqui o Baxá , fortificou , e 
renovou muros , e torres , e poz alli por 
Capitão a Ali Baxá de Grécia com oito 
xnil foldados , duzentas peças de artilheria , 
e muitos provimentos , e lhe deo por regi- 
mento que como lhe o tempo délTe lugar , 
fortificaífe o Califí ( hum lugar três léguas 
de Lori) e proveífe de artilheria, e gente; 
e Ferat Baxá com o reítante do exercito 
foi caminhando de Thomanis , pondo qua- 
tro dias , fendo jornada de hum fó , por- 
que foi muito de vagar por aquelles cam- 
pos, 



488 ÁSIA de Diogo de Couto 

pos , que eram muito abundantes de tudo i 
dando pafío largo a todo o exercito. Foi 
eíta Fortaleza de Thomanis de Simão Bel 
Georgiano , onde íe elle recolhia , e quan- 
do o Turco começou a mandar profeguir 
na empreza da Perfia, a mandou derribar, 
porque fe não fortificaiTem nella os Tur- 
cos , porque fe não atreveo a íuftentalla por 
falta de artilheria. Chegado aqui o Baxá, 
começou a levantar logo hum Forte, como 
levava por regimento , que alevantou , e 
edificou na boca de hum paílb eftreito que 
tinha, onde acharam outro Caftello derru- 
bado, que o Baxá mandou, renovar , e fez 
o muro á roda de dous mil paílbs , e em 
meio ma i>dou levantar hum forte cavallei- 
ro , e por todo efte forte, eCaítello repar- 
tio duzentas peças de artilheria miúda, Pof- 
to tudo em eftado defeniavel, defpedio Re- 
íua-n Baxá , e o Baxá deCracremit com vin- 
te mil cavallos pêra ir prover o forte de 
Teílis , o que fizeram ern nove dias. A- 
qui foi ter com elles Daut Cham Georgi- 
ano , irmão de Simão Bel , e fe lhe offere- 
ceo por íervidor , e valfallo do Turco , o 
que elles eílimáram muito , e lhe fizeram 
muitas honras , e gazalhados. Difto foi lo- 
go Simão Bel avifado por efpias que trazia y 
as quaes ou enganadas , ou peitadas dos 
Turcos , lhe affirmáram que o Baxá Refuan 



Década X. Cap. II. 4%$ 

levava muito menos gente , nomeando-lhe 
hum numero com que fe elle determinou 
a peieijar com quatro mil Georgianos que 
tinha ; e negociando-fe , foi bufcar os Baxás. 
De tudo ifto foi logo avifado o Ferat Ba- 
xá ; e temendo-fe que o poder de Simão 
Bel foife maior, defpedio com muita pref- 
fa os Baxás de Caramania , e Maés com 
mais de mil homens pêra fe irem ajuntar 
aos outros. Simão Bel deo-fe tanta pref- 
fa, que em breves dias chegou a hum por- 
to junto de Teflis , onde os Baxás eílavam 
alojados, e tinham parte do exercito de- 
trás de huns montes , onde Simão Bel os 
não via ; e vendo elles aquelles que alli 
eftavam no paíTo , que feriam féis mil 3 pa- 
recendo-lhe que não havia mais gente , pe-r 
lo que as efpias lhe tinham dito , deo logo 
nelles com tamanho impeto , que do pri- 
meiro encontro lhe matou mais de qui- 
nhentos , e poz todos os mais em desbara- 
to. O Baxá do Cracremit , que era o que 
eílava com mais gente detrás dos mon- 
tes, acudio com todo o reílo de poder, e 
foi dar em Simão Bel , que levava o Bãxá 
Refuan de vencida. Vendo elle tamanho 
poder, houve-fe por enganado das efpias ; 
e entendendo que fe fe retirava eítava cer- 
ta fua perdição , animando brevemente os 
feus 3 remetteo com os Turcos > e com 

hum 



49o ÁSIA de Diogo de Couto 

hum muito grande valor, e esforço os ef- 
perou ; e miíiurando-fe todos , travaram hu- 
íiia batalha tão afpera , e cruel , que foi eí~ 
panto. Simão Bel como era grande caval- 
leiro , e entrava naquella batalha com def- 
efperação , fez tamanho eftrago nos Tur- 
cos , que os teve quaíi desbaratados ; mas 
como o numero era tão deíigual , tornaram 
òs Turcos a voltar fobre os Georgianos, 
e os foram arrancando do campo com mor- 
te de muitos. Vendo-fe Simão Bel perdi- 
do , pondo o remédio nos braços , voltou 
aos inimigos, e metteo-íe entre elles como 
hum leão bravo , fazendo tão grande eftra- 
go nos Turcos que os fez parar , fugindo 
todos delle como de algum touro feroz ; 
e todavia trabalharam tanto por lhe matar 
o cavallo , até que o fizeram ; e cahindo Si- 
mão Bel, efteve muito perto de fer prezo, 
como foram alguns dos feus ; mas foccorreo-o 
Deos noífo Senhor naquelle conflito, com 
que ao mefmo -tempo que cahio apparecê- 
ram os Baxás , que Ferat Baxá mandava 
de foccorro aos outros ; e como a batalha 
andava toda revolta , e travada , parecen- 
do a Refuan que aquella gente que appa- 
recia era de Simão Bel , que lhe vinha de 
refrefeo, ficou tão fobrelaltado que logo fe 
começou a recolher , e fobreefteve o pezo 
da batalha , com que Simão Bel teve tem- 
po 



Década X. Cap. II. 491 

po de fe pôr em outro cavallo , e recolher 
os feus , com que fe foi defviando o me- 
lhor que foi poffivel , deixando feito tama- 
nho eftrago nos Turcos , que quando os do 
foccorro chegaram viram o campo todo cu- 
berto de corpos mortos. Chegados eítes a 
Refuan , tanto que elle os conheceo , foi 
tamanho o feu nojo de lhe efcapar o Si- 
mão Bel das mãos , que houvera de mor- 
rer. O Simão como fabia a terra , metteo- 
fe logo pelos lugares afperos , e feguros , 
dando graças a Deos de o falvar do peri- 
go em que efteve por aquelle modo, por- 
que fem dúvida fenáo fora o engano , não 
pudera efcapar. Os Turcos fe recolheram 
aThomani com menos três mil que perde- 
ram na batalha , o que Ferat Baxá fentio 
muito ; e provendo aquelle forte , deixou 
nelle por Capitão Afan Baxá com oito mil 
foldados , e muitas munições , e provimen- 
tos ; e porque determinava de fe paliar com 
todo o exercito contra o Manuchiar , co- 
mo levava por regimento , por fe vingar 
da offenfa que tinha feita do dinheiro com 
que o anno paítado fe alevantou ; e pondo- 
fe ao caminho, começou a cahir a inverna- 
da tão cruel de chuvas , e neves , que não 
podiam darpaífo, e comiílo foram faltan- 
do os mantimentos , com o que os foldados 
íè amotinaram algumas vezes. O Baxá com 

tu- 



49 ^ A S 1 A pe Diogo de Couto 

tudo iíto foi tomando o caminho por fíma 
dos montes Piricardos , por neves , e frios , 
e caminhos tão afperos , e intratáveis, que 
de puro canfaço lhe morreram muitos , e 
com grande trabalho 5 e perda chegou á 
Cidade de Gíefeu do fenhorio do Manu- 
chiar , a qual achou deferta , por ferem 
feus moradores recolhidos a lugares afpe- 
ros , e folitarios \ e querendo aqui o Baxá 
alevantar o forte 5 amotinaram-fe-lhe qua- 
íi todos t, e chegou a coufa a lhe fazerem 
defcortezias publicas, e juraram que fe lo- 
go não voltava pêra Erzerum , que o ha- 
viam de matar. Vendo eile aquellas defor- 
dens j alevantou o exercito , e foi-fe feu 
caminho 5 e em hum dia chegou á Cidade 
de Ardacan ,. fendo jornada de dous , fó 
por quebrantar os foldados. Ao outro dia 
indo marchando, de madrugada lhe deram 
em os carros y em que levava fuás mulhe- 
res j e lhas tomaram fem mais apparece- 
rem : alguns affirmáram que os feus lhes 
fizeram aquelia dcfcortezia ; mas o que fe 
prefume por mais certo he j que os Geor- 
gianos lhes deram aquelle aífalto. Aífim af- 
frontado cliegou o Baxá a Erzerum inimif- 
tado com todos por fua porfia , e contumá- 
cia. 



CA- 



Década X. Ca?. III. 493 

CAPITULO III. 

De como Francifco Gale foi por ordem de 
EIRey dejcubrir a Cofia da nova Hefpa- 
nha de 40. gr aos pêra Jima : e da der- 
rota que levou de fie o porto de Aca- 
pulco até Japão , e dahi até tor- 
nar ao mefrno porto. 

POrque não he fora da nofía hiftoria , e 
conquifta a viagem que fez Francifco 
Gale por ordem de EIRey, em que gaitou 
três annos , daremos aqui razão delia con- 
forme a relação que elle mefmo mandou 
de toda ella ao Vifo-Rey de nova Hefpa- 
nha, a qual nos veio ter á mão: pelo que 
fe ha de faber (fegundo nos diíferam) que 
querendo EIRey D. Filippe defcubrir por 
aquella coita adiante de quarenta gráos pê- 
ra lima tudo o que pudefle, pêra ver fe era 
verdade o haver algum canal por íima da 
Tarraria , que paíTaíle até ao mar Septentrio- 
nal, efcreveo ao Vifo-Rey da nova Hefpa- 
nha que mandaífe áquelle negocio peífoas 
expertas , que trabalhaífem defcubrir o que 
tanto defejava, efobre o que tantos já tra- 
balharam 5 como foi João Caboto , Piloto 
Inglez , homem famofo em feu officio , o 
qual confiderando que não havia a terra 
de fer tão fechada , que não deixalfe pafla- 

gem 



494 ÁSIA de Diogo de Couto 
gem pela parte do Norte de hum mar a 
outro, como o tinha feito pelo Sul naquel- 
le eftreito , que Fernão de Magalhães a- 
chou , tendo lido em Plinio o Gaboto, 
como foram mandados alguns mercadores 
Indianos ao Proconful da Gália Metello Cé- 
lere , os quaes foram lançados com tormen- 
ta ao mar de Suécia ; e lendo também co- 
mo Dematico Mofcovita , Embaixador da- 
quelle Duque a Paulo Jano Bifpo de No- 
cera , que efcrevia a hiftoria do feu tem- 
po , que de Duberia , rio muito grande de 
Mofcovia , quem por elle caminhaíle pêra 
o Norte , iria dar em hum grande mar ; e 
navegando ámão direita por elle, iria dar 
na Provinda deCathayo: querendo o João 
Gaboto commetter efta jornada, morreo , e 
deixou muito encommendado a feu filho Se- 
baíliao Gaboto , o qual no anno de 15-57. 
partio de Inglaterra de 60. gráos , e por lima 
da Mofcovia foi navegando até 72. emeio, 
e defcubrio por efte caminho a terra nova , 
os Japonios , e Teutones , e chegou aos 
famofos rios Condora , e Pecora , que vam 
esboçar no mar do Norte na cofia de Mof- 
covia ; e indo em demanda do rio Obij , 
famofo da Tartaria , que Abrão Hortelio. 
faz entrar na alagôa Chitara no meio da 
Tartaria em 63. gráos do Norte , por lhe 
entrar o inverno , e achar muitas neves, 

hã» 



Década X. Cap. III. 495* 

não paflbu avante , e tornou-fe pêra In- 
glaterra. 

E pondo o Vifo-Rey da nova Hefpa- 
nha em obra aquelle negocio , encarregou 
aquella viagem a Franciíco Gale , homem 
experto , e arrazoado Cofmografo , o qual 
partio do porto de Acapulco a 10. de Mar- 
ço do anno de 1582. levando por regimen- 
to que defcubriffe a coita da nova Hefpa- 
nha até lincoenta gráos , e que trabalhaíle 
por ver, e faber fe havia algum boqueirão 
que cortafle a terra ; e fazendo lua via- 
gem , foi pelo rumo de Les-Sudoefte até 16. 
gráos , affaítado da terra 25. léguas ; e 
mudando o rumo , foi governando 30. lé- 
guas a Leite , e 180. a Leite , e a quarta 
de Sudoeíte até dar na Ilha do Engano > 
que he a mais Meridional da dos Ladroes | 
a qual eítá em 13. gráos e meio de latitu- 
de , e 164. de longitude , e o Occidental 
do Meridiano fixo , que paíla pela Ilha 
Terceira dos Açores. Daqui tomou fua der- 
rota a Leite, e por elle governou 180. lé- 
guas até chegar ao Cabo do Eípirito Santo 
na Ilha Tendara a primeira das Filippi- 
nas ; e paliando adiante ao mefmo rumo 
18. léguas mais, chegou ao boqueirão, que 
eita Ilha faz em Adoíução 5 a qual fe acha 
em 13. gráos efcaíTps , e toda eíta coita a- 
chou cuja até ao Cabo do Efpirito Santo. 

Adi- 



496 ASIÀ de Díogo de Couto 

: Adiante 3. léguas deíle Cabo eílá o dos Co- 
vos , arrazoado porto, por huma Ilheta que 
tem na boca \ e no cabo do boqueirão 
meia lcgua deita Ilheta eílá hum Ilheo pe- 
queno de feição de hum pão deaflucar: do 
cabo deíle boqueirão ao Norte em quarta 
do Nordeíte 10. léguas de Mora a Ilha dos 
Cataduanes j que eílá huma légua affaílada 
da Ilha de Luçao \ e do mefmo boqueirão 
a Les-Sudoefte féis léguas fica a Ilha de 
Capuli \ a qual fe corre a Les-Sudoeíle , e 
a Les-Nordeíle , e tem de comprido finco 
léguas , e de largo quatro , e eftá em 12. 
gráos e três quartos. Deíla Ilha ao Nordef- 
te quatro léguas eílam três Ilheos no Porto 
de Builegan na Ilha de Lasao , que fe cor- 
re Norte Sul affaftado meia légua da terra 
firme, e a mais do Sul eílá em 13. gráos. 
Neíle canal ha 20. braças , e acha-fe arêa 
branca , e as aguas vam tirando pêra Su- 
doeíle : de aqui foi governando ao mefmo 
Sudoeíle , e quarta de Lueíle 20. léguas até 
dar na ponta da Ilha de Tição da banda 
de Lueíle , e corre-fe Leíte-Oeíte , e fera de 
13, léguas de comprido, e aponta eílá em 
12. gráos e 3. quartos - x e a meio caminho 
deita Ilha com a de Capuli eílam três Ilhe- 
tas , que chamam das Laranjas, e foi por 
aqui coíleando da banda do Norte , e a- 
chou fundo de 22. braças de arêa branca. 

Da 



Década X. Cap. III. 497 

Da ponta da Ilha de Tição até á ponta de 
Burias , da banda deLuelte, fe corre Lefte- 
Oefte légua e meia , e por aqui embocou o 
canal , governando ao Sul j e quarta do 
Sudoefte três léguas até deíembarcar em 
fundo de 16. braças, arêa entre branca, e 
aleonada. Eítá eíte canal em 12. gráos e 
meio, e correm as fuás aguas ao Norte: a 
Ilha de Barcis fe corre Noroefte Suefte , a 
ponta do Noroefte vai dar á cofta de Lu- 
cão , e entre huma, e a outra não podem 
paliar fenão navios pequenos , tanto, que 
Francifco Gale fahido do canal andou duas 
léguas até a Ilha de Marbate, que fe corre 
Leite aOefte, e fera de 8. léguas de com- 
prido , e quatro de largo , e o meio delia 
eftá em a altura de 12. gráos e hum quar- 
to , e he hum pouco alta. Do canal de an- 
tre o Tição 7 e Burias , foi governando 
ao Nordefte 13. léguas , ficando-lhe ao Sul 
Masbate , e ao Norte Burcas , e foi ter 
a Bontroia , que he hum Ilheo pequeno , 
e alto , que parece copa de fombreiro , e 
eftá em 12. gráos e dous terços. Por efte 
caminho fica ao Sul a Ilha de Cebujão , 
que fe corre Nor-Noroefte , e quarta de 
Norte, e Suefte, e quarta de Sul: he alta, 
e curva , e tem de comprido oito léguas, 
e a cabeça do Norte delia eftá em 12. gráos 
e hum terço; e nefta derrota ha 35. bra- 
Ceuto. Tom. FL P. X. li ças 



498 ÁSIA de Diogo de Couto 

ças de fundo, arêa branca: deite Uheo de 
Bontoia 9. léguas ao Sul eftam três Ilhas 
huma apôs a outra, a primeira a chamada 
Bantozilho , outra Cimára , e a terceira das 
Cabras, e por entre ellas pode paliar qual- 
quer náo , e a mais do Sul eftá em 12. 
gráos ehum quarto: da Ilha Bantozilho go- 
vernou ao Noroefte 4. léguas até o canal de 
entre # as Ilhas Vereges, e a Ilha de Mandu- 
que , deixando as Vereges ao Sul em 12. 
gráos e três quartos , que são dous Ilheos ta- 
manhos como duas fragatas , e Manduque 
ao Sul na mefma altura. Eíla Ilha he gran- 
de , corre-fe a Les-Noroefte , e Les-Suefte , 
terá doze léguas de comprido , e fete de 
largo, e da banda do Norte faz com a Ilha 
Luçao hum canal comprido, eeftreito com 
voltas, e muitos baixos, de modo que não 
pode paliar navio algum, eeftá a derradei- 
ra ponta de Leite delia em 13. gráos , e 
hum quarto , e no canal ha 18. braças, e 
o fundo de arêa preta , e miúda. Defte ca- 
nal dos Bereges , e Manduque ao Ncrcefte 

12. léguas vara demandar a terra do Min- 
douro na ponta de Dumari , que eftá em 

13. gráos largos ; e finco léguas daquelle 
canal pêra o Sul. fica a Ilha do Meftre do 
Campo, que eftá em 12. gráos, enefta der- 
rota ha 45*. braças arêa branca. Nefta pon- 
ta de Manduque começa a Ilha de Min- 

dou- 



Década X. Cap. III. 49^ 

douro , tem de comprido Lefte-Oefte 25V 
léguas, e 12. de largo, e a ponta mais do 
Sul eítá em 13. gráos , ea do Norte em 
13. e dous terços , a derradeira terra de 
Leite em 13. e hum quarto : efta Ilha faz 
canal com a do Lução de £. léguas de lar- 
go , e tem fundo de 12. braças. Andadas 
finco léguas de Manduque , eftá o rio da 
povoação de Aganan , que he baixo , e não 
pode entrar navio por elle , e ahi a 2. lé- 
guas eftam os líneos de Baco, que fam três , 
os dous eftam da terra 300. covados , e 
entre o derradeiro , e a coita paliam na- 
vios pequenos , e entre eftas , e as outras 
ha 20. covados , tudo baixo , e as náos 
paliam de fora deita arrimadas a ella , co- 
mo 150. covados. Paliadas ellas , foi gover- 
nando pêra a terra pêra paííar por entre a 
terceira Ilha , e o rio de Baco , arrimando- 
fe mais do meio do canal á Ilha , que 
difta deita das outras huma légua : nefte ca- 
nal ha 10. braças , lama, e cafcalho, e o 
rio de Baco he largo , mas de pouco fun- 
do. Deita Ilha a duas léguas eftá o Gabo 
de Reícafco , podem paííar bem chegados 
á terra , porque ha grandes correntes ; e 
dahi a meia légua eftá a povoação de 
Mindouro , que tem porto pêra náos de até 
i^o. toneladas, e defronte deite porto três 
léguas ao Norte eftá a Ilha de Cuca , que 

li ii íe 



joo A S I A de Diogo de Couto 

fe corre Leíle Oefte deMindouro. Foi go- 
vernando a Leite Noroeíte 8. léguas , c foi 
tomar a ponta do baixo de Tulles na Ilha 
de Lusão, e paílou affaftado da coita 15:0. 
covados por caula do parcel que alli tem , 
c achou fundo de 8. braças , lama,, e caf- 
calho. Correm-fe cites baixos ao Norte, e 
quarta de Noroeíte duas léguas até o rio 
de Arcabado , e de alli vai correndo a 
coita dos Lumbones 4. léguas ao mefmo 
rumo ; toda eíta coita he alta á maneira 
de órgãos , e tem bons portos pêra navios 
pequenos. Correndo os Lumbones ao Sul 
duas léguas , fica o Ilheo de Fatam , e ou- 
tras quatro Ilhetas baixas, que chamam, do 
LiíBão , que eítá em 13. gráos e meio, e 
a entrada da bahia de Manilha em 14. e 
hum quarto ; e dahi ao Norte 6. léguas ef- 
tá o porto do Cabite , ficando a terra da 
banda de Sudoeíte , que he baixa, e cha- 
ma-fe os baixos do rio de Canas ; e por 
toda eíta bahia ao rumo ailuna ha de 10. 
braças até quatro : aqui na Manilha inver- 
nou Francifco Gale , e o anno paliado de 
583. partio na derrota de Macao na Chi- 
na, como levava por regimento, e foi go- 
vernando 18. léguas a Leite até o porto 
de. Sambales ; c ás 8. léguas pêra o Sul fi- 
cão 2. Ilhetas de Marambales , e aparta- 
do delias huma légua eítá o cabo de Cam- 
bai 



Década X. Cap. III. yoi 

bales, governou ao Norte, e quarta deNo- 
roefte 35*. léguas aífaftado da coita , hu- 
iria até o Cabo deBellinao, que eftá em 16. 
gráos e dous terços, he terra alta, e mon- 
tuofa. De Belinao foi ao Norte , e quarta 
do Noroefte %ç. léguas até ao Cabo Boja- 
dor , que he a terra mais feptentrional da 
Ilha deLução, que eftá em 19. gráos. Paf- 
fado efte Cabo , faz a coita grande enfea- 
da , e depois fe corre ao Norte até o Bo- 
jador , e he terra de arrecifes. Do Cabo 
Bojador governou ao Es-Noroeíte , 120. lé- 
guas até o Ilheo branco , que eftá á entra- 
da das Ilhas de Cantão em 22. gráos laiv 
gos aífaftado da coita da China 4. léguas. 
Aqui em Macao ficou efperando a monção 
pêra Japão , que he em Julho , e parrio a 
24. deite mez deite anno , em que andamos 
de 1584. Governando a Les-Suefte 150. lé- 
guas , dobrou os baixos dos Pefcadores , e 
principio dos Lequios da banda de Leite , 
a que chajnâo as Ilhas Fermofas , que e£- 
tão em 21. gráos e três quartos \ e pofto 
que neíta derrota os não vio , teve infor- 
mação delles por hum Piloto Chincheo , 
que comíigo levava. Dobrada a Ilha Fer- 
iu o fa , governou a Leite , e quarta de Nor- 
defte 260. léguas até paífar as Ilhas dos 
Lequios , e foi aífaftado delias 50. léguas : 
eftas Ilhas çliíleraai os Pilotos Chincheojs 

que 



5*02 AS IA de Diogo de Couro 

que eram infinitas , e que tinha muitos, e 
bons portos, e que osnaturaes fe pintavam 
pelos roílos , e corpos como os Bifaios das 
Filippinas ; tem ouro , e vam em navios 
pequenos á China , e Japão carregados de 
couros de veados , e algum ouro em pó : a 
mais Oriental, e Septentrional deitas Ilhas 
eftá em 29. gráos. Paliadas ellas , eftam 
as de Japão , que tem todas de longitude 
I 35'* léguas, e a mais Oriental eftá em 32. 
gráos até as dobrar todas, governou a Lei- 
te, e quarta de Nordefte as ditas 135. lé- 
guas , e as 70. andadas adiante eftam huns 
balcões em quatro Ilhas juntas a outras 30. 
léguas : eftas são povoadas de huns ho- 
mens muito pequenos , e de grandes touca- 
dos , que tem lingua mui differente dos 
Chins , ejapoes, e vam áquellas Ilhas com 
refgate de ouro , pannos de algodão , e peita- 
dos falgados como atuns , e a eftas Ilhas 
poz Franciíco Gale por nome Armonicas. 
De aqui foi governando a Lefte, e quarta 
de Nordefte ; e tendo andado 300. léguas 
ao Oriente do Japão, achou hum mar gran- 
de , edelevadia do Norte, eNoroefte, lar- 
go, e efpaçofo, fem baixo, nem impedi- 
mento algum, o qual fenão applacava com 
qualquer vento que ventaííe, e de aquella 
maneira lhe durou 700. léguas _r por todo 
elite caminho foi achando grande quanti- 

da- 



Década X. Cap. III. 5*03 

dade de balças , e atuns , e alvacaras 5 e 
bonitos que são pefcados , que de continuo 
andam cm canaes , e correntes pêra verte- 
rem com ellas as ovas , e gerarem fua crea- 
çao , por onde inferio o Gale haver canal 
entre a terra firme da nova Hefpanha , e a 
Tartaria, e aíílm o averiguou. Efte, fegun- 
do nofíb juizo, heaquelle, em cuja deman- 
da foi Sebaftiao Gaboto, como em princi- 
pio deite Capitulo diflemos , o qual vem cor- 
tando aterra da Alia pelaMolcovia, e Tar- 
taria, evai esboçar nefta parte entre a ter- 
ra de Uracan , que fecha com a da nova Hef- 
panha na contra cofta da terra da Afia , on- 
de ella fenece ; e profcguindo o Gale fua 
derrota , foi tomar terra da cofta da nova 
Hefpanha em 37. gráos emeio, terra alta, 
bem aífombrada , cuberta de arvoredo 5 e 
fem neves , a qual tinha já defcuberto 
Franciico Vafques de Coronado por ordem 
de D. António de Mendoça , Vifo-Rey da 
nova Hefpanha o anno de 1^40 , e achou 
por ella navios de Mercadores com alca- 
truzes de curo nas poppas , e por aíTenos 
lhe diííeram que em trinta dias vinham de 
fua terra áquelia cofta , fegundo conta 
João Baptifta Ranuzio no feu Livro , que elle 
recopilou de varias viagens , em Italiano, 
por onde poífivel he foífem eftes navios 
dos portos de Cathaio , e que fahiífem por 

ef- 



504 A S I A de Diogo de Couto 

cfte canal entre Huracan , e a terra da 
Afia , pofto que também podiam fer da- 
quellas Ilhas Armonicas que achou o Gale , 
porque navegam pêra todas aquellas par- 
tes ; e tornando ao roteiro do Gale , foi 
por eíla coita , e por toda ella quatro lé- 
guas ao mar achou balfas de raizes 3 filhas 
de arvores , e canas , e muitos lobos ma- 
rinhos , por onde não pode deixar de ha- 
ver muitos rios , bahias , e bons portos até 
o porto de Acapulo : de 37. gráos e meio 
governou a Sueíte , e quarta do Sul 5 e ás 
vezes quarta de Leite , fegundo o vento 
curfava até o Cabo de S. Lucas , que eítá 
11a entrada da Califórnia em 22. gráos , e 
50. léguas do Cabo do Mendoeiro. Neíte 
caminho das ^oo. léguas a longo da coita 
ha muitas Ilhas , ainda que pequenas , nas 
quaes não pode deixar de haver bons por- 
tos , e as fabidas são Santo Agoílinho em 
30. gráos e três quartos ; a dos Cedros em 
28. gráos e hum quarto ; a Ilha , e baixos 
de S. Martinho em 23. gráos : toda eíta ter- 
ra fe entendeo fer povoada , porque todas 
as noites foram por ella vendo muitos fo- 
gos : do Cabo de S. Lucas até á outra ban- 
da de Sudoeíte da Califórnia governou a 
Les-Sueíte 80. léguas até o Cabo das Corren- 
tes , que eítá em 19. gráos e três quartos. 
Por eíte caminho ap Norte huma légua fin- 
cam 



Década X. Cap. III. 5*05* 

cam três Ilhas chamadas as Irmans , arruma- 
das ao meímo rumo , quatro léguas huma 
da outra , e fera cada huma de duas até 
três léguas. Do Cabo das Correntes gover- 
nou a Sueíte, e quarta de Leite 130. léguas 
até o porto de Acapulco , e por eíle cami- 
nho a 20. léguas andadas eftá o porto da 
Natividade, e de alli a 8, mais o de Sant- 
iago , e a 6. mais a praia de Culima. 

De toda eíta viagem deo o Gale infor- 
mação ao Vifo-Rey da nova Hefpanha , que 
mandou eíta relação a EIRey D. Filippe, 
com que fe houve por averiguado haver 
canal naquella parte, em cuja demanda tor- 
nou a mandar o anno de 58o. o mefmo 
Gale , que morreo na viagem , e lhe fuc- 
cedeo Pedro de Hunaraunho , como em feu 
lugar diremos. 

CAPITULO IV. 

De como Fernão Boto Machado chegou a 
Maluco , e defua morte : e como Diogo de 
Azambuja tornara a ficar naquella For- 
taleza de Maluco : e da morte de EIRey 
Bahu de Ternate : e das dijf crenças que 
houve fobre a herança âaquelle Reyno. 

O Anno paífado de 5*83. chegámos da 
chegada de D. Álvaro de Caítro a 
Maluco ; e de fua morte , c como Diogo 

de 



5*05* ASIx\ de Diogo de Couto 

de Azambuja- tornara a ficar naquella 'For- 
taleza , e de então até chegar o Galeão da 
carreira não houve coufa notável , fenão 
miudezas , com que não queremos entulhar 
a hiftoria , e a o. dias de Julho furgio na- 
quelle porto Fernão Boto Machado , cuja 
vinda foi muito feítejada pela falta que ha- 
via de provimentos , e com os que levava 
de dinheiro 5 e roupas fe fuppríram as ne- 
ceílidades : e parecia que abriram os da- 
quella Fortaleza os olhos , porque todo o 
íeu remédio eftá naquelles galeões, que he 
bem miferavel eftado a dúvida que tem as 
elperanças do remédio delia de anno em 
anno. 

Eftava a efte tempo EJRey BabudeTer- 
nate muito doente, e com grandes alvoro- 
ços em Terna te fobre quem lhe fuccederia 
no Reyno , porque não tinha filhos legíti- 
mos , e hum fó baftardo chamado Boxar, 
ou Boufaide , a quem o Reyno não perten- 
cia , porque entre eftes Reys Mouros de 
todo efte Arquipélago não pode herdar o 
Reyno, fenao o que for filho daquella mu- 
lher que elles hão pela fua verdadeira , a 
que chamam Putri , e he tanto como Prin- 
ceza , a qual forçado ha de fer cafta de 
Reys ; e poílo que tenham outras muitas , 
e delias muitos filhos, fó aquella he a Rai- 
nha 5 e os filhos o,s herdeiros j mas como 

ef- 



Década X. Cap. IV. 5*07 

efta ordem fe tinha quebrado em EIRey 
SoltãoEiro, que Diogo Lopes deMefqui- 
ta mandou matar , por fer filho de EIRey 
Rujano baftardo ? que o fubio áquella ca- 
deira , por não haver outro legitimo por 
morte de EIRey D. Manoel íeu irmão , 
que morreo em Malaca , como na Década 
V. Cap. X. do Livro ultimo fica dito , o 
qual Soltao Eiró deixou finco filhos , qua- 
tro baftardos , e hum legitimo , e os baftar- 
dos eram Babu, que eftava doente, Cachi- 
tulo , Cachilougo , Cachilquipate , o legiti- 
mo era Mandraxa menino filho da Rainha 
verdadeira , ao qual o Reyno de direito 
pertencia , pelo que por morte do pai fi- 
cou Cachilbabu nomeado no Reyno o mais 
velho dos baftardos por ter animo , e pru- 
dência pêra profeguir na guerra contra os 
Portuguezes até tomar vingança da morte 
do pai , como fez : aílim tomou logo a For- 
taleza, como temos contado na Década IX. 
ficando-fe creando o irmão legitimo debai- 
xo de fua adminiftração , e tutoria , e aífim 
foi crefcendo , e efperando que lhe entre- 
gaíTem o Reyno , ou ao menos que por 
morte do Babu odeixaíTe nomeado por her- 
deiro ; mas como neftas coufas de reinar 
não ha fé , determinou o Babu de confti- 
tuir no Reyno feu filho Sultão Bofaide , 
pofto que baftardo, epera ifto fe tinha car- 

tea- 



5^8 ÁSIA de Diogo de Couto 

teado com o Rey de Tidore , que o favo- 
receffe com lhe ter promettido huma fiiha 
que tinha em cafamento , íbbre o que ti- 
nha feito feus concertos , e papeis , nos 
quaes o mefmo Soltão Boíaide fe lhe obri- 
gava a tanto que fuccedeíTe no Reyno dar- 
lhe fua irmã em caíamento pêra com iíTo 
o obrigar , e continuar com feu favor ; , e 
depois deites concertos feitos , os tratou o 
mefmo Babu com feu irmão Cachiltulo , 
que era mais velho de todos , e lhe pedio 
confentiífe na eleição que queria fazer em 
feu filho, pois o Reyno lhe não pertencia 
a elle fenão a leu irmão Mandraxa , pro- 
mettendo-lhe os títulos de Capitão Mor 
do mar , e do governo da juftiça , e com 
muitas outras honras , e partidos; e foram 
tão grandes , que o moveram a favorecer 
huma tão grande injuítiça com o ajudar ati- 
rar o Reyno a feu próprio irmão ; que tan- 
to pode o interefle , e tanta força tem a 
cubica, não lo entre eíles Mouros , e Gen- 
tios , fenão ainda entre Príncipes Chri- 
fiãos , que muitas vezes lhes faz deixar as 
coufas d 5 alma pelas da vida tão incertas. 
Cachiltulo confiado no que lhe tinham pro- 
mettido, começou a favorecer o fobrinho, 
e a bandear-fe o Rey de Ternate Gapeha- 
guna com feu próprio irmão ; e como a doen- 
ça de Babu era mortal ? faleceo poucos 

dias 



Década X. Cap. IV. 5*0? 

dias depois da chegada do Galeão ; e antes 
de lhe fazer as exéquias , puzeram o íilho na 
cadeira doReyno fem o Príncipe Mandra- 
xa poder fazer nada, por fer f ó , e- todos, 
ou os mais eílarem peitados, e bandeados 
da outra parte j não deixando porém de 
andar com infignias de Príncipe herdeiro , 
que são fombreiro , e chinellas , até que o 
mataram , como adiante diremos. Cachi 
Azaide como tomou poffe do Reyno , logo 
cumprio ao Thio Cachiltulo tudo o que 
lhe prometteo, com o que fe ficou íuíten- 
tfmdo em fua tyrannia até fe fazer podero- 
f ò , e fe feguir no Reyno. Neítes termos dei- 
xaremos as coufas de Maluco , profeguin- 
do-fe fempre na guerra , a qual EIRey no- 
vo continuou logo, por lhe fer aífim muito 
encommendado de EIRey feu pai, 

CAPITULO V. 

De como o Conde D. Fransifco Mafcare- 
nhãs manchu matar os culpados na mor- 
te dos Padres da Companhia , que mata- 
ram em Cucult: e da manha que Gomes 
Eannes de Figueiredo Capitão de Ráchol 
teve pêra os haver as mãos. 

MUito defejou o Conde D. Francifco 
Mafcarenhas de tomar fatisfação da 
morte dos Padres , que os moradores de 

Cu- 



510 ÁSIA de Diogo de Couto 

Cuculí mataram , na própria peflba dos 
homicidas , íbbre o que trabalhou tudo o 
que pode ; mas como elles fe haviam por 
tão culpados , não fe fegu.ráram fenão nas 
terras do Idalxá pêra onde fe p a (Taram 
com mulheres , e filhos, fem (por muito 
que o Conde niflb trabalhou) os poder ha- 
ver ás mãos ; mas como a mágoa que ti-> 
nha de aquelle negocio era muito grande, 
encommendou muito a Gomes Eannes de 
Figueiredo , Capitão de Rachol , que tra- 
balhaíTe tudo o que pudeífe por todos os 
modos , e vias pêra haver ás mãos os pró- 
prios delinquentes , e os mataíle a todos. 
Gomes Eannes andava pelas terras com foi- 
dados , e peaes fazendo toda a guerra que 
podia aos moradores daquelJas aldeias , 
queimando-lhes , e deítruindo-lhes tudo o 
que achava , com o que ficaram de todo 
defertos • e porque andava de vagar neíte 
negocio, tinha feito huma tranqueira forte 
na aldeia de Cuculí , na qual fe recolhia y 
e fazia de alli aílaltos , e entradas até 
ás terras dos Mouros ; e os naturaes da- 
quellas aldeias vendo-fe defterrados , e 
perfeguidos , mandaram por algumas vezes 
apalpar a Gafpar Gomes Eannes com pa- 
zes, pedindc-lhe mifericordia, e que que- 
riam tornar a povoar aquellas aldeias , e 
pagar os foros aElRey. Gomes Eannes lhe 

não 



Década X, Cap. V* ^n 

não refpondeo a propoíito por mais os íe- 
gurar pêra o que pertendia : em fim elles 
como alli era a fua pátria , e natureza, e 
tinham fuás terras , e fazendas , prometten- 
do grandes partidos até que Gomes Ean- 
nes os ouvio , e lhes paífou hum feguro pê- 
ra os principaes virem em nome de todos 
os moradores ver-fe com elle pêra concluí- 
rem os partidos. Cem ifto vieram dezefeis 
Gancares, os mais honrados, e ricos , e os 
próprios homicidas dos Padres 5 que elle 
trazia a rol , entre os quaes entrava hum A- 
ganaique preto muito valente homem , e de 
quem aquellas aldeias todas haviam grande 
medo ; e outro Ramagaro muito temido 
também de todos , que foram os dous que 
puzeram o ferro nos Padres. Gomes Ean- 
nes os recebeo bem pelos fegurar, e os a- 
gazalhcu no forte comíigo fem dar conta 
a ninguém do que determinava, por fenão 
vir a faber por via de algum peão ; mas 
o mais que fe tinha declarado com os fol- 
dados antes de virem , foi dizer-lhes que 
o que lheviíTem fazer, fizeíTem todos como 
eiles chegaíTem. E como entre aquelles vi- 
nham dous innocentes naquelle negocio, 
não quiz elle que pagaííem a culpa dos 
mais, g os mandou pêra huma camera em 
que dormia , como que queria fallar com 
<dles y e como os teve Teguros , tomou o 

Aga- 



5*12 ÁSIA de Diogo de Couto 

Aganaique preto pela mão , e o apartou a 
huma parte da cafa , em que todos efta- 
vam , como que lhe queria dizer alguma 
coufa , tendo dado de olho aos foldados, 
pêra que eíliveííem preftes ; e levando de 
íium punhal mui leftes , lhe deo três feri- 
das que logo o matou. Os foldados que ef- 
tavam com o tento nelle, vendo o que fi- 
zera , remettêram com os mais , e lhe de- 
ram tantas fendas que os acabaram : os dous 
que eftavam dentro recolhidos , ouvindo o 
eílrondo fora, lançáram-fe de huma gurita 
a baixo , e acolhêram-fe ; mas os culpados 
pagaram alli com o mefmo género de mor- 
te , que deram aos innocentes Padres. Che- 
gadas eftas novas aos moradores das al- 
deias , as defpovoáram por muitos tempos ; 
e por fentença da Relação de Goa foram 
todas julgadas pêra EIRey , e o Vifo-Rey 
D. Duarte de Menezes fez mercê delias : 
as deCuculí, que são finco, a João da Sil- 
va ; e as de Afelona , que são três , a D. 
Pedro de Craíto . o qual depois quando fe 
embarcou pêra o Reyno , fez doação delias 
ao Noviciado dos Padres da Companhia , 
e nellas tem hum muito bom Forte , em 
que fe recolhem , e tem fua Igreja, onde 
os freguezes de aquellas aldeias todas vam 
ouvir fuás Milías , porque ha já por el- 
las muitos Chriflãos que cada dia fe vam 

con- 



Década X. Cap. V. 5*13 

convertendo , porque o fangue dos inno- 
centes Padres , que alli foram martyriza- 
dos 5 ha de clamar a Deos tanto, até que 
fe convertam todos aelle; e parece que ef- 
tava ifto profetizado pelo Padre Pedro Ber- 
na , o qual chegando huma carta que o Pa- 
dre Alexandre deValegnano, Viíitador da 
Companhia na índia , efcreveo em Latim ao 
feu Prepofito Geral a Roma , cofhimava a 
dizer que em quanto nas aldeias de Cucu- 
lí fe não derramaífe fangue , havia de fer 
pouca, ou nenhuma a conversão dos Gen- 
tios : e que o coração lhe denunciava algu- 
mas vezes que havia de padecer martyrio 
naquellas partes , por onde ha de permit- 
tirDeos que o fangue deites Martyres feus 
fervos não feja alli derramado em vão , 
como já vai moftrando no fruto que cada 
dia fe faz nellas , e nos Templos , que fe 
vam alevantando ao Altiílimo Deos nos lu- 
gares dos Pagodes , e abominações diabóli- 
cas , de que hoje já não ha memoria* E 
porfima de aquelles famofos, e altos mon- 
tes ( de que todas eítas aldeias eílam cer- 
cadas) fe vem altiíllmas , e fermofilfimas 
cruzes alevantadas, até que o tempo dê lu- 
gar pêra de todo fe extinguir os diabó- 
licos ritos , em que alguns ainda andam 
cegos , pêra que abrindo os olhos , conhe- 
çao a verdade da noífa Lei , não fó eíles , 
Couto. Tom. VI. P. I. Kk mas 



£14 ÁSIA de Diogo de Couto 

mas também todos os mais vizinhos , e co* 
marcãos. 

CAPITULO VI. 

Da Embaixada que o Vifo-Rey mandou ao \ 

Oxd pelo Padre Fr. Simão de Moraes da 

Ordem de Santo Agojlinho : e da occa- 

fião que houve pêra iffo : e do que 

lhe aconteceo na jornada. 

NA Armada do anno de 583. teve o ; 
Vifo-Rey D. Francifco Mafcarenhas 
cartas de EIRey pêra Oxá Cadabonda Rey 
da Perfia fobre o perfuadir a continuar na i 
guerra contra o Turco , offerecendo-fe ao | 
ajudar o Vifo-Rey com Armadas pelo eftrei- j 
to do mar roxo pêra com ellas o divertir. 
E como EIRey Filippe era muito pruden- I 
te , e fabia que os Reys Mouros são ami- 
gos de grandes oftentaçóes , e que pêra lhe j 
mandar Embaixador conforme fua grande- j 
za , e a vaidade daquelle Mouro cuftava j 
muito , efcreveo ao Vifo-Rey lhe mandaffe 
aquella carta em forma que lhe parecefle I 
que não desfaria na opinião de ambos , 
nem de forte que fe pudefíe aqueUe Rey 
queixar , nem tomar \ e deixando aquelle 
negocio em feu parecer , e dos do feu Con- 
felho j e andando o Vifo-Rey difeorrenda 

fo- 






Década X. Cap. VI. ^i? 

ibbre o modo que nifto haveria , e teria , pra- 
ticando o negocio muitas vezes com pef- 
foas de bom entendimento, e experiência, 
fem acabar de fe refolver , fuccedeo vir a 
Goa hum Arménio , peílba veneranda , ho- 
mem prudente , e de grandes moftras de 
fantidade com huma hypocriíia farifaica, 
que fó contava hum milagre que aconte- 
cera ao Príncipe Anze Mirza , primogéni- 
to de EIRey da Perfía, que era efte. 

Cafou eíle Príncipe com huma fenhora 
Georgiana Chriílã , pofto que fcifmatica, 
mas confervava todavia , como todos os 
Georgianos, a Cruz de Chrifto , e muitas 
coufas da Fé. Adoeceo o Príncipe , e che- 
gou a citado de deíconfiarem deííe os Fyíí- 
cos , o que a mulher fentio em extremo. 
Eftando fó com elle hum dia , o confolou 
de fua enfermidade, e Jhe diíTe, que tivef- 
fe confiança em Deos ,, que elle era pode- 
rofo pêra lhe dar vida : que fe quizefle ter 
íaude, fizeífe huma mezinha , que lhe ella 
eníinaria , que tinha tanta virtude , que el- 
la fe obrigava a logo farar. O Príncipe, 
que lhe era affeiçoado , lhe diffe, que era 
contente de fazer por fua faude o que lhe 
ella aconfelhafTe. Vendo ella o Príncipe dif- 
pofto , tirou do feio huma Cruz , e amof- 
trou-lha , dizendo-lhe, que fecreífe, e que 
fe fe encommendaíle áquelle Senhor , que 
Kk ii nel- 



516 ÁSIA de Diogo de Couto 

nella morrera, de todo o feu coração, que 
ella confiava que logo recebefle faude. Al- 
guma coufa ficou o Príncipe fufpenfo pela 
liberdade com que a mulher lhe failou na- 
quella matéria tão defviada , e fora de fua 
crença , e feita ; e todavia quando a vio tão 
fegura , e prometter-lhe com tanta confian- 
ça faude, parece que obrou o Efpirito San- 
to em fua alma algum bom efFeito , com 
que lheabrio o entendimento pêra fe afíei- 
çoar aos Myfterios da noíía Santa Fé ; e af~ 
íim refpondeo á mulher , que fe aquelle 
Deos que dizia , lhe déííe faude , que elle 
faria o que ella dizia; e então lhe diíTe el- 
la: Já que aíTimhe, affeiçoai a vontade ao 
que vos diíTe , e olhai pêra efta Cruz , e 
tende confiança que tereis faude por feu 
meio. Eílando neítas praticas , chegaram os 
Médicos ; e diífimulando elle o cafo , ef- 
condeo a Cruz, e tomando-lhe elles o pul- 
fo , o acharam fem febre , e com tanta me- 
lhoria que pafmáram , porque fe tinham 
ido de alli defconfiadiíTimos , e aííim em 
breves dias alcançou faude perfeita, e fe le- 
vantou. 

E praticando eíle Arménio com oVifo- 
Rey fobre as coufas da Perfia ? e contan- 
do-lhe eíle milagre, lheaffirmou que fefof- 
fem lá alguns Religiofos , que fem falta o 
PxâncipeArzaMirza, que governava oRey- 

no 



Década X, Cap. VI. 517 

no por feu pai , que era cego , fe faria 
Chriíláo pela affeição que tinha á nofla San- 
ta Fé , e quali que fe obrigaria a iífo. Não 
deo o Vifo-Rey inteiro credito ao Armé- 
nio , porque são difficultofas as coufas da- 
quella qualidade de mudar de Lei hum 
Mouro creado na falfa feita de Máfamede 
accommodada á natureza corrupta de to- 
dos. E pofto que ã coufa era muito pêra 
duvidar y e eftava aquelle negocio entre o 
Principe , e fua mulher, que ninguém o fa- 
bia mais pêra publicar-fe o milagre por via 
da Santa Cruz , pareceo a todos fingimen- 
to do Arménio , e que tratava aquelle ne- 
gocio por alguns refpeitos particulares. To- 
davia não deixou o Vifo-Rey de cuidar 
que bem poderia Deos noífo Senhor obrar 
aquellas , e outras maravilhas maiores , por- 
que tudo eftava em fua mão , e affim deo 
conta diíTo ao Padre Fr. Miguel dos An- 
jos , Provincial dos Religioíbs da Ordem 
de Santo Agoftinho , que tinham vindo de 
Portugal deputados pêra aquella empreza, 
como na Década VIII. temos dito , quando 
tratámos de fua vinda. E como elle fabia 
que o Padre Fr. Simão de Moraes era Re- 
ligiofo muito virtuofo , e de grande exem- 
plo , e que os annos que efteve em Ormuz 
no feu Convento aprendera a língua Perfa , 
c a lia, e efcrevia tão bem como os mef- 

mos 



yiS ÁSIA de Diogo de Couto 

mos Perfas , diíTe ao Provincial que lhe pa^ 
recia muito bem ir efte Padre á Perfia em 
companhia daquelle Arménio , e que levaf- 
fe as cartas de EIRey pêra o Oxá } porque 
não indo por mão de algum Embaixador 
com grande apparato , e acompanhamento 
(coufa/que então oEítado não podia man- 
dar) que por nenhuma outra peflba podia 
ir mais authorizada que pela de hum Re- 
ligiofo tão grave , e tão perito na lingua 
Pería , que poderia reprefentar tudo muito 
bem. Affentado ifto entre ambos , negociou 
logo o Vifo-Rey o Padre pêra Ormuz pêra 
onde fe embarcou , e de aquella Fortaleza 
fe poz no caminho logo da Perfia ; e che- 
gados á Cidade Casbim , foube fer EIRey, 
e o Príncipe paliados á Província Cohora- 
çone , por lhe terem entrado por elle os 
Husbeques , e tomado algumas Cidades, 
como já temos dito atrás; e não perdoan- 
do o Padre Fr. Simão de Moraes a trabalho 
algum , fe poz logo ao caminho de Coho- 
raçone acompanhado do Arménio até che- 
gar ao exercito do Oxá , que achou occu- 
pado na guerra contra os Husbeques ; e 
mandando-lhe fazer a faber de como hia 
por Embaixador de EIRey D. Filippe , o 
mandou receber, e agazalhar bem, e pro- 
veo-lhe abaítadamente , e depois o man- 
do» levar diante de íi , e o recebeo com 

grau* 



Década X. Cap. VI. 5*19 

grandes honras , por já faber que era Fra- 
de , e Sacerdote , a quem tínhamos tanto 
refpeito , como elles tem aos feus Cacizes ; 
e depois de o ouvir fallar a lingua Perfa 
tão cortezamente , lhe fez differentes gaza- 
lhados , e tomou a carta de EIRey com 
grande veneração , e mandou recolher o Pa- 
dre , e que fe lhe déffe todo o neceíTario , 
que elle não acceitou , fenao fó o que lhe 
podia abaftar , nem quiz tomar a EIRey pe- 
ças ricas que lhe dava , de que elle ficou 
muito admirado , e com brevidade o defpa- 
chou j e refpondeo a EIRey em forma ; e 
nas cartas , fallando no Fr. Simão , charna- 
va-lhe defprezador dos bens da terra ; e pa- 
recendo-lhe bem mandar em companhia do 
Padre outro Embaixador pêra affentar com 
EIRey* as coufas daquella guerra, e perfua- 
dillo a mover a ella os Principes Chriílãos , 
pêra o que elegeo hum Capitão feu dos 
principaes com bom acompanhamento , e 
cafa , e ambos chegaram a Goa o Março 
feguinte , e foi apofentado junto ao Moí- 
teixo de Santo Agoftinho pêra os Religio- 
fos correrem com elle, e aonde eu ovifitei 
algumas vezes , e me informei delle de 
muitas coufas da Períia : era homem, que 
tinha conhecimento das coufas de Geogra- 
fia, e moftrou-me hum Padrão, em que ti- 
nha arrumados todos os Reynos , e Provin- 
ciais 



5^0 A S I A de Diogo de Couto 

cias do Oxá , coufa curiofa , com feus meri- 
dianos , e parallelos , que levava a EIRey , 
e á fua entrada o recebeo o Viíb-Rey com 
mageftade , e apparato ; e aqui o deixare- 
mos até tornar ao que lhe fuccedeo. 

CAPITULO VIL 

De como D. Gileanes Mafcarenhas foi ao 

Malavar : e de como entrou o rio de San- 

guicer pêra caftigar aquelle Naique : 

e do dejaftre por que foi morto. 

TAnto que o Conde D. Francifco Maf- 
carenhas vio entrado o mez de Agof- 
to , e que a Coíla da índia fe deixava na- 
vegar, ainda que com trabalho, tendo af- 
fentado que foíTe D. Gileanes Mafcarenhas 
ainda aquelle verão ao Malavar , pêra on- 
de mandava de preíla a Armada, fuccedeo 
ter cartas de Cochim, em que o avifavam 
que naquella Cidade havia grandes bandos y 
e defordens fobre a Alfandega , a que era 
neceílario acudir ; e com ifto determinou 
de mandar de preífa D. Gileanes Mafcare- 
nhas com alguns navios pêra temperar a- 
quellas coufas pêra depois de vagar lhe man- 
dar mais Armada : e mandou logo pôr no 
mar quatorze navios ligeiros , e os proveo 
de mantimentos , e munições, e defpedio 



Década X. Cap. VIL 5-21 

D. Gileanes nelles com regimento que foíTe 
a Cochim , e trabalhaíle por temperar aquel- 
les moradores , encommendando efte nego- 
cio por cartas muito aos Prelados , e Reli- 
giofos , pêra que fe metteirem em meií^, e 
trabalhaflem por paziguar aquelles tumul- 
tos ; e aífím mefmo lhe deo por regimento 
que de paíTagem caftigafle o Naique de 
Sanguicer. Era efte Naique vaífallo do Idal- 
xá y e havia alguns annos que eítavã ale- 
vantado em fete , ou oito aldeias , que ren- 
diam outros tantos mil pagodes , e tinha 
feiscentos peaes com que as defendia ; e 
por ferem no mato , não o podiam acolher 
ás mãos , e não fó vivia aqui em defervi- 
ço do leu Rey , mas ainda do Eílado da 
índia , porque começou a recolher alguns 
ladrões , e armar em feu porto alguns na- 
vios ligeiros , que do nome daquelle rio 
fe chamavam Sanguiceis , os quaes trazem 
vinte homens de peleija , com que fahem 
por toda a coita do Norte a roubar affim 
os Portuguezes , como Mouros, e Gentios, 
e fazem cada anno notáveis roubos , com 
que os mercadores empobrecerão , e não 
oufavam de navegar fenão em cáfilas ; e foi 
o feu defafforo tamanho , que folicitavam , 
e recolhiam os efcravos dos moradores de 
Goa , de que ajuntou huma grande cópia; 
e depois que eftes fe mifturáram com os 

la- 



5*22 ÁSIA de Diogo de Couto 

ladroes de Sanguicer , não fó roubavam 
todos os Portuguezes que achavam , mas 
ainda os matavam, o que antes não faziam, 
porque fe contentavam com lhe tomar as 
fazendas ; e porque ifto ficava em defcre- 
dito do Eítado , e tão perto de Goa , orde- 
nou o Viío-Rey que os caítigaíle D. GileaH 
nes de pafTagem , e lhe encommendou tra-> 
balhaííe por deílruir aquelle Naique de to- 
do. D. Gileanes fe embarcou por fim de 
Agoíto ; e porque a barra eítava ainda fo- 
berba, fahio pela de Goa a Velha com os 
quatorze navios , dos quaes , fora elle , eram 
Capitães Garcia de Mello, D. Francifco de 
Azevedo , Triftao Vaz da Veiga , Diogo 
Corvo , Paulo Coutinho , Ignacio Nunes de 
Mancelos , Diogo Jorge Barreto , Gafpar 
de Carvalho de Menezes, Sebaítião de Ne- 
greiros 5 Francifco de Soufa Roli , Pedro 
Velofo, e Gafpar Fagundes, Levavam eftes 
navios trezentos foldados dos mais velhos, 
e efcolhidos de Goa ; o primeiro dia que 
partio foi á noite furgir na enfeada das 
Gales , pouco mais de meia légua antes do 
rio de Sanguicer : alli deo conta aos Ca- 
pitães da ordem que levava pêra entrar na- 
quelle rio , porque até então a teve em fe- 
gredo , e aíTentáram que ao outro dia fe- 
guinte entraílem o rio , e defembarcaífem 
cm terra. Com efta refolução defpedio D. 

Gi- 



Década X. Cap. VIL 5-23 

Gileanes logo quatro navios , de que eram 
Capitães Garcia de Mello , Jorge Barreto, 
Diogo de Souía , e outro pêra irem íbndar 
aquella barra, porque quando elle de ma- 
drugada chegaíle , não fe detiveííe nada : ef- 
tes navios chegaram á boca daquelle rio; 
e como não levavam Piloto que ioubeíTe a- 
quella barra , andaram ás redes a huma, e 
outra parte , dando aqui em huma pedra , 
lá em hum baixo, de maneira que não pu- 
deram acertar o canal , e de cançados (ur- 
giram , e ficaram efperando pelo Capitão 
Mor. Tem efta barra logo na entrada da 
banda de fora hum banco de arêa , e pe- 
dras , he larga na boca , e tem fundo de 
quatro braças ; e como entram dentro, en- 
tre as terras fica tão eítreito o rio , que com 
dous tiros de pedra fepaflará, vai em mui- 
tas voltas , e fempre tira ao Sul : pelo meio 
vai hum canal ainda tão eílreito , que ef- 
caflamente pode paliar hum navio de re- 
mo , e tudo o que fica de huma , e outra 
banda são penedos mui grandes , e perigo- 
fos como picos , haverá junto delles três , 
ou quatro braças de fundo. D. Gileanes 
Mafcarenhas, tanto que foi o quarto de al- 
va , levou-fe j e foi demandar o rio , cui- 
dando o achafíe já mui fabido ; e chegan- 
do aos navios , foube delles o trabalho em 
que toda a noite andaram fem acharem o 

ca- 



jT24 A S I À de Diogo de Couto 

canal. E por ir amanhecendo , determinou 
entrar o rio, porque a claridade do dia os 
encaminhava pelo canal ; e porque o na- 
vio em que elle hia era grande , e peza- 
do > mudou-fe ahuma fufta , que hia na Ar- 
mada pêra de caminho a dar em Manga- 
lor a Luiz Ferreira, que alli invernára com 
foldados pêra nella o acompanharem , e 
nella metteo comfígo vinte foldados , e 
dous Padres , hum da Ordem dos Pregado- 
res , chamado Fr. Joáo Soares , muito bom 
Pregador, e Meftre Aprefentado em Theo- 
logia, que lera muitos annos ; e outro era 
da Ordem do Seráfico Padre S. Francifco , 
c ás fete horas do dia commetteo a barra ; 
e como não levava Piloto , que foubeffe o 
canal , foi fempre ás apalpadelas , no que 
gaitou até ás quatro horas da tarde, por ha- 
ver da barra até á povoação de redor de 
finco léguas. E fendo já perto delia, e on- 
de o rio era mais eftreito , e perigofo por 
caufa dos penedos , e a agua deícia com 
grande força por vir o rio cheio , e fober- 
bo com as aguas da invernada , foram os 
navios , que hiam diante , cabeceando , e 
encoftando-fe aos penedos; e como alli era 
eftreito , os que hiam atrás foram-fe deten- 
do por não encalharem nos outros. D. Gil- 
eanes vendo aquillo , mandou remar avan- 
te; ecomo ofeu navio hia defpejado, paf- 

fou 



Década X. Cap. VIL 5-25? 

fou por todos ; e vendo huma calheta na 
praia já defronte da povoação, endireitou 
pêra cila; e querendo pôr a proa em terra 
pêra defembarcar por alli , como hia avia- 
do do remo, foi varar em parte, que ficou 
encalhado entre dous penedos , fem poder 
íahir pêra fora. Os foldados vendo-íe af- 
íim , lancáram-fe a terra com os marinhei- 
ros , e começaram a lançar a fufta pêra o 
mar ; mas não puderam , porque eftavam 
íobre as penhas , e os mais navios não pu- 
deram foccorrer-lhe , porque o de Jorge 
Barreto eítava já entre huns penedos , don- 
de nunca fahio , e affim mefmo o de Pedro 
de Soufa , e quaíi todos os mais hiam dan- 
do pelas pedras , e bem tinham que fazer 
em fe livrarem daquelles perigos , fem po- 
der nenhum paliar avante. D. Gileanes por 
muito que trabalhou não pode affaftar-fe ; 
e pêra de todo o impedir, acudiram os ini- 
migos , e carregaram fobre a fufta com nu- 
vens de efpingardadas , de que feriram mui- 
tos , e fizeram embarcar os que andavam 
lançando o navio ao mar. D. Gileanes vio- 
fe perdido ; e conhecendo o erro que fize- 
ra em commetter aquilío fem Pilotos, que 
oguiaífem, todavia preparou-fe pêra fe de- 
fender até que lhe pudeífem foccorrer. Os 
inimigos eftavam de lima de hum tezo ás 
efpingardadas a elle , porque o falcão da 

fuf- 



526 ÁSIA de Diogo de Couto 

fufta que laborava , os fez acolher a hum 
alto; mas oNaique acudio logo alíi em íi- 
ma de hum fermofo cavallo comhuma meia 
lança na mão ; e vendo os feus encurrala- 
dos no tezo, foi-fc a elles, e ás pancadas 
os fez chegar ao navio , e o cercarão por 
todas as partes , e ás lançadas , e frechadas 
trataram muito mal a tcdos , e já a mor 
parte dos marinheiros eram acolhidos aos 
outros navios a nado ; e pofto que os foi- 
dados peleijáram muito valerofamente , o 
navio foi entrado pela proa de hum cardu- 
me de inimigos > o que vifto por hum Pau- 
lo da Coita, Cirurgião da Armada , que ti- 
nha nas mãos o Guião de Chrifto , chegou- 
fe a D. Gileanes, que eftava ao pé delle, 
e lho entregou , lançando-fe logo ao mar 
pêra fe pôr em falvo , por haver tudo por 
perdido. D. Gileanes tomou o Guião, e o 
fez cm pedaços , e o lançou ao mar, por 
não ficar em poder dos inimigos, e remet- 
teo a elles armado com hum peito de pro- 
va , e hum efcudo de aço , e cem huma 
fermofa efpada começou afazer maravilhas. 
Os Padres vendo tudo perdido , lançáram- 
fe ao mar , como o viram fazer a alguns 
foldados ; e o Fr. João Soares primeiro que 
chegaífe ás outras fuftas , fe affogou , e o 
de S. Francifco furdio mais até que fe met- 
teo na primeira que achou. D. Gileanes já 



Década X. Cap. VII. £27 

ficava quaíi fó acompanhado de poucos, 
peleijando muito valerofamente ; mas afuf- 
■ta eílava rodeada de mais de trezentos ini- 
migos, e com perto de feífenta já dentro, 
que eram os com que D. Gileanes andava 
ás cutiladas , e os mais por todas as partes 
a combatiam , aíílm com frechadas í como 
com lanças , e tiros de arremeflb , como fe 
fora algum touro bravo. Nefte conflito che- 
gou a elle hum Mocadão dos marinheiros , 
que fempre o acompanhava nas Armadas , 
e que nunca o quiz alli deixar , e lhe pe- 
dio que defpiííe as armas; epofto que não 
foubeííe nadar , que elle fe atrevia a pol- 
lo em falvo em qualquer daquelles navios , 
c que trataíTe de falvar fua pefíoa, que af- 
íim falvaria toda aquella Armada , e que 
depois tomaria vingança daqueíla offenfa. 
D. Gileanes lhe refpondeo , que não era 
elle homem que deixaíTe o feu navio , e 
fe lançaífe ao mar por medo da morte , e 
que acabaria com aquella efpada na mão 
em feu officio , porque não tinha fangue 
pêra fugir acs inimigos; e afíim remetten- 
do a elles, metteo-fe em meio, e fez ma- 
ravilhas. Das outras fuftas , que eílavam en- 
calhadas 5 bem viram o perigo em que o 
feu Capitão Mór eílava , e todos fe desfa- 
ziam pelo foccorrer , mas não podiam, e 
aflim citavam atroando es ares com gritos 

de 



5*28 ÁSIA de Diogo de Couto 

de mágoa de verem aílim matar diante dos 
feus olhos hum Fidalgo tão honrado , e feu 
Capitão Mor ; efoi a mágoa difto tão gran- 
de , que houve foldado (a quem não pude- 
mos faber o nome) que fe lançou ao mar 
com huma lança na boca pêra lhe íbccor- 
rer ; mas nao pode chegar á fufta com a 
grande corrente do rio, O Capitão Mor e£- 
teve em meio daqueíle cardume de inimi- 
gos , tomando primeiro vingança da morte 
que lhe haviam de dar ; mas como hum 
corpo fó nao pode aturar tanto , pofto que 
o animo eíleve fempre muito inteiro, e for- 
te , todavia ocanfaço orendeo, e cahio na 
fufta já depois de muito ataçalhado de 
muitas feridas : e acabou aqui defta manei- 
ra hum dos mais honrados penfamentos 
que havia , Fidalgo já feito , defpachado 
com Ormuz , e em quem a índia trazia 
os olhos , por lhe prometter de íi muito 
grandes efperanças : e certo que parece que 
feu coração lhe adivinhava aquelledefaftra- 
do fim ; porque nos aflirmáram alguns , que 
efcapáram da ília fufta , que em quanto foi 
por aquelle rio aílima , o viram muito trif- 
te, e melencolizado , e que por algumas ve- 
zes diífera com huma trifteza no rofto mui-, 
to grande : Oh que rio tão t rifle , e mal af- 
fom.hr ado ! E aíTim foi tanto , que nelle vio 
defarmadas em vão todas fuás efperanças , 



Década Xé Cap.VIL' 5*29 

e nelle fepultou todos os trofeos das vi6to- 
rias que na índia alcançou. Os inimigos 
tanto que viram o Capitão Mor morto, o 
defarmáram , e tiraram feu corpo fora , c 
o lançaram fobre a terra , coufa tão certa 
pêra todos. Tanto que a maré encheo , e 
que anoiteceo , tiraram-fe os navios y que 
eílavam encalhados , pêra fora , fomente os 
de Diogo de Soufa 5 e Jorge Barreto , que 
ficaram fobre as pedras , e todos os delles 
fe falváram a nado , e os mais navios fa- 
hidos dos penedos furgíram no Canal > on- 
de pafíaram toda a noite muito triftes , e 
cm grande vigia por fe recearem que o 
Naique arm^ífe fobre elles ; e por eftarem 
perto da terra , ouviram chamar toda a 
noite de dentro das moutas 'que os foc- 
correífem 5 e eram alguns feridos da Com- 
panhia de D. Gileanes que fe embrenha- 
ram ; e tanto que amanheceo , os foram re- 
colhendo , que fe lançaram elles a nado j 
^ fe foram pêra fora do rio. 



Couto.TonuVJ.P.L U CA- 



5*30 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO VIII. 

Do que mais aconteceo a ejles navios , e 
lhes Cuccedeo : e de como chegaram d Bar- 
ra de Goa as ndos Caranja , e Boa-Via- 
gem , que tinham partido do Reyno em 
companhia de D. Duarte de Menezes , 
que vinha por Vifo-Rey da Lídia. 

SAhidos eítes navios pêra fora , fem ele- 
gerem entre íi os Capitães huma pef- 
foa , fe foram pêra Goa , e furgíram em 
Mormugam , que heGoa a Velha, e de ai- 
li mandaram recado ao Conde Vifo-Rey 
do defaftre fuccedido a D. Gileanes , que 
em Goa fez muito grande abalo de fenti- 
mento pela perda de tão honrado Fidalgo , 
que por fuás partes , e qualidades era a- 
mado, e bemquifto de todos. O Vifo-Rey 
lhes mandou dizer que fe deixaífem eítjir, 
que Jogo proveria no que convinha ; e ao 
outro dia defpedio Miguel Dias Picoto com 
hum regimento pêra tomar poííe daquella 
Armada , e andar com ella pela Coita até 
a prover de Capitão Mor; e por elle efere- 
veo huma carta a todos aquelles Capitães , 
em que os confolava da morte de D. Gilea- 
nes , dizende-lhes que muito bem fabia o 
como elles procediam com fua obrigação, 
e que todos trabalharam pelo foccorrer, 

pe- 



Década X. Ca?. VIII. 5-31 

pelo que não havia em que lhe porem cul- 
pas ; e que alli mandava Miguel Dias Pi- 
coto, a quem obedeceriam como á meíma 
peffoa de D. Gileanes ( dizendo que muito 
bem fabia que o fariam ) e que com elle 
andaffem na Cofta até prover outro Capi- 
tão Mor. Com iílo tornaram a dar á vela $ 
e foram até á barra de Sanguicer 5 onde 
Miguel Dias fe deixou ficar , e defpedio 
quatro navios com quatorzc mil pardaos 
dos contratadores da pimenta pêra os leva- 
rem a Barcelor aos Feitores que lá ti- 
nham , como fizeram, e fe tornaram logo 
pêra elle Miguel Dias. Da barra de San- 
guicer teve tratos com o Naique fobre lhe 
entregar os dous navios , que ficaram nas 
pedras , os quaes elles depois tiraram , e o 
corpo de D. Gileanes pêra o levar pêra 
Goa ; e como o Naique eílava receofo do 
caftigo, acudio com muitas fatisfaçóes 5 que 
Miguel Dias por então lhe acceitou pêra 
ver íe podia effeituar o que levava em mui- 
to fegredo , e o que lhe o Conde tinha 
muito encommendado , que era ver fe po- 
dia matar aquelle Naique , que era razão , 
porque elle fe tinha moílrado muito fami- 
liar feu, e fácil nos requerimentos, e cum- 
primentos que com elle teve por peífoas 
que correram com iíío ; e depois de fobre 
iíto tratarem por algumas vezes , vieram a 

LI ii con- 



53^ AS IA de Diogo de Couto 

concluir em lhe fazerem pazes , e lhe en- 
tregar tudo o que pedia , pêra o que aflen- 
táram de fe verem ambos em hum navio 
perto da terra com féis homens cada hum. 
Niíto gaitaram alguns dias , porque eites 
Gentios todas as coufas , ainda de menos 
confiança que eftas , fazem com muito va- 
gar , e por eleições de horas ? e dias que 
lhes feus Bragmenes aílinam ; e por fe lhes 
moítrarem muito efpeculativos , os vam di- 
latando com íinaes que dizem que nota- 
ram , ora da gralha que lhe paliou pela 
parte elquerda , ora do cão , que lhe húi- 
vou , ora da ofga que lhe cantou , e da ou- 
tra que efpirou , e de outras infinitas fem- 
faborias que não tem conto : em fim eítan- 
do neítas dilações efperando que lhe fucce- 
deííe liuma hora boa pêra elie , que toda 
a que chegaííe a fe ver com Miguel Dias 
havia de íer bem má , porque o havia de 
matar ás punhaladas , como tinha determi- 
nado , chegaram neíte tempo novas de Goa 
que ficavam na barra duas náos de Portu- 
gal , em que vinha Vifo-Rey. Com ifto fe 
alvorotaram todos , e porque também lhes 
faltavam mantimentos por fe lhes terem 
molhado; e vindo os Capitães todos á fal- 
ia , aílcntáram de fe irem ; e fem lhes dar 
do feu Capitão Mor , levaram ancora , e 
deram á vela pêra Goa > e na barra acha- 
ram 



i 



Década X. Cap. VIII. 5^33 

ram asduasnáos, que eram a Laranja, Ca- 
i tão João Paes, onde vinha embarcado D. 
orge de Menezes , do Confelho de EIRey > 
e feu Alferes Mor, que trazia a Capitania 
de Sofala , e Moçambique pêra entrar lo- 
go : outra náo era a Boa-Viagem , de que 
era Capitão Lourenço Soares de Mello , 
que eram da Companhia de D. Duarte de 
Menezes , Senhor da cafa de Tarouca , que 
tinha partido do Reyno por Vifo-Rey da 
índia com féis náos. O Conde D. Francif- 
co foi logo avifado da vinda da Armada , 
e mandou recado aos Capitães que não paf* 
faílem da barra , porque logo os mandaria 
prover de mantimentos , e dinheiro ; mas 
elles como vinham defeontentes , e enfada- 
dos , e efperavam cada dia pelo Vifo-Rey 
novo , fem ter dever com o recado , foram 
entrando pêra dentro, e furgíram no caes f 
aonde deixaram os navios , e fe foram pê- 
ra fuás cafas fem mais cumprimento algum. 
O Conde D. Francifco que o foube , os 
mandou metter no tronco pêra proceder 
contra elles, e os caíligar \ mas como era 
bom Fidalgo, e brando, primeiro que fe 
embarcaífe pêra Coçhim , os mandou fok 
tar. 



CA. 



£34 ÁSIA de Diogo dé Couto 

CAPITULO IX. 

Das Armadas que o Conde D. Franclfco 
mandou pêra fora : huma de Coutacou- 
loes pêra o Norte , de que foi por Capi- 
tão Mór Pedro Homem Pereira ; e ou* 
tra pêra o Malavar , em que foi D. Je~ 
ronymo Mafcarenhas , e do que lhe fuc~ 

' cedeo : e das novas que chegaram do Vi- 
fc-Rey D. Duarte de Menezes fer em 
Cochim. 

PElas náos que chegaram ^á barra de Goa 
foube o Conde D. Francifco como era 
partido do Reyno D. Duarte de Menezes 
pêra Viíb-Rey , de que elles não davam no- 
vas, E porque poderia tardar 5 ou ir tomar 
Cochim , não quiz deixar de cumprir com 
fuás obrigações , e prover a Fortaleza de 
Ceilão, aquém oRajú fazia contínua guer- 
ra , e iíTo mefmo as Coitas do Norte , e 
Sul de Armadas ordinárias; pelo que man- 
dou dar preíía ao Galeão, que havia de le- 
var os provimentos áquella Fortaleza , de 
que era Capitão Gafpar Barbofa , e o def- 
pedio entrada de Outubro com muitas mu- 
nições, e deo oito mil pardaos em dinheiro 
pêra a paga dos foldados , e ordinárias da- 
quella Fortaleza : e porque os coífarios , 
que mor damno faziam no mar ; eram huns , 

a 



Década X Cap. IX. £gj 

a que chamam Coutacoulóes , que fahiam 
de alguns rios doMalavar, que por ferem 
muito pequenas , e ligeiras as fuítas das 
noífas Armadas não podiam alcançar, elles 
a todos os navios de Mercadores que viam , 
chegavam , e roubavam, porque lhes não 
podiam fugir , e tinham feito grandes rou- 
bos , e defacatos ás Armadas , ordenou o 
Conde D. Francifco de lhes armar com ou- 
tros navios pequenos , e ligeiros , pêra que 
os bufcaííem , e tomaíTem ; e tinha manda- 
do preparar íeis Coutacoulóes muito leves, 
e com muito boas efquipaçoes , e fez Ca- 
pitão Mor Pedro Homem Pereira, que par- 
tio pela barra fora a vinte e hum do mez 
de Outubro , e muito bem negociado , e 
com bons foldados : os Capitães que o a- 
companháram , foram Sebaílião Bugalho , 
Francifco d 5 Almada, Miguel Coelho , An- 
tónio Soares , e Ambrofio Pereira ; e por- 
que eítes navios foram mandados , e orde- 
nados pelo Conde D. Francifco , nos pare- 
ceo bem darmos aqui breve relação do que 
lhe fuccedeo todo eíte verão , pofto que fof- 
fe já no tempo do Vifo-Rey D. Duarte , 
por não entrarmos em principio de feu go- 
verno com miudezas. Partidos eítes navios 
de Goa, foram-fe á Coita do Norte, e paf- 
fáram a enfeada de Cambaya apôs alguns 
ladroes daquelles , de que logo tiveram no- 
vas ^ 



ç^ó ÁSIA de Diogo de Couto 

vas , e elles também da Armada , e foram* 
fe defviando tudo o que puderam : todavia 
nao deixaram de fazer algumas prezas : em 
fim tantas voltas deram os noflbs , que fo- 
ram enfacar finco delles no rio de Bombal 
junto de Baçao , c alli foram abalroados, 
e mettidos quaíi todos os que nelles anda- 
vam á efpada, porque alguns fe lançaram 
a terra a nado , e os navios ficaram todos 
com o recheio ; os primeiros que aqui a- 
balroárao foram Miguel Coelho , e Antó- 
nio Soares , que ficaram com alguns folda- 
dos , e marinheiros feridos : e depois difto 
romou o Miguel Coelho outro ladrão deíles 
no rio da Pedra ; e porque todo efte verão 
não lhes aconteceo mais > concluiremos a- 
qui com elles. 

O Vifo-Rey tanto que defpedio eftes 
Coutacoulóes , logo mandou dar preífa á 
Armada, que eftava nomeada pêra D. Gil* 
eanes Mafcarenhas, que eram duas Galés, 
e vinte navios de remo, e nomeou por Ca- 
pitão Mor feu fobrinho D. Jeronymo Maf~ 
carenhas ; e andando pêra lançar fora eíla 
Armada , teve recado de Cochim muito a- 
prefíado dos alvoroços que havia naquella 
Cidade fobre a Alfandega , affirmando-lhe 
que os moradores eftavam poílos em armas 
pêra defenderem fuás liberdades , e que fem 
dúvida aconteçerião defmanchos , e defor* 

4cns., 



Década X. Cap. XI. £37 

dens , fe quizeíTem apertar com elles. A if- 
to lhe refpondeo o Conde, que era necef- 
fario acudir com peílbas religiofas , e gra- 
ves , pêra com fuás authoridades , e amoef- 
tacões trabalharem pelos moderar, e abran- 
dar : pêra ifto elegeo o Padre Fr. André , 
Cuílodio de S. Francifco , que depois foi 
Bifpo de Cochim , e com elle Heitor de 
Mello , Fidalgo velho , honrado , e pru- 
dente, e muito refpeitado de todos, e os 
mandou embarcar em huma Galé da Ar- 
mada , de que era Capitão António de A- 
zevedo , e encommendando-lhes muito tra- 
balhaífem todos por todas as vias , e mo- 
dos que pudeíTem aquietar aquelles mora- 
dores , e tirallos da contumácia em que ef- 
tavam , porque o não obrigaífem a uíar de 
rigor, e a f e tornarem as armas Portugue- 
sas humas contra as outras , coufa que fe- 
ria muito efcandalofa , quando a fidelidade 
Portugueza andava por exemplo entre to- 
dos os amigos, e inimigos: e deo por re- 
gimento a António de Azevedo que como 
puzeífe aquelles varões em terra , fe dei- 
xaífe ficar na barra de Cochim até ver em 
cjue paravam aquellas coufas ; e que quando 
aquelles moradores fe não moveífem pelas 
pregações , rogos , e admoeftações daquelles 
Religiofos , e todavia quizeíTem infiílir em 
íua contumácia , que em tal cafo elle Ai> 

to- 



£38 ÁSIA de Diogo de Couto 

tonio de Azevedo fe poria naquella barra y 
c não deixaria entrar , nem fahir couía al- 
guma , e os tiveffe aílim de cerco , e lhes 
mandaffe recado , porque eftava determina- 
do acudir áquelle negocio com rodo o po- 
der da índia. Partido António de Azeve- 
do , logo apôs elle defpedio o Conde to- 
davia toda a mais Armada , dando por re- 
gimento a D. Jeronymo que fe deixaíTe an^ 
dar na Cofta do Malavar , e tiveffe embar- 
cação em Cochim , pêra que fe chegaffe o 
Vifo-Rey D. Duarte , o mandar avifar, e 
que elle voltaffe com toda a Armada pêra 
o acompanhar. D. Jeronymo fe fez á vela 
a 7 de Novembro , e os Capitães que o a- 
companháram são os feguintes : André de 
Soufa Coutinho , Paulo da Silva de Mene- 
zes , D. Francifco Mafcarenhas , irmão de 
D. Giíeanes , que nas náos que chegaram 
á barra tinha vindo do Reyno , D. Jorge 
de Almada, D. Manoel de Lima, Francif- 
co de Soufa Pereira, Gafpar de Carvalho 
de Menezes , Francifco de Soufa Rolim , 
Fernão de Macedo , João Barriga Simões , 
Gafpar Fagundes , Luiz Figueira de Aze- 
vedo, Belchior Barbofa , Jane Mendes Pef- 
tana, Manoel Alvares Pereira, João Rodri- 
gues Cabral , Manoel Caldeira , Lopo de 
Atouguia , Pedro Rodrigues, Pedro Velo- 
fo> Pedro Fernandes Moricale, Francifco 

de 



Década X. Cap. IX. 5*39 

de Fronteira , Agoftinho Luiz , que hia na 
Manchua do Capitão Mor. Chegado D. Je- 
ronymo á Cofta do Malavar , achou huma 
fuíta que vinha de Cochim , que lhe deo 
por novas ler D, Duarte de Menezes com 
às náos que faltavam. Chegado áquella Ci- 
dade , e fem efperar mais , voltou pêra 
Goa acompanhar o Conde feu Tio até Co- 
chim. 

CAPITULO X. 

De como fe per de o o Galeão que hia per et 
Ceilão , e a gente , e dinheiro fe fal- 
hou , e outras coufas. 

PArtido de Goa o Galeão , que hia pê- 
ra Ceilão , foi fazendo fua viagem até 
dobrar o Cabo de Comorim , e de Tuto- 
curim foi atraveíTando a Ceilão com bom 
tempo ; e fendo já a vifta daquella Cofta, 
lhe deo hum temporal , a que os naturaes 
ahi chamam Cacham , que he vento Norte , 
que alli fica fendo travefsão ; e he tão pe- 
rigofo , que de maravilha efeapa o navio 
que toma no mar, o qual tempo foi mui- 
to groífo , e tomou o Galeão já tão abar- 
bado com a terra , que foi forçado furgi- 
rem , porque não havia pêra onde correr, 
e fobre a amarra eftiveram alguns dias , e 

mui- 



5T4° ÁSIA de Diogo de Couto 

muito perto , e com grande rifco , e traba- 
lho , porque o tempo foi crefcendo cada 
vez mais , e o Galeão com a força do tra- 
pear foi arrebentando as amarras por algu- 
mas partes , o que os OfEciaes foram fem- 
pre remediando o melhor que puderam , 
fem defcançarem nem de dia , nem de noi- 
te , e com iílb foi o Galeão a cafcea , le- 
vando as amarras a raftos de feição que fe 
acharam hum dia quinze léguas aífima , don- 
de furgíram pêra a banda do Manar , e tão 
perto da terra , que eftavam aguardando a 
hora que nella haviam de encalhar. O Ca- 
pitão Gafpar Barbofa vendo-fe naquelle pe- 
rigo , mandou ter muito refguardo no ba- 
tel pêra fe falvarem nelle , porque por to- 
da a Coita viam furgir os inimigos , efpe- 
rando que cada hora lhes foífe ter aquella 
preza ás mãos. O Capitão de Ceilão foi 
logo avifado do trabalho em que o Galeão 
eílava , e defpcdio com muita p relia hum 
Tone ligeiro com cartas a Ambrofio Lei- 
tão, que eílava com três navios da Arma- 
da, alfim pêra favorecer a pefcaria do aljô- 
far , como pêra recolher , e dar guarda aos 
navios , que haviam de vir da outra Coíla 
com mantimentos pêra a Fortaleza de Co- 
lumbo, mandando-lhe que deixafle tudo, e 
que logo acudiíTe áquelle Galeão. Efte To- 
ne chegou a Manar mui aprefíado , e com 

a- 



Década X. Cap. IX. 5*41 

aqnclle recado fe defamarrou logo Ambro- 
fio Leitão , e foi foccorrer o Galeão , o 
qual cem o tempo fe foi chegando tanto 
á terra, que foi neceííario cortarem* lhe os 
malhos pêra ver fe com ifto fe podia fuf- 
■tentar mais fobre a amarra , porque as arvo- 
res , e as enxárcias tomavam muito vento; 
mas nem iiTo bailou , porque o Galeão foi 
fempre tirando pêra a terra , por ter já to- 
das as amarras moidas , e desfeitas. Ven- 
do-fe o Capitão Gafpar Barbofa perdido, 
e fem remédio , e que não poderia deixar 
de varar na terra , metteo no batel o di- 
nheiro que levava , e o preparou de mui- 
tos remos , c coufas neceífarias , e por con- 
felho de todos mandou dar muitos furos 
ao Galeão pêra fe encher de agua , e fe ir 
a pique, porque não foífe dar ácoíla, e os 
inimigos não houveífem aquella artiíheria 
ás mãos , e fe não aproveitafíem do taboa- 
do , e pregadura : o que fe fez com muita 
prelía já abordados cem aterra, e elíe com 
os Portuguezes fe recolheo ao batel , e fe 
deixou eltar até que a náo fe aíTentafle no 
fundo. A eftc tempo chegou a elles hum 
dos navios da companhia de Ambrofio Lei- 
tão , de que era Capitão Diogo Gonfalves , 
que por fer muito ligeiro fe adiantou ; e 
chegando ao batel, recolheo o Capitão com 
alguns Portugueses , e todo o dinheiro, 

que 



5*4^ ÁSIA de Díogo de Couto 

que eram dezoito mil pardaos de EIRey; 
c fem efperar porAmbrofio Leitão, fe fez 
á vela pêra Columbo , e o batel com a 
mais gente pêra Manar , ficando a náo já 
toda debaixo da agua ; e indo efta fufta de- 
mandar o porto de Columbo , houve viíta 
de três navios, que cuidou fahirem da For- 
taleza , que eram os dos Malavares, que 
eíliveram até então recolhidos em Brijam, 
e os mefmos fobre quem foi Pedro Cle- 
mente de Aguiar, como atrás temos conta- 
do. Domingos Gonfalves , fem embargo de 
os não conhecer, defviou-fe delles, e fez- 
fe na volta da terra , e por anoitecer logo 
paíTou porelles, e fefoi metter emColtnn- 
bo , onde foube que os navios eram de la- 
drões , que deram todos graças a Deos por 
permittir deíviallos deli es pêra lhe efcapar 
aquelle provimento tão neceííario pêra a- 
quella Fortaleza , e que eílava já em eíla- 
do por falta delles, que os foldados defpe- 
javam os Baluartes, por não terem que co- 
mer, nem com que fe cubrir , e com efte 
dinheiro fe remediou tudo , e fe tornou a 
íocegar ; e João Corrêa de Brito , Capitão 
daquella Fortaleza, mandou logo dinheiro 
á outra Ccíla a bufcar mantimentos , que 
lhe depois vieram. Ambrolio Leitão chegou 
logo ao outro dia apôs Domingos Gonfal- 
vcSj e trouxe huma grande cáfila de m an- 
ti- 



Década X. Cap. XI; ^43 

timentos , e pafibu fem haver vifta dos Pa- 
ráos j porque aquella meíma noite fe fize- 
ram na volta da outra Cofta : com ifto fi- 
cou a terra provida , e a Fortaleza defali- 
vada do receio em que eíhva. 



Fim da L Parte da Década X, 



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